Caderno Política · Estados Unidos · Direitos Humanos
O fato: o Departamento de Defesa dos EUA anunciou que a execução por fuzilamento de Nidal Malik Hasan, autor do massacre de Fort Hood (2009), marcada para 3 de dezembro de 2026, será transmitida ao vivo pela internet.
Por que importa: seria a primeira execução pública no país desde 1937, a primeira execução militar desde 1961 e a primeira transmissão oficial ao vivo de uma execução na história americana.
A leitura do O Tecido: em 2025, só Irã e Afeganistão tiveram execuções públicas registradas pela Anistia Internacional. Ao transformar a pena capital em transmissão aberta, Washington abre mão de um ativo que cultivou por décadas: a autoridade moral que sustenta seu soft power.
Durante quase um século, os Estados Unidos mantiveram a pena de morte longe dos olhos do público. Executavam, e executam muito, mas atrás de paredes, diante de poucas testemunhas credenciadas. Essa fronteira entre punição e espetáculo está prestes a cair. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que o fuzilamento de Nidal Malik Hasan, psiquiatra do Exército condenado por matar 13 pessoas e ferir 32 na base de Fort Hood, no Texas, será feito "em público". Dias depois, o Pentágono esclareceu o que isso significa: a execução será transmitida ao vivo.1,2
Em reportagem explicativa publicada em 9 de outubro, o The Washington Post lembrou que, se confirmada, a transmissão seria a primeira do gênero feita por autoridades americanas, a primeira execução pública no país em décadas, a primeira execução militar desde 1961 e o primeiro fuzilamento militar desde a Segunda Guerra Mundial, segundo dados do Death Penalty Information Center (DPIC).1
O que exatamente foi anunciado
A sequência foi rápida. No início da semana, o porta-voz do Pentágono informou que o presidente Donald Trump havia aprovado a execução de Hasan. Em seguida, Hegseth declarou a um canal conservador, a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, que o condenado enfrentaria "um pelotão de fuzilamento de soldados" e que as pessoas poderiam assistir. Perguntado se Hasan havia feito algum pedido final, respondeu que não se importava. A Casa Branca encaminhou as perguntas sobre a transmissão ao Pentágono, que prometeu detalhes futuros, conforme relato da Associated Press.2
A justificativa oficial é pedagógica. Segundo a agência AFP, Hegseth disse que as pessoas precisam entender que há consequências sérias para crimes desse tipo.3 O secretário também lembrou que o último fuzilamento militar americano foi o do soldado Eddie Slovik, executado por deserção em 1945. A última execução militar de qualquer tipo ocorreu em abril de 1961, quando o soldado John Bennett foi enforcado.2,3
Por que os EUA pararam de executar em público
A última execução pública de grande repercussão no país foi o enforcamento de Rainey Bethea em Owensboro, Kentucky, em 1936, assistido por uma multidão estimada em até 20 mil pessoas. O Washington Post recupera relatos de época que descrevem um clima de quermesse em torno da forca.1 Um ano depois, Roscoe "Red" Jackson foi enforcado diante de cerca de 500 moradores no Missouri, caso que o DPIC registra como a última execução pública americana.
O abandono do modelo não veio de uma conversão abolicionista. Veio do constrangimento. Especialistas ouvidos pela imprensa americana apontam que as execuções tinham virado programa popular, e o número crescente de enforcamentos malsucedidos assistidos por plateias pressionou os estados a levar o procedimento para dentro das prisões.1 O padrão repetiu um percurso europeu: a Inglaterra proibiu execuções públicas em meados do século XIX justamente porque o público passou a tratá-las como entretenimento, e não como lição.
Desde então, o Estado americano preferiu formas controladas de visibilidade. Em 2001, a execução do autor do atentado de Oklahoma City, Timothy McVeigh, foi transmitida em circuito fechado para sobreviventes e familiares. Cerca de 2 mil pessoas tinham direito de assistir; aproximadamente 230 o fizeram, e muitas relataram uma experiência marcante, mas insatisfatória.1
A pena de morte americana nunca foi pouco usada. O que a distinguia de Teerã e Cabul era o pudor de não transformá-la em vitrine.O Tecido · Análise editorial
Quem ainda executa em praça pública
O clube é pequeno e coerente. De acordo com o relatório anual da Anistia Internacional citado pelo Post, pelo menos 17 execuções públicas foram registradas em 2025: 11 no Irã e 6 no Afeganistão. Há ainda registros documentados na Somália, denúncias envolvendo a Arábia Saudita e relatos sobre a Coreia do Norte.1 No Irã, execuções públicas costumam ser reservadas a presos políticos, com guindastes montados em caminhões servindo de forca.
