Este artigo foi produzido a partir de reportagem de Henry Bodkin publicada pelo jornal britânico The Telegraph em 23 de outubro de 2026 (leia o original), complementada por apuração independente em fontes israelenses, brasileiras e internacionais. Não se trata de tradução nem reprodução do texto original.
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Israel chega à eleição de terça-feira, 27 de outubro, com uma pergunta que raramente aparece em campanhas de democracias consolidadas: o país conseguirá conter as próprias divisões? A dúvida ganhou forma no início do mês, quando o site norte-americano Drop Site News relatou a existência de uma avaliação sigilosa da CIA que menciona risco de conflito civil e até de colapso do Estado israelense2. O documento não foi confirmado pelo governo dos Estados Unidos. Ainda assim, como mostra reportagem do The Telegraph publicada nesta sexta-feira, as falhas apontadas no texto são visíveis a olho nu nas ruas de Bnei Brak, nos morros da Cisjordânia e nos comícios de Tel Aviv1.
A questão relevante, portanto, não é se a CIA "previu" uma guerra civil. É entender por que analistas independentes consideram plausível que uma sociedade tão militarizada, tão polarizada e tão pressionada economicamente esteja perto do limite de sua capacidade de absorver conflitos internos.
O que diz o relatório "Fracture From Within"
De acordo com o Drop Site News, que cita duas fontes norte-americanas, a avaliação foi redigida em agosto pela Red Cell, unidade da agência criada para questionar premissas dominantes e oferecer leituras alternativas2. O texto teria usado explicitamente a expressão "conflito civil" e combinado quatro vetores de risco: a raiva em torno da isenção militar dos ultraortodoxos, a violência de colonos na Cisjordânia, a pressão econômica do gasto militar e o retorno de grandes contingentes de veteranos armados e traumatizados por anos de combate em Gaza, no Líbano e contra o Irã.
Dois cuidados são necessários. O primeiro é a natureza da fonte: o Telegraph observa que o veículo que revelou o documento é sistematicamente crítico ao governo israelense e que, até agora, ninguém mais confirmou o conteúdo1. O segundo é a natureza da própria Red Cell, cujo trabalho é justamente imaginar cenários extremos para testar o consenso da comunidade de inteligência. Um texto dessa unidade é um exercício de estresse, não uma estimativa oficial.
O que torna o relatório digno de atenção é que seus diagnósticos coincidem com dados públicos produzidos pelo próprio Estado israelense e por seus principais centros de pesquisa.
Primeira falha: quem serve e quem é dispensado
O ponto mais explosivo é o alistamento dos haredim, os judeus ultraortodoxos. Segundo o Relatório Estatístico Anual do Israel Democracy Institute, a comunidade soma cerca de 1,45 milhão de pessoas, aproximadamente 14,3% da população do país, e o número de formados no sistema educacional ultraortodoxo que se alistaram em 2024 (3.060) é praticamente o mesmo de uma década antes6. Hoje, de acordo com o Times of Israel, cerca de 80 mil homens haredim entre 18 e 24 anos estão aptos ao serviço e não se apresentaram5.
Esse quadro colide com a realidade do restante da sociedade. Desde outubro de 2023, reservistas israelenses chegam a cumprir mais de cem dias de convocação por ano, frequentemente na linha de frente1. A disputa deixou de ser apenas religiosa e passou a ser distributiva: quem paga o custo da guerra com o próprio corpo.
O conflito escalou em três planos simultâneos. No Legislativo, a coalizão aprovou em julho uma lei que suspendia por sete meses as prisões de desertores ultraortodoxos; a Suprema Corte congelou a norma e, em setembro, a derrubou por violar o princípio de igualdade no serviço, conforme relatou o Times of Israel4. No Executivo, a procuradora-geral Gali Baharav-Miara determinou que o Exército retomasse as detenções. Nas ruas, centenas de manifestantes impediram a prisão de um desertor em Modiin no início de outubro, e nesta semana 42 homens ultraortodoxos foram detidos no aeroporto Ben Gurion ao voltar de um período de estudos nos Estados Unidos3.
Netanyahu classificou as prisões como inaceitáveis, argumentando, segundo o Ynetnews, que elas sabotam um acordo de recrutamento sem coerção18. Partidos ultraortodoxos acusaram as autoridades de interferência eleitoral. Ouvido pelo Telegraph em Bnei Brak, um estudante de Torá de 26 anos resumiu o clima ao prever que, se a polícia militar entrar nas yeshivot, "haverá uma explosão"1.
