Caderno Longevidade 26 de julho de 2026 · 9 min de leitura

Enquanto países ricos levaram décadas — em alguns casos, mais de um século — para envelhecer, nações como Tailândia, Vietnã e o próprio Brasil estão atravessando a mesma transição em poucas décadas, e com uma fração da riqueza acumulada pelos Estados Unidos ou pela Europa.

O Brasil não vai ficar rico antes de ficar velho. Essa é a conclusão incômoda a que chegam demógrafos ao comparar a velocidade do envelhecimento populacional brasileiro com a de economias que percorreram o mesmo caminho há décadas. Segundo as Projeções de População do IBGE, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais quase dobrou entre 2000 e 2023, saltando de 8,7% para 15,6% da população — o equivalente a passar de 15,2 milhões para 33 milhões de pessoas em pouco mais de duas décadas. A população com 70 anos ou mais, que era de 6,8 milhões em 2000, já soma 16,7 milhões hoje e deve superar o número de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos por volta de 2045.

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Uma reportagem publicada pelo Wall Street Journal em julho descreve como países em desenvolvimento da Ásia — Tailândia, Vietnã, China e, em menor grau, a Índia — estão envelhecendo em níveis de renda muito inferiores aos que Estados Unidos, Alemanha ou Japão tinham quando cruzaram os mesmos marcos demográficos. A reportagem acompanha o caso da Tailândia, onde uma em cada seis pessoas já tem mais de 65 anos e a taxa de fecundidade caiu para 0,9 filho por mulher — bem abaixo do nível necessário para manter a população estável.

Um mesmo relógio, ritmos diferentes

A Organização das Nações Unidas classifica como "sociedade envelhecida" aquela em que pelo menos 7% da população tem 65 anos ou mais; como "sociedade idosa", quando essa fatia chega a 14%; e como "superenvelhecida", quando ultrapassa 20%. Os Estados Unidos levaram mais de setenta anos para sair do primeiro estágio e chegar ao segundo. A Tailândia fez esse mesmo percurso em apenas dezoito anos — tornou-se uma sociedade envelhecida em 2004 e uma sociedade idosa já em 2022, segundo dados da ONU citados pelo WSJ. O Brasil segue trajetória semelhante: tornou-se uma sociedade envelhecida em 2012 e deve se tornar uma sociedade idosa por volta de 2031, chegando à condição de superenvelhecida perto de 2046 — praticamente na mesma janela de tempo em que Tailândia, China e Estados Unidos devem atingir o mesmo patamar, apesar de rendas per capita muito distintas.

"Envelhecer antes de enriquecer" resume o dilema: os países emergentes chegam à velhice em massa sem terem construído, antes, os sistemas de previdência, saúde e cuidado de longa duração que sustentam a terceira idade nas economias ricas.

A diferença de renda no momento da transição é o ponto central do argumento. Quando os Estados Unidos se tornaram uma sociedade idosa, em 2014, o PIB per capita americano já passava de US$ 55 mil. A Tailândia chegou ao mesmo estágio, em 2022, com um PIB per capita pouco acima de US$ 6,9 mil. O Brasil, com um PIB per capita que gira em torno de um terço do americano, caminha para repetir esse padrão: envelhecer rápido, mas sem a poupança pública e privada acumulada por quem envelheceu devagar.

Quem cuida de quem no Brasil

O retrato brasileiro do cuidado à população idosa lembra, em vários pontos, o que a reportagem do WSJ descreve em vilarejos tailandeses: famílias — sobretudo mulheres — assumindo sozinhas um trabalho que, em outros países, é dividido com o Estado. Uma pesquisa do IBGE (PNAD Contínua) mostrou que o número de brasileiros que se tornaram cuidadores informais de parentes idosos saltou de 3,7 milhões em 2016 para 5,1 milhões em 2019. Estudos acadêmicos brasileiros, como os conduzidos pela Fiocruz durante a pandemia, apontam que cerca de 90% desses cuidadores são mulheres — em geral filhas, cônjuges ou netas —, e que boa parte delas dedica entre 13 e 24 horas diárias ao cuidado, sem remuneração e sem rede de apoio formal.

O Brasil aprovou, no fim de 2024, a Política Nacional do Cuidado, que reconhece formalmente esse trabalho e prevê mecanismos de apoio — mas a política ainda está em fase de implementação, e o país não dispõe de um sistema equivalente ao de países como Espanha ou Reino Unido, onde o Estado compensa financeiramente parte da renda perdida por quem cuida de um familiar em tempo integral.

