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Erika Fatland passou a última década circulando ao redor de grandes potências sem nunca entrar nelas pela porta da frente. Escreveu sobre as cinco repúblicas da Ásia Central que saíram da União Soviética, sobre os catorze países que fazem fronteira com a Rússia, sobre os vales do Himalaia e, mais recentemente, sobre os rastros do império português em três continentes. Aos 43 anos, a antropóloga norueguesa acaba de concluir um livro sobre a Ucrânia em guerra, como revelou em entrevista ao jornal espanhol El País publicada em 10 de outubro de 20261. Para o leitor brasileiro, a conversa tem um interesse que vai além da curiosidade literária: o livro de Fatland que acaba de chegar ao país, Navegadores, trata de uma história que também é nossa, e o faz de um ângulo que merece ser discutido.
Quem é Erika Fatland
Nascida em Haugesund, na costa oeste da Noruega, em 1983, Fatland cresceu numa fazenda em Ølen, pequena localidade entre Bergen e Stavanger. Na entrevista ao El País, ela descreve uma infância solitária e uma família ligada a um grande frigorífico, onde o pai a colocou para trabalhar aos 10 anos numa tentativa de afastá-la da leitura obsessiva. O episódio, contado com humor, ajuda a entender a trajetória posterior: aos 16 anos, um programa de intercâmbio a levou a Lyon, na França, e a experiência de se virar sozinha em outra língua se tornou, nas palavras dela, uma espécie de formação para qualquer viagem futura1.
Fatland estudou antropologia social na Universidade de Oslo e fala oito idiomas, segundo as notas biográficas de suas editoras internacionais3. Seus livros foram publicados em 23 países. A formação acadêmica não é detalhe: o que distingue sua escrita de grande parte da literatura de viagem contemporânea é o hábito de passar longos períodos ouvindo pessoas comuns, com intérpretes e guias que, conforme ela mesma observa, funcionam ora como termômetro da realidade local, ora como vigias do regime.
Beslan e Utøya: a verdade como forma de reparação
Antes da estrada, houve a tragédia. O primeiro livro adulto de Fatland nasceu de sua pesquisa de mestrado em Beslan, na Ossétia do Norte, onde um ataque a uma escola em 2004 deixou centenas de mortos, muitos deles crianças. O segundo tratou do ano seguinte ao massacre de Utøya, em 2011, na Noruega. Ali a história se tornou pessoal: um primo da autora foi baleado na ilha e sobreviveu.
Ao comparar os dois episódios, Fatland chega a uma conclusão de alcance político. Na Rússia, as famílias de Beslan receberam versões oficiais que consideram manipuladas, e boa parte da energia da comunidade foi consumida pela busca do que realmente aconteceu e por teorias conspiratórias. Na Noruega, o relatório oficial expôs abertamente as falhas da polícia e do Estado. Para a autora, o acesso à verdade foi decisivo para que a sociedade norueguesa não se desagregasse após o trauma1. É uma observação que interessa a qualquer país que ainda discute como lidar com a memória de suas violências, o Brasil incluído.
Um método: viajar ao redor do poder
Foi depois de dois livros sobre massacres que Fatland encontrou o gênero que a tornou conhecida. Sovietistão, de 2014, percorre Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, Turcomenistão e Uzbequistão e venceu o prêmio dos livreiros noruegueses de não ficção em 20159. Ela conta que a ideia surgiu em Beslan, quando chamou de russos alguns moradores e foi corrigida com irritação: eram ossetas. A partir daí, a pergunta passou a ser o que restou de identidade própria nos povos que Moscou governou por décadas.
A Fronteira, o livro seguinte, leva a lógica ao extremo. Fatland percorreu os cerca de 61 mil quilômetros da fronteira russa, da Coreia do Norte à Noruega, passando por Mongólia, China, Cazaquistão, Cáucaso, Ucrânia, Báltico e a Passagem do Nordeste4. A pergunta central era simples e incômoda: o que significa ter o maior país do mundo como vizinho? A anexação da Crimeia, em 2014, ocorreu poucas semanas depois de ela ter concebido o projeto, o que transformou uma viagem imaginada como tranquila em reportagem sobre uma fronteira em movimento.