O episódio que abre a reportagem britânica ilustra a complexidade do tema. Em agosto, soldados ultraortodoxos de um batalhão da Brigada Givati se recusaram a embarcar num blindado em Gaza porque havia uma paramédica a bordo; a missão foi cancelada e dezesseis deles acabaram presos1. Para parte da comunidade haredi, a punição soou injusta contra jovens que ao menos aceitaram servir. Para o Exército, a condição religiosa imposta em plena operação é um problema operacional difícil de acomodar.
Segunda falha: a direita contra a direita
Um aspecto pouco percebido fora de Israel é que a fratura mais perigosa talvez não esteja entre esquerda e direita, mas dentro do próprio campo religioso. Os nacionais-religiosos, base do sionismo religioso e do movimento de colonos, contribuem de forma desproporcional para o esforço militar: segundo dados citados pelo Telegraph, responderam por 34% dos soldados mortos em combate entre outubro de 2023 e 2025, embora representem cerca de 17% dos judeus israelenses1.
Esse grupo, profundamente religioso, sente-se tratado como religiosamente inferior pelos haredim. O ressentimento foi agravado por declarações do rabino Dov Lando, líder espiritual do partido Judaísmo Unido da Torá, que, segundo o Canal 12 israelense, atribuiu as mortes de soldados a ensinamentos religiosos equivocados de seus rabinos1. Numa coalizão que depende simultaneamente de colonos e de ultraortodoxos, a frase funciona como dinamite.
É nesse vácuo que surgiu o Partido do Público Haredi, liderado por Moti Leitner, de 33 anos. A legenda defende alistamento para jovens ultraortodoxos que não estudam em tempo integral, ensino de inglês e matemática nas escolas da comunidade e, de forma inédita, inclui mulheres na lista de candidatos. Segundo o Times of Israel, Netanyahu pressionou pessoalmente Leitner a abandonar a disputa, temendo que votos do bloco governista se percam abaixo da cláusula de barreira de 3,25%, patamar que nenhuma pesquisa mostrou o partido alcançando19. Vídeos de jovens haredim arrancando cartazes da legenda em Jerusalém e Bnei Brak indicam o custo de desafiar o establishment rabínico.
Terceira falha: a Cisjordânia e o monopólio da força
A segunda grande linha de tensão está na Cisjordânia ocupada. Em 16 de outubro, durante a colheita de azeitonas na aldeia de Abu Falah, perto de Ramallah, dezenas de colonos mascarados atacaram agricultores palestinos, incendiaram oliveiras e espancaram a fotojornalista norte-americana Heidi Levine, do Washington Post. De acordo com a Associated Press, o ataque se encaixa num padrão de aceleração da violência de colonos, e o Exército enviou batalhões adicionais à região7. No dia seguinte, um grupo de diplomatas europeus também foi agredido.
O problema, do ponto de vista da estabilidade interna, não é apenas a violência contra palestinos, já documentada há anos por organizações internacionais. É a capacidade demonstrada por grupos de colonos de desafiar e dissuadir os próprios soldados israelenses, como no episódio conhecido como "cerco de Qusra", citado pelo Telegraph1. Eisenkot prometeu reprimir o que chama de "terror judaico". Fontes militares disseram ao jornal britânico que o Exército reforça tropas na região justamente para conter uma onda de novos postos avançados ilegais criados para dificultar a ação de um futuro governo1.
Aqui reside o cenário que mais preocupa analistas: uma decisão governamental legítima de desmontar assentamentos ilegais encontrando resistência armada de cidadãos israelenses. Em 1995, o primeiro-ministro Yitzhak Rabin foi assassinado por um extremista religioso nacionalista contrário aos Acordos de Oslo. A memória desse precedente pesa sobre qualquer discussão de retirada territorial.
O peso da ideologia kahanista
O avanço do partido Otzma Yehudit (Poder Judaico), de Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional, acrescenta outra camada. A legenda descende da tradição do rabino Meir Kahane, cujo partido Kach foi banido das eleições israelenses em 1992 por incitação ao racismo e mais tarde classificado como organização terrorista pelos Estados Unidos1. Ben-Gvir e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, foram sancionados pessoalmente pelo Reino Unido. Nos eventos visitados pelo Telegraph, a ideia de "transferência" de palestinos, eufemismo que críticos tratam como limpeza étnica, circulava com naturalidade entre eleitores jovens1.
