Caderno Saúde · Oncologia · Desinformação

Num dia de outono de 2019, Rajeev Thadani, empresário de 63 anos de Nova Jersey, caiu no quarto depois de uma sessão de quimioterapia no Memorial Sloan Kettering, um dos centros oncológicos mais respeitados do mundo. Com o rosto ferido e um diagnóstico de câncer de pulmão em estágio 4, decidiu ali que não voltaria mais. Semanas depois estava em Scottsdale, no Arizona, pagando cerca de US$ 10 mil por semana a uma clínica que encontrou na internet. Morreu poucos meses depois, numa UTI, pedindo que lhe dessem um vermífugo canino misturado em iogurte.

A história foi reconstruída por sua filha, a jornalista Trisha Thadani, em reportagem publicada pelo The New York Times em 4 de outubro de 20261. O texto é, ao mesmo tempo, um luto público e uma investigação. E o que ele documenta não é apenas a decisão de um homem assustado, mas uma engrenagem: anúncios pagos, depoimentos de cura, regulação fragmentada e uma medicina convencional que, muitas vezes, comunica mal. Essa engrenagem não é exclusividade americana.

O que aconteceu com Rajeev Thadani

Segundo o relato do NYT1, Rajeev tinha aversão antiga à medicina convencional, herdada de um pai homeopata. Em 2019, um exame de imagem feito por outro motivo mostrou uma lesão no pulmão. Ele ignorou o alerta médico e tratou sintomas crescentes com remédios homeopáticos por meses. Quando enfim fez uma broncoscopia, o câncer já estava avançado e logo se confirmou a metástase cerebral.

Depois de uma curta passagem pelo Memorial Sloan Kettering, ele escolheu a Envita Medical Centers, clínica "integrativa" no Arizona que combinava quimioterapia em baixas doses com infusões de vitaminas, peróxido de hidrogênio, ozônio aplicado ao sangue e enemas de café. A clínica também o enviou a Hermosillo, no México, para uma terapia celular que não poderia ser feita nos Estados Unidos. A família calcula ter gasto em torno de US$ 200 mil. Oncologistas consultados pela repórter, ao revisar os prontuários, disseram não encontrar racional biológico para boa parte do protocolo.

A reportagem também registra o histórico da clínica: uma carta de advertência da FDA, a agência regulatória americana, em 2006, e um relatório de 2015 do escritório de investigações criminais do órgão que listava práticas questionáveis. O caso foi arquivado sem acusação. Procurada, a Envita rejeitou as conclusões do relatório, afirmou que não garante resultados, que os pacientes assinam termos de consentimento com riscos e custos, e que cumpre as exigências regulatórias1.

Um modelo de negócio construído sobre o desespero

O que torna o caso relevante para além da tragédia familiar é a escala. Um estudo publicado em dezembro de 2024 na Harvard Kennedy School Misinformation Review2 estimou que clínicas que oferecem tratamentos oncológicos sem respaldo científico gastaram cerca de US$ 15,8 milhões em anúncios no Google entre 2012 e 2023, mirando usuários nos Estados Unidos. Esses anúncios geraram aproximadamente 6,7 milhões de visitas, e o tráfego pago respondia por 44,4% de todo o tráfego desses sites.

O mecanismo é preciso. Os anunciantes compram palavras-chave que imitam as buscas de quem acabou de receber um diagnóstico: sobrevida em estágio avançado, efeitos colaterais da quimioterapia, opções de tratamento. É exatamente o roteiro que Rajeev percorreu às cinco da manhã, um dia depois do diagnóstico, diante do computador. O mesmo grupo de pesquisadores já havia mostrado que essas clínicas usam avaliações no Google para exibir relatos de remissão impossíveis de verificar.

O que essas clínicas vendem não é um tratamento. É a experiência de ser ouvido, acolhido e convencido de que ainda existe uma saída.Leitura editorial de O Tecido

O relato de Thadani deixa isso claro. As consultas na Envita duravam horas, a equipe conhecia a vida da família, havia sofás de couro e luz natural. No hospital de referência, a experiência descrita foi de cirurgião ríspido, enfermeira que não tirava os olhos da tela e horas de espera. O paciente não comparava taxas de sobrevida. Comparava como se sentia em cada lugar.

O que dizem os dados sobre trocar o tratamento convencional

A evidência mais citada sobre o tema vem de um estudo da Universidade Yale publicado em 2018 no Journal of the National Cancer Institute3. Os pesquisadores compararam 280 pacientes com câncer de mama, próstata, pulmão ou colorretal ainda não metastático que optaram exclusivamente por medicina alternativa com 560 pacientes semelhantes tratados de forma convencional. O risco de morte no grupo alternativo foi 2,5 vezes maior. A sobrevida em cinco anos caiu de 78,3% para 54,7%.