Curiosamente, Fatland nunca escreveu um livro sobre a Rússia propriamente dita. Ao El País, ela relatou que sua antiga editora russa recusou ajudá-la a obter um visto, num recado que ela interpretou como advertência. A resposta da autora foi pragmática: pretende esperar, porque, estatisticamente, deve sobreviver a Vladimir Putin1.
Turcomenistão e Coreia do Norte: as duas ditaduras fechadas
Fatland é uma das poucas escritoras ocidentais a ter visitado tanto o Turcomenistão quanto a Coreia do Norte. Na Coreia, só lhe permitiram caminhar desacompanhada pelo estacionamento do hotel. Sua comparação entre os dois regimes é útil porque evita a equivalência fácil: ambos cultuam seus líderes de forma quase religiosa, mas no Turcomenistão ainda circulam televisão por satélite, alguma internet e crítica em voz baixa, enquanto na Coreia do Norte o isolamento informativo é praticamente total e a punição alcança famílias inteiras. Ela também alerta que Pyongyang, ao enviar soldados para apoiar a Rússia na Ucrânia, está aprendendo guerra moderna com drones, o que torna o regime mais perigoso1.
Navegadores e o espelho brasileiro
O livro mais recente de Fatland a ser traduzido segue a rota do primeiro império marítimo europeu: Ceuta, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Moçambique, Índia, Sri Lanka, Macau, Malaca, Japão, Brasil e, por fim, Portugal3. Na Noruega, foi o livro mais vendido de 2024, sucesso que a própria autora diz não saber explicar1. No Brasil, a obra saiu pela Todavia com o título Navegadores, e a editora destaca como fio condutor o maior legado das navegações lusitanas: a própria língua portuguesa2.
O ponto da entrevista que mais diz respeito ao leitor brasileiro é o tráfico de pessoas escravizadas. Fatland afirma ter se impressionado com a dimensão do papel português no comércio atlântico e com a escassa presença do tema nas escolas de Portugal. Os números que ela menciona são compatíveis com a principal base de dados sobre o assunto. Segundo o Trans-Atlantic Slave Trade Database (SlaveVoyages), cerca de 4,86 milhões de africanos escravizados desembarcaram em território brasileiro entre o século XVI e o XIX, mais do que em qualquer outro destino e mais que o dobro do Caribe britânico, segundo colocado, conforme checagem da Agência Pública5.
A comparação feita por Fatland, entre os cerca de 400 mil africanos levados à América do Norte continental e os quase 5 milhões trazidos ao Brasil, é a mesma que historiadores brasileiros vêm repetindo há anos sem que ela tenha alcançado o grande público internacional. Que uma escritora norueguesa precise lembrar isso aos portugueses diz algo sobre o quanto a memória da escravidão segue assimétrica nos dois lados do Atlântico.
No Brasil, o tema tem moldura institucional própria. A Lei 10.639, de 2003, tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas7, e em 2017 o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, principal porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas, foi inscrito pela UNESCO como Patrimônio Mundial8. A distância entre a lei e a sala de aula ainda é objeto de debate, mas o contraste com o silêncio que Fatland descreve em Portugal é evidente.
O lusotropicalismo nasceu no Recife, não em Lisboa
Há um trecho da entrevista em que a leitura brasileira precisa acrescentar uma camada. Perguntada sobre a imagem que Portugal faz de si como colonizador benevolente, Fatland atribui a origem dessa ideia a António de Oliveira Salazar e ao lusotropicalismo. A segunda parte está correta; a primeira, incompleta. O lusotropicalismo é uma formulação do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, que desde Casa-Grande & Senzala (1933) desenvolveu a tese de uma suposta vocação portuguesa para a mestiçagem e a convivência nos trópicos, sistematizada depois em obras como O mundo que o português criou (1940) e Integração portuguesa nos trópicos (1958)6.
