Política · Estados Unidos

12 de outubro de 2026 · Leitura de 9 minutos

Em 2025, o Departamento de Eficiência Governamental dos Estados Unidos, o DOGE, entrou nas agências federais com a promessa de cortar até US$ 2 trilhões em despesas e de enfrentar o que Elon Musk chamava de pântano de Washington. Pouco mais de um ano depois, parte de seus integrantes está do outro lado do balcão: fundando empresas, ocupando cadeiras executivas e captando recursos para negócios que, em vários casos, pretendem vender justamente ao governo que ajudaram a enxugar.

Uma análise publicada nesta segunda-feira (12) pelo Washington Post identificou cerca de duas dezenas de ex-integrantes do DOGE que converteram a passagem pelo governo em cargos de comando ou participações relevantes no setor privado[1]. Segundo o jornal, startups fundadas por eles, ou que receberam investimento central desse grupo, já levantaram ao menos US$ 500 milhões. Pelo menos seis ex-membros se registraram no Sam.gov, o portal federal americano de fornecedores.

O dado ganha peso quando confrontado com o balanço do próprio DOGE. As auditorias oficiais concluídas em 2026 mostram que a economia prometida não se confirmou. O mercado, no entanto, decidiu que a experiência adquirida lá dentro vale bilhões.

O que a análise do Washington Post encontrou

O caso de maior escala é a Cathedral, empresa de cibersegurança baseada em inteligência artificial avaliada por investidores em US$ 1,4 bilhão. De acordo com o Post, a companhia mira tanto clientes corporativos quanto agências públicas, incluindo o Pentágono[1]. Em julho, a agência Reuters já havia revelado que a empresa fechou uma rodada de US$ 160 milhões, com quatro ex-integrantes do DOGE entre os fundadores: Gavin Kliger, Luke Farritor, Marko Elez e Jack Stein[2]. Os fundos Andreessen Horowitz e Sequoia Capital lideraram o aporte e ocupam assentos no conselho.

Kliger é a figura central do arranjo. Depois de integrar o DOGE, ele chegou a diretor de dados do Departamento de Defesa, cargo que deixou em abril de 2026; em maio, segundo o Post, já buscava investidores para a nova empresa[1]. Uma norma interna do Pentágono, editada em 2020, impede que funcionários de alto escalão disputem contratos por até dois anos após deixarem a função. Captar recursos para uma empresa que pretende disputar esses contratos, porém, ficaria numa zona cinzenta, avalia Jeff Hauser, diretor do Revolving Door Project, organização que monitora o trânsito entre governo e mercado.

A Cathedral não está sozinha. A Special, fundada pelos ex-integrantes Nate Cavanaugh e Justin Fox, propõe aplicar ao mundo corporativo o método de cortes do DOGE e recebeu investimento da Andreessen Horowitz e de ao menos sete ex-membros ou associados do grupo. Um desses investidores, o fundo Banner VC, criado pelos ex-integrantes Adam Ramada e Brooks Morgan, já soma perto de US$ 300 milhões captados, segundo a plataforma Crunchbase citada pelo jornal[1]. O resultado é uma rede fechada, em que ex-colegas de força-tarefa investem uns nos outros.

Trajetórias fora da tecnologia de defesa

O fenômeno também alcança empresas já existentes. Stephen Ehikian assumiu o comando da C3 AI, fornecedora de software de IA para clientes federais, em setembro de 2025; as ações subiram cerca de 20% nas semanas seguintes, e em dezembro o Departamento de Saúde (HHS) selecionou a empresa para um projeto de software. Tyler Hassen, ex-executivo do setor de petróleo que atuou pelo DOGE no Departamento do Interior, assumiu uma fabricante de produtos de limpeza que logo virou a Zone Frontier, voltada à infraestrutura de data centers, com oferta pública anunciada de US$ 100 milhões. Elie Mishory, que tinha passagem anterior pela Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), tornou-se diretor jurídico e regulatório da Novig, empresa de mercados de previsão esportiva cuja aprovação na própria CFTC foi celebrada como uma das mais rápidas da história do órgão[1].

Uma economia que não se confirmou, um currículo que se valorizou

O contraste com os números oficiais é o ponto mais revelador do episódio. Em agosto de 2026, o GAO, órgão de auditoria do Congresso americano, concluiu que a alegação de US$ 110 bilhões em economia publicada pelo DOGE era incorreta e pouco confiável. Segundo a cobertura da CNN, os auditores não conseguiram verificar a metodologia de 96% das economias declaradas em subsídios e encontraram US$ 1,7 bilhão atribuído a um contrato do Departamento de Defesa que nunca foi encerrado[3].

