Em dezembro de 2025, o Inmet manteve alerta vermelho de grande perigo para o calor em seis estados brasileiros, incluindo São Paulo e Rio de Janeiro, no fechamento de mais um ano de recordes térmicos no país1. Meses antes, em março de 2024, a sensação térmica no Rio havia batido 62,3°C, a maior desde o início das medições do sistema Alerta Rio, em 20142. Episódios assim deixaram de ser exceção e passaram a compor o calendário do verão brasileiro. E, dentro desse cenário, um grupo específico de pacientes carrega um risco de morte que a maior parte dos planos públicos de resposta ao calor ainda não nomeia com clareza: pessoas com esquizofrenia.
A reportagem "The Most Dangerous Diagnosis in a Heat Wave", publicada pela revista norte-americana WIRED e assinada pela jornalista Hilary Beaumont, reconstrói o que aconteceu nos hospitais de Vancouver, no Canadá, durante a chamada "cúpula de calor" de junho de 2021, quando temperaturas acima de 40°C por mais de uma semana levaram à morte de centenas de pessoas na Colúmbia Britânica3. Entre os achados que a matéria detalha, um se destacou nos anos seguintes na literatura científica sobre clima e saúde: nenhuma outra condição crônica, nem doença cardíaca, nem diabetes, nem insuficiência renal, elevou tanto o risco de morte por calor extremo quanto a esquizofrenia.
O corpo que não sabe se refrescar
A explicação começa na biologia. Pesquisadores descrevem que pessoas com esquizofrenia frequentemente apresentam dificuldade em regular a dopamina, neurotransmissor ligado também ao controle da temperatura corporal. A isso soma-se um desequilíbrio entre os sistemas nervosos simpático e parassimpático, aquele par que regula, respectivamente, as respostas de alerta e de repouso do organismo. Um estudo de revisão publicado em 2025 no periódico Science of the Total Environment, assinado por Nathalie Kirby e colegas de universidades canadenses, reuniu essas evidências e mostrou que a esquizofrenia esteve associada a um risco de morte até três vezes maior durante a cúpula de calor de 2021, superando com folga condições como diabetes, hipertensão e doenças cardíacas4.
Parte do problema está no tratamento. Antipsicóticos, essenciais para controlar sintomas como alucinações e delírios, costumam ter efeito anticolinérgico, o que reduz a capacidade de suar, principal mecanismo do corpo para dissipar calor. Some-se a isso um sistema cardiovascular sob maior pressão, já que a resposta de luta ou fuga ativada pela psicose dificulta o controle dos vasos sanguíneos, e o resultado é um organismo que simplesmente não consegue se resfriar como deveria.
Há ainda uma camada comportamental. Segundo pesquisas conduzidas pela professora Liv Yoon, da Universidade da Colúmbia Britânica, muitas pessoas com esquizofrenia evitam notícias e meios de comunicação porque os consideram fonte de angústia, o que as deixa sem aviso prévio quando uma onda de calor se aproxima. A falta de percepção sobre o próprio estado de saúde, sintoma associado ao transtorno e conhecido clinicamente como anosognosia, também pode levar a comportamentos contraintuitivos, como vestir camadas extras de roupa em vez de removê-las.
O que os números mostram no Canadá e no Brasil
No Canadá, os dados são expressivos. Durante a cúpula de calor de 2021, pessoas com esquizofrenia, que representam cerca de 1% da população da Colúmbia Britânica, responderam por quase 16% das mortes registradas no evento, segundo levantamento posterior de pesquisadores da universidade da província5. Em Montreal, durante uma onda de calor de 2018, esse grupo chegou a representar 26% das mortes em excesso.
O Brasil ainda não dispõe de um estudo com a mesma granularidade sobre calor extremo e esquizofrenia especificamente, mas os dados disponíveis já apontam na mesma direção. Um estudo ecológico com base em registros do Sistema de Informação sobre Mortalidade do DATASUS, apresentado no Momento Científico da IFMSA Brazil, mostrou que pessoas com diagnóstico de esquizofrenia no país têm risco relativo de mortalidade 27% maior do que a população geral, com crescimento progressivo dos óbitos por essa causa entre 2019 e 20236. Paralelamente, a Fiocruz, em parceria com a Universidade Federal da Bahia, publicou em 2026 um estudo que cobriu 5.566 municípios brasileiros e confirmou associação consistente entre ondas de calor e aumento da mortalidade e das internações por doenças respiratórias, renais e gastrointestinais, sobretudo entre idosos, mulheres e pessoas com menor escolaridade7. A própria Fiocruz estima que, a cada 1°C de aumento na temperatura, a mortalidade média da população cresce 35%8.
