Uma coluna de opinião publicada no jornal quebequense La Presse reacendeu, nas últimas semanas, um debate que a economia convencional prefere tratar como encerrado: existe vida depois do capitalismo? A autora do texto, a etnóloga e escritora indígena Isabelle Picard, não é economista de formação, e é justamente esse deslocamento de olhar, o de quem observa o sistema de fora da mesa de especialistas, que dá à sua reflexão um contorno pouco comum para o gênero opinativo1. Ela recorre a um livro específico, publicado no Canadá em 2023, para sustentar a tese de que o modelo econômico dominante desde a Revolução Industrial já não é capaz de responder às urgências ecológicas e sociais do presente.
A obra citada é Construire l'économie postcapitaliste ("Construir a economia pós-capitalista"), assinada pelos pesquisadores canadenses Audrey Laurin-Lamothe, Frédéric Legault e Simon Tremblay-Pepin, publicada pela editora Lux em 20232. O livro não propõe um manifesto retórico contra o mercado, mas um exercício de arquitetura institucional: como organizar, na prática, a alocação de recursos, os investimentos de grande escala e a distribuição de renda sem depender do que os autores consideram uma característica estrutural do capitalismo, a ausência de planejamento democrático sobre o próprio futuro coletivo.
Um sistema com data de validade?
O argumento de Picard parte de um dado que costuma ser esquecido em discussões sobre capitalismo: sua juventude histórica. Contado a partir da Revolução Industrial, o modelo tem cerca de 250 anos, uma fração mínima diante da história humana. A autora reconhece os ganhos materiais associados a essa fase, como o aumento da expectativa de vida e o acesso a conforto tecnológico, mas questiona se o ritmo de consumo e substituição de bens (trocar de carro a cada poucos anos, renovar aparelhos que ainda funcionam) reflete necessidade ou apenas inércia de um sistema que depende de crescimento contínuo para se manter.
Essa crítica não é isolada. Ela dialoga com um campo de pensamento que ganhou tração acadêmica na última década, o do decrescimento (degrowth), que argumenta que economias organizadas em torno da expansão permanente do PIB são estruturalmente incompatíveis com os limites físicos do planeta. O diferencial do livro de Laurin-Lamothe, Legault e Tremblay-Pepin, segundo resenhas publicadas em periódicos acadêmicos canadenses, é sair do campo do diagnóstico para mapear modelos concretos, historicamente testados ou teoricamente desenvolvidos, de organização econômica alternativa3.
Quatro caminhos, um fio condutor
Os três autores estruturam a obra em torno de quatro grandes modelos de planejamento democrático da economia. Dois deles recebem destaque na leitura de Picard: a coordenação negociada entre indivíduo e coletivo, que busca equilibrar autonomia pessoal com decisões econômicas tomadas em conjunto, e a economia participativa, um arcabouço que prevê a definição coletiva de prioridades de investimento, impacto ambiental e distribuição de renda antes que essas decisões sejam deixadas a mercados financeiros.
É nesse ponto que a coluna de Picard faz sua contribuição mais original ao debate: ela aproxima esses modelos teóricos de estruturas de decisão observadas em confederações indígenas norte-americanas anteriores ao contato colonial, marcadas por decisões coletivas orientadas ao consenso e por uma economia social organizada em lógica circular. A autora sugere que descartar esses modelos como "arcaicos" pode ter custado tempo valioso a sociedades que hoje buscam, de outros pontos de partida teóricos, o mesmo horizonte de planejamento coletivo.
Contexto: o que diz a literatura sobre planejamento democrático
Fora do livro, autores como Nick Srnicek e Alex Williams, em Inventing the Future, e economistas ligados à tradição da economia ecológica têm defendido variações do mesmo argumento central: a transição pós-capitalista não depende de uma ruptura revolucionária única, mas da expansão gradual de instituições de planejamento coletivo (cooperativas, fundos públicos de investimento, orçamentos participativos) que já operam, em escala menor, dentro do próprio sistema atual4.