Em setembro, outro relatório do GAO, detalhado pela Bloomberg Government, mostrou que o Departamento de Segurança Interna anunciou US$ 10,5 bilhões em cortes de contratos, mas a economia efetiva até então era de US$ 92 milhões, menos de 1% do valor alegado. A mesma reportagem registra que quase metade da economia reivindicada pelo DOGE em contratos cancelados, US$ 27,4 bilhões, não pôde ser verificada[4].

Se o resultado fiscal foi modesto, o que exatamente os investidores estão comprando? A resposta que aparece nas fontes ouvidas pelo Post é menos sobre o que foi feito e mais sobre o que foi visto. Quem passou meses dentro de sistemas de dados do Tesouro, da GSA (a agência de compras federais) ou do Pentágono sai com um retrato do funcionamento interno do Estado que poucas empresas possuem. Hauser resumiu a inversão numa frase: "O aluno se tornou o mestre"[1].

O que o mercado está precificando não é o desempenho do DOGE, e sim o mapa interno do Estado que seus integrantes levaram consigo.Análise · O Tecido

Por que as regras americanas não alcançam o fenômeno

A porta giratória entre governo e mercado é antiga em Washington, e uma indústria inteira de lobistas e consultores vive dela. A diferença, observa o Post, é que os veteranos tradicionais costumam levar anos de experiência e conhecimento especializado, enquanto muitos integrantes do DOGE atuaram como funcionários especiais temporários, com passagens de poucos meses[1].

Esse detalhe importa porque as normas de ética federais foram pensadas para o servidor de carreira. Hauser lembra que boa parte da legislação data dos anos 1970 e não previa equipes temporárias com acesso transversal a dados de várias agências ao mesmo tempo. Na prática, as restrições pós-emprego americanas se concentram em impedir que ex-servidores representem terceiros perante o governo em assuntos nos quais atuaram, e por prazos definidos. Elas dizem pouco sobre fundar uma empresa, levantar capital ou montar um produto a partir do diagnóstico feito lá dentro.

Norm Eisen, ex-advogado de ética da Casa Branca no governo Obama e hoje à frente de um grupo que move ações contra o DOGE, avalia que o volume de investimento supera qualquer precedente de monetização de serviço público que ele conheça[1]. O risco político também entrou na conta dos investidores: segundo o Post, parte deles orientou os fundadores a evitar qualquer aparência de impropriedade diante da possibilidade de os democratas retomarem o Congresso nas eleições de meio de mandato de novembro.

Contraponto

Defensores dos fundadores argumentam que não há, até aqui, acusação formal de irregularidade, e que a migração de profissionais técnicos do governo para o setor privado é rotina em qualquer democracia. O investidor Shaun Maguire, da Sequoia, conselheiro da Cathedral, declarou ao Post que considera o DOGE um programa de importância geracional e os fundadores da empresa entre seus melhores construtores[1]. Investidores também sustentam que a vivência em um ambiente de alta pressão funciona como uma formação em eficiência, valorizável em qualquer mercado.

Há ainda um argumento de política industrial: o Pentágono vem ampliando a contratação de startups de tecnologia, e empresas novas com engenheiros que conhecem os sistemas federais podem competir com fornecedores tradicionais. A pergunta que permanece é se essa vantagem decorre de mérito técnico ou de acesso privilegiado, e as regras atuais não oferecem instrumentos claros para separar uma coisa da outra.

O espelho brasileiro: quarentena, Comissão de Ética e o debate sobre prazos

O Brasil tem um desenho próprio para o problema. A Lei 12.813/2013, conhecida como Lei de Conflito de Interesses, proíbe o uso de informação privilegiada a qualquer tempo e estabelece um período de seis meses, contado da saída do cargo, em que ex-integrantes da alta administração federal ficam impedidos de atuar em situações de conflito, salvo autorização expressa da Comissão de Ética Pública (CEP) ou da Controladoria-Geral da União[5]. Durante essa quarentena, quando imposta, o ex-agente mantém a remuneração.

O modelo funciona por consulta, caso a caso. Em 2025, por exemplo, a CEP determinou que o ex-presidente da Codevasf cumprisse seis meses de quarentena remunerada antes de assumir cargo na Odebrecht, por entender que as áreas de atuação das duas organizações se cruzavam, conforme noticiou a Revista Oeste[7]. O prazo também está em discussão no Congresso: o PLP 144/2025, apresentado no Senado, propõe ampliar para quatro anos a quarentena de ex-presidentes e ex-diretores do Banco Central, como registrou a Agência Senado[6].

