Caderno Livros · Não ficção & Memórias

Trinta e sete anos depois de anunciar, ainda jovem funcionário do Departamento de Estado americano, que a democracia liberal havia vencido a disputa das grandes ideias, Francis Fukuyama volta às livrarias para responder a uma pergunta que o persegue desde então: o que exatamente ele quis dizer com "o fim da história"? Em "In the Realm of the Last Man" (Farrar, Straus and Giroux), memória que chega às lojas americanas em 8 de setembro, o cientista político de 73 anos revisita o ensaio de 1989 e o livro de 1992 que o transformaram em um dos intelectuais mais citados e mais mal compreendidos de sua geração, e argumenta que a onda populista atual não desmente sua tese original. Pelo contrário: para ele, confirma o aviso que já estava lá, escondido nos últimos capítulos de seu próprio livro, que quase ninguém leu até o fim.

A repórter Jennifer Szalai, do jornal The New York Times, visitou Fukuyama em sua casa em Palo Alto, na Califórnia, e relatou o incômodo recorrente do autor com a simplificação de sua ideia mais famosa. Segundo o perfil publicado no periódico americano, ele ainda recebe, semanalmente, comentários de leitores que confundem "o fim da história" com o fim dos acontecimentos históricos, quando na verdade se referia a algo mais conceitual: o esgotamento de alternativas ideológicas viáveis à democracia liberal como forma de organização política (The New York Times, 31 de agosto de 2026).

De Kojève a Trump: a genealogia de uma ideia mal compreendida

O termo "fim da história" nem sequer é original de Fukuyama. Ele o tomou emprestado do filósofo russo-francês Alexandre Kojève, célebre intérprete de Hegel, para descrever um ponto de chegada: não o fim dos eventos, mas o esgotamento das "grandes questões" sobre como organizar politicamente uma sociedade. A tese, publicada primeiro como artigo na revista The National Interest e depois expandida no livro "O Fim da História e o Último Homem" (1992), carregava também uma advertência pouco lida: a de que a prosperidade e a paz poderiam produzir o "último homem" de Nietzsche, uma figura acomodada, entediada e propensa a buscar causas artificiais de conflito simplesmente para escapar do tédio.

"Chegamos a este ponto em que podemos estar fadados a um sistema cíclico: atravessamos um período de paz e prosperidade trazido pela democracia liberal bem-sucedida, nos entediamos com ele e tentamos destruí-lo."

É essa segunda metade, ignorada pela maioria dos críticos apressados, que Fukuyama tenta resgatar na nova memória. Segundo o perfil do Times, ele passou dos vinte e poucos anos como membro de um grupo de estudos straussiano na Universidade Cornell, influenciado pelo teórico conservador Allan Bloom, até romper publicamente com o movimento neoconservador em meados dos anos 2000, primeiro por causa da Guerra do Iraque e, em seguida, da crise financeira de 2008. Em suas próprias palavras à repórter, ambas as apostas, a da democracia promovida à força e a da autorregulação dos mercados, "se revelaram um total absurdo".

O Brasil como laboratório do "último homem"

Para o público brasileiro, a tese de Fukuyama nunca foi puramente acadêmica. O próprio autor já esteve no centro do debate político nacional: em entrevistas concedidas durante a eleição de 2018, chegou a classificar a ascensão de Jair Bolsonaro como parte de uma "onda nacionalista populista" que ameaçava instituições democráticas, declaração que gerou forte reação de setores liberais e conservadores brasileiros na época. Pesquisadores de direito e relações internacionais também usaram seu ensaio como contraponto para analisar a ditadura militar (1964–1985), argumentando que a tese original ignorou a experiência latino-americana de autoritarismo concomitante ao avanço global da democracia liberal.

Os dados recentes de opinião pública dão substância brasileira ao dilema do "último homem". Segundo o Latinobarômetro, consórcio de pesquisa com sede no Chile que mede o apoio à democracia na América Latina desde 1995, o apoio declarado à democracia no Brasil caiu de 46% em 2023 para 45% em 2024, abaixo da média regional. Mais revelador, porém, é o contingente de indiferentes ao regime político, hoje em 31% no país, e a parcela de brasileiros que aceitaria que um presidente passasse por cima do Congresso ou das instituições, estimada em 41%. É precisamente esse território de apatia democrática, e não o entusiasmo pela ditadura, que Fukuyama descreve como o habitat natural do "último homem": não alguém que deseja a tirania, mas alguém suficientemente entediado ou desiludido para não se importar em defender a democracia quando ela é ameaçada.

