Caderno Política · Europa · Guerra na Ucrânia

Este texto é uma análise original de O Tecido, inspirada na coluna de Gideon Rachman publicada pelo Financial Times em 19 de outubro de 2026. Não se trata de tradução nem reprodução. As ideias atribuídas ao FT estão creditadas ao longo do texto, e os demais dados vêm de fontes independentes indicadas nos links.

Durante quase dois anos, a estratégia europeia diante de Donald Trump teve um nome informal nos corredores de Bruxelas: administrar o humor da Casa Branca. Líderes como o finlandês Alexander Stubb, o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, e a italiana Giorgia Meloni se especializaram em conversar com Trump em particular, elogiar quando possível e corrigir rumos sem confronto público. O título da coluna mais recente de Gideon Rachman no Financial Times, que fala no fim desse "sussurro" a Trump, resume uma constatação que se espalhou pelas capitais europeias em outubro: o método parou de funcionar, e a Europa se prepara para falar diretamente com Vladimir Putin.1

A mudança não é retórica. Segundo o relato da coluna feito pelo site ucraniano The New Voice of Ukraine, Rachman descreve um consenso crescente de que os líderes do continente não podem mais aceitar uma situação em que só os americanos conversam com o Kremlin, com canais já abertos e a possibilidade de um telefonema entre europeus e Putin em breve.2

O gatilho: diesel, sanções e uma relação em colapso

A crise atual tem data de início. Em 9 de outubro, depois de um telefonema com Putin, Trump anunciou que a Rússia colocaria diesel no mercado americano e global em lotes sucessivos, somando cerca de 4,8 milhões de toneladas, segundo a MercoPress.3 Minutos depois, o Departamento do Tesouro emitiu uma licença temporária permitindo transações com diesel de origem russa até 7 de abril de 2027. O anúncio veio enquanto negociadores ucranianos estavam reunidos com os enviados Steve Witkoff e Jared Kushner para discutir uma proposta de fim da guerra, como registrou a Associated Press.4

A motivação declarada foi doméstica. Com o diesel acima de US$ 6 o galão e as eleições de meio de mandato marcadas para novembro, Trump apresentou o acordo como alívio para agricultores, pecuaristas e caminhoneiros. A AFP lembrou que o Partido Republicano corre o risco de perder o controle do Congresso num ambiente de irritação com o custo de vida.5

O gesto contrariou a própria legislação que Trump havia sancionado em setembro, a Lei Lindsey O. Graham de Sanções à Rússia e ao Irã, que lhe dava prazo até 18 de outubro para impor novas sanções e tarifas sobre a energia russa ou dispensá-las por razão de interesse nacional. Uma dúzia de senadores, seis deles republicanos, pediu publicamente a revogação do acordo, segundo a Reuters.6 Na sexta-feira, 16, um decreto presidencial dispensou as sanções antes que entrassem em vigor, de acordo com a CNN.7

Kiev reagiu na mesma moeda. Zelensky, que disse ter se sentido traído, retomou os ataques a refinarias russas, abandonando uma breve trégua energética anunciada por Trump. O americano chamou a ofensiva de "vergonha" e afirmou à Newsmax que Zelensky era mais difícil de lidar do que Putin. O Kremlin aproveitou: o porta-voz Dmitri Peskov disse estar de acordo com Trump sobre a suposta falta de disposição ucraniana para a paz. No domingo, 18, drones ucranianos atingiram um terminal de petróleo em São Petersburgo, numa escalada descrita pela CNN como desafio aberto ao presidente americano.8

A Europa descobriu que pode financiar a guerra sem ter voz na negociação que vai encerrá-la. É essa assimetria que as capitais agora tentam corrigir.

Bruxelas: unidade com Zelensky, desconforto com Washington

Na cúpula da União Europeia em Bruxelas, em 16 de outubro, Zelensky pediu aos 27 que mantenham o financiamento ucraniano com quase US$ 80 bilhões adicionais em 2027 e elogiou os "verdadeiros líderes" europeus, numa alfinetada pouco velada a Trump, segundo a France 24.9 O bloco já havia aprovado um empréstimo de € 90 bilhões a Kiev, financiado por dívida conjunta.

O dado revela o centro do problema. A Europa se tornou a principal financiadora da resistência ucraniana, mas a negociação sobre o fim da guerra corre por um canal bilateral entre Washington e Moscou, no qual os europeus são informados depois. O acordo do diesel, fechado sem consulta aos aliados, deixou essa dependência exposta.

Uma ideia antiga que ganhou urgência

Conversar com Putin não é proposta nova. Em junho de 2021, a União Europeia rejeitou um apelo de Angela Merkel e Emmanuel Macron para uma cúpula formal com o líder russo, diante da oposição de países do Leste, como relatou a Bloomberg.10 Após a invasão de 2022, o tema virou tabu.

