Caderno Sustentabilidade · Amazônia · Povos indígenas
No sul da Amazônia equatoriana, perto da fronteira com o Peru, um hotel de selva construído com técnicas tradicionais tornou-se um dos argumentos mais citados no debate sobre como financiar a floresta em pé. O Kapawi Ecolodge, localizado na bacia do rio Pastaza, pertence desde 2008 à Nacionalidade Achuar do Equador (NAE) e é hoje operado por comunidades indígenas que decidem quem entra, por onde circula e para onde vai o dinheiro. Um artigo de opinião publicado nesta quarta-feira pelo jornal espanhol El País, assinado por Elias Angeles-Hernandez, recoloca o caso em evidência ao defendê-lo como ferramenta política de defesa territorial1.
A pergunta que interessa ao leitor brasileiro vai além do exotismo de um lodge na selva: um modelo de turismo sob controle indígena consegue competir, em escala e em renda, com a pressão de petróleo, mineração e madeira? E o que o Brasil, que regulamentou a visitação turística em terras indígenas há pouco mais de dez anos, pode aprender com essa trajetória?
Da concessão privada ao controle comunitário
O projeto começou a ser desenhado em 1993, a partir de uma parceria entre o empreendedor equatoriano Daniel Koupermann, a operadora Canodros, sediada em Guayaquil, e a federação que representava os achuar2. O arranjo previa que a empresa construísse e operasse o hotel por cerca de 15 anos, pagando aluguel às comunidades e formando jovens indígenas em gestão, até transferir o negócio integralmente3. O lodge abriu as portas em 1996, e a transferência foi antecipada: desde 1º de janeiro de 2008, a totalidade da propriedade pertence aos achuar2.
A passagem não foi simples. Estudo de caso publicado no International Indigenous Policy Journal descreve a transição como um processo de aprendizado em áreas estranhas à organização social tradicional, como contabilidade, marketing internacional e gestão financeira4. O próprio site institucional do empreendimento reconhece que o principal desafio da propriedade plena foi desenvolver competências empresariais que não faziam parte do repertório da comunidade2. Entre 2017 e 2019, o hotel passou por uma reforma de quase dois anos, acompanhada da criação de uma nova estrutura de gestão achuar2.
Segundo a Fundación Pachamama, parceira histórica do projeto, o Kapawi é hoje propriedade das comunidades de Kapawi, Suwa e Kusutkau5. Os pacotes são vendidos sem intermediários, e o acesso se dá por avião a partir do aeródromo de Shell, na província de Pastaza6.
Uma economia que depende da floresta intacta
O argumento central do texto do El País é que o ecoturismo comunitário inverte a lógica do enclave extrativista: em vez de concentrar lucros e deixar os custos ambientais no território, faz da própria conservação a fonte de renda e de capacidade de decisão1. A equipe do Kapawi usa uma formulação semelhante, ao descrever o objetivo de trocar uma economia de extração por uma economia de prevenção2.
Quando a renda depende de a floresta continuar de pé, conservar deixa de ser custo e passa a ser o próprio ativo do negócio.
Os números disponíveis são modestos, o que ajuda a dimensionar o modelo com realismo. Um estudo de caso da Iniciativa Equador, programa ligado ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), registrou à época 32 empregados diretos, dos quais 22 achuar, além de benefícios indiretos para produtores de artesanato e alimentos3. A área em que o ecoturismo funciona como instrumento de conservação ultrapassa 100 mil hectares, segundo o empreendimento2.
Há também uma dimensão energética. Pioneiro no uso de energia solar na Amazônia equatoriana desde a abertura, o Kapawi foi um dos cinco vencedores da rodada de 2025 do Adventure Travel Conservation Fund, cujo apoio, somado a recursos da Pachamama Alliance, financia um segundo sistema fotovoltaico para eliminar combustíveis fósseis da operação e capacitar indígenas na manutenção dos equipamentos5. No mesmo ano, o projeto recebeu o Prêmio Ibero-Americano ao Turismo Sustentável e Social, na categoria voltada a micro, pequenas e médias empresas e comunidades, em cerimônia realizada na Costa Rica6.
A pressão do petróleo no sul da Amazônia equatoriana
O contexto explica a urgência. De acordo com informe apresentado por organizações da sociedade civil ao Exame Periódico Universal da ONU, a NAE reúne 84 comunidades nas províncias de Pastaza e Morona Santiago, com território aproximado de 787 mil hectares e cerca de 7.800 habitantes7. Esse território se sobrepõe a áreas que o Estado equatoriano pretende licitar para exploração de hidrocarbonetos.