Foi o Estado Novo português que, a partir dos anos 1950, se apropriou dessas ideias para justificar a manutenção das colônias africanas num momento em que os impérios europeus se desfaziam. Ou seja: o mito do colonizador cordial que Fatland encontrou vivo em Portugal tem certidão de nascimento brasileira. Isso não diminui a observação da autora, mas a torna mais interessante para nós, porque o mesmo repertório alimentou, por aqui, a ideia de democracia racial, contestada desde os anos 1950 por pesquisadores como Florestan Fernandes.
Ucrânia: o livro que ela acabou de terminar
O projeto mais recente de Fatland é, segundo ela, um livro de viagem diferente dos anteriores. Escrito a partir de passagens por Cracóvia, Kharkiv, Odessa e Kiev, trata de como os ucranianos tentam preservar alguma rotina desde a invasão russa de fevereiro de 2022. A autora insiste que não se trata de uma galeria de heróis: há também homens que se escondem para não lutar e pessoas indiferentes à política. O que mais a comoveu, contou, foram os civis que arriscam a vida na linha de frente para resgatar cães e gatos, e uma jovem em Kharkiv que se recusou a deixar a cidade porque cuidava de morcegos1.
“A guerra tira o pior e também o melhor das pessoas.”
Erika Fatland, em entrevista a Tereixa Constenla, El País (tradução livre)
Para uma escritora que vinha contornando a Rússia livro após livro, a Ucrânia representa o momento em que a fronteira deixou de ser objeto de observação e passou a ser linha de combate. Não há ainda título nem data de publicação divulgados para a obra.
Por que ler Fatland agora
Fatland interessa ao leitor brasileiro por três razões. A primeira é o método: uma antropóloga que dá às mulheres que encontra o mesmo espaço narrativo que costuma ser reservado a governantes e generais. Ela observa que, em países como o Paquistão, ser mulher lhe abriu acesso à metade da sociedade que um viajante homem jamais veria, e que homens desconfiam menos dela, o que os leva a falar mais. A segunda é a geografia: seus livros cobrem justamente as regiões em que a política internacional se decide hoje, da periferia russa ao Himalaia disputado por China e Índia. A terceira é Navegadores, que obriga o leitor de língua portuguesa a se ver de fora, como parte de uma rede imperial que ligou Luanda, Goa, Macau e Salvador.
Os livros de Erika Fatland em português podem ser encontrados na Amazon.
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Quem é Erika Fatland?
Erika Fatland é uma escritora e antropóloga social norueguesa, nascida em Haugesund em 1983. É autora de livros de viagem como Sovietistão, A Fronteira, Himalaia e Navegadores, publicados em 23 países.
Qual livro de Erika Fatland está disponível no Brasil?
Navegadores, publicado pela Todavia, é o título da autora lançado no Brasil. O livro acompanha os vestígios do império português na África, na Ásia e na América, incluindo o Brasil.
Sobre o que é o livro Navegadores?
É um livro de viagem e história que refaz as rotas do primeiro império marítimo europeu, de Ceuta a Macau, passando por Angola, Moçambique, Índia, Japão e Brasil, e discute o legado ambivalente da colonização portuguesa, incluindo o tráfico de africanos escravizados.
Qual é o próximo livro de Erika Fatland?
Em outubro de 2026, Fatland afirmou ao jornal El País ter concluído um livro sobre a Ucrânia em guerra, baseado em viagens a Kharkiv, Odessa e Kiev. Título e data de lançamento ainda não foram divulgados.
O que é lusotropicalismo?
É a tese, formulada pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, de que os portugueses teriam uma aptidão especial para a convivência e a miscigenação nos trópicos. A partir dos anos 1950, o Estado Novo de Salazar usou a ideia para justificar o colonialismo português na África.