Tecnologia · Inteligência artificial

Este texto parte do artigo de opinião “La IA no necesita frenos, necesita otro rumbo”, de Ramón López de Mántaras, publicado pelo jornal espanhol El País em 22 de setembro de 2026. As ideias do autor são apresentadas aqui de forma resumida e com os devidos créditos, sem reprodução ou tradução do original, que pode ser lido em elpais.com. A análise foi complementada com fontes independentes, listadas ao final.

Em pouco mais de uma semana, a conversa pública sobre inteligência artificial mudou de eixo. No dia 12 de setembro, o presidente executivo da Anthropic, Dario Amodei, publicou um ensaio defendendo que a indústria reduza, por acordo, o ritmo com que melhora seus modelos mais capazes. Em poucas horas, Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk manifestaram apoio.1 Desde então, a discussão gira em torno de quanto e como desacelerar. Em artigo publicado nesta terça-feira (22) no El País, o pesquisador espanhol Ramón López de Mántaras desloca a pergunta: antes de discutir a velocidade, seria preciso discutir para onde a IA deveria ir.2

A proposta não é abandonar o progresso técnico, mas redirecioná-lo. Em vez de apostar em modelos cada vez maiores que tentam fazer de tudo, o autor defende sistemas especializados, heterogêneos e desenhados para problemas concretos. A ideia, que à primeira vista parece acadêmica, tem implicações diretas sobre energia, concentração de mercado e sobre as escolhas que países como o Brasil estão fazendo agora.

O pedido de freio que veio de dentro

O movimento por desaceleração não nasceu entre reguladores ou críticos externos. Em julho, mais de 1.200 funcionários de empresas de IA assinaram uma petição pedindo ao governo americano ajuda para regular o ritmo do desenvolvimento automatizado de IA.3 O ensaio de Amodei veio semanas depois, sustentando que as capacidades dos modelos estão avançando mais rápido do que as salvaguardas e os marcos de governança conseguem acompanhar.4

O plano apresentado pelo executivo tem três etapas: testes de segurança mais rigorosos com avaliação independente, coordenação entre as principais empresas e maior cooperação internacional. A Anthropic, porém, comprometeu-se apenas com a primeira. Altman disse que a OpenAI acompanharia o compromisso com avaliadores independentes, enquanto o presidente Donald Trump classificou os alertas como exagerados.1 O CEO do Google DeepMind, Demis Hassabis, também declarou apoio público, num contexto em que o International AI Safety Report de 2026 lista riscos como uso indevido em biologia e química, capacidades cibernéticas ofensivas e comportamento cada vez mais autônomo dos sistemas.5

A natureza voluntária da proposta é seu ponto frágil. Coordenação entre concorrentes diretos raramente se sustenta sob pressão competitiva, e é justamente nessa brecha que López de Mántaras insere sua crítica.

A tese: direção, não velocidade

López de Mántaras, professor de pesquisa do Instituto de Investigação em Inteligência Artificial do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha (IIIA-CSIC), parte de uma descrição técnica dos grandes modelos de linguagem. Segundo ele, trata-se de sistemas autorregressivos, que produzem sequências de palavras por procedimentos essencialmente probabilísticos. O sucesso extraordinário desses modelos com a linguagem teria alimentado a crença de que bastaria aumentar tamanho, dados e capacidade de cálculo para que capacidades cada vez mais gerais surgissem.2

O autor contesta essa lógica. Para ele, produzir texto plausível e agir de forma confiável num mundo incerto são problemas distintos. Um sistema que opera no mundo real precisa lidar com situações novas, prever as consequências do que faz e se adaptar a ambientes que mudam. A escala tornou os modelos muito competentes em reconhecer e reproduzir padrões, mas isso, no argumento do pesquisador, não equivale a ganho de capacidade cognitiva.2

A alternativa proposta é uma combinação coordenada de ferramentas: modelos estatísticos, sistemas de decisão, aprendizado por reforço, modelos gráficos probabilísticos, mecanismos de planejamento, métodos simbólicos e redes neurais, cada um usado onde for mais adequado. Com isso, o autor procura desmontar o que chama de falsa dicotomia entre acelerar e frear. Seria possível continuar desenvolvendo IA, só que com arquiteturas ajustadas à natureza de cada problema.2

A disputa deixaria de ser sobre quem tem o maior modelo e passaria a ser sobre quem resolve cada problema de forma mais eficiente, robusta e controlável.Síntese do argumento de Ramón López de Mántaras, El País