Apoio declarado à democracia no Brasil, segundo levantamentos do Latinobarômetro (série sujeita a variação metodológica entre edições). Fonte: Latinobarômetro, citado por Gazeta do Povo e Poder360.

Contraponto: a tese que esqueceu a América Latina

Nem todos os leitores brasileiros aceitam a autodefesa de Fukuyama. Artigo publicado na revista acadêmica RIMA (Relações Internacionais no Mundo Atual) argumenta que o ensaio original de 1989 ignorou justamente a realidade dos regimes autoritários militares vividos pela América Latina naquele período, e que democracia liberal e prosperidade econômica não podem ser tratadas como sinônimos, tampouco como superação automática da desigualdade social. Outros críticos, à direita e à esquerda do espectro político brasileiro, acusam o autor de aplicar rótulos como "populista" de forma seletiva, ora a líderes de direita, ora evitando o mesmo rigor com governos de esquerda considerados "complexos demais" para julgamento simples. A memória de Fukuyama não resolve essa controvérsia, mas a reconhece, ao admitir que subestimou o quanto o tédio e a busca por reconhecimento poderiam alimentar demagogos de diferentes matizes ideológicos.

Motocicletas, drones e um pai que o achava "lavado cerebralmente"

A memória também revela um lado menos conhecido do autor: filho de um sociólogo e pastor congregacional ativo no movimento pelos direitos civis americanos, Fukuyama cresceu em Nova York depois de a família de seu pai ter sido enviada a campos de internamento japoneses-americanos durante a Segunda Guerra. A guinada conservadora do filho, adquirida durante os anos em Cornell sob influência de Allan Bloom, foi recebida pelo pai como sinal de que o rapaz havia sido "lavado cerebralmente", mágoa que, segundo o relato ao Times, o autor carrega até hoje. Nas páginas do livro, ele também descreve o hobby de construir drones, motocicletas guardadas na garagem e uma rampa de saltos de bicicleta que lhe rendeu um cotovelo quebrado, detalhes que humanizam um pensador frequentemente reduzido a uma única frase de efeito.

Cinco livros para entender Fukuyama antes da nova memória

Para o leitor brasileiro que quer se preparar para o debate em torno de "In the Realm of the Last Man" (ainda sem data de lançamento anunciada no Brasil), a obra do autor já disponível em português oferece um mapa completo de sua trajetória intelectual, da tese inicial sobre o fim das ideologias às reflexões mais recentes sobre biotecnologia, identidade e decadência institucional.

O Fim da História e o Último Homem

O ensaio seminal de 1992, que lançou a tese e a controvérsia que o autor tenta resolver na nova memória.

Ordem e Decadência Política: Da Revolução Industrial à Globalização da Democracia

Segundo volume de seu estudo sobre a construção (e a corrosão) do Estado moderno.

Liberalismo e Seus Descontentes

Defesa recente do liberalismo clássico contra críticos de direita e de esquerda.

Ficando para Trás

Reflexão sobre identidade, ressentimento e os grupos que se sentem excluídos da ordem liberal.

Nosso Futuro Pós-Humano

Ensaio sobre biotecnologia e os limites éticos da engenharia genética na política.

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Perguntas frequentes

O que significa "o fim da história" na tese de Francis Fukuyama?

Não se refere ao fim dos acontecimentos, mas ao esgotamento de alternativas ideológicas viáveis à democracia liberal como forma de organização política e econômica, ideia que Fukuyama tomou emprestada do filósofo Alexandre Kojève.

Quando será lançado o novo livro de memórias de Fukuyama?

"In the Realm of the Last Man: A Memoir" chega às livrarias americanas em 8 de setembro de 2026, pela editora Farrar, Straus and Giroux, ainda sem edição em português anunciada.

Quem é o "último homem" na obra de Fukuyama?

É um conceito emprestado de Nietzsche para descrever o indivíduo acomodado por sociedades pacíficas e prósperas, que, entediado e sem grandes causas, pode se tornar presa fácil de discursos populistas e demagógicos.

Fukuyama já comentou a política brasileira?

Sim. Em entrevistas concedidas durante a eleição presidencial de 2018, classificou a ascensão de Jair Bolsonaro como parte de uma onda nacionalista populista global, declaração que gerou reações divididas entre analistas brasileiros.

Nota editorial: Esta reportagem foi inspirada no perfil "History Could Be Rough. Maybe Now People Will Listen.", de Jennifer Szalai, publicado pelo The New York Times em 31 de agosto de 2026, disponível em nytimes.com. O texto acima é reportagem original de O Tecido, com apuração e fontes independentes listadas na área de referências, e não constitui tradução do material original.