Em 2025, o governo de Daniel Noboa lançou a maior rodada petroleira em décadas: segundo a organização Amazon Watch, são 14 blocos que somam 2,3 milhões de hectares e se sobrepõem aos territórios de sete nacionalidades indígenas, entre elas os achuar8. A iniciativa ocorre depois do referendo de 2023 em que a maioria dos equatorianos votou por manter o petróleo do Parque Nacional Yasuní no subsolo, decisão que ambientalistas acusam o governo de não cumprir integralmente8. No mesmo período, a Mongabay Latam noticiou o acordo de cooperação entre as estatais Petroecuador e Petroperú, que prevê interligação de oleodutos com potencial de afetar territórios achuar também do lado peruano da fronteira9.
É nesse cenário que o turismo aparece como argumento econômico, e não apenas cultural, contra a abertura de novas frentes extrativas. A questão que o artigo do El País deixa para governos e financiadores internacionais é por que recursos públicos e privados continuam a sustentar atividades que degradam a Amazônia enquanto iniciativas de conservação operam no limite da precariedade1.
No Brasil, os dados de satélite reforçam a associação entre território indígena reconhecido e conservação da vegetação nativa.
E no Brasil? Uma década de turismo regulamentado em terras indígenas
O Brasil tem um dado que sustenta o mesmo raciocínio em escala nacional. Levantamento do MapBiomas divulgado em 2024 mostra que as Terras Indígenas, que ocupam cerca de 13% do território, perderam menos de 1% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2023, contra 28% nas áreas privadas13. A conservação, portanto, já acontece. O que falta, em muitos casos, é uma base econômica própria que reduza a vulnerabilidade das comunidades à cooptação por atividades ilegais.
O marco regulatório brasileiro é relativamente recente. A Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), de 2012, reconheceu o turismo como atividade produtiva sustentável, e a Instrução Normativa nº 3/2015 da Funai, publicada no Diário Oficial da União em junho de 2015, passou a exigir um Plano de Visitação elaborado a partir da própria comunidade para que atividades turísticas sejam autorizadas10. A norma veda a aprovação de planos em áreas com restrição de uso por presença de povos isolados e permite que a Funai suspenda autorizações a qualquer tempo10. Em julho de 2025, Funai e ICMBio publicaram uma instrução normativa conjunta para disciplinar a visitação em áreas duplamente protegidas, sobrepostas a unidades de conservação federais, e o governo criou um selo de Turismo Indígena de Base Comunitária para certificar iniciativas conformes à regra10.
O caso brasileiro mais próximo do Kapawi talvez seja o Yaripo, nome yanomami do Pico da Neblina, ponto mais alto do país. A visitação havia sido proibida em 2003, após recomendação do Ministério Público Federal, por causa de impactos ambientais e do desrespeito ao território. O plano de visitação construído pelas associações yanomami foi aprovado pelo ICMBio em 2018 e pela Funai em 2019, e as primeiras expedições sob gestão indígena começaram em 202211. Assim como no Equador, a renda do turismo é apresentada explicitamente como alternativa a uma atividade predatória, no caso o garimpo ilegal de ouro11. Fora da Amazônia, os Guarani da Terra Indígena Tenondé Porã, no extremo sul da cidade de São Paulo, lançaram em 2018 o primeiro plano de visitação aprovado fora da região amazônica12.
A diferença em relação ao Kapawi está menos na regra e mais no tempo de maturação. O caso equatoriano soma três décadas de operação, parceria privada com transferência de ativos planejada desde o início e acesso a mercados internacionais de alto valor. No Brasil, a maior parte das iniciativas ainda está na fase de formalização, com operações pequenas e forte dependência de organizações parceiras.
O que está em jogo
A experiência achuar desloca a discussão sobre sustentabilidade do campo técnico para o campo político. Painéis solares e barcos elétricos importam, mas o indicador decisivo, como sustenta o artigo espanhol, é o grau de controle que o povo indígena mantém sobre o próprio território1. Para o Brasil, que sediou a COP30 em Belém e busca liderar o financiamento de florestas tropicais, a lição é direta: reconhecer que quem já conserva precisa de infraestrutura, conectividade, segurança territorial e acesso a crédito, e não apenas de campanhas de promoção turística.
