Depois de mais de um ano vagando sem controle pelo espaço, o estágio superior de um foguete Falcon 9 da SpaceX deve se chocar contra a superfície da Lua nesta quarta-feira, dia 5 de agosto. O objeto, lançado em janeiro de 2025 para impulsionar dois módulos privados de pouso lunar, ficou sem combustível suficiente para retornar à Terra e permaneceu em uma órbita instável que, ao longo dos últimos meses, convergiu para uma trajetória de colisão com o satélite natural do planeta.
O impacto está previsto para ocorrer perto da cratera Einstein, próxima ao limite entre a face visível e a face oculta da Lua, a uma velocidade estimada em 8.700 km/h. Cálculos orbitais conduzidos pelo astrônomo norte-americano Bill Gray, responsável pelo software de rastreamento Project Pluto, sustentam a previsão a partir de mais de mil observações astrométricas coletadas por levantamentos de asteroides e astrônomos amadores ao redor do mundo, segundo reportagem do jornal espanhol El País[1].
O objeto é identificado internacionalmente pelo designador COSPAR 2025-010D e pelo número de catálogo NORAD/SatCat 62719, conforme detalhou o portal Showmetech[2]. Não é o corpo inteiro do foguete: trata-se apenas da etapa superior, que não retorna à Terra como a primeira etapa reutilizável — mede cerca de 12 metros de comprimento e pesa entre quatro e cinco toneladas, segundo diferentes estimativas técnicas.
A missão que deixou o estágio à deriva
O lançamento original, em 15 de janeiro de 2025, fazia parte do programa de Serviços Comerciais de Carga Lunar (CLPS) da NASA, iniciativa vinculada ao programa Artemis que permite a empresas privadas transportar instrumentos científicos e demonstradores tecnológicos até a Lua. Na ocasião, o Falcon 9 impulsionou o módulo Blue Ghost Mission 1, da norte-americana Firefly Aerospace, e o Resilience, da empresa japonesa ispace, batizado de Hakuto-R Mission 2[3]. Depois de liberar as duas cargas, a etapa superior permaneceu em uma órbita terrestre alta que cruza a trajetória lunar, sem energia para manobras de descarte controlado.
"Cuando se forme el cráter, podremos medir su diámetro, su profundidad y la energía liberada."
A frase é do divulgador científico César González, do Planetario de Madrid, em entrevista ao El País[1], e resume o valor científico do episódio: ao contrário dos impactos naturais de meteoritos, cujos parâmetros só podem ser deduzidos a posteriori a partir das crateras que deixam, neste caso os pesquisadores já conhecem de antemão a massa, a velocidade e o ângulo de entrada do objeto. Isso deve permitir calibrar com maior precisão os modelos usados para estimar a idade e a origem de crateras lunares formadas por colisões não documentadas.
Simulações citadas pela imprensa brasileira indicam que o impacto deve liberar energia comparável à explosão de cerca de três toneladas de TNT, suficiente para escavar uma cratera estimada entre 20 e 30 metros de diâmetro e cerca de 5 metros de profundidade, arremessando até uma tonelada de regolito — a fina camada de poeira e fragmentos de rocha que cobre a superfície lunar — a alturas de até três quilômetros[4][5].
Um espetáculo difícil de flagrar
Apesar do interesse científico, a chance de observar um clarão visível a olho nu é considerada baixa pelos especialistas: o ponto de impacto fica próximo à borda do disco lunar, em uma região já iluminada pelo Sol no horário previsto, o que reduz o contraste necessário para captar o brilho da colisão. Ainda assim, telescópios terrestres e sondas em órbita lunar — como o Lunar Reconnaissance Orbiter, da NASA — devem tentar fotografar a nuvem de poeira expelida e, posteriormente, a cratera recém-formada, permitindo comparação direta com o terreno anterior ao choque.
O horário estimado do impacto é 7h30 na Espanha, o que corresponde a aproximadamente 3h30 da madrugada no horário de Brasília[1][2], período que favorece observadores em fusos americanos interessados em acompanhar o evento com equipamento adequado.
Contraponto — precedente e controvérsia de identificação
Este não é o primeiro caso de um estágio de foguete abandonado colidir com a Lua, e a história recente mostra como a identificação desses objetos pode ser incerta. Em março de 2022, um corpo em rota de impacto lunar foi inicialmente atribuído a um Falcon 9 da SpaceX. Após reanálise orbital, pesquisadores concluíram que se tratava, na verdade, do estágio superior da missão chinesa Chang'e 5-T1, lançada em 2014 — a primeira vez registrada em que um objeto construído por humanos atingiu acidentalmente o satélite[1][2]. O episódio de 2022 é frequentemente citado como alerta sobre as limitações do rastreamento atual de detritos no espaço cislunar, já que a origem de um objeto pode permanecer incerta por anos antes de uma reanálise mais precisa.
O problema maior: a gestão do lixo espacial
Para além do interesse pontual do impacto de quarta-feira, o episódio reacende um debate sobre a ausência de regulação eficaz para detritos no espaço. Segundo estimativas da ONU citadas pelo El País, cerca de 140 milhões de fragmentos orbitam sem controle ao redor da Terra, viajando a mais de 28.000 km/h[1]. Dados da NASA, por sua vez, apontam pouco mais de 33 mil objetos cadastrados oficialmente em órbita — entre espaçonaves, corpos de foguetes e detritos identificáveis —, enquanto estimativas da Agência Espacial Europeia (ESA) sugerem uma população real muito maior, de cerca de 500 mil fragmentos entre 1 e 10 centímetros e mais de 100 milhões de partículas menores, pequenas demais para rastreamento individual, mas ainda capazes de danificar satélites em razão da velocidade orbital[6].
No Brasil, o tema já orienta mudanças regulatórias. A legislação nacional sobre atividades espaciais passou a incluir, em seção dedicada à proteção ambiental, a exigência de que "a atividade espacial deverá ser planejada e realizada de forma a atenuar a geração de detritos espaciais", atribuindo à Agência Espacial Brasileira (AEB) o poder de emitir regulamentos específicos de mitigação e de fiscalizar o cumprimento dessas regras por empresas que operam no país[7]. A AEB também mantém, em parceria com o Laboratório Nacional de Astrofísica, um telescópio dedicado ao rastreamento de detritos em órbita baixa instalado no Observatório do Pico dos Dias, em Brazópolis (MG)[8].
Ainda assim, especialistas ouvidos pelo El País descrevem o cenário internacional como carente de mecanismos vinculantes: tratados sobre o espaço exterior existem, mas não têm força de lei aplicável de forma uniforme, e não há organismo internacional com poder de fiscalização direta sobre o descarte de estágios de foguetes ou satélites inativos[1]. Com o avanço de programas tripulados como o Artemis e a crescente participação de empresas privadas na exploração lunar, a preocupação é que o mesmo padrão de acúmulo de detritos observado em órbita terrestre — hoje considerado por técnicos da AEB um risco crescente para satélites operacionais e para a Estação Espacial Internacional — se repita também no espaço próximo à Lua[1][9].
O que vem depois do impacto
Nos próximos meses, os dados coletados sobre o choque devem alimentar artigos científicos e discussões técnicas sobre regulação espacial, com imagens produzidas por sondas em órbita lunar comparadas a simulações prévias para refinar parâmetros usados no projeto de futuros pousadores, habitats e sistemas de proteção contra impactos[9]. O episódio também deve pesar em fóruns diplomáticos voltados a acordos sobre descarte responsável de estruturas abandonadas no espaço cislunar, à medida que mais países e empresas privadas planejam presença permanente na superfície lunar na próxima década.