O que os dados dizem sobre escala

Os números mais recentes não confirmam nem refutam a tese de modo simples, mas oferecem pistas relevantes. O AI Index 2026, da Universidade Stanford, registra que o número de parâmetros declarado pelos modelos de fronteira está estacionado perto de um trilhão há três anos, embora o poder de computação usado no treinamento, estimado de forma independente, continue subindo. O mesmo relatório destaca que o OLMo 3.1 Think 32B, com cerca de 90 vezes menos parâmetros que o Grok 4, alcança resultados comparáveis em vários testes apenas com poda, eliminação de dados duplicados e curadoria.6

Há outro sinal. Em março de 2026, Anthropic, xAI, Google, OpenAI, Alibaba e DeepSeek estavam agrupadas no topo do ranking Arena, com diferenças pequenas entre si, o que, segundo Stanford, desloca a pressão competitiva para custo, confiabilidade e desempenho em domínios específicos.7 Em outras palavras, quando os modelos gerais se equiparam, a vantagem passa a estar no ajuste fino para problemas concretos, exatamente o terreno que López de Mántaras aponta como promissor.

Modelos pequenos dentro de sistemas compostos

A ideia de sistemas heterogêneos já tem defensores dentro da própria indústria. Em artigo de posição publicado em 2025, pesquisadores da NVIDIA e do Georgia Institute of Technology sustentaram que modelos de linguagem pequenos são suficientemente capazes, mais adequados e necessariamente mais econômicos para boa parte das tarefas executadas por agentes de IA, que em geral repetem um conjunto limitado de operações especializadas. Quando a conversação ampla é indispensável, os autores defendem sistemas que acionem modelos diferentes conforme a complexidade de cada etapa.8

No mercado corporativo, a distância entre a fronteira e o uso real já é visível. Especialistas ouvidos pelo site PYMNTS observam que desacelerar a fronteira não significa desacelerar a adoção, porque a maior parte dos clientes empresariais sequer usa os modelos mais avançados disponíveis.9

A conta de energia e de carbono

O argumento de sustentabilidade é o mais fácil de quantificar. Na atualização mais recente de suas projeções, a Agência Internacional de Energia (IEA) estima que o consumo de eletricidade dos data centers praticamente dobre, de 485 TWh em 2025 para 950 TWh em 2030, chegando a cerca de 3% da demanda global. O consumo dos data centers dedicados à IA cresce ainda mais rápido e deve triplicar no período.10

Consumo global de eletricidade dos data centers (TWh) 500 1000 415 2024 485 2025 950 2030 (projeção)
Fonte: Agência Internacional de Energia, relatórios Energy and AI (2025) e Key Questions on Energy and AI (2026). O valor de 2030 é projeção do cenário central.

O treinamento isolado de um único modelo também pesa. O AI Index estima que o treino do Grok 4, da xAI, tenha gerado mais de 72 mil toneladas de CO₂ equivalente, contra 5.184 toneladas estimadas para o GPT-4. O próprio codiretor do relatório, Ray Perrault, pede cautela com o número, que se apoia em dados inferidos de fontes públicas, e lembra que o instituto Epoch AI chega a uma estimativa próxima de 140 mil toneladas.11 A incerteza dos cálculos já é, por si, um sintoma: quanto maior o modelo, menos transparência sobre seu custo físico.

Concentração: quem pode treinar a fronteira

O ponto politicamente mais forte do artigo de López de Mántaras é o econômico. Treinar modelos cada vez maiores exige capital, computação, dados e infraestrutura em volumes que, na prática, só algumas grandes empresas possuem. Se o progresso deixar de depender do tamanho, argumenta o autor, também diminui o incentivo para vencer concorrentes com sistemas cada vez mais caros.2

Os indicadores de concentração são eloquentes. Em 2025, mais de 90% dos modelos de IA considerados notáveis vieram da indústria, e não da academia. A NVIDIA responde por mais de 60% da capacidade total de computação para IA, com Google e Amazon fornecendo boa parte do restante.6 Segundo levantamento citado pelo site Breakthrough News, as cinco maiores empresas de tecnologia dos Estados Unidos têm orçamento de quase US$ 690 bilhões neste ano para data centers e chips, com 32% desse gasto financiado por dívida, ante 9% dois anos antes.12

