Caderno Política · Internacional · França
Este texto parte da entrevista concedida pelo cientista político Jérôme Fourquet ao jornalista Daniel Verdú, publicada pelo El País em 17 de outubro de 2026, e a complementa com apuração própria em fontes francesas e brasileiras.
O que começou como um protesto contra salas lotadas e prédios degradados num liceu da periferia de Paris virou, em menos de um mês, o retrato de um país que perdeu a capacidade de responder. Para Jérôme Fourquet, diretor de opinião do instituto Ifop e um dos analistas mais atentos às fraturas da sociedade francesa, a onda de bloqueios estudantis não é apenas uma crise educacional: é o sintoma de um fim de ciclo político, agravado por um Estado que já gasta mais com juros da dívida do que com suas escolas.1
A leitura é dura e não se limita ao governo de turno. Na entrevista ao El País, Fourquet descreve um vácuo de poder, um eleitorado jovem que trocou o centro pelos extremos e uma eleição presidencial, marcada para abril de 2027, que dificilmente resolverá o impasse. O diagnóstico interessa ao leitor brasileiro por um motivo simples: vários dos ingredientes da crise francesa, como o peso dos juros no orçamento e o envelhecimento do eleitorado, também estão sobre a mesa no Brasil.
O que está acontecendo nas escolas francesas
A mobilização ganhou forma em 21 de setembro no liceu Antoine-de-Saint-Exupéry, em Créteil, um dia depois de uma greve de professores contra a falta de pessoal. Os alunos listavam problemas concretos: professores não substituídos, turmas de 32 a 35 estudantes, jornadas longas, edifícios deteriorados e a ansiedade causada pelo Parcoursup, a plataforma pública que distribui as vagas no ensino superior, segundo a cobertura do Le Monde.2
Em poucos dias, o movimento se espalhou pelo país e chegou às universidades, com episódios de incêndios, depredações e confrontos com a polícia. Até 6 de outubro, o Ministério da Justiça contabilizava 5.060 detenções desde o início dos protestos, a grande maioria de menores de idade, e o gabinete do primeiro-ministro registrava ao menos 715 policiais e 215 adolescentes feridos, de acordo com a Reuters.3 No mesmo dia, Sébastien Lecornu pediu aos ministros propostas até o fim de outubro para substituir professores ausentes, rever a carga horária e reformar prédios antigos.
No sábado, 17 de outubro, os estudantes tentaram somar forças aos coletes amarelos, que voltaram às ruas contra o preço dos combustíveis e a perda do poder de compra, sob o lema que unia "amarelos e jovens", conforme a France 3.4
Por que Fourquet fala em "fim de reinado"
Na avaliação do analista, o protesto nasceu de problemas materiais na periferia, mas ganhou escala porque o governo demorou a perceber sua dimensão. Fourquet aponta que Lecornu levou tempo para se pronunciar, que o ministro da Educação, Édouard Geffray, não firmou uma posição clara e que a primeira resposta foi essencialmente policial, em parte porque não havia dinheiro para outra coisa.1
"Estamos ante el final de un reinado"
Jérôme Fourquet, ao El PaísEmmanuel Macron, em seu segundo e último mandato, é descrito como um presidente em situação de "pato manco", expressão americana para o governante que não pode concorrer de novo e perde influência à medida que o fim se aproxima. Sem maioria própria na Assembleia Nacional, ele ainda vê seus herdeiros políticos, Gabriel Attal e Édouard Philippe, interessados em se distanciar dele na corrida presidencial. Fourquet observa também um detalhe geracional: os adolescentes de hoje tinham cerca de sete anos quando Macron chegou ao Eliseu e não conheceram outro presidente, o que concentra nele a frustração difusa. A comparação que o analista faz com o fim do reinado de Luís XIV, um regime que parecia não terminar, explica o título da entrevista.1
A dívida que já custa mais que a escola
O ponto mais concreto do diagnóstico é orçamentário. Em abril de 2026, o comitê de alerta sobre finanças públicas confirmou que, pela primeira vez sob a Quinta República, o pagamento de juros da dívida superou o orçamento da Educação Nacional, avaliado em cerca de 63 bilhões de euros, como registrou o portal 24matins.5 Em setembro, o ministro da Economia, Roland Lescure, projetou que a carga da dívida chegará a 91 bilhões de euros em 2027, muito à frente de educação e defesa, com o endividamento subindo de 119,3% para 121,7% do PIB, segundo a Acteurs Publics.6
Fonte: projeções do Ministério da Economia francês divulgadas em setembro de 2026, via Acteurs Publics. Valores de educação e defesa são aproximados.