Risco de morte de quem usou só medicina alternativa, por tipo de câncer Razão de risco: geral 2,50; mama 5,68; colorretal 4,57; pulmão 2,17; próstata sem diferença estatisticamente significativa. 1,0 = mesmo risco Geral 2,50× Mama 5,68× Colorretal 4,57× Pulmão 2,17× Próstata sem diferença significativa
Razão de risco de morte (hazard ratio) entre pacientes que escolheram apenas medicina alternativa e pacientes em tratamento convencional. Fonte: Johnson et al., JNCI, 2018. Elaboração: O Tecido.

Dois detalhes importam. Primeiro, o estudo trata de cânceres com boa chance de controle, ou seja, mede exatamente a oportunidade perdida que o caso Thadani ilustra no início, quando um exame precoce foi ignorado. Segundo, a exceção do câncer de próstata de baixo risco é coerente com a evolução lenta dessa doença, e não indica eficácia das alternativas. O mesmo grupo publicou depois, na JAMA Oncology, dados mostrando que recusar qualquer componente do tratamento padrão também se associa a maior mortalidade.

Fenbendazol: anatomia de uma cura viral

O último gesto de Rajeev foi pedir o fenbendazol, um antiparasitário de uso veterinário que ele havia comprado online por indicação de outro paciente. A substância ganhou fama a partir do relato do americano Joe Tippens, que atribuiu sua remissão de um câncer de pulmão ao vermífugo. Verificações independentes, como a da Science Feedback4, apontam que Tippens fazia tratamento convencional ao mesmo tempo e que não existem ensaios clínicos randomizados mostrando efeito do fenbendazol em humanos. Os dados se limitam a células em laboratório e camundongos.

Há ainda o risco direto. A literatura médica registra casos de lesão hepática em pacientes que tomaram a substância por conta própria. A lógica da "droga barata que a indústria esconde" é sedutora, mas a taxa de sucesso de candidatos a medicamentos oncológicos em ensaios clínicos é baixa justamente porque a maior parte do que funciona numa placa de Petri não funciona no corpo humano.

O Brasil já viveu esse filme

O país não precisa olhar para o Arizona para reconhecer o enredo. O Instituto Nacional de Câncer projeta cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 20285. O câncer de pulmão segue como o terceiro mais incidente entre homens e um dos cinco mais frequentes entre mulheres. É um mercado potencial enorme para quem vende promessas.

A pílula do câncer

Em 2016, o Congresso aprovou e a Presidência sancionou a Lei 13.269, que autorizava pacientes com câncer a usar a fosfoetanolamina sintética, substância sem registro na Anvisa e testada apenas em laboratório e animais. O STF suspendeu a lei por liminar no mesmo ano. Em 2017, o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo interrompeu a inclusão de pacientes no estudo clínico por falta de benefício clínico significativo. Em outubro de 2020, no julgamento da ADI 5501, o Supremo declarou a lei inconstitucional6, com o entendimento de que cabe à Anvisa, com base em protocolos científicos, autorizar a distribuição de medicamentos.

O ozônio no sangue

Entre as terapias "de suporte" aplicadas a Rajeev estava a ozonioterapia sistêmica. No Brasil, a Lei 14.648/20237 autorizou a prática como procedimento de caráter complementar, sob protesto de entidades médicas. Em 2025, o Conselho Federal de Medicina regulamentou o uso médico pela Resolução 2.445/20258, limitando-o a indicações específicas e vedando expressamente o tratamento de cânceres e feridas neoplásicas fora de pesquisa clínica aprovada. Ainda assim, clínicas privadas continuam anunciando a técnica com promessas oncológicas, o que coloca o problema no campo da fiscalização, não da lei.

Os dois episódios revelam um padrão brasileiro: a pressão por "dar esperança" ao paciente tende a buscar atalhos legislativos ou judiciais, contornando o caminho regulatório que existe para separar o que funciona do que apenas parece funcionar.

A falha que a medicina precisa admitir

Seria confortável encerrar a discussão culpando apenas charlatães e algoritmos. A reportagem do NYT não permite esse conforto. O ponto mais incômodo do texto é que a família inteira, inclusive a autora, passou a confiar na clínica alternativa porque ela oferecia algo que o hospital de excelência não ofereceu: tempo, escuta e um plano que fazia sentido emocional. Em conversa com a filha anos depois, o oncologista Mark Kris reconheceu que não poderia prometer a Rajeev sua vida de volta e que apoia pacientes na busca por esperança, mas fez uma ressalva: pior do que nenhuma esperança é a esperança falsa1.

A autora observa que, em nenhum momento, a família conversou sobre o que o pai queria fazer com o tempo que lhe restava. A escolha parecia binária: tratamento a qualquer custo ou morte. Esse é exatamente o espaço que os cuidados paliativos deveriam ocupar. Um ensaio clínico de referência publicado no New England Journal of Medicine em 2010, conduzido por Jennifer Temel e colegas9, acompanhou pacientes com câncer de pulmão metastático do mesmo tipo que acometeu Rajeev. Quem recebeu cuidado paliativo desde o diagnóstico, junto com o tratamento oncológico, teve melhor qualidade de vida, menos intervenções agressivas no fim da vida e sobrevida mediana de 11,6 meses, contra 8,9 meses no grupo de cuidado padrão.