IndicadorDadoFonte
Modelos notáveis produzidos pela indústria (2025)Mais de 90%Stanford HAI, AI Index 2026
Participação da NVIDIA na computação para IAMais de 60%Stanford HAI, AI Index 2026
Parâmetros declarados na fronteiraPerto de 1 trilhão há três anosStanford HAI, AI Index 2026
Consumo projetado de data centers (2030)950 TWh (cerca de 3% da demanda global)IEA
Investimento previsto no plano brasileiro de IAR$ 23 bilhões (2024 a 2028)MCTI

O ângulo brasileiro

Para um país que não disputa a fronteira dos modelos gigantes, a tese da especialização tem apelo evidente. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028 e inclui, entre seus objetivos, desenvolver modelos de linguagem em português com dados nacionais e dotar o país de um dos cinco supercomputadores mais potentes do mundo, alimentado por energia renovável.13 Análise do Instituto de Economia da Unicamp aponta que o plano acumula objetivos demais para uma única política pública e compara o valor previsto ao dispêndio federal executado em toda a área de ciência e tecnologia em 2022, de R$ 26 bilhões.14

Em agosto, o governo detalhou uma das rotas de infraestrutura: uma estrutura de supercomputação no Rio de Janeiro, executada pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) em parceria com Huawei e iFlytek, com previsão de um modelo de linguagem de grande escala nacional.15 A escolha de um LLM próprio convive com a pergunta que López de Mántaras coloca: se o objetivo é resolver problemas brasileiros concretos, o caminho mais eficiente passa por um modelo geral grande ou por um conjunto de sistemas especializados?

O setor privado oferece um caso ilustrativo. A Maritaca AI, startup fundada por pesquisadores da Unicamp, lançou em junho o Sabiá-4 Thinking, voltado ao português e ao contexto brasileiro. Nos testes divulgados pela empresa, o modelo ficou ligeiramente abaixo dos concorrentes internacionais na média geral (90,8%, contra algo entre 92,4% e 92,8%), mas os superou em redação jurídica, com 77,7% de acurácia, acima do Gemini 3.1 Pro (75,9%), do Opus 4.8 (74,8%) e do GPT-5.4 (72,8%).16 O custo para rodar o conjunto completo de testes foi de cerca de R$ 206, ante R$ 449 do GPT-5.4, R$ 281 do Gemini 3.1 Pro e R$ 590 do Opus 4.8, segundo a própria empresa.16 São números autodeclarados, mas o padrão é coerente com a tese: especialização de domínio compensando escala, com vantagem de custo.

No campo regulatório, o marco legal da IA (PL 2338/2023) foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e enviado à Câmara em março de 2025, onde aguarda parecer do relator na comissão especial. A votação, prevista para o fim de 2025, foi adiada para 2026, e o calendário eleitoral pesa sobre o prazo.17 O projeto adota um modelo baseado em níveis de risco, lógica que se aplica com mais clareza a sistemas de finalidade definida do que a modelos que se propõem a fazer tudo, um ponto que o debate sobre especialização tende a reforçar.

Contraponto

Os limites da tese da especialização

A especialização costuma nascer da generalidade. O próprio Sabiá 4 foi treinado a partir de um modelo-base generalista, com etapas posteriores de pré-treino em português e em textos jurídicos brasileiros.18 O roteiro proposto pelos pesquisadores da NVIDIA também começa usando um modelo grande para mapear a tarefa, antes de substituir partes por modelos menores.8 Nesse arranjo, a fronteira não é o oposto da especialização, mas muitas vezes sua matéria-prima.

Sistemas heterogêneos têm custo de orquestração. Combinar métodos simbólicos, probabilísticos e neurais multiplica pontos de integração e modos de falha. A promessa de arquiteturas híbridas é antiga na pesquisa em IA e, até aqui, perdeu terreno em muitas frentes para abordagens de escala.

A escala ainda entrega resultados. O AI Index 2026 mostra ganhos de 30 pontos percentuais em um ano no teste Humanity's Last Exam, criado para ser difícil para máquinas, e avaliações pensadas para durar anos sendo saturadas em meses.7 Dizer que o crescimento de tamanho esgotou seu potencial é, por ora, uma aposta.

O debate sobre ritmo tem leituras estratégicas. Críticos como o Breakthrough News associam os pedidos de desaceleração ao avanço de modelos chineses baratos e de pesos abertos, e a uma expectativa de que a regulação atrase a China.12 Por fim, a conclusão do autor, de que todos ganhariam exceto as grandes empresas, subestima o fato de que as mesmas corporações lideram também a pesquisa em modelos pequenos e especializados.