AspectoEstados UnidosBrasil
Foco da restriçãoRepresentação de terceiros perante o governo em assuntos específicosAtividades privadas em conflito com o cargo exercido
Prazo típicoVariável conforme o cargo e o assunto; até dois anos em norma interna do PentágonoSeis meses para a alta administração federal (Lei 12.813/2013)
Quem decideEscritórios de ética de cada órgão e legislação penal federalComissão de Ética Pública ou CGU, mediante consulta
Ponto cego evidenciado pelo caso DOGEPassagens curtas e temporárias com acesso amplo a dadosCritério ancorado no cargo, e não no nível de acesso a informação

O caso americano oferece uma lição útil para o debate nacional. Tanto lá quanto aqui, o gatilho das restrições é sobretudo o cargo formal ocupado. O DOGE mostrou que o ativo mais valioso pode ser outro: o acesso, ainda que breve, a bases de dados, contratos e fluxos internos de vários órgãos ao mesmo tempo. Forças-tarefa de modernização, programas de governo digital e equipes de integração de dados, que também existem no Estado brasileiro, produzem exatamente esse tipo de perfil. Uma regra que mede o risco pelo tempo de casa ou pelo nível hierárquico tende a deixar esses casos de fora.

O que está em jogo

A história dos ex-integrantes do DOGE não é, por ora, uma história de ilegalidade comprovada. É uma história de desenho institucional. Um grupo entrou no Estado com mandato para reduzir seu tamanho, teve acesso a sistemas sensíveis por poucos meses e saiu com algo que os investidores consideram mais valioso do que os cortes que de fato produziu. Os relatórios do GAO desmontam o argumento fiscal; o fluxo de capital confirma o argumento do acesso.

Para reguladores dos dois países, o caso sugere três perguntas práticas. A primeira é se o critério de quarentena deve considerar o nível de acesso a dados, e não apenas o cargo. A segunda é se a captação de investimento para disputar contratos públicos deve ser tratada como atividade sujeita a consulta prévia. A terceira é se equipes temporárias, contratadas em regime especial, precisam de regras de saída próprias. Washington ainda não respondeu a nenhuma delas. Brasília, que discute prazos de quarentena no Senado, tem a chance de fazê-lo antes de precisar de um caso próprio.

Perguntas frequentes

O que é o DOGE?

O DOGE (Department of Government Efficiency, ou Departamento de Eficiência Governamental) foi a estrutura criada pelo governo Donald Trump em 2025, com participação central de Elon Musk, para cortar gastos, contratos e pessoal nas agências federais dos Estados Unidos.

Quanto dinheiro as empresas de ex-integrantes do DOGE já captaram?

Segundo análise do Washington Post de 12 de outubro de 2026, ao menos US$ 500 milhões. A maior delas, a Cathedral, de cibersegurança com IA, foi avaliada em US$ 1,4 bilhão após rodada de US$ 160 milhões.

O DOGE entregou a economia prometida?

Não. A promessa inicial era de até US$ 2 trilhões. Em agosto de 2026, o GAO considerou incorreta e pouco confiável a alegação de US$ 110 bilhões em economia e não conseguiu verificar a metodologia de 96% das economias declaradas em subsídios.

É ilegal ex-integrantes do DOGE abrirem empresas que vendem ao governo?

Não há acusação formal de ilegalidade até aqui. Especialistas apontam que a captação de recursos para empresas que pretendem disputar contratos públicos fica numa zona cinzenta, porque as regras foram desenhadas para servidores de carreira, não para passagens temporárias.

Como o Brasil trata a porta giratória?

A Lei 12.813/2013 prevê quarentena de seis meses para a alta administração federal, com decisão caso a caso da Comissão de Ética Pública ou da CGU. O Senado discute o PLP 144/2025, que amplia para quatro anos a quarentena de ex-dirigentes do Banco Central.

Nota de atribuição. Este artigo tem como ponto de partida a análise "They came to Washington to dismantle government. Now, they're profiting from it", de Faiz Siddiqui, Elizabeth Dwoskin e Meryl Kornfield, publicada pelo Washington Post em 12 de outubro de 2026. Não se trata de tradução: as informações atribuídas ao jornal foram resumidas, contextualizadas e complementadas com fontes independentes e com a análise do caso brasileiro.

Referências

  1. SIDDIQUI, Faiz; DWOSKIN, Elizabeth; KORNFIELD, Meryl. They came to Washington to dismantle government. Now, they're profiting from it. The Washington Post, 12 out. 2026. washingtonpost.com
  2. REUTERS. DOGE alumni launch military cyber startup with $1.4 billion valuation. 22 jul. 2026.
  3. CNN. DOGE claims of saving $110 billion are incorrect and unreliable, watchdog says. 6 ago. 2026.
  4. BLOOMBERG GOVERNMENT. DHS cuts fell far below $10.5 billion DOGE claim, watchdog says. 3 set. 2026.
  5. BRASIL. Lei nº 12.813, de 16 de maio de 2013. Dispõe sobre o conflito de interesses no exercício de cargo ou emprego do Poder Executivo federal.
  6. AGÊNCIA SENADO. Quarentena para ex-diretores do BC gera debate no Plenário. 1º jul. 2025.
  7. REVISTA OESTE. Comissão de Ética barra ida de ex-chefe da Codevasf para a Odebrecht. 2025.