No Rio de Janeiro, pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca analisou 466 mil registros de mortes naturais entre 2012 e 2024 e desenvolveu uma métrica própria, a Área de Exposição ao Calor, para medir não apenas a temperatura, mas o tempo de exposição a ela. Para idosos, uma exposição elevada a essa métrica pode dobrar o risco de morte por causas naturais9. Nenhuma dessas pesquisas isola a esquizofrenia como fator de risco da forma como o estudo canadense fez, o que é, em si, uma lacuna relevante para a saúde pública brasileira.
Desigualdade sob o sol
A vulnerabilidade ao calor nunca se distribui de forma igual. No Brasil, pesquisa conduzida em colaboração entre o Laboratório de Análise de Bacias e a Fiocruz aponta que mortes atribuíveis ao calor concentram-se entre pessoas pretas e pardas, refletindo não uma diferença fisiológica, mas desigualdades sociais historicamente construídas, como pior acesso a serviços de saúde, moradias sem ventilação adequada e maior exposição ao trabalho ao ar livre10. Esse mesmo padrão de desigualdade social se sobrepõe ao risco já elevado de quem convive com transtornos mentais graves.
No Canadá, a coroneria da Colúmbia Britânica constatou que 98% das mortes durante a cúpula de calor de 2021 ocorreram dentro de casa, geralmente em moradias sem climatização mecânica. Pesquisadoras da Universidade da Colúmbia Britânica descrevem que construções mais antigas, onde moradores de baixa renda têm maior probabilidade de viver, absorvem calor durante o dia e o retêm à noite, impedindo que o corpo se recupere5. O padrão de moradias populares brasileiras, muitas vezes de laje ou telha metálica sem isolamento térmico e em áreas com pouca arborização, cria uma dinâmica semelhante nas periferias de grandes cidades brasileiras durante o verão.
Soma-se a isso o estigma. Pessoas com esquizofrenia relatam evitar centros de acolhimento por temerem alucinações que as fazem se sentir expostas diante de outras pessoas, ou por já terem tido experiências negativas com o sistema de saúde. No Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do SUS, formada por Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde e serviços residenciais terapêuticos, é a porta de entrada oficial para o cuidado em saúde mental11. Mas o instrumento normativo da rede, atualizado em 2022 pelo Ministério da Saúde, não traz até o momento um protocolo específico de resposta a ondas de calor para pacientes acompanhados nesses serviços12.
O que o Brasil pode aprender com a resposta canadense
Depois da tragédia de 2021, a Colúmbia Britânica reformulou sua política de saúde pública. A província destinou 148 milhões de dólares canadenses para contratar cerca de 600 novos paramédicos e ampliar o serviço de ambulâncias, atualizou seu sistema de alertas para enviar notificações de calor extremo pelo celular, como já fazia para incêndios e enchentes, e lançou um programa de distribuição gratuita de aparelhos de ar-condicionado que já beneficiou 40 mil residências de baixa renda. A sociedade de esquizofrenia da província também desenvolveu um programa de checagem para cuidadores, e farmácias passaram a ser mobilizadas para alertar pacientes sobre o risco de calor no momento em que dispensam antipsicóticos.
No Brasil, o Inmet já opera um sistema de alertas por níveis de perigo (amarelo, laranja e vermelho) e amplia seu alcance a cada verão13. O que falta, segundo especialistas ouvidos pela reportagem original da WIRED, não é criar um sistema paralelo, mas cruzar essas informações climáticas com o cuidado em saúde mental já existente. Uma parceria entre o Inmet, as secretarias municipais de saúde e a rede de CAPS, por exemplo, poderia acionar visitas domiciliares ou contato telefônico com pacientes em acompanhamento sempre que um alerta vermelho for emitido, algo hoje inexistente na maior parte dos municípios brasileiros.
