Em uma loja da fabricante chinesa de drones DJI, em Shenzhen, a turista britânica Annabel Grainger fotografava produtos para mostrar aos amigos na volta para casa. A cena, hoje comum na cidade do sul da China, resume um fenômeno que passou a atrair engenheiros, compradores e investidores de todo o mundo: o casamento entre inteligência artificial e manufatura em escala industrial, batizado por analistas locais de "Made in China" turbinado por IA.
Shenzhen, na província de Guangdong, consolidou-se como um dos principais polos tecnológicos do planeta. Óculos com IA, impressoras 3D inteligentes, robôs, drones e câmeras estabilizadas por software viraram atração recorrente em redes como Instagram e TikTok, segundo reportagem da agência Xinhua publicada pelo jornal chinês People's Daily.
O epicentro em Huaqiangbei
O bairro de Huaqiangbei, tradicional mercado de eletrônicos da cidade, recebe em média quase 8 mil compradores estrangeiros por dia neste ano. Entre janeiro e julho, as vendas de produtos com IA no distrito cresceram mais de 55% na comparação anual. Óculos inteligentes dobraram em vendas, enquanto drones e robôs avançaram entre 60% e 70% no período, de acordo com a mesma reportagem.
Segundo especialistas do setor citados pela publicação, o diferencial de Shenzhen está na densidade da cadeia produtiva local, que reúne desde o desenvolvimento de chips de IA até a montagem final de agentes autônomos e testes de campo, tudo dentro do mesmo perímetro urbano.
O relato ilustra o que executivos locais chamam de vantagem estrutural da cidade. Leng Xiaokun, fundador da Leju Robotics, contou à reportagem que é possível reunir fornecedores e fechar um acordo de cooperação em menos de um dia. A empresa afirma ter alcançado taxa de nacionalização de 95% nos componentes centrais de sua linha de robôs humanoides Kuafu, o que reduziria custos e encurtaria o tempo até o lançamento comercial.
Capital paciente e fundos públicos
Para sustentar pesquisas que não geram retorno imediato, como algoritmos e componentes fundamentais de robótica, o distrito de Nanshan, em Shenzhen, criou um fundo semente e um fundo anjo somando 500 milhões de yuans, cerca de 73,7 milhões de dólares, voltados a empresas em estágio inicial. Leng descreveu esse tipo de aporte como uma garantia para avanços tecnológicos que costumam levar anos para amadurecer.
A cidade também firmou parcerias internacionais, incluindo uma plataforma de verificação transfronteiriça de dados com Singapura, ainda em operação piloto, criada para lidar com o fluxo seguro de informações usadas por sistemas de IA.
China em números
O ecossistema nacional de IA já é robusto: o país tinha mais de 6 mil empresas do setor no ano passado, com valor de produção do núcleo da indústria projetado acima de 1,2 trilhão de yuans, alta de quase 30% na comparação anual. No segmento de robótica humanoide, a China concentrou mais de 140 fabricantes em 2025, com embarques de 14.400 unidades, o equivalente a 84,7% do mercado global, segundo dados citados na reportagem original.
Levantamentos independentes reforçam essa liderança. A consultoria Omdia estimou em cerca de 13 mil unidades o total de robôs humanoides embarcados globalmente em 2025, com a AgiBot, de Xangai, na liderança isolada com 39% de participação, seguida por Unitree e UBTECH. Já a Barclays calculou que a China respondeu por 85% do uso mundial de robôs humanoides no mesmo ano, e dados do setor mostram que, no primeiro semestre de 2026, a fatia chinesa nos embarques globais superou 97%, com o volume total crescendo 272% na comparação anual.
O que isso significa para o Brasil
O avanço chinês em hardware com IA já tem efeito direto no mercado brasileiro, especialmente no campo. Levantamento feito a partir da base pública da Agência Nacional de Aviação Civil identificou 13.224 drones agrícolas cadastrados no Brasil em agosto deste ano, dos quais 83,9% eram da DJI e 9,1% da também chinesa XAG. Juntas, as duas fabricantes respondem por cerca de 93% dos equipamentos registrados no país.
A projeção da brasileira Xmobots é que esse mercado movimente mais de R$ 2 bilhões em 2026, com a ativação de mais de 11 mil novas unidades, alta de 38% ante 2025. A demanda por equipamentos DJI no Brasil, segundo a própria fabricante, cresceu mais de 30 vezes entre 2021 e 2026, impulsionada principalmente pela linha agrícola Agras.