Fourquet resume a consequência política: não há como apagar o incêndio com dinheiro porque o dinheiro não existe. A degradação aparece em vários setores do serviço público, das escolas aos hospitais sem climatização durante a onda de calor do verão. E o calendário aperta. O projeto de orçamento de 2027 chegou à Assembleia em 13 de outubro sob ameaça de rejeição pelos socialistas e com o Reagrupamento Nacional anunciando voto contrário, o que levou o governo a cogitar até as inéditas ordenanças orçamentárias, mecanismo que permite aprovar o orçamento sem votação, segundo a AFP, via Boursorama.7
Uma geração que pesa pouco nas urnas
O segundo eixo da análise é demográfico e educacional. Fourquet lembra que, desde a meta lançada em 1985 pelo ministro Jean-Pierre Chevènement de levar 80% de uma geração ao baccalauréat, o acesso ao ensino superior se massificou. Isso, segundo ele, não igualou oportunidades: apenas deslocou a competição para mais cedo, para a escolha da escola e do curso, e transformou o Parcoursup em fonte de estresse permanente. Metade dos estudantes universitários precisa trabalhar enquanto estuda, e a pobreza entre os jovens supera a dos mais velhos, algo historicamente incomum.1
Os dados confirmam a tendência. De acordo com o Observatoire des inégalités, a taxa de pobreza entre os franceses de 18 a 29 anos chegou a 10% em 2023, contra 4% a 5% entre os maiores de 65 anos.8
O paradoxo é eleitoral. Na conta de Fourquet, os jovens de 18 a 24 anos são cerca de 10% dos inscritos, enquanto os aposentados somam 35%, e os mais jovens ainda votam menos. Um sistema econômico e midiático inteiro, diz ele, fala com quem tem mais de 55 anos: a idade média de quem compra carro novo na França é 55 anos, e a do público dos principais canais públicos de TV passa dos 60.1
O centro some, os polos crescem
Para o analista, os grandes beneficiários do clima são os extremos. A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, é a única força que circula com naturalidade nos protestos e, segundo Fourquet, alcança 40% das intenções de voto entre menores de 35 anos. O Reagrupamento Nacional colhe outro dividendo, o da ordem pública diante da violência. Nos debates de TV, observa ele, os jovens que defendem e os que criticam o movimento costumam pertencer a esses dois campos, como se o bloco central tivesse desaparecido da paisagem.1
A projeção para 2027 segue essa lógica. Fourquet considera praticamente certa a presença de Marine Le Pen no segundo turno, que acontece em 2 de maio, depois do primeiro turno de 18 de abril. Condenada em apelação em julho, ela teve a inelegibilidade reduzida a um período já cumprido e anunciou candidatura enquanto recorre à Corte de Cassação, segundo a Europe 1.9 A dúvida é quem estará do outro lado. Fourquet avalia que Philippe superou Attal, mas não sabe se isso bastará para deixar Mélenchon fora; num duelo entre Mélenchon e Le Pen, ele prevê vitória folgada da líder do RN.
Crise de regime ou crise de gestão?
A tese do "fim de reinado" tem limites que o próprio Fourquet reconhece. Ele lembra que, nas eleições municipais, o RN liderou o primeiro turno em 71 cidades e venceu em apenas três, sinal de que a barreira do segundo turno ainda funciona.1 A história também relativiza o fatalismo: em 1990, um movimento de liceus com reivindicações parecidas levou o então ministro Lionel Jospin a lançar um plano emergencial e ampliar o orçamento da educação.