O que acompanhar nos próximos meses

Três movimentos vão indicar se a proposta de López de Mántaras ganha tração além do campo das ideias. O primeiro é se o compromisso voluntário de desaceleração sobrevive à competição entre laboratórios e à pressão de investidores. O segundo é se a concorrência, com os modelos gerais cada vez mais parecidos entre si, se desloca de fato para custo, confiabilidade e desempenho setorial. O terceiro, no caso brasileiro, é como o PBIA e o marco legal vão tratar a escolha entre um modelo nacional de grande porte e o fomento a soluções especializadas para saúde, justiça, agricultura e serviços públicos.

A contribuição mais útil do artigo publicado pelo El País talvez seja lembrar que a política tecnológica não se resume a um pedal de acelerador. A pergunta sobre qual IA queremos construir, e para resolver quais problemas, é anterior à pergunta sobre a velocidade.

Perguntas frequentes

O que propõe Ramón López de Mántaras?

Que o setor, em vez de apenas desacelerar os modelos de fronteira, reoriente o desenvolvimento para sistemas especializados e heterogêneos, combinando métodos estatísticos, simbólicos, de planejamento, de aprendizado por reforço e redes neurais conforme o problema.

Por que as grandes empresas de IA passaram a pedir desaceleração?

Em setembro de 2026, Dario Amodei, da Anthropic, argumentou que as capacidades avançam mais rápido do que as salvaguardas e propôs avaliação independente, coordenação entre empresas e cooperação internacional. Altman, Musk e Hassabis apoiaram publicamente a ideia.

Modelos pequenos podem substituir os grandes?

Em tarefas repetitivas e bem delimitadas, frequentemente sim, com custo e consumo de energia menores. Para conversação ampla, a tendência é combinar modelos de tamanhos diferentes em um mesmo sistema.

Quanta energia os data centers vão consumir?

A IEA projeta cerca de 950 TWh em 2030, quase o dobro de 2025 e perto de 3% da demanda mundial de eletricidade. O consumo de data centers voltados à IA deve triplicar.

Como o Brasil entra nesse debate?

Pelo PBIA, com R$ 23 bilhões previstos até 2028 e um modelo de linguagem nacional em planejamento; por empresas como a Maritaca AI, que desenvolve modelos especializados em português; e pelo PL 2338/2023, que aguarda votação na Câmara.

Referências

  1. Technology.org. Three AI Rivals Agree: Slow the Frontier Down. 15 set. 2026.
  2. López de Mántaras, Ramón. La IA no necesita frenos, necesita otro rumbo. El País, 22 set. 2026. https://elpais.com/tecnologia/2026-09-22/la-ia-no-necesita-frenos-necesita-otro-rumbo.html
  3. Binokular Media. Should AI Development Slow Down for Safety? 18 set. 2026 (com base em reportagem da Axios).
  4. IAPP. AI leaders support call to slow pace of frontier development as safety concerns grow. 14 set. 2026.
  5. IBM Think. What it would take to slow frontier AI. Set. 2026.
  6. Stanford HAI. The 2026 AI Index Report, capítulo Research and Development. 2026.
  7. Stanford HAI. The 2026 AI Index Report, capítulo Technical Performance. 2026.
  8. Belcak, P. et al. (NVIDIA Research e Georgia Institute of Technology). Small Language Models are the Future of Agentic AI. arXiv 2506.02153, 2025.
  9. PYMNTS. Experts Say Frontier AI Slowdown Won't Slow Adoption. Set. 2026.
  10. Agência Internacional de Energia (IEA). Key Questions on Energy and AI, sumário executivo. 2026; e Energy and AI. 2025.
  11. IEEE Spectrum. Stanford's AI Index for 2026 Shows the State of the Industry. Jun. 2026.
  12. Breakthrough News. The AI frontier asks to be paced: anatomy of a panic. 21 set. 2026.
  13. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028: IA para o Bem de Todos.
  14. Instituto de Economia da Unicamp. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial: da euforia à inquietação?
  15. Conexão Tocantins. Brasil avança em infraestrutura própria para IA com supercomputação e nuvem brasileira. 21 ago. 2026.
  16. Canaltech. IA brasileira lança modelo poderoso para bater de frente com ChatGPT e Gemini. 25 jun. 2026; Alura. Maritaca AI lança Sabiá-4 Thinking. Jul. 2026.
  17. Barbieri Advogados. Regulamentação da Inteligência Artificial no Brasil 2026; Senado Federal, tramitação do PL 2338/2023.
  18. Maritaca AI. Página institucional e perguntas frequentes sobre a família Sabiá 4.

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