Contraponto
Nem todos os pesquisadores recomendam tratar a esquizofrenia como um fator de risco isolado. Parte da literatura mais recente argumenta que o diagnóstico psiquiátrico, por si só, explica menos do que a combinação de pobreza, moradia precária e isolamento social que frequentemente o acompanha, e que um discurso centrado apenas na doença pode reforçar estigma em vez de reduzi-lo. Estudos qualitativos com sobreviventes da cúpula de calor canadense reforçam esse ponto: parte dos entrevistados vivia em moradia segura e ainda assim enfrentou risco elevado, o que sugere fatores biológicos próprios do transtorno, mas outra parte relacionava sua vulnerabilidade quase exclusivamente às condições de moradia e renda.
Há também um consenso importante entre os especialistas: nenhum deles recomenda que pacientes interrompam o uso de antipsicóticos por conta do risco de calor. A descontinuação abrupta da medicação pode ser mais perigosa do que o próprio calor, e a orientação predominante é de que qualquer ajuste de tratamento seja sempre discutido com o médico responsável, nunca decidido de forma unilateral pelo paciente ou pela família.
Perguntas frequentes
Porque combinam três fatores ao mesmo tempo: dificuldade biológica de regular a temperatura corporal, efeitos colaterais de medicamentos antipsicóticos que reduzem a capacidade de suar, e barreiras comportamentais e sociais, como menor acesso à informação sobre alertas de calor e maior isolamento social.
Não. Especialistas são unânimes em desaconselhar a interrupção da medicação por conta própria. A recomendação é manter o tratamento e conversar com o médico responsável sobre eventuais ajustes, além de reforçar hidratação e busca por ambientes climatizados.
O país ainda não tem um estudo que isole a esquizofrenia como fator de risco durante eventos específicos de calor extremo, como fez a Colúmbia Britânica. Mas dados do DATASUS mostram risco de mortalidade 27% maior entre pessoas com o diagnóstico, e estudos da Fiocruz confirmam que ondas de calor aumentam mortalidade e internações em todo o país.
Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da rede pública fazem parte da Rede de Atenção Psicossocial do SUS e podem orientar pacientes e famílias. Em caso de mal-estar por calor, unidades de pronto atendimento e o SAMU (192) devem ser acionados.
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Glossário
- Termorregulação
- Capacidade do organismo de manter a temperatura corporal estável diante de variações do ambiente.
- Efeito anticolinérgico
- Conjunto de efeitos colaterais de certos medicamentos, incluindo antipsicóticos, que reduz a sudorese e outras respostas do sistema nervoso autônomo.
- Anosognosia
- Dificuldade de uma pessoa em reconhecer sinais do próprio estado de saúde, comum em quadros de esquizofrenia.
- Onda de calor
- Período de temperaturas significativamente acima da média histórica de uma região, por dias consecutivos.
- RAPS
- Rede de Atenção Psicossocial, estrutura do SUS que organiza o cuidado em saúde mental no Brasil, da atenção básica aos CAPS.
Referências
- Agência Brasil. Inmet mantém alerta vermelho para onda de calor no Sudeste. agenciabrasil.ebc.com.br
- Diario de Cuyo. Río de Janeiro marcó 62,3°C, nuevo récord de sensación térmica. diariodecuyo.com.ar
- Beaumont, H. The Most Dangerous Diagnosis in a Heat Wave. WIRED
- Kirby, N.V. et al. Susceptibility of persons with schizophrenia to extreme heat. Science of the Total Environment, 2025. sciencedirect.com
- The Conversation. People with schizophrenia were hit hard by B.C.'s deadly 2021 heat dome. theconversation.com
- IFMSA Brazil. Padrões de mortalidade por esquizofrenia no Brasil entre 2019 e 2023. revistas.ifmsabrazil.org
- Fiocruz / UFBA. Ondas de calor causaram 120 mil mortes no Brasil em 20 anos. realtime1.com.br
- Portal Fiocruz. Ondas de calor no Brasil: o fardo invisível que ameaça vidas e desafia o SUS. fiocruz.br
- Agência Fiocruz de Notícias. Pesquisa relaciona calor extremo à mortalidade no Rio de Janeiro. agencia.fiocruz.br
- Geledés. Afinal, quem morre de calor no Brasil? geledes.org.br
- Ministério da Saúde. Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). linhasdecuidado.saude.gov.br
- UBC Faculty of Education. Behind closed doors: the heightened risk of extreme heat for people living with schizophrenia. educ.ubc.ca
- SPDM Saúde. CAPS: o que é e para que funciona. spdm.org.br