O Kapawi mostra que o modelo pode durar. Mostra também que ele depende de décadas de investimento, parceiros comprometidos e um Estado que não trate o território indígena como reserva de expansão extrativa. Sem essas condições, o turismo comunitário corre o risco de continuar sendo uma boa história contada em premiações internacionais, e não uma política pública.
Perguntas frequentes
O que é o Kapawi Ecolodge?
É um empreendimento de ecoturismo comunitário na Amazônia equatoriana, na província de Pastaza, aberto em 1996 em parceria com a operadora Canodros e integralmente transferido à Nacionalidade Achuar do Equador em 1º de janeiro de 2008. Hoje é propriedade das comunidades achuar de Kapawi, Suwa e Kusutkau.
Quem são os achuar?
São um povo indígena amazônico presente no Equador e no Peru. No lado equatoriano, a Nacionalidade Achuar do Equador reúne cerca de 84 comunidades e aproximadamente 7.800 pessoas em um território de cerca de 787 mil hectares, segundo dados apresentados à ONU por organizações da sociedade civil.
Por que o ecoturismo indígena é visto como estratégia de conservação?
Porque a renda depende da manutenção da floresta, da fauna e da cultura local. Isso cria um incentivo econômico direto para proteger o território e fortalece a capacidade das comunidades de recusar atividades extrativas como petróleo, mineração e extração de madeira.
O turismo em terras indígenas é permitido no Brasil?
Sim. Desde a Instrução Normativa nº 3/2015 da Funai, a visitação turística em Terras Indígenas é permitida quando proposta pelas próprias comunidades e autorizada por meio de um Plano de Visitação. Em áreas sobrepostas a unidades de conservação federais, vale também a instrução normativa conjunta Funai e ICMBio de 2025.
Existe no Brasil algum exemplo parecido com o Kapawi?
O ecoturismo yanomami no Yaripo (Pico da Neblina), no Amazonas, é um dos casos mais citados: gerido por associações indígenas, com plano aprovado por ICMBio e Funai, busca gerar renda como alternativa ao garimpo ilegal. Outro exemplo é o plano de visitação dos Guarani da TI Tenondé Porã, em São Paulo.
Referências
- ANGELES-HERNANDEZ, Elias. Ecoturismo indígena achuar: resistencia y conservación en la Amazonía. El País, Planeta Futuro, 23 set. 2026. Disponível em: elpais.com.
- KAPAWI ECOLODGE. Páginas institucionais “Our history”, “Our partnership” e “Vision & Mission”.
- EQUATOR INITIATIVE / PNUD. Estudo de caso “Kapawi Eco-lodge and Reserve, Ecuador”.
- The Case of Kapawi. The International Indigenous Policy Journal, v. 6, n. 4, 2015.
- FUNDACIÓN PACHAMAMA. Kapawi Ecolodge recibe grant del Adventure Travel Conservation Fund para energía solar en la Amazonía, out. 2025.
- EL OBSERVADOR (Equador) e GACETA AMAZÓNICA. Kapawi Ecolodge gana premio internacional al turismo sostenible 2025, maio e jun. 2025.
- Coalizão para o Informe Alternativo ao Exame Periódico Universal (ONU), informe sobre povos indígenas do Equador.
- AMAZON WATCH. Ecuador y el petróleo: un desafío para la democracia y la Amazonía, out. 2025.
- MONGABAY LATAM. Pueblos indígenas y expertos cuestionan posible acuerdo de interconexión petrolera entre Perú y Ecuador, ago. 2025.
- FUNAI. Instrução Normativa nº 3/2015; página “Turismo Indígena de Base Comunitária”; Instrução Normativa Conjunta ICMBio/Funai nº 1, de 18 de julho de 2025.
- ICMBIO. Plano de Manejo do Parque Nacional do Pico da Neblina; FOIRN, Parque Nacional do Pico da Neblina: Yaripo, set. 2023; Revista Ecológico e National Geographic Brasil, reportagens sobre o Plano de Visitação Yaripo.
- CENTRO DE TRABALHO INDIGENISTA (CTI). Primeiro plano de visitação em terra indígena fora da Amazônia é lançado pelos Guarani, jun. 2018.
- MAPBIOMAS. Coleção 9: Em 2023, a perda de áreas naturais no Brasil atinge a marca histórica de 33% do território, ago. 2024.
- Turismo em terras indígenas: legislação e direitos humanos. Revista Iberoamericana de Turismo (RITUR), v. 8, n. 2, dez. 2018.