Caderno Tecnologia O TECIDO · Jornalismo cívico e participativo

Falar está deixando de ser uma alternativa e virando o caminho principal para conversar com a inteligência artificial. É essa a aposta que OpenAI e Google fazem neste momento, investindo pesado em sistemas de voz que soam menos como robôs lendo um roteiro e mais como um colega que entende contexto e intenção. A mudança, relatada pelo Financial Times em reportagem publicada nesta semana, aparece em meio a uma demanda crescente de consumidores e empresas e marca uma ruptura com os assistentes de voz de gerações anteriores, que convertiam fala em texto, geravam uma resposta e depois a liam em voz alta — um processo cheio de atrasos e falhas de naturalidade[1].

Os modelos mais recentes processam e produzem áudio diretamente, sem passar por essa tradução intermediária, o que reduz a latência e os erros de tom que faziam os assistentes soarem mecânicos. Segundo a reportagem, o Google afirma que o uso de voz em tempo real dobrou entre abril do ano passado e abril deste ano, com conversas em média cinco vezes mais longas do que as feitas por texto. Já a OpenAI diz que mais de 150 milhões de pessoas usam recursos de voz no ChatGPT toda semana[1].

A aposta das duas empresas é que, à medida que os sistemas de IA deixam de apenas responder perguntas e passam a executar tarefas mais longas e complexas, falar se tornará mais natural do que digitar comandos em uma caixa de texto. A OpenAI lançou na semana passada o GPT-Live, seu primeiro modelo de voz em dois anos, batizado no Brasil de ChatGPT Voice reformulado, que escuta e responde ao mesmo tempo, sem as pausas abruptas de versões anteriores[2].

"As pessoas adoram usar a voz para fazer perguntas. É simplesmente bom para esse tipo de conversa humana, de ida e volta. O texto também é ótimo, mas digitar dá muito mais trabalho." Atty Eleti, líder de produto de voz do ChatGPT na OpenAI, em entrevista ao Financial Times

O Brasil está no centro dessa mudança, mesmo sem aparecer na reportagem original. Levantamento da agência Cadastra em parceria com a Similarweb, divulgado em novembro de 2025, mostra que o ChatGPT registrou mais de 310 milhões de acessos no país em agosto daquele ano, crescimento de cerca de 125% em doze meses, e que a ferramenta concentra praticamente todo o tráfego de inteligência artificial generativa por aqui. O país já é, segundo esse levantamento, o terceiro maior mercado do ChatGPT no mundo, atrás apenas de Estados Unidos e Índia[3]. O GPT-Live chegou ao público brasileiro em julho, com suporte a português e melhorias na compreensão de pausas e interrupções durante a conversa[2].

Há, no caso brasileiro, uma camada adicional que a corrida tecnológica das grandes empresas não costuma discutir com a mesma ênfase: a voz como ferramenta de inclusão. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), quase 30% da população entre 15 e 64 anos ainda enfrenta analfabetismo funcional no país, mesmo sabendo ler e escrever, apresenta dificuldade para interpretar textos, fazer cálculos ou usar ferramentas digitais no dia a dia[4]. Para essa parcela da população, e para os 18,6 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência apontados pelo IBGE e pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, interfaces de voz já vêm sendo estudadas como caminho de acesso à tecnologia que dispensa a leitura como pré-requisito[5].

Pesquisas acadêmicas brasileiras reforçam esse potencial. Estudo publicado pela Sociedade Brasileira de Computação descreve casos de uso de assistentes de voz por pessoas não alfabetizadas e por pessoas com limitações cognitivas, visuais, auditivas ou motoras, apontando a tecnologia como suporte à educação inclusiva e à autonomia de idosos[6]. Reportagem do Jornal do Brasil sobre acessibilidade digital chega a conclusão semelhante, descrevendo a conversão de texto em voz como alternativa eficiente à leitura em contextos de baixa alfabetização ou multitarefa, embora reconheça que o Brasil ainda está atrasado na formação especializada em tecnologia assistiva[7].

Contraponto

Nem todo mundo concorda que falar com máquinas é, de fato, mais natural. A própria reportagem do Financial Times reconhece o desconforto social de conversar com um assistente em público, os ruídos de fundo que ainda confundem os sistemas e a lentidão que marcou versões anteriores dos modelos de voz. Startups do Vale do Silício têm investido em microfones de lapela, protetores bucais equipados com sensores e até anéis que captam apenas a voz do usuário, numa tentativa de contornar esses atritos, o que sugere que o problema está longe de resolvido[1].