No plano macro, o setor de tecnologia brasileiro também aposta fichas em IA. Relatório da Brasscom projeta investimentos de até R$ 736,6 bilhões em inteligência artificial no país entre 2026 e 2029, com crescimento médio anual de 20%, dentro de um pacote de R$ 2 trilhões previstos para tecnologias digitais no período.
Nem tudo é linear nessa expansão. Em agosto, a China endureceu restrições à exportação de drones e peças para os Estados Unidos, resposta ao banimento imposto pela FCC contra DJI e Autel. Embora a medida não atinja diretamente as importações brasileiras, que seguem trâmites próprios via Anac, Decea e Anatel, ela expõe uma dependência: motores, baterias, transmissores e módulos de navegação usados por marcas vendidas no Brasil vêm, em grande parte, das mesmas linhas de produção chinesas afetadas por essas disputas comerciais. Analistas do setor também apontam que a alta concentração da produção mundial de robôs humanoides em poucos fabricantes chineses cria um cenário de dependência tecnológica que preocupa reguladores em outros países, ao mesmo tempo em que mais de 150 fabricantes disputam o mercado interno chinês, o que já gera receio de saturação e de margens cada vez mais apertadas mesmo entre as próprias empresas do país.
O desafio da homologação no Brasil
Para o consumidor brasileiro, a entrada de hardware chinês com IA embarcada esbarra em exigências regulatórias específicas. Drones comercializados oficialmente no país já saem homologados pela Anatel, mas equipamentos importados de forma paralela dependem de comprovante de compra internacional (invoice) para passar pelo processo, hoje gratuito e realizado on-line. Sem esse documento, a homologação não é possível, o que tem gerado dor de cabeça para quem compra em marketplaces com produtos de origem incerta.
Um modelo de manufatura difícil de replicar
A combinação entre cluster industrial denso, capital público paciente e testagem rápida em ambiente real é apontada por especialistas como o principal diferencial competitivo de Shenzhen frente a concorrentes ocidentais. Para o Brasil, o resultado prático já aparece nas fazendas que usam drones chineses e no volume crescente de investimento nacional em inteligência artificial, ainda que desafios regulatórios e de dependência de cadeia produtiva sigam no radar de quem acompanha o setor de perto.
Perguntas frequentes
Por que Shenzhen é considerada líder mundial em hardware com IA?
A cidade concentra uma cadeia produtiva completa, do chip ao produto final, permitindo prototipagem em horas e redução expressiva de custos, segundo relatos de engenheiros e empresários locais colhidos pela agência Xinhua.
Qual a participação chinesa no mercado global de robôs humanoides?
Estimativas variam entre 75% e mais de 97% dos embarques globais em diferentes períodos analisados, com fabricantes como AgiBot e Unitree entre os líderes mundiais em volume.
Drones chineses dominam o mercado brasileiro?
Sim. Dados oficiais da Anac mostram que DJI e XAG respondem por cerca de 93% dos drones agrícolas registrados no Brasil em 2026.
As restrições dos EUA a drones chineses afetam o Brasil?
Não diretamente, já que a importação brasileira segue regras próprias via Anac, Decea e Anatel. No entanto, a disputa pode pressionar preços de componentes e peças de reposição globalmente.
Quanto o Brasil deve investir em inteligência artificial até 2029?
Segundo a Brasscom, o país deve receber até R$ 736,6 bilhões em investimentos em IA entre 2026 e 2029, dentro de um total de R$ 2 trilhões destinados a tecnologias digitais.
Referências
- People's Daily / Xinhua. "AI-powered 'Made in China' sharpens global appeal in tech hub." Disponível em: https://en.people.cn/n3/2026/0908/c90000-20497252.html
- Levantamento sobre drones agrícolas chineses no Brasil, com base em dados do SISANT/Anac, publicado pelo Brasil de Fato.
- Reportagens sobre liderança chinesa em robótica humanoide e participação de mercado, publicadas pela revista Exame, com base em relatórios da Omdia e do Barclays.
- Relatório Setorial 2025 do Macrossetor de TIC, divulgado pela Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação).
- Reportagem sobre restrições chinesas à exportação de drones para os Estados Unidos e seus efeitos no mercado brasileiro, publicada pelo site PickDrones.