Uma pesquisadora que passou duas décadas investigando as bases biológicas da esquizofrenia descobriu, no caminho, que a doença que estuda em laboratório também molda a própria história de sua família.
A bioquímica mexicana Consuelo Walss-Bass dirige, na UTHealth Houston, um dos programas de genética psiquiátrica mais citados do mundo. Desde o início dos anos 2000, seu laboratório reúne uma coleção de mais de 175 cérebros doados por pessoas com esquizofrenia, material que permitiu à equipe cruzar dados genéticos com o tecido cerebral post mortem em busca de marcadores da doença1. Agora, ela publica um livro que junta essa trajetória científica à história de sua mãe e de sua irmã, ambas diagnosticadas com o transtorno.
O relato, contado ao jornal espanhol El País1, descreve uma infância marcada por episódios de agressividade da mãe, Eugenia Aurioles, no norte do México e, depois, em uma pequena cidade de Ohio, para onde a família se mudou quando o pai conseguiu uma vaga de especialização em ginecologia nos Estados Unidos. O isolamento cultural, sugere a cientista, pode ter atuado como gatilho ambiental sobre uma predisposição genética que, à época, ninguém sabia nomear.
O que a ciência já sabe sobre os genes da esquizofrenia
A esquizofrenia afeta cerca de 1% da população mundial e combina sintomas psicóticos, cognitivos e afetivos que comprometem de forma significativa a rotina de quem convive com o transtorno2. Por décadas, a genética por trás da doença permaneceu praticamente invisível: os primeiros mapeamentos amplos só ganharam força a partir de 2014, quando um consórcio internacional de genética psiquiátrica identificou mais de cem regiões do genoma associadas à esquizofrenia, em um estudo que já contava com participação de pesquisadores brasileiros3. Desde então, o número de genes mapeados avançou consideravelmente, chegando à casa de quase 300 identificados por diferentes equipes ao redor do mundo, segundo o relato da própria Walss-Bass1.
O desafio, hoje, não é mais encontrar os genes, mas entender como eles interagem. Nenhuma pessoa carrega todas as mutações associadas à doença ao mesmo tempo; o que parece determinar quem desenvolve o transtorno é uma combinação específica de variantes somada a fatores ambientais, como estresse perinatal, uso de substâncias na adolescência e eventos de vida adversos. É por isso que o laboratório de Houston passou a cultivar organoides cerebrais, os chamados minicérebros, feitos a partir de células-tronco de pacientes: eles permitem observar, em tecido vivo, como uma mutação específica altera a comunicação entre neurônios, algo impossível de enxergar apenas analisando DNA em uma amostra de sangue.
A pesquisa genética da esquizofrenia no Brasil
O país tem presença ativa nesse campo. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) coordena a parte brasileira do projeto PUMAS, colaboração internacional financiada pelo Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) que reúne nove países, entre eles México, Colômbia, Quênia, Nigéria e África do Sul, para sequenciar o genoma de 120 mil pacientes com esquizofrenia ou transtorno bipolar, sendo 10 mil apenas no território nacional4. Coordenado por Ary Gadelha, com participação de Sintia Belangero e Marcos Santoro, o projeto busca corrigir um viés histórico dos estudos genéticos, concentrados até aqui em populações majoritariamente de ascendência europeia, e entender como a diversidade étnica brasileira interfere no risco e na expressão da doença.
Do lado da saúde pública, o impacto já é mensurável. Levantamento sobre internações hospitalares por esquizofrenia no Sistema Único de Saúde (SUS), com base em dados do DATASUS entre 2010 e 2023, contabilizou mais de 1 milhão de internações no país, com custo total próximo de R$ 2,5 bilhões e maior incidência entre homens de 20 a 39 anos5. Outro estudo, voltado à mortalidade associada ao transtorno, aponta que o risco de suicídio entre pacientes chega a ser treze vezes maior do que na população geral, reforçando a urgência de diagnóstico precoce e acompanhamento continuado6.
Contraponto
O avanço da genética psiquiátrica reacende um debate antigo na saúde mental brasileira: o risco de que explicações biológicas reforcem um modelo hospitalocêntrico que a Reforma Psiquiátrica, consolidada pela Lei 10.216 de 2001, buscou justamente superar. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), hoje parte da Rede de Atenção Psicossocial do SUS, foram criados para tratar quadros graves e persistentes fora do ambiente asilar, priorizando reinserção social e autonomia em vez de internação prolongada7.
Pesquisadores ligados a esse campo argumentam que mapear genes é compatível com o cuidado psicossocial, e não um substituto para ele: entender a base biológica pode melhorar diagnóstico e tratamento farmacológico, mas não resolve isoladamente questões como estigma, acesso a serviços comunitários e suporte familiar, que seguem sendo determinantes centrais da qualidade de vida de quem convive com esquizofrenia no Brasil.
No caso relatado pelo El País, a irmã da cientista passou por um episódio de catatonia após a morte do marido e só foi estabilizada com clozapina, antipsicótico reservado a quadros resistentes a outros tratamentos1. Hoje ela vive próxima da família, em um arranjo que combina medicação, rotina e suporte doméstico, um retrato pequeno, mas ilustrativo, de como tratamento biológico e rede de apoio social operam juntos na prática, e não como alternativas concorrentes.
Perguntas frequentes
A esquizofrenia é uma doença hereditária?
Tem forte componente genético, mas não é determinística. Ter um parente de primeiro grau com esquizofrenia aumenta o risco, porém a maioria dos filhos de pessoas com o transtorno não desenvolve a doença. Estudos com gêmeos idênticos mostram que, mesmo compartilhando o mesmo DNA, um irmão pode manifestar o quadro e o outro não, o que confirma o peso de fatores ambientais somados à predisposição genética.
Quantos genes já foram associados à esquizofrenia?
O primeiro grande mapeamento genômico, publicado em 2014, identificou mais de cem regiões do genoma ligadas ao transtorno. Estudos posteriores, somando diferentes populações e metodologias, ampliaram esse número para perto de 300 genes candidatos, embora nenhum indivíduo carregue todas as variantes ao mesmo tempo.
O que são os organoides cerebrais usados nessa pesquisa?
São aglomerados tridimensionais de tecido cerebral cultivados em laboratório a partir de células-tronco reprogramadas de um paciente, os chamados minicérebros. Eles permitem observar, em tecido vivo, como uma mutação genética específica afeta a comunicação entre neurônios, algo que a análise isolada de DNA não revela.
Qual é a situação da esquizofrenia no Brasil hoje?
Dados do SUS mostram mais de 1 milhão de internações hospitalares por esquizofrenia entre 2010 e 2023, com maior incidência entre homens de 20 a 39 anos. O país também participa de estudos genéticos internacionais de larga escala, como o projeto PUMAS, ao mesmo tempo em que sustenta uma rede de atenção psicossocial baseada em cuidado comunitário, resultado da Reforma Psiquiátrica de 2001.