A conta econômica de uma guerra permanente
O relatório atribuído à CIA aponta a pressão econômica como acelerador das tensões, e os números oficiais confirmam a dimensão do esforço. Segundo o Israel Democracy Institute, o gasto total com defesa no orçamento de 2026 é estimado em cerca de 175 bilhões de shekels, e o déficit esperado gira em torno de 5,3% do PIB, acima da meta de 4,9% aprovada8. O instituto resume o dilema: o país não consegue ao mesmo tempo ampliar o gasto militar, reduzir impostos, reconstruir áreas atingidas, manter serviços civis e preservar a estabilidade fiscal.
O Banco de Israel, conforme relatou o Globes, alertou que a relação dívida/PIB, que era de cerca de 60% às vésperas da guerra, pode chegar a aproximadamente 70% em 20269. Há sinais de resiliência: dados do Ministério das Finanças publicados pelo Ynetnews mostram o déficit acumulado em doze meses recuando para 3,2% do PIB em agosto, puxado por arrecadação em alta, embora novos repasses prometidos à defesa devam reverter parte da melhora até o fim do ano10.
O vínculo com a questão haredi é direto. A baixa participação dos homens ultraortodoxos no mercado de trabalho, combinada com sua rápida expansão demográfica, transforma a isenção militar também numa questão fiscal: quem não serve e trabalha menos pesa mais sobre a base que financia o Estado.
Emigração: votar com os pés
Uma das reações mais citadas nos bairros liberais de Tel Aviv, Haifa e Herzliya é a ameaça de deixar o país caso um novo governo liderado por Netanyahu seja formado. Uma pesquisa da emissora pública Kan, de agosto, apontou que 12% dos israelenses diziam que o resultado eleitoral influenciaria a decisão de emigrar1.
A tendência já é mensurável. Estudo da Universidade de Tel Aviv com base em dados do Escritório Central de Estatísticas mostra que 268.509 cidadãos saíram do país por ao menos três meses consecutivos entre 2023 e 2025, contra 183.219 no triênio 2013 a 201511. Os pesquisadores destacam saídas acima da média entre médicos, engenheiros, doutores e pessoas de alta renda. Análise do Globes acrescenta que o número de israelenses nativos que emigraram em 2025 foi o mais alto já registrado num único ano12.
O que está em jogo na terça-feira
A disputa principal opõe o Likud, de Netanyahu, ao Yashar, partido fundado pelo ex-chefe do Estado-Maior Gadi Eisenkot, filho de imigrantes marroquinos criado na periferia do país. As pesquisas divergem conforme o instituto e a linha editorial do veículo. Levantamento do portal Walla publicado em 20 de outubro e reproduzido pelo Jerusalem Post deu 23 cadeiras ao Yashar e 19 ao Likud, com o bloco governista em 48 assentos e a oposição em 5413. Já o Canal 14, alinhado ao primeiro-ministro, chegou a projetar exatamente 61 cadeiras para a coalizão atual, segundo a Agenzia Nova14.
O consenso entre analistas é que nenhum bloco tende a alcançar sozinho as 61 das 120 cadeiras do Knesset. Isso abre três caminhos, todos com potencial de atrito. Um resultado inconclusivo prolongaria a paralisia e poderia levar a nova eleição. Uma vitória apertada de Netanyahu tende a reacender os protestos em massa de 2023 contra a reforma do Judiciário. Um governo Eisenkot que precise de partidos árabes para governar e que tente enfrentar colonos e ultraortodoxos ao mesmo tempo seria percebido por parte da direita como ilegítimo. A analista Beth Oppenheim, do European Council on Foreign Relations, disse ao Telegraph que, qualquer que seja o vencedor, é provável uma reação forte do lado derrotado1.
Por que o cenário de colapso pode estar superestimado
- A fonte é frágil. O relatório não foi confirmado, foi revelado por um veículo com posição editorial declarada e foi produzido por uma unidade cuja função é imaginar cenários extremos.
- As instituições continuam funcionando. A Suprema Corte derrubou a lei que suspendia prisões de desertores, a procuradora-geral ordenou o cumprimento das convocações e a eleição ocorre na data prevista, ao fim do primeiro mandato completo do Knesset desde 1988.
- A economia mostra capacidade de recuperação. A arrecadação em alta e a queda do déficit acumulado em 2026 indicam que o choque fiscal, embora sério, não é descontrolado.