O que o Brasil já pratica sem chamar de pós-capitalismo
A discussão levantada por Picard ganha um contorno particular quando observada a partir do Brasil, onde a desigualdade voltou a crescer em 2025 após três anos de estabilidade ou queda. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE, o índice de Gini da renda domiciliar per capita subiu de 0,504 em 2024 para 0,511 em 2025, revertendo a menor marca da série histórica iniciada em 20125. Entre os 10% mais ricos, a renda média cresceu 8,7% no período, contra 3,1% entre os 10% mais pobres, e o 1% do topo da pirâmide alcançou renda média mensal de R$ 24.973, alta de 9,9% em relação ao ano anterior.
O que muitas vezes escapa ao noticiário econômico é que o Brasil também abriga, há duas décadas, uma rede institucionalizada de economia solidária, um campo próximo, ainda que não idêntico, ao que o livro canadense descreve como economia participativa. O Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária, coordenado originalmente pela extinta Secretaria Nacional de Economia Solidária, mapeou cerca de 19.708 empreendimentos coletivos no segundo levantamento nacional (2009 a 2013), organizados majoritariamente como cooperativas e associações, com forte presença da agricultura familiar6. São estruturas que operam com autogestão, precificação coletiva e prioridade à permanência do trabalhador sobre a maximização do lucro, princípios que ecoam diretamente a "coordenação negociada" descrita por Laurin-Lamothe, Legault e Tremblay-Pepin.
Contraponto
Nem todo economista concorda que o capitalismo esteja esgotado ou que modelos de planejamento democrático sejam escaláveis para economias nacionais complexas. Defensores da economia de mercado argumentam que, apesar de suas distorções, o capitalismo permanece o sistema com melhor histórico comprovado de redução da pobreza absoluta em escala global nas últimas quatro décadas, e que experiências de planejamento centralizado no século XX (não citadas como referência pelos próprios autores do livro) resultaram em ineficiências severas de alocação de recursos.
Para essa corrente, o caminho mais realista não é substituir o capitalismo, mas regulá-lo com mais rigor, taxando renda e patrimônio de forma progressiva e fortalecendo redes de proteção social, sem abandonar o mecanismo de preços de mercado como instrumento de coordenação econômica.
Construire l'économie postcapitaliste
Audrey Laurin-Lamothe, Frédéric Legault e Simon Tremblay-Pepin
Lux Éditeur, 2023
Este é um link de afiliado. A obra está disponível originalmente em francês.
A leitura conjunta dos dois cenários, o ensaio teórico canadense e o dado concreto brasileiro, sugere algo mais modesto do que uma revolução: a possibilidade de que estruturas econômicas alternativas já existam em escala fragmentada, sem que o debate público as reconheça como parte de um mesmo projeto de planejamento democrático. A pergunta que Picard deixa em aberto, sobre por onde começar a mudança, talvez já tenha uma resposta parcial nesses arranjos que operam à margem do noticiário econômico.
Perguntas frequentes
O que defende o livro Construir a economia pós-capitalista?
A obra, de Audrey Laurin-Lamothe, Frédéric Legault e Simon Tremblay-Pepin (Lux, 2023), analisa quatro modelos teóricos e históricos de planejamento democrático da economia como alternativas ao capitalismo, com destaque para a coordenação negociada entre indivíduo e coletivo e para a economia participativa.
O que é decrescimento (degrowth) em economia?
É uma corrente de pensamento que propõe reduzir deliberadamente o consumo de recursos e a produção material em economias de alta renda, argumentando que o crescimento contínuo do PIB é incompatível com os limites ecológicos do planeta.
O Brasil tem experiências de economia pós-capitalista?
O país mantém, desde os anos 2000, uma rede mapeada de economia solidária com quase 20 mil empreendimentos coletivos (cooperativas e associações), que operam sob autogestão e distribuição coletiva de renda, em paralelo à economia de mercado tradicional.
A desigualdade no Brasil está aumentando?
Sim. Segundo o IBGE, o índice de Gini da renda per capita brasileira subiu de 0,504 em 2024 para 0,511 em 2025, interrompendo três anos de queda ou estabilidade, mesmo com recordes de renda média e emprego.