Caderno Sustentabilidade · Amazônia · Povos indígenas

Por Ewerton Lopes · 23 de setembro de 2026 · Leitura de 9 minutos

No sul da Amazônia equatoriana, perto da fronteira com o Peru, um hotel de selva construído com técnicas tradicionais tornou-se um dos argumentos mais citados no debate sobre como financiar a floresta em pé. O Kapawi Ecolodge, localizado na bacia do rio Pastaza, pertence desde 2008 à Nacionalidade Achuar do Equador (NAE) e é hoje operado por comunidades indígenas que decidem quem entra, por onde circula e para onde vai o dinheiro. Um artigo de opinião publicado nesta quarta-feira pelo jornal espanhol El País, assinado por Elias Angeles-Hernandez, recoloca o caso em evidência ao defendê-lo como ferramenta política de defesa territorial1.

A pergunta que interessa ao leitor brasileiro vai além do exotismo de um lodge na selva: um modelo de turismo sob controle indígena consegue competir, em escala e em renda, com a pressão de petróleo, mineração e madeira? E o que o Brasil, que regulamentou a visitação turística em terras indígenas há pouco mais de dez anos, pode aprender com essa trajetória?

Da concessão privada ao controle comunitário

O projeto começou a ser desenhado em 1993, a partir de uma parceria entre o empreendedor equatoriano Daniel Koupermann, a operadora Canodros, sediada em Guayaquil, e a federação que representava os achuar2. O arranjo previa que a empresa construísse e operasse o hotel por cerca de 15 anos, pagando aluguel às comunidades e formando jovens indígenas em gestão, até transferir o negócio integralmente3. O lodge abriu as portas em 1996, e a transferência foi antecipada: desde 1º de janeiro de 2008, a totalidade da propriedade pertence aos achuar2.

A passagem não foi simples. Estudo de caso publicado no International Indigenous Policy Journal descreve a transição como um processo de aprendizado em áreas estranhas à organização social tradicional, como contabilidade, marketing internacional e gestão financeira4. O próprio site institucional do empreendimento reconhece que o principal desafio da propriedade plena foi desenvolver competências empresariais que não faziam parte do repertório da comunidade2. Entre 2017 e 2019, o hotel passou por uma reforma de quase dois anos, acompanhada da criação de uma nova estrutura de gestão achuar2.

Segundo a Fundación Pachamama, parceira histórica do projeto, o Kapawi é hoje propriedade das comunidades de Kapawi, Suwa e Kusutkau5. Os pacotes são vendidos sem intermediários, e o acesso se dá por avião a partir do aeródromo de Shell, na província de Pastaza6.

Uma economia que depende da floresta intacta

O argumento central do texto do El País é que o ecoturismo comunitário inverte a lógica do enclave extrativista: em vez de concentrar lucros e deixar os custos ambientais no território, faz da própria conservação a fonte de renda e de capacidade de decisão1. A equipe do Kapawi usa uma formulação semelhante, ao descrever o objetivo de trocar uma economia de extração por uma economia de prevenção2.

Quando a renda depende de a floresta continuar de pé, conservar deixa de ser custo e passa a ser o próprio ativo do negócio.

Os números disponíveis são modestos, o que ajuda a dimensionar o modelo com realismo. Um estudo de caso da Iniciativa Equador, programa ligado ao Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), registrou à época 32 empregados diretos, dos quais 22 achuar, além de benefícios indiretos para produtores de artesanato e alimentos3. A área em que o ecoturismo funciona como instrumento de conservação ultrapassa 100 mil hectares, segundo o empreendimento2.

Há também uma dimensão energética. Pioneiro no uso de energia solar na Amazônia equatoriana desde a abertura, o Kapawi foi um dos cinco vencedores da rodada de 2025 do Adventure Travel Conservation Fund, cujo apoio, somado a recursos da Pachamama Alliance, financia um segundo sistema fotovoltaico para eliminar combustíveis fósseis da operação e capacitar indígenas na manutenção dos equipamentos5. No mesmo ano, o projeto recebeu o Prêmio Ibero-Americano ao Turismo Sustentável e Social, na categoria voltada a micro, pequenas e médias empresas e comunidades, em cerimônia realizada na Costa Rica6.

A pressão do petróleo no sul da Amazônia equatoriana

O contexto explica a urgência. De acordo com informe apresentado por organizações da sociedade civil ao Exame Periódico Universal da ONU, a NAE reúne 84 comunidades nas províncias de Pastaza e Morona Santiago, com território aproximado de 787 mil hectares e cerca de 7.800 habitantes7. Esse território se sobrepõe a áreas que o Estado equatoriano pretende licitar para exploração de hidrocarbonetos.

