Caderno FilosofiaCentenário Michel Foucault (1926-2026)Leitura: 11 min

Michel Foucault completaria cem anos em 15 de outubro de 2026. A data chega num momento em que o vocabulário que ele ajudou a criar, feito de palavras como norma, dispositivo e biopolítica, saiu dos seminários e passou a disputar espaço com decretos de governo. Em reportagem publicada pelo El País nesta sexta-feira (9), a jornalista Mar Padilla relata que o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, anunciou que pessoas trans não teriam lugar nas Forças Armadas americanas, e lembra que Donald Trump decretou a existência de apenas dois sexos, imutáveis. Para a autora, é esse binarismo convertido em política de Estado que torna oportuno voltar ao filósofo francês, tratado pela direita como adversário intelectual e por movimentos LGBTI+ como alicerce teórico.1

O centenário traz algo incomum para um autor morto há mais de quatro décadas: textos novos. Entre eles, o que mais interessa ao debate atual é um manuscrito curto, escrito no fim dos anos 1970, sobre pessoas que hoje chamaríamos de intersexo e que os documentos da época tratavam como "hermafroditas". O texto não muda o que se sabe de Foucault. Ele ajuda a entender, com casos concretos, a pergunta que atravessa a obra do filósofo: quem tem autoridade para dizer o que um corpo é.

O manuscrito da caixa 82

Em 1978, Foucault anunciou que um dos volumes da sua História da sexualidade seria dedicado aos hermafroditas. O plano foi abandonado quando ele redirecionou a pesquisa para a Antiguidade greco-romana, e o texto ficou entre os papéis adquiridos pela Biblioteca Nacional da França. A editora Gallimard publicou o manuscrito em setembro de 2025 com o título Les Hermaphrodites, em edição estabelecida por Henri-Paul Fruchaud e Arianna Sforzini, com prefácio de Sforzini e posfácio do sociólogo Éric Fassin. O geógrafo e estudioso de Foucault Stuart Elden situa a redação entre 1975 e 1978, depois do curso Os anormais e antes da edição das memórias de Herculine Barbin.23

As traduções vieram em sequência. A italiana Einaudi lançou Gli ermafroditi em junho de 2026, a Anagrama prepara a edição em espanhol, segundo o El País, e o leitor brasileiro já encontra Hermafroditas em edição nacional de 2026.4 A editora francesa apresenta a obra como o único escrito em que Foucault desenvolve diretamente a distinção, histórica e teórica, entre sexo anatômico e sexualidade. Ouvida pelo El País, Sforzini destaca que o texto reabre questões sobre diferença sexual, relações de poder baseadas em gênero e uma visão historicizada do sexo.1

Do tribunal ao consultório: a invenção do "sexo verdadeiro"

O manuscrito trabalha com processos judiciais e laudos médicos franceses e reconstrói casos como os de Marie (depois Marin) Le Marcis, no início do século XVII, e de Anne (depois Jean-Baptiste) Grandjean, no século XVIII. O argumento central, já esboçado na aula de 22 de janeiro de 1975 do curso Os anormais, no Collège de France, identifica uma mudança de regime. No mundo jurídico da época clássica, a ambiguidade do corpo era tolerada dentro de certos limites. A pessoa podia, em determinadas circunstâncias, assumir um dos sexos, e o que a justiça punia era sobretudo a troca posterior, tratada como fraude ou profanação do casamento.

No século XIX, o século das taxonomias, a lógica se inverte. A medicina passa a sustentar que todo corpo esconde um único sexo verdadeiro e que cabe ao especialista descobri-lo. A ambiguidade deixa de ser uma condição a administrar e vira um erro a corrigir. O caso mais conhecido é o de Herculine Barbin, criada como menina, professora num internato feminino, que em 1860, depois de um exame médico, foi reclassificada juridicamente como homem. Barbin se mudou para Paris com o novo registro e se suicidou em 1868. Foucault publicou suas memórias em 1978, e o caso se tornou referência obrigatória nos estudos de gênero.

"Precisamos verdadeiramente de um verdadeiro sexo?"

Michel Foucault, introdução às memórias de Herculine Barbin

A pergunta resume o método. Foucault não discute se a biologia existe nem nega a anatomia. O que ele examina é a exigência institucional de que anatomia, registro civil, papel social e desejo coincidam e coloquem cada pessoa numa de duas colunas. Na síntese que o El País recupera do próprio filósofo, essas camadas do sexo "têm que coincidir".1 A distinção entre sexo anatômico e sexualidade, que o manuscrito formula com clareza inédita, é justamente o que permite ver essa exigência como produto histórico, e não como dado natural.