Há ainda uma divergência sobre a natureza do movimento. O governo sustenta que os protestos foram instrumentalizados pela França Insubmissa e por grupos violentos, e aponta escolas incendiadas e diretores agredidos. Do outro lado, a Anistia Internacional, a Liga dos Direitos Humanos e o Sindicato da Magistratura criticaram o uso desproporcional da força contra menores. A opinião pública parece separar as duas coisas: sondagem para o Le Figaro, reunida na compilação da Wikipedia sobre os protestos, indicou que 62% dos franceses consideram o movimento justificado, mas 78% veem exploração política por parte da LFI.10
O espelho brasileiro
O Brasil não vive uma crise estudantil comparável, mas a comparação estrutural é instrutiva. A primeira semelhança é fiscal. Nos últimos 12 meses, o país desembolsou R$ 1,08 trilhão só com juros da dívida, segundo levantamento repercutido pela Lex Legal a partir de dados oficiais.11 Em junho, a dívida bruta chegou a 81,9% do PIB, o maior nível desde 2021, de acordo com dados do Banco Central citados pela Band.12 O debate sobre a causa é aberto: parte dos economistas atribui a pressão aos juros altos; outra parte, ao crescimento automático das despesas obrigatórias. Em qualquer leitura, o espaço para investir em educação e saúde se estreita.
A segunda semelhança é demográfica. Levantamento do Instituto Nexus com dados do TSE, divulgado pela Agência Brasil e reproduzido pelo Diário do Grande ABC, mostra que os eleitores de 16 a 24 anos caíram de 18,2% para 12,5% do eleitorado entre 2010 e 2026, enquanto o grupo com 60 anos ou mais cresceu cerca de 74%.13 Como na França, a juventude perde peso relativo justamente quando suas demandas, de escola a emprego e moradia, ficam mais urgentes.
A terceira lição diz respeito ao calendário. O segundo turno entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acontece no próximo domingo, 25 de outubro, depois de um primeiro turno decidido por menos de dois pontos percentuais, segundo o Metrópoles.14 A observação de Fourquet sobre a França vale como alerta para qualquer vencedor: quem assumir encontrará o muro da dívida e, provavelmente, uma base parlamentar que não está garantida.
O que observar nas próximas semanas
Três sinais vão indicar se a França caminha para um alívio ou para um aprofundamento da crise. O primeiro é o pacote de medidas para os liceus que Lecornu prometeu até o fim de outubro, que dirá se o Estado consegue oferecer algo além da resposta policial. O segundo é a tramitação do orçamento de 2027: um recurso às ordenanças, sem votação, reforçaria a percepção de um poder que governa à margem do Parlamento. O terceiro é a capacidade de mobilização da convergência entre estudantes e coletes amarelos nas férias escolares da Toussaint. Se o movimento perder fôlego, o governo ganha tempo. Se crescer, a tese do fim de ciclo ganha mais um capítulo.
Perguntas frequentes
Por que os estudantes franceses estão protestando em 2026?
Os protestos começaram em setembro de 2026 em Créteil, na região de Paris, contra falta de professores, turmas superlotadas, prédios degradados, jornadas longas e o estresse gerado pela plataforma Parcoursup. O movimento se espalhou para todo o país e para as universidades.
O que Jérôme Fourquet quer dizer com "fim de reinado"?
Em entrevista ao El País, o diretor de opinião do Ifop descreve um vácuo de poder no fim do segundo mandato de Emmanuel Macron, sem maioria parlamentar e sem recursos para responder ao mal-estar social, num clima que ele compara ao fim do reinado de Luís XIV.
A França gasta mais com juros da dívida do que com educação?
Sim. Em 2026 a carga de juros superou pela primeira vez o orçamento da Educação Nacional, e o Ministério da Economia projeta 91 bilhões de euros em juros para 2027, contra cerca de 63 bilhões para a educação.
Quem se beneficia politicamente da crise, segundo Fourquet?
Os extremos. A França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, cresce entre os menores de 35 anos, e o Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, capitaliza o discurso de ordem diante da violência. O centro macronista perde espaço.
Quando será a eleição presidencial francesa?
O primeiro turno está marcado para 18 de abril de 2027 e o segundo para 2 de maio de 2027. Macron não pode concorrer a um terceiro mandato consecutivo.
Qual a relação da crise francesa com o Brasil?
Os dois países enfrentam peso crescente dos juros no orçamento e envelhecimento do eleitorado. No Brasil, os eleitores de 16 a 24 anos caíram de 18,2% para 12,5% do total entre 2010 e 2026, e o país gastou R$ 1,08 trilhão em juros em 12 meses.