Caderno Economia
Publicado em 31 de agosto de 2026 Leitura: 7 min Ewerton Lopes — Curador Editorial

Ministros de finanças e presidentes de bancos centrais do G20 se reúnem nesta segunda-feira e terça-feira em Asheville, na Carolina do Norte, para discutir um cenário que combina inflação persistente, crescimento global mais fraco e o encarecimento do petróleo provocado pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. O encontro acontece sob forte tensão diplomática, com a exclusão da África do Sul da mesa de negociações e restrições de credenciamento a veículos de imprensa internacionais, episódios que já dominam a pauta política do encontro tanto quanto a própria crise econômica.

Segundo o Fundo Monetário Internacional, o crescimento da economia mundial deve desacelerar neste ano, enquanto a inflação global tende a subir, pressionada pelo custo da energia. A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, resumiu o cenário como uma combinação de pressão fiscal, juros altos e um processo de desinflação que perdeu força, um quadro que preocupa tanto mercados quanto formuladores de política econômica.

O barril mais caro e a fatura para o Brasil

Desde o início do conflito, em fevereiro, os ataques a instalações petrolíferas no Irã e em vizinhos como Bahrein, Kuwait e Arábia Saudita, somados ao fechamento parcial do Estreito de Ormuz, retiraram parte da oferta global de petróleo do mercado. Por essa passagem estratégica circula cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, o que explica por que o Brent voltou a oscilar acima de 88 dólares por barril nesta semana, após recuar para a faixa de 69 dólares em junho, quando um recuo diplomático havia aliviado o mercado.

Para o Brasil, o efeito é ambíguo. Como grande produtor e exportador de petróleo, o país se beneficia de royalties mais altos quando o barril sobe: uma projeção do BTG Pactual chegou a apontar que um Brent sustentado em torno de 80 dólares poderia reduzir pela metade o déficit primário em 2026. Mas boa parte dessa receita extra, entre 55% e 60%, é repassada a Estados e municípios, o que limita o alívio para o caixa da União. Do outro lado da equação está o consumidor: como o Brasil ainda importa parte do diesel que consome e a Petrobras usa o Brent como referência de preço, a escalada internacional tende a pressionar bombas de combustível, fretes e, por consequência, o preço dos alimentos.

"Quanto mais tempo o mercado permanecer restrito, maiores serão os impactos nos preços dos combustíveis", avalia a Firjan sobre os efeitos da crise no Oriente Médio para a indústria brasileira.

O Banco Central do Brasil já opera em terreno delicado. Depois de reduzir a Selic de 14,25% para 14% ao ano, o Copom monitora um IPCA acumulado em 12 meses próximo de 4,44%, ainda acima do centro da meta de inflação. Um novo choque de preços de energia e combustíveis, como o que a guerra no Irã pode provocar, tende a dificultar a continuidade do ciclo de cortes de juros e a manter o custo do crédito elevado por mais tempo no país.

Bessent, sanções ao Irã e a pressão sobre parceiros comerciais

Na cúpula, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, deve reforçar a chamada "Operação Economic Outcast", iniciativa que busca isolar economicamente o Irã e pressionar países a cortar relações comerciais com Teerã sob risco de sanções secundárias dos Estados Unidos. A postura mais dura de Washington eleva a temperatura entre os membros do G20, em um momento no qual o Brasil já enfrenta atrito comercial com a Casa Branca por causa das tarifas impostas por Donald Trump a produtos brasileiros.

Uma cúpula marcada por ausências e restrições

A reunião também é atravessada por controvérsias que fogem da pauta econômica tradicional. O Tesouro americano não convidou a delegação da África do Sul, maior economia do continente africano e integrante histórico do G20, depois de Trump alegar, sem provas, perseguição a fazendeiros brancos sul-africanos. Executivos de bancos e empresas de criptoativos dos Estados Unidos foram convidados para reuniões paralelas com autoridades de governo, mas pedidos para incluir empresários de outros países do G20 foram recusados, o que gerou desconforto entre delegações estrangeiras.