O pano de fundo global é de recrudescimento. A Anistia Internacional registrou 2.707 execuções em 2025, alta de 78% em relação a 2024 e o maior número desde 1981, sem contar a China, cujos dados são tratados como segredo de Estado. Só o Irã respondeu por pelo menos 2.159 delas.4 Ao apresentar o relatório, a secretária-geral da entidade, Agnès Callamard, incluiu nominalmente os Estados Unidos no pequeno grupo de países que usam a pena capital como instrumento de intimidação, ao lado de Irã, China, Arábia Saudita e Coreia do Norte.
Nos próprios Estados Unidos, a curva também sobe. O DPIC contabilizou 48 execuções em 2025, enquanto as novas sentenças de morte caíram para 22, e o apoio da população à pena capital atingiu o menor nível da série, 52%, segundo resumo do relatório publicado pelo Jurist.6 Em 2026, o ritmo seguiu acelerado, com quase três dezenas de execuções estaduais até o início de outubro. Pelo menos cinco estados admitem o fuzilamento em lei, e a Carolina do Sul realizou em 2025 o primeiro do país em 15 anos, como registrou a Outlook India.
O custo para o soft power americano
O conceito de soft power foi formulado pelo cientista político Joseph Nye, de Harvard, no início dos anos 1990, para descrever a capacidade de um país de obter o que quer pela atração, e não pela coerção. Cultura, instituições e valores políticos compõem esse capital. Durante a Guerra Fria e depois dela, os Estados Unidos usaram a ideia de um Estado de direito contido, previsível e respeitoso da dignidade individual como argumento central contra adversários autoritários. Os relatórios anuais do Departamento de Estado sobre direitos humanos, que por décadas registraram execuções públicas no Irã e na Arábia Saudita como violações, são o retrato institucional dessa postura.
É esse argumento que a transmissão ao vivo corrói. A diferença entre os Estados Unidos e o Irã nunca esteve no uso da pena de morte, que ambos aplicam. Estava no modo de exercê-la. Ao converter uma execução em conteúdo de streaming, com a finalidade declarada de servir de exemplo, Washington adota justamente a lógica que sempre denunciou nos regimes que executam em praça pública: a punição como demonstração de força do Estado diante da plateia.
O desgaste não começa agora. O Global Soft Power Index 2026, da consultoria Brand Finance, mostrou que os EUA mantiveram o primeiro lugar, mas registraram a queda mais acentuada entre os 193 países avaliados, com recuo de 11 posições no pilar reputação, para o 26º lugar, em meio à reação internacional às políticas do "America First". Pela primeira vez, a China superou os americanos nesse quesito.5 A execução transmitida não move sozinha um índice, mas oferece a adversários uma imagem pronta para a propaganda: a democracia que exporta modelos institucionais também exibe fuzilamentos.
Há ainda o efeito sobre a linguagem diplomática. Fica mais difícil para um embaixador americano condenar, em fóruns multilaterais, a forca montada em guindaste numa praça de Mashhad quando o próprio governo disponibiliza o link de um fuzilamento. O professor de direitos humanos Jon Yorke, da Universidade Birmingham City, resumiu a reação de parte da comunidade jurídica internacional ao Post: para ele, a decisão faz o país regredir a "tempos medievais".1 Outros especialistas ouvidos pelo jornal lembraram que filmar o instante da morte de alguém é amplamente considerado inaceitável por razões ligadas à dignidade humana, e levantaram a questão prática de como impedir que crianças tenham acesso ao vídeo.
Os argumentos de quem defende ou relativiza a medida
Dissuasão e memória das vítimas. O governo sustenta que a visibilidade reforça o efeito exemplar da pena em um caso de terrorismo contra militares. Para parte das famílias, a exposição pública seria uma forma de reconhecimento institucional do crime. A experiência de 2001, porém, sugere cautela: a maioria dos parentes das vítimas de Oklahoma City optou por não assistir, e muitos que assistiram relataram frustração.
Transparência. Há também um argumento que atravessa campos políticos: se o Estado mata em nome da sociedade, a sociedade teria o direito de ver. Emissoras americanas já tentaram, sem sucesso, filmar execuções na Justiça, e alguns abolicionistas defendem que a exposição tornaria o debate mais honesto.
Limites da comparação. Hasan foi condenado por uma corte marcial após processo com ampla defesa, e não por um tribunal de exceção. Irã e Afeganistão executam em público por crimes de opinião, drogas ou adultério, em escala incomparável. O paralelo com Teerã e Cabul diz respeito ao formato da punição, não à natureza do sistema judicial.
Caso isolado. A decisão envolve a jurisdição militar e um único condenado. Não há, até aqui, proposta de transmitir execuções estaduais, que respondem pela quase totalidade das penas capitais aplicadas no país.