O Brasil instituiu em maio de 2024 a Política Nacional de Cuidados Paliativos no SUS10, pela Portaria GM/MS 3.681, que prevê equipes especializadas na rede e valoriza a Diretiva Antecipada de Vontade, instrumento pelo qual o paciente registra suas preferências de cuidado. A política existe no papel. Sua implantação real, com equipes formadas e conversas difíceis feitas cedo, é o que determina se o próximo paciente assustado vai encontrar acolhimento dentro do sistema ou num anúncio pago.

Contraponto

Autonomia, desconfiança legítima e práticas complementares

Há argumentos sérios do outro lado. O primeiro é a autonomia: um adulto capaz tem direito de recusar tratamento, inclusive quando a decisão parece irracional para quem está de fora. No próprio julgamento da fosfoetanolamina, houve divergência no STF defendendo que o uso privado de substâncias se insere na esfera da liberdade individual, ao menos para pacientes terminais.

O segundo é que a desconfiança de muitos pacientes não nasce do nada. Custos altos, consultas apressadas e comunicação fria são queixas documentadas, e a reportagem as confirma. O terceiro é que nem toda prática complementar é charlatanismo: acupuntura, atividade física orientada e suporte psicológico têm evidências para controle de sintomas e são oferecidos em centros oncológicos de referência, sempre ao lado do tratamento padrão.

A linha que separa os dois mundos não é a etiqueta "natural" ou "integrativa", mas três perguntas: há evidência de benefício, o paciente foi informado dos riscos e a prática substitui ou complementa o tratamento eficaz?

Como reconhecer promessas de cura sem evidência

Com base na literatura citada e nos padrões descritos na reportagem, alguns sinais merecem atenção de pacientes e familiares:

  • Tratamentos descritos como "proprietários", "exclusivos" ou sem estudos publicados em revistas científicas revisadas por pares.
  • Depoimentos de cura como principal prova de eficácia, sem dados de quantos pacientes foram tratados e quantos morreram.
  • Pagamento antecipado, pacotes semanais caros e procedimentos realizados fora do país para escapar da regulação local.
  • Discurso que desqualifica oncologistas e a indústria farmacêutica como um todo, apresentando a clínica como a única aliada do paciente.
  • Promessa de eficácia com "efeitos colaterais mínimos" para doenças em estágio avançado.
  • Pressão para interromper ou não iniciar o tratamento convencional.

Para quem está diante da decisão

Buscar segunda opinião em outro serviço oncológico é legítimo e frequente. Perguntar ao oncologista sobre cuidados paliativos desde o início não significa desistir. No Brasil, conselhos regionais de medicina e a Anvisa recebem denúncias sobre propaganda enganosa e uso de produtos sem registro.

Perguntas frequentes

Trocar o tratamento oncológico convencional por terapias alternativas reduz a sobrevida?

Sim. O estudo de Yale publicado no JNCI em 2018 encontrou risco de morte 2,5 vezes maior entre pacientes com câncer não metastático que usaram apenas medicina alternativa, com sobrevida em cinco anos de 54,7% contra 78,3% no tratamento convencional.

O fenbendazol cura câncer?

Não há evidência disso em humanos. Existem apenas estudos em células e animais e relatos individuais. Não há ensaios clínicos randomizados, e há registros de lesão hepática por automedicação.

A ozonioterapia é permitida para tratar câncer no Brasil?

Não. A Lei 14.648/2023 permite a prática só como complementar, e a Resolução CFM 2.445/2025 veda seu uso para cânceres e feridas neoplásicas fora de pesquisa clínica aprovada.

O que aconteceu com a fosfoetanolamina?

A lei que autorizava seu uso foi suspensa pelo STF em 2016 e declarada inconstitucional em 2020 (ADI 5501). O estudo clínico do Icesp foi interrompido em 2017 por ausência de benefício clínico significativo.

Cuidados paliativos significam desistir do tratamento?

Não. Eles podem começar no diagnóstico e acompanhar o tratamento oncológico. No câncer de pulmão metastático, o cuidado paliativo precoce melhorou qualidade de vida e se associou a maior sobrevida mediana em ensaio clínico de 2010. O SUS tem uma política nacional para a área desde 2024.

Nota de atribuição: este artigo tem como ponto de partida a reportagem "Dying Patients Are Inundated by Misinformation. My Dad Was One of Them.", de Trisha Thadani, publicada pelo The New York Times em 4 de outubro de 2026. Os trechos relativos ao caso foram resumidos e parafraseados, com crédito à publicação original. A análise, o contexto brasileiro e as demais fontes são de responsabilidade de O Tecido. Este conteúdo é informativo e não substitui orientação médica.