Em janeiro de 2026, Macron e Meloni reabriram a discussão. A italiana sugeriu um enviado especial que falasse em nome dos 27, para evitar "vozes demais", segundo a Euronews.11 Em maio, chanceleres reunidos em Limassol, no Chipre, discutiram o perfil desse enviado, e Stubb apareceu como nome de consenso possível por sua proximidade com Zelensky, de acordo com o Irish Times.12 Faltava, e ainda falta, definir o mandato.

Os dois caminhos sobre a mesa

A coluna do FT antecipa o que os europeus poderiam levar a Putin. Pelo relato do NV, a primeira alternativa seria congelar o conflito na atual linha de controle, com a garantia de que a Ucrânia jamais entraria na Otan. A segunda, segundo a ex-porta-voz de Zelensky Iuliia Mendel, que resumiu o texto em suas redes, envolveria a cessão do Donbas à Rússia em troca da adesão ucraniana à aliança.2 Rachman registra que os próprios europeus duvidam que o Kremlin aceite qualquer das duas, mas consideram essencial começar a conversar.1

A lógica é de posicionamento. Hoje a Rússia ocupa cerca de um quinto do território ucraniano. Um eventual encontro entre Trump, Putin e Xi Jinping está em discussão para a cúpula da APEC em Shenzhen, nos dias 18 e 19 de novembro, segundo o Kyiv Independent.13 Se esse formato prosperar, a Europa corre o risco de ver os termos da paz no continente serem discutidos por três potências das quais nenhuma é europeia.

Contraponto

Os argumentos contra a conversa direta

A abertura de canais com Moscou está longe de ser unânime. A alta representante da UE para política externa, Kaja Kallas, sustenta que a Europa não deve se colocar como parte que pede diálogo e que a energia do bloco deveria ir para o enfraquecimento da máquina de guerra russa. Países bálticos e do Leste temem que o gesto legitime um governante acusado de crimes de guerra sem nenhuma concessão em troca.

Há também o argumento da eficácia. A primeira-ministra da Letônia, Evika Siliņa, perguntou em fevereiro, em declaração à Euronews, por que os russos se dariam ao trabalho de falar com os europeus se acreditam obter dos americanos seus objetivos máximos.14 E Washington tem sua versão dos fatos: o secretário do Tesouro, Scott Bessent, defendeu o acordo do diesel como benéfico aos americanos, e Trump atribui parte da alta dos combustíveis aos ataques ucranianos contra refinarias russas.

O que muda para o Brasil

A crise toca o Brasil por um canal concreto: o tanque de combustível. Com a guerra no Oriente Médio e as restrições no Estreito de Ormuz, a Rússia se tornou em 2026 a maior fornecedora de diesel importado pelo país. Em março e abril, o Brasil importou US$ 1,76 bilhão em diesel, dos quais 81,25% vieram da Rússia; só em abril, a fatia chegou a 89,84%, segundo dados do Comex Stat compilados pela Datamar News a partir da Agência Brasil.15 Para conter os preços, o governo federal liberou R$ 10 bilhões em subvenções e zerou PIS e Cofins sobre o combustível.

PARTICIPAÇÃO NO VALOR IMPORTADO (MAR–ABR/2026) Rússia 81,3% EUA 6,4% Demais 12,3%
Fonte: Comex Stat/MDIC, via Agência Brasil e Datamar News. "Demais" calculado por diferença.

O alívio americano das sanções tem dois efeitos possíveis para o comprador brasileiro. De um lado, reduz o risco jurídico de operar com diesel russo, que até aqui chegava sobretudo por distribuidoras regionais, como mostrou a eixos.16 De outro, coloca os próprios Estados Unidos e outros compradores na disputa pelo mesmo produto, um risco que o pesquisador João Victor Marques, da FGV Energia, já apontava em março ao lembrar a corrida asiática por derivados russos. Há ainda uma ironia política: a compra de diesel russo, que rendeu críticas ao Brasil, passa a ser praticada pela própria Casa Branca.

No plano diplomático, o Itamaraty condena a invasão, mas evita aderir às sanções unilaterais americanas e europeias, como registrou a Itatiaia.17 Em junho, à margem do G7 em Évian, na França, Zelensky aceitou a oferta de Lula de ajudar na negociação, segundo a Reuters, via CNN Brasil.18 O Brasil também coordena com a China o chamado Grupo de Amigos da Paz.

A entrada da Europa como interlocutora direta de Moscou altera esse tabuleiro. Ela dá razão, em parte, à tese brasileira de que a paz exige conversar com todas as partes, algo que Brasília defende desde 2023. Mas também lota a mesa: com Washington, Pequim e agora Bruxelas disputando o papel de mediador, sobra menos espaço para iniciativas do Sul Global. O teste para a diplomacia brasileira será transformar a convergência de discurso em função prática, seja como ponte com Pequim, seja como voz de países que pagam a conta da guerra pelo preço da energia.