No caso brasileiro, especialistas em acessibilidade digital também apontam limites: cada usuário com deficiência exige um tipo distinto de comando e resposta, e a tecnologia ainda tem dificuldade para reconhecer vozes de pessoas com fala mais lenta ou gagueira, segundo pesquisa da Bitniks sobre assistentes de voz e inclusão[8]. Há ainda a questão da infraestrutura: recursos de voz em tempo real dependem de conexão estável, algo que não é garantido em todas as regiões do país, o que pode transformar uma ferramenta pensada para reduzir desigualdades em mais um fator de exclusão digital.

Do ponto de vista de mercado, o investimento segue crescendo. Segundo dados da PitchBook citados pelo Financial Times, o aporte de capital de risco em startups de voz por IA saltou para US$ 7 bilhões no primeiro trimestre deste ano, ante pouco menos de US$ 1 bilhão no mesmo período do ano anterior[1]. A OpenAI, segundo a reportagem, também prepara para o início do próximo ano seu primeiro dispositivo físico, um assistente de voz ambiente com câmera, microfone e alto-falante[1].

Se a aposta das grandes empresas se confirmar, o efeito no Brasil pode ir além da conveniência de não precisar digitar. Em um país onde quase um terço da população adulta tem dificuldade para lidar com texto escrito e onde milhões de pessoas convivem com alguma deficiência, a corrida por uma IA que ouve e responde em tempo real carrega o potencial de ampliar o acesso à tecnologia, desde que essas mesmas ferramentas cheguem de fato a quem mais precisa delas, e não apenas a quem já está mais conectado.

Esta reportagem foi produzida com apuração independente a partir de fontes brasileiras e internacionais. A reportagem original que motivou este texto, "Talk, don't type: Big Tech bets AI's future will be spoken", de Cristina Criddle, foi publicada pelo Financial Times e não é reproduzida integralmente nem traduzida na íntegra aqui, apenas citada com atribuição.

Nesta reportagem

  1. A virada das grandes techs para a voz
  2. O que muda com o GPT-Live
  3. O Brasil, terceiro maior mercado do ChatGPT
  4. Voz como ferramenta de inclusão
  5. Contraponto: ruído, desconforto e infraestrutura
  6. Para onde vai o investimento

Em números

150M+
pessoas usam recursos de voz no ChatGPT semanalmente, segundo a OpenAI[1]
310M+
acessos ao ChatGPT registrados no Brasil em agosto de 2025[3]
posição do Brasil entre os maiores mercados globais do ChatGPT[3]
US$ 7bi
investido em startups de voz por IA no 1º trimestre de 2026[1]
30%
dos brasileiros de 15 a 64 anos enfrentam analfabetismo funcional[4]
18,6M
de brasileiros vivem com algum tipo de deficiência, segundo IBGE/MDHC[5]

Linha do tempo

  • 2011Apple lança a Siri, popularizando assistentes de voz em smartphones.
  • 2014Amazon apresenta a Alexa e os primeiros alto-falantes inteligentes.
  • Mai. 2024OpenAI mostra o Advanced Voice Mode do GPT-4o em demonstração ao vivo[9].
  • Nov. 2025ChatGPT ultrapassa 310 milhões de acessos mensais no Brasil[3].
  • Jul. 2026OpenAI lança o GPT-Live, com escuta e resposta simultâneas[2].

Glossário

Voice AI
Sistemas de inteligência artificial que processam e geram fala diretamente, sem etapa intermediária de conversão para texto.
Latência
Tempo de atraso entre o comando falado e a resposta do sistema; quanto menor, mais natural soa a conversa.
STT / TTS
Speech-to-text (fala para texto) e text-to-speech (texto para fala), as duas conversões que os modelos mais antigos precisavam fazer separadamente.
Tecnologia assistiva
Recursos, equipamentos ou softwares que ampliam a autonomia de pessoas com deficiência ou dificuldades de leitura e escrita.

Referências

  1. Cristina Criddle, "Talk, don't type: Big Tech bets AI's future will be spoken", Financial Times, 2026. ft.com
  2. "Novo ChatGPT Voice ouve e responde ao mesmo tempo; veja como", Olhar Digital, jul. 2026. olhardigital.com.br
  3. "O mercado brasileiro de AI Search em 2026", com dados Cadastra/Similarweb, Tropk, 2026. blog.tropk.ai
  4. Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), edição 2024. alfabetismofuncional.org.br
  5. IBGE / Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, dados da PNAD 2022 sobre pessoas com deficiência no Brasil.
  6. "Acessibilidade e assistentes de voz: da pesquisa científica até a indústria", Horizontes — Sociedade Brasileira de Computação. horizontes.sbc.org.br
  7. "Como a tecnologia de voz está transformando a acessibilidade digital", Jornal do Brasil, 2025. jb.com.br
  8. "Como assistentes de voz se tornaram aliados de pessoas com deficiência", Bitniks, 2021. bitniks.com.br
  9. "OpenAI releases ChatGPT's super realistic voice feature", TechCrunch, jul. 2024. techcrunch.com