O poder que passa pelo corpo

Filho de um cirurgião e professor de anatomia, Foucault deslocou a filosofia do terreno das ideias para o das práticas: hospitais, prisões, escolas, tribunais, consultórios. O poder, nessa leitura, não é uma substância que alguém possui, mas uma relação exercida, sempre instável e passível de ser revertida. Seu efeito mais duradouro não é proibir, mas produzir: classificar, medir, separar o normal do patológico e fazer com que as pessoas se reconheçam nessas categorias.

Daí a influência sobre a teoria queer. Judith Butler dedica parte de Problemas de gênero (1990) a discutir Foucault e o próprio caso Barbin. O filósofo espanhol Paul B. Preciado, autor de Manifesto contrassexual, disse ao El País que a contribuição decisiva de Foucault foi mostrar que o poder atravessa o corpo e que a história da sexualidade deveria ser escrita a partir das tecnologias de poder, e não da medicina ou da psicologia.1

O mesmo Preciado aponta os limites. Foucault, homossexual, desconfiava da noção de identidade e nunca fez do gênero um tema central. Pensou pouco nas mulheres e deixou escapar o papel da reprodução na organização do poder, segundo o filósofo espanhol.1 Há uma ironia nisso: o autor que ofereceu ferramentas aos movimentos identitários recusava ser fixado numa identidade. Na introdução de A arqueologia do saber, pediu ao leitor que não lhe perguntasse quem era nem exigisse que permanecesse o mesmo.

Cinco viagens sob a ditadura

A relação de Foucault com o Brasil é mais densa do que costuma aparecer nas homenagens. Ele esteve no país cinco vezes, sempre durante o regime militar: 1965, 1973, 1974, 1975 e 1976. Em 1973 proferiu na PUC-Rio as conferências publicadas como A verdade e as formas jurídicas. Segundo a resenha do livro Foucault in Brazil, de Marcelo Hoffman, publicada pela revista Theory, Culture & Society, foi numa palestra sobre medicina social no Rio, em 1974, que o conceito de biopolítica apareceu pela primeira vez.9

Em outubro de 1975, durante um curso na USP, Foucault participou de uma assembleia de estudantes contra prisões de alunos, professores e jornalistas. Dias depois, o jornalista Vladimir Herzog foi morto sob tortura no DOI-Codi. O filósofo suspendeu as aulas, compareceu às cerimônias pela morte de Herzog e passou a ser monitorado pelo Serviço Nacional de Informações. A transcrição do seu pronunciamento na FAU-USP, recuperada a partir de documento do próprio SNI, foi publicada pela revista Discurso, da USP.10

O centenário também tem agenda brasileira. A PUC-SP ofereceu em agosto uma disciplina de pós-graduação sobre Foucault e a literatura, e o Rio de Janeiro recebeu, entre 31 de agosto e 4 de setembro, um colóquio internacional e um workshop com pesquisadores do Centre Michel Foucault. Em Paris, o Collège de France mantém até janeiro de 2027 uma exposição com a Biblioteca Nacional da França e apresenta Foucault como o autor mais citado das humanidades no mundo.5

O Brasil como laboratório da norma

Lido a partir do manuscrito sobre os hermafroditas, o debate brasileiro recente parece uma sequência de disputas sobre qual instituição tem a palavra final sobre o sexo de uma pessoa. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal, no julgamento da ADI 4275, autorizou a mudança de nome e gênero no registro civil sem cirurgia nem laudo médico, transferindo para a autodeclaração uma decisão antes mediada por peritos. Em 2019, ao julgar a ADO 26, enquadrou a homotransfobia na Lei do Racismo.

Em abril de 2025, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução 2.427, que proíbe a prescrição de bloqueadores hormonais para incongruência de gênero em crianças e adolescentes e fixa em 18 anos a idade mínima para terapia hormonal cruzada. A norma é contestada no STF pela ADI 7.806 e pelas ADPFs 1.221 e 1.223. Em outubro de 2025, o ministro Flávio Dino restabeleceu a vigência integral da resolução até o julgamento de mérito, depois de a Justiça Federal no Acre tê-la suspendido. Desde então, decisões individuais de primeira instância, como uma da Justiça Federal em Santa Catarina, têm autorizado o bloqueio em casos específicos.8

Enquanto isso, a violência segue registrada por organizações da sociedade civil, na ausência de estatística oficial. O dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) contabilizou 80 assassinatos de pessoas trans em 2025, queda de 34% em relação a 2024 e o menor número da série iniciada em 2017. Ainda assim, o país manteve pelo 18º ano consecutivo a liderança mundial nesse tipo de crime, e as tentativas de homicídio cresceram 32%, segundo a cobertura do lançamento. A própria Antra atribui parte da queda à subnotificação.67

1812017 1632018 1242019 1752020 1402021 1312022 1452023 1222024 802025 Total 2017-2025: 1.261 assassinatos (média de 140 por ano)
Assassinatos de travestis e pessoas trans no Brasil, 2017 a 2025. Fonte: Dossiê Antra 2026. Os dados vêm de monitoramento de imprensa, denúncias e registros públicos; a própria entidade alerta para subnotificação.