Em 2025, o governo de Daniel Noboa lançou a maior rodada petroleira em décadas: segundo a organização Amazon Watch, são 14 blocos que somam 2,3 milhões de hectares e se sobrepõem aos territórios de sete nacionalidades indígenas, entre elas os achuar8. A iniciativa ocorre depois do referendo de 2023 em que a maioria dos equatorianos votou por manter o petróleo do Parque Nacional Yasuní no subsolo, decisão que ambientalistas acusam o governo de não cumprir integralmente8. No mesmo período, a Mongabay Latam noticiou o acordo de cooperação entre as estatais Petroecuador e Petroperú, que prevê interligação de oleodutos com potencial de afetar territórios achuar também do lado peruano da fronteira9.

É nesse cenário que o turismo aparece como argumento econômico, e não apenas cultural, contra a abertura de novas frentes extrativas. A questão que o artigo do El País deixa para governos e financiadores internacionais é por que recursos públicos e privados continuam a sustentar atividades que degradam a Amazônia enquanto iniciativas de conservação operam no limite da precariedade1.

Perda de vegetação nativa no Brasil (1985 a 2023) Percentual da área de vegetação nativa perdida no período Terras Indígenas menos de 1% Áreas privadas 28% Fonte: MapBiomas, Coleção 9 (agosto de 2024). Terras Indígenas cobrem cerca de 13% do território nacional.

No Brasil, os dados de satélite reforçam a associação entre território indígena reconhecido e conservação da vegetação nativa.

E no Brasil? Uma década de turismo regulamentado em terras indígenas

O Brasil tem um dado que sustenta o mesmo raciocínio em escala nacional. Levantamento do MapBiomas divulgado em 2024 mostra que as Terras Indígenas, que ocupam cerca de 13% do território, perderam menos de 1% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2023, contra 28% nas áreas privadas13. A conservação, portanto, já acontece. O que falta, em muitos casos, é uma base econômica própria que reduza a vulnerabilidade das comunidades à cooptação por atividades ilegais.

O marco regulatório brasileiro é relativamente recente. A Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas (PNGATI), de 2012, reconheceu o turismo como atividade produtiva sustentável, e a Instrução Normativa nº 3/2015 da Funai, publicada no Diário Oficial da União em junho de 2015, passou a exigir um Plano de Visitação elaborado a partir da própria comunidade para que atividades turísticas sejam autorizadas10. A norma veda a aprovação de planos em áreas com restrição de uso por presença de povos isolados e permite que a Funai suspenda autorizações a qualquer tempo10. Em julho de 2025, Funai e ICMBio publicaram uma instrução normativa conjunta para disciplinar a visitação em áreas duplamente protegidas, sobrepostas a unidades de conservação federais, e o governo criou um selo de Turismo Indígena de Base Comunitária para certificar iniciativas conformes à regra10.

O caso brasileiro mais próximo do Kapawi talvez seja o Yaripo, nome yanomami do Pico da Neblina, ponto mais alto do país. A visitação havia sido proibida em 2003, após recomendação do Ministério Público Federal, por causa de impactos ambientais e do desrespeito ao território. O plano de visitação construído pelas associações yanomami foi aprovado pelo ICMBio em 2018 e pela Funai em 2019, e as primeiras expedições sob gestão indígena começaram em 202211. Assim como no Equador, a renda do turismo é apresentada explicitamente como alternativa a uma atividade predatória, no caso o garimpo ilegal de ouro11. Fora da Amazônia, os Guarani da Terra Indígena Tenondé Porã, no extremo sul da cidade de São Paulo, lançaram em 2018 o primeiro plano de visitação aprovado fora da região amazônica12.

A diferença em relação ao Kapawi está menos na regra e mais no tempo de maturação. O caso equatoriano soma três décadas de operação, parceria privada com transferência de ativos planejada desde o início e acesso a mercados internacionais de alto valor. No Brasil, a maior parte das iniciativas ainda está na fase de formalização, com operações pequenas e forte dependência de organizações parceiras.

O que está em jogo

A experiência achuar desloca a discussão sobre sustentabilidade do campo técnico para o campo político. Painéis solares e barcos elétricos importam, mas o indicador decisivo, como sustenta o artigo espanhol, é o grau de controle que o povo indígena mantém sobre o próprio território1. Para o Brasil, que sediou a COP30 em Belém e busca liderar o financiamento de florestas tropicais, a lição é direta: reconhecer que quem já conserva precisa de infraestrutura, conectividade, segurança territorial e acesso a crédito, e não apenas de campanhas de promoção turística.

O Kapawi mostra que o modelo pode durar. Mostra também que ele depende de décadas de investimento, parceiros comprometidos e um Estado que não trate o território indígena como reserva de expansão extrativa. Sem essas condições, o turismo comunitário corre o risco de continuar sendo uma boa história contada em premiações internacionais, e não uma política pública.