O que observar nas próximas semanas

Três sinais vão indicar se a virada europeia é real. O primeiro é a escolha de um negociador com mandato aprovado pelos 27, algo que o bloco discute há dez meses sem conclusão. O segundo é a eventual ligação entre líderes europeus e Putin, mencionada pelo FT como possível em breve. O terceiro é Shenzhen: se Trump, Putin e Xi se reunirem em novembro, a Europa terá chegado antes ou depois à conversa que define o futuro do próprio continente.

A lição desta quinzena é menos sobre Trump do que sobre a arquitetura de segurança europeia. Por décadas, o continente terceirizou para Washington tanto a dissuasão quanto a diplomacia de alto nível com Moscou. O fim dos sussurros é, no fundo, o reconhecimento de que essa terceirização acabou, e de que ninguém ainda sabe muito bem o que colocar no lugar.

Perguntas frequentes

Por que a Europa quer falar diretamente com Putin agora?

Porque a mediação americana estagnou e Washington tomou decisões contrárias aos interesses europeus, como o alívio das sanções sobre o diesel russo em 9 de outubro de 2026. Segundo Gideon Rachman, no Financial Times, cresce o consenso de que não é aceitável que só os americanos conversem com o Kremlin.

O que foi o acordo do diesel entre Trump e Putin?

Trump anunciou que a Rússia enviaria cerca de 4,8 milhões de toneladas de diesel ao mercado global em etapas. O Tesouro americano emitiu licença temporária, válida até 7 de abril de 2027, para transações com diesel de origem russa.

Quais propostas de paz a Europa poderia apresentar?

Segundo a coluna do FT, dois caminhos estariam em discussão: congelar o conflito na linha atual com garantia de não adesão da Ucrânia à Otan, ou uma troca envolvendo o Donbas em contrapartida à entrada ucraniana na aliança.

Como a crise afeta o Brasil?

A Rússia é a principal fornecedora de diesel importado pelo Brasil em 2026, com quase 90% das importações em abril. Mudanças nas sanções afetam preço e concorrência. Na diplomacia, o Brasil oferece mediação e defende negociação direta entre as partes.

Quem seria o negociador europeu?

Ainda não há definição. Kaja Kallas e Alexander Stubb foram citados na imprensa ao longo de 2026, mas os 27 não fecharam mandato nem objetivos para um enviado especial.

Referências
  1. RACHMAN, Gideon. Zelenskyy, Europe and the end of Trump whispering. Financial Times, 19 out. 2026. https://www.ft.com/content/92f271fd-f96c-4723-91f2-48363b98127f
  2. The New Voice of Ukraine. FT: Europe may talk directly with Putin as Trump fades. 20 out. 2026.
  3. MercoPress. Trump says Russia will supply millions of tonnes of diesel as US eases sanctions on Moscow. 9 out. 2026.
  4. Associated Press, via Deccan Chronicle. Trump announces Russian diesel deal as US eases fuel sanctions. 10 out. 2026.
  5. AFP, via Kuwait Times. Trump hails Russian diesel deal as midterms loom. Out. 2026.
  6. Reuters, via GV Wire. 'Gift to our adversary': more Republicans criticize Trump's Russia diesel deal. 13 out. 2026.
  7. CNN. Trump waives Russia-related sanctions before they kick in. 16 out. 2026.
  8. CNN. Trump slams Zelensky after Ukraine defies US president with major attack on Russia. 18 out. 2026.
  9. France 24 / AFP. Zelensky turns to Europe for backing as ties with Trump deteriorate. 16 out. 2026.
  10. Bloomberg. EU rejects Merkel-Macron call for leaders' talks with Putin. 24 jun. 2021.
  11. Euronews. Putin should make concessions before direct talks with Europe, says Kallas. 29 jan. 2026.
  12. The Irish Times. EU moves toward idea of talking to Russia but needs to decide on envoy and mandate. 21 mai. 2026.
  13. The Kyiv Independent. Kremlin signals possible three-way meeting at APEC summit between Putin, Trump, Xi. Set. 2026.
  14. Euronews. Should the EU speak directly with Putin? Leaders agree to disagree, for now. 10 fev. 2026.
  15. Datamar News / Agência Brasil. Russia dominates diesel sales to Brazil amid Iran war. 12 mai. 2026.
  16. eixos. Diesel russo responde por dois terços das importações brasileiras. 2026.
  17. Itatiaia. Lula volta a defender via diplomática em encontro com Zelensky sobre guerra na Ucrânia.
  18. CNN Brasil / Reuters. Ucrânia aceita proposta de Lula de ajuda para negociar paz, diz assessor. Jun. 2026.