Nada disso se resolve citando Foucault. O que a leitura foucaultiana oferece é uma pergunta de método: em cada um desses episódios, qual instância reivindica o direito de produzir a verdade sobre o corpo (o cartório, o conselho profissional, o tribunal constitucional, a própria pessoa) e com base em que tipo de saber. É uma pergunta que serve tanto a quem defende a resolução do CFM quanto a quem a combate, porque obriga cada lado a explicitar a autoridade em que se apoia.

Ferramenta, não doutrina

Foucault gostava de dizer que era menos filósofo do que artificeiro, alguém que fabrica explosivos para abrir passagem. O El País retoma essa imagem e lembra a definição que ele deu ao próprio trabalho: compreender uma sociedade pelos seus sistemas de exclusão, pelo que ela decide recusar e suprimir.1 Também dizia que seus conceitos eram peças de uma caixa de ferramentas, a ser usadas e descartadas conforme o problema.

O manuscrito sobre os hermafroditas é uma dessas ferramentas em estado bruto. Não traz programa político nem resposta para os dilemas clínicos de hoje. Mostra, com documentos, que a exigência de um sexo único, verificável e definitivo tem data, autores e instituições, e que a forma de tratar corpos fora da norma mudou mais de uma vez em poucos séculos. Cem anos depois do nascimento de Foucault, essa constatação continua incômoda para quem acredita que as categorias atuais sempre existiram e insuficiente para quem espera dela uma solução pronta. Talvez seja essa ambivalência que mantém o filósofo no centro da disputa.

Para ler FoucaultDo clássico Vigiar e punir aos volumes da História da sexualidade e às edições recentes de inéditos, veja os livros de Michel Foucault disponíveis em português.

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Perguntas frequentes

O que é o livro Os hermafroditas, de Michel Foucault?

É um manuscrito inédito escrito entre 1975 e 1978 e guardado nos arquivos do filósofo na Biblioteca Nacional da França. Foi publicado pela Gallimard em 2025 e analisa como tribunais e médicos franceses trataram pessoas intersexo entre os séculos XVI e XIX. Foucault planejava transformá-lo num volume da História da sexualidade.

Quando nasceu Michel Foucault?

Em 15 de outubro de 1926, em Poitiers, na França. Morreu em Paris em 25 de junho de 1984. Em 2026 se celebra o centenário do seu nascimento, com eventos no Collège de France, em universidades europeias e no Brasil.

Qual a relação entre Foucault e a teoria queer?

Foucault mostrou que categorias de sexualidade e de normalidade são produzidas historicamente por instituições como a medicina e o direito. Judith Butler e Paul B. Preciado partiram dessa análise para formular a teoria queer e os estudos de gênero contemporâneos, embora o próprio Foucault tenha se ocupado pouco do gênero.

Quem foi Herculine Barbin?

Uma pessoa intersexo francesa, nascida em 1838 e criada como menina, que em 1860 foi reclassificada juridicamente como homem após exame médico. Morreu por suicídio em 1868. Foucault publicou suas memórias em 1978, e o caso se tornou central nos estudos de gênero.

Foucault esteve no Brasil?

Sim, cinco vezes, em 1965, 1973, 1974, 1975 e 1976, todas durante a ditadura militar. Em 1975 suspendeu um curso na USP em protesto contra o assassinato do jornalista Vladimir Herzog e passou a ser vigiado pelo SNI.

Quais são as principais críticas a Foucault?

Críticos liberais, como o brasileiro José Guilherme Merquior, apontaram imprecisões históricas e uma teoria do poder abrangente demais. Habermas e Nancy Fraser questionaram a falta de critérios normativos para justificar a resistência. No debate de gênero, feministas críticas ao gênero defendem a centralidade do sexo biológico para a garantia de direitos das mulheres.

Este artigo é uma análise original do O Tecido inspirada na reportagem "Foucault, el 'artificiero' que da cobijo a las personas trans", de Mar Padilla, publicada pelo jornal El País em 9 de outubro de 2026. Trechos e declarações atribuídos ao El País foram parafraseados e creditados. Os demais dados vêm de fontes independentes indicadas ao longo do texto.

EC

Evelyn Cordeiro — Fundadora do Inspiravalley e do canal Pensadoria no YouTube