O governo americano também negou credenciamento de imprensa a repórteres de veículos como o próprio jornal que originou esta cobertura e a agência Bloomberg. O Ministério das Finanças da Alemanha precisou intervir para garantir a credencial de um correspondente que acompanharia o vice-chanceler Lars Klingbeil, embora o pedido para um jornalista da Bloomberg tenha sido negado, episódio classificado por autoridades europeias como inédito.

Contraponto

Nem todos os analistas concordam que o choque do petróleo será duradouro para a economia brasileira. Estudos como o da XP ponderam que o efeito líquido da alta do Brent sobre as contas da União é modesto depois da partilha de royalties com Estados e municípios, e que o cenário de inflação e juros mais altos só se consolida caso o preço do petróleo permaneça elevado por um período prolongado, e não apenas durante picos de tensão geopolítica pontuais.

Também há quem veja na alta do barril uma oportunidade comercial: o setor de petróleo e gás brasileiro argumenta que exportar derivados de maior valor agregado, como diesel de baixo teor de enxofre, geraria receita superior à simples venda de petróleo cru, o que tornaria o país menos vulnerável a choques externos no médio prazo.

O que observar daqui para frente

Os comunicados finais da cúpula de Asheville devem indicar se o G20 conseguirá algum consenso sobre reforço de cadeias de suprimento de minerais críticos, alívio de dívida para países emergentes e uma posição comum sobre o conflito no Oriente Médio. Para o mercado brasileiro, os próximos sinais relevantes são a trajetória do Brent, o comportamento do dólar, que fechou a semana perto de R$ 5,20, e a ata do Copom, que deve indicar se o Banco Central manterá o ritmo de cortes da Selic diante do novo risco inflacionário externo.

Perguntas frequentes

Por que a guerra no Irã afeta o preço da gasolina no Brasil, se o país produz petróleo?

Porque o Brasil ainda importa parte do diesel consumido internamente e a Petrobras usa o preço internacional do petróleo tipo Brent como referência para reajustar seus combustíveis. Quando o Brent sobe por causa de riscos geopolíticos, como o fechamento parcial do Estreito de Ormuz, o custo de reposição da estatal aumenta, o que tende a pressionar os preços nas bombas.

O Brasil ganha ou perde com o petróleo mais caro?

Os efeitos são mistos. Como exportador de petróleo, o país recebe mais royalties quando o barril sobe, mas entre 55% e 60% dessa receita é destinada a Estados e municípios, e não ao governo federal. Ao mesmo tempo, o consumidor brasileiro paga mais caro por combustíveis e fretes, o que pode elevar a inflação de alimentos e outros produtos.

Qual a relação entre a guerra no Irã e os juros no Brasil?

A alta do petróleo pressiona a inflação, especialmente via combustíveis e transporte. Como o IPCA acumulado em 12 meses já está próximo de 4,44%, acima do centro da meta, um novo choque de preços de energia pode levar o Banco Central a desacelerar ou pausar o ciclo de cortes da Selic, hoje em 14% ao ano.

Por que a África do Sul não foi convidada para a reunião do G20 em Asheville?

O Tesouro dos Estados Unidos não incluiu a delegação sul-africana entre os convidados após o presidente Donald Trump alegar, sem apresentar provas, que fazendeiros brancos estariam sendo perseguidos e tendo terras confiscadas no país. A decisão gerou críticas de outros membros do G20 e reacendeu debates sobre a condução política das reuniões multilaterais pelos Estados Unidos.

O que é a "Operação Economic Outcast" citada por autoridades americanas?

É uma iniciativa liderada pelo Tesouro dos Estados Unidos para isolar economicamente o Irã, pressionando outros países a cortarem relações comerciais com Teerã sob risco de sofrerem sanções americanas secundárias. A medida é apresentada por Washington como parte da estratégia para conter o conflito no Oriente Médio por meios econômicos.

Esta reportagem foi produzida de forma independente pela equipe do O Tecido, com apuração e fontes próprias, tendo como inspiração inicial a cobertura do jornal americano The New York Times sobre a cúpula de finanças do G20 em Asheville. Leia a reportagem original em inglês: nytimes.com — "G20 Finance Officials Gather in U.S. as Iran War Grips Global Economy".