Perguntas frequentes

O que é o Kapawi Ecolodge?

É um empreendimento de ecoturismo comunitário na Amazônia equatoriana, na província de Pastaza, aberto em 1996 em parceria com a operadora Canodros e integralmente transferido à Nacionalidade Achuar do Equador em 1º de janeiro de 2008. Hoje é propriedade das comunidades achuar de Kapawi, Suwa e Kusutkau.

Quem são os achuar?

São um povo indígena amazônico presente no Equador e no Peru. No lado equatoriano, a Nacionalidade Achuar do Equador reúne cerca de 84 comunidades e aproximadamente 7.800 pessoas em um território de cerca de 787 mil hectares, segundo dados apresentados à ONU por organizações da sociedade civil.

Por que o ecoturismo indígena é visto como estratégia de conservação?

Porque a renda depende da manutenção da floresta, da fauna e da cultura local. Isso cria um incentivo econômico direto para proteger o território e fortalece a capacidade das comunidades de recusar atividades extrativas como petróleo, mineração e extração de madeira.

O turismo em terras indígenas é permitido no Brasil?

Sim. Desde a Instrução Normativa nº 3/2015 da Funai, a visitação turística em Terras Indígenas é permitida quando proposta pelas próprias comunidades e autorizada por meio de um Plano de Visitação. Em áreas sobrepostas a unidades de conservação federais, vale também a instrução normativa conjunta Funai e ICMBio de 2025.

Existe no Brasil algum exemplo parecido com o Kapawi?

O ecoturismo yanomami no Yaripo (Pico da Neblina), no Amazonas, é um dos casos mais citados: gerido por associações indígenas, com plano aprovado por ICMBio e Funai, busca gerar renda como alternativa ao garimpo ilegal. Outro exemplo é o plano de visitação dos Guarani da TI Tenondé Porã, em São Paulo.

Nota de atribuição. Este texto foi produzido a partir da leitura do artigo de opinião “Ecoturismo indígena achuar: resistencia y conservación en la Amazonía”, de Elias Angeles-Hernandez, publicado pelo jornal El País em 23 de setembro de 2026 (link para o original). O conteúdo não é tradução nem reprodução do original: as ideias atribuídas ao autor foram parafraseadas e creditadas, e o texto foi complementado com apuração própria em fontes equatorianas, brasileiras e internacionais listadas abaixo.

Referências

  1. ANGELES-HERNANDEZ, Elias. Ecoturismo indígena achuar: resistencia y conservación en la Amazonía. El País, Planeta Futuro, 23 set. 2026. Disponível em: elpais.com.
  2. KAPAWI ECOLODGE. Páginas institucionais “Our history”, “Our partnership” e “Vision & Mission”.
  3. EQUATOR INITIATIVE / PNUD. Estudo de caso “Kapawi Eco-lodge and Reserve, Ecuador”.
  4. The Case of Kapawi. The International Indigenous Policy Journal, v. 6, n. 4, 2015.
  5. FUNDACIÓN PACHAMAMA. Kapawi Ecolodge recibe grant del Adventure Travel Conservation Fund para energía solar en la Amazonía, out. 2025.
  6. EL OBSERVADOR (Equador) e GACETA AMAZÓNICA. Kapawi Ecolodge gana premio internacional al turismo sostenible 2025, maio e jun. 2025.
  7. Coalizão para o Informe Alternativo ao Exame Periódico Universal (ONU), informe sobre povos indígenas do Equador.
  8. AMAZON WATCH. Ecuador y el petróleo: un desafío para la democracia y la Amazonía, out. 2025.
  9. MONGABAY LATAM. Pueblos indígenas y expertos cuestionan posible acuerdo de interconexión petrolera entre Perú y Ecuador, ago. 2025.
  10. FUNAI. Instrução Normativa nº 3/2015; página “Turismo Indígena de Base Comunitária”; Instrução Normativa Conjunta ICMBio/Funai nº 1, de 18 de julho de 2025.
  11. ICMBIO. Plano de Manejo do Parque Nacional do Pico da Neblina; FOIRN, Parque Nacional do Pico da Neblina: Yaripo, set. 2023; Revista Ecológico e National Geographic Brasil, reportagens sobre o Plano de Visitação Yaripo.
  12. CENTRO DE TRABALHO INDIGENISTA (CTI). Primeiro plano de visitação em terra indígena fora da Amazônia é lançado pelos Guarani, jun. 2018.
  13. MAPBIOMAS. Coleção 9: Em 2023, a perda de áreas naturais no Brasil atinge a marca histórica de 33% do território, ago. 2024.
  14. Turismo em terras indígenas: legislação e direitos humanos. Revista Iberoamericana de Turismo (RITUR), v. 8, n. 2, dez. 2018.