O que esse debate diz ao Brasil
O Brasil ocupa uma posição curiosa nessa discussão. A Constituição Federal de 1988 proíbe a pena de morte no artigo 5º, inciso XLVII, com uma única exceção: casos de guerra declarada. E o Código Penal Militar brasileiro prevê, para essa hipótese, justamente o fuzilamento. A garantia está entre as cláusulas pétreas, o que impede sua supressão por emenda constitucional. O país também ratificou os protocolos internacionais, no sistema interamericano e no da ONU, voltados à abolição da pena capital, e a última execução de um homem livre condenado pela Justiça civil ocorreu em 1861.
Ao mesmo tempo, a opinião pública brasileira é majoritariamente favorável à pena de morte. Na última grande série do Datafolha sobre o tema, de 2017, 57% dos entrevistados disseram que votariam a favor de sua adoção, recorde da série iniciada em 1991, contra 39% de contrários, segundo reportagem do Metrópoles sobre a pesquisa.7 Esse descompasso entre o texto constitucional e o humor do eleitorado torna o caso americano relevante por aqui. Quando a democracia de referência de boa parte da direita brasileira transforma uma execução em transmissão pública, o gesto tende a ser importado como símbolo no debate doméstico sobre segurança, ainda que a mudança da regra no Brasil seja juridicamente bloqueada.
Para a política externa brasileira, que tradicionalmente apoia na Assembleia Geral da ONU as resoluções por uma moratória global das execuções, o episódio amplia o espaço de diferenciação. O Itamaraty poderá falar de direitos humanos em fóruns multilaterais com um contraste a menos em relação a Washington, o que também altera o peso relativo do Brasil em agendas como a do Conselho de Direitos Humanos.
O que acontece até 3 de dezembro
A data ainda pode mudar. Especialistas em direito militar ouvidos pela Associated Press lembram que Hasan pode recorrer à Justiça civil com um pedido de habeas corpus, o que tenderia a adiar significativamente a execução.2 Segundo a AFP, advogados nomeados pelo tribunal para sua defesa manifestaram preocupação com a possibilidade de que ele próprio esteja buscando a execução.3 O Pentágono não informou em que plataforma o vídeo será exibido, quem terá acesso nem como será evitada a exposição de menores.
Independentemente do desfecho jurídico, o anúncio já produziu efeito político. Os Estados Unidos sinalizaram ao mundo que a contenção que distinguia sua pena capital das praticadas pelos regimes que criticam deixou de ser um valor de Estado. Em política internacional, a autoridade moral leva décadas para ser construída e pode ser consumida em uma única transmissão.
Perguntas frequentes
Quando foi a última execução pública nos Estados Unidos?
O DPIC registra como última execução pública o enforcamento de Roscoe "Red" Jackson no Missouri, em 1937. A mais conhecida é a de Rainey Bethea, em Kentucky, em 1936, assistida por até 20 mil pessoas.
Quem é Nidal Malik Hasan?
Ex-psiquiatra do Exército americano que, em novembro de 2009, matou 13 pessoas e feriu 32 na base de Fort Hood, no Texas. Foi condenado à morte por uma corte marcial em 2013. A execução por fuzilamento está marcada para 3 de dezembro de 2026.
Quais países ainda fazem execuções públicas?
Segundo a Anistia Internacional, em 2025 houve execuções públicas registradas no Irã (11) e no Afeganistão (6). Também há registros na Somália e denúncias envolvendo Arábia Saudita e Coreia do Norte.
O que é soft power e por que a transmissão o afeta?
Soft power é a capacidade de um país influenciar outros pela atração de sua cultura, instituições e valores, conceito formulado por Joseph Nye. A transmissão de uma execução enfraquece o argumento americano de Estado de direito contido, usado por décadas para criticar regimes que executam em público.
O Brasil pode adotar a pena de morte?
Não para crimes comuns. A Constituição de 1988 só admite a pena de morte em caso de guerra declarada, e essa garantia é cláusula pétrea, que não pode ser abolida por emenda constitucional.
A execução de Hasan pode ser adiada?
Sim. Especialistas em direito militar apontam que um pedido de habeas corpus na Justiça civil poderia atrasar significativamente a execução.
Nota de atribuição: este artigo foi elaborado a partir da reportagem "What to know about public executions, and why they stopped in the U.S.", de Victoria Craw, publicada pelo The Washington Post em 9 de outubro de 2026, complementada por apuração independente em fontes jornalísticas, institucionais e acadêmicas. O texto não reproduz nem traduz a reportagem original. Trechos atribuídos ao Post estão sinalizados ao longo da matéria.