- Há movimento de integração. O surgimento do Partido do Público Haredi, ainda que eleitoralmente fraco, sinaliza que parte da comunidade ultraortodoxa busca conciliar estudo religioso, trabalho e serviço militar.
- O argumento haredi tem lógica própria. Para seus defensores, o estudo da Torá é uma contribuição espiritual ao país, e a coerção tende a produzir resistência, não alistamento. É o argumento usado por Netanyahu para condenar as prisões.
O próprio Telegraph encerra lembrando que Israel ainda dispõe de instituições e de uma cultura política capazes de processar diferenças de forma pacífica, partindo de uma base muito mais sólida que a de seus vizinhos1.
Por que isso importa para o Brasil
A eleição israelense encontra a relação bilateral no ponto mais baixo em décadas. O Brasil retirou seu embaixador de Tel Aviv em maio de 2024, após o presidente Lula ser declarado persona non grata por comparar a ofensiva em Gaza ao Holocausto. Em agosto de 2025, Israel anunciou o rebaixamento formal das relações depois que o Itamaraty deixou sem resposta o pedido de agrément do diplomata Gali Dagan, conforme noticiou o InfoMoney15.
Apesar do desgaste, o Itamaraty não trabalha com a hipótese de ruptura. Segundo a CartaCapital, o rompimento é visto internamente como custoso para interesses estratégicos e comerciais, dada a cooperação histórica em defesa, tecnologia, segurança cibernética, irrigação e inteligência16. Uma mudança de governo em Jerusalém poderia abrir espaço para uma reaproximação técnica, enquanto a continuidade de Netanyahu, com Ben-Gvir e Smotrich em posições centrais, tende a manter Brasília à distância.
O tema também atravessa a política doméstica brasileira. O senador Flávio Bolsonaro prometeu transferir a embaixada para Jerusalém em seis meses caso chegue à Presidência, compromisso celebrado pelo American Jewish Congress17. Há ainda uma dimensão humana: estimativas acadêmicas apontam cerca de 17 mil ex-brasileiros vivendo em Israel20, e a comunidade judaica no Brasil, plural e com divergências internas sobre o governo israelense, acompanha a votação com atenção.
Leitura de O Tecido
O valor do suposto alerta da CIA não está na profecia, mas no inventário. Ele organiza num mesmo quadro problemas que costumam ser tratados separadamente: a distribuição desigual do serviço militar, a erosão do monopólio estatal da força na Cisjordânia, o custo fiscal de uma guerra sem horizonte de encerramento e a saída de profissionais qualificados. Nenhum deles, isoladamente, derruba um Estado. Combinados, testam o contrato social de uma democracia. A eleição de terça-feira não resolverá essas questões, mas definirá quem terá legitimidade para enfrentá-las.
Perguntas frequentes
A CIA realmente afirmou que Israel corre risco de guerra civil?
Segundo o Drop Site News, um documento interno chamado Fracture From Within, elaborado em agosto de 2026 pela Red Cell da CIA, menciona risco de conflito civil e colapso do Estado. O governo dos Estados Unidos não confirmou o relatório, e a Red Cell produz análises alternativas, não previsões oficiais.
Por que o alistamento dos ultraortodoxos divide Israel?
Cerca de 80 mil homens haredim entre 18 e 24 anos estão aptos ao serviço e não se alistaram, enquanto reservistas cumprem longas convocações desde 2023. A Suprema Corte exige igualdade no serviço, a coalizão tentou suspender as prisões por lei e o tribunal derrubou a norma em setembro de 2026.
Quando é a eleição em Israel e quem são os principais candidatos?
A eleição para o Knesset ocorre em 27 de outubro de 2026. A disputa central é entre o Likud, de Benjamin Netanyahu, e o Yashar, de Gadi Eisenkot. A maioria das pesquisas indica que nenhum bloco alcança sozinho as 61 cadeiras necessárias.
Quantos israelenses deixaram o país desde 2023?
Segundo a Universidade de Tel Aviv, 268.509 cidadãos saíram por pelo menos três meses consecutivos entre 2023 e 2025, contra 183.219 no triênio 2013 a 2015.
Como a eleição israelense afeta o Brasil?
Os dois países estão sem embaixadores desde 2024 e Israel rebaixou as relações em 2025. O resultado pode alterar o tom da relação bilateral, que envolve cooperação em defesa, tecnologia e irrigação, além de cerca de 17 mil ex-brasileiros vivendo em Israel.
Ewerton Lopes — Curador Editorial de O Tecido