A rede de instituições especializadas também é escassa diante do tamanho da população idosa. O Brasil tem hoje pouco mais de 1.400 Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) — públicas, privadas e filantrópicas — para uma população de cerca de 30 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo dados citados pela Câmara dos Deputados. É uma proporção baixa, ainda que mais favorável do que a da Tailândia, onde o WSJ identificou apenas 25 casas geriátricas mantidas pelo governo para uma população de 71 milhões de habitantes.

Anos entre sociedade envelhecida e superenvelhecida França 154 anos EUA 87 anos Japão 35 anos Brasil 34 anos China 32 anos Tailândia 27 anos Vietnã 31 anos
Tempo estimado, em anos, entre o país se tornar uma "sociedade envelhecida" (7% da população com 65+) e uma "sociedade superenvelhecida" (20% da população com 65+), segundo projeções da ONU. Fonte: elaboração própria a partir de dados da ONU e do Instituto Nacional de População e Seguridade Social do Japão citados pelo Wall Street Journal.

O que sustenta a velhice sem poupança

Sem poupança privada expressiva — uma pesquisa da PNAD mostra que a maior parte dos idosos de baixa renda no Brasil depende quase inteiramente de benefícios públicos e da própria família —, o principal amparo estatal para a velhice em situação de pobreza é o Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS). Em 2026, o benefício paga um salário mínimo mensal, R$ 1.621, a idosos com 65 anos ou mais e renda familiar per capita de até um quarto do salário mínimo. Cerca de 2,72 milhões de idosos recebem o BPC atualmente, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. É uma rede de proteção real, mas o valor fica abaixo do necessário para cobrir cuidados de longa duração, medicamentos contínuos e adaptações domiciliares — motivo pelo qual, na prática, o suporte familiar segue sendo o principal pilar de sustento para a maioria dos idosos brasileiros de baixa renda, especialmente fora dos grandes centros urbanos.

Contraponto

Nem todos os economistas leem esse cenário como um simples déficit a ser coberto por mais gasto público. Parte dos especialistas em finanças públicas argumenta que a resposta prioritária deveria ser a reforma e a sustentabilidade do sistema previdenciário — e não a expansão de benefícios assistenciais como o BPC, cujo custo fiscal já é significativo e tende a crescer junto com a população idosa. Nessa visão, ampliar redes de cuidado formal sem antes equacionar o desequilíbrio previdenciário apenas adiaria um ajuste inevitável.

Do outro lado, pesquisadores da área de saúde pública e assistência social defendem que investir em cuidado formal — centros-dia, ILPIs, remuneração para cuidadores familiares — não é gasto substituível pela reforma previdenciária, mas uma frente complementar: sem ela, o custo humano e econômico recai de forma desproporcional sobre mulheres, que hoje sustentam a maior parte do cuidado informal sem remuneração nem proteção previdenciária própria.

Uma corrida contra o tempo

O Banco Mundial estima que, até o início da década de 2040, o número de tailandeses com mais de 80 anos que precisam de assistência deve sextuplicar, chegando a cerca de 2,5 milhões de pessoas — um ritmo de crescimento da demanda que a infraestrutura de cuidado do país está longe de acompanhar. O padrão que se desenha para o Brasil é semelhante em direção, ainda que os números absolutos sejam diferentes: o IBGE projeta que a população com 80 anos ou mais, que era de 2 milhões em 2000, já soma cerca de 5 milhões em 2026 e deve chegar a 23 milhões em 2070, quando esse grupo etário poderá superar em número as crianças de 0 a 14 anos.

A janela para preparar essa transição — ampliar a cobertura previdenciária, formar cuidadores profissionais, criar alternativas de moradia assistida e reconhecer financeiramente o cuidado familiar — está se fechando mais depressa do que se fechou para os países que envelheceram antes. A pergunta que fica, tanto para o Brasil quanto para a Tailândia, não é mais se a população vai envelhecer, mas se as instituições vão envelhecer junto — ou se vão continuar sendo construídas sobre o alicerce, cada vez mais sobrecarregado, das famílias.

Referências

  1. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Projeções de População 2024. agenciagov.ebc.com.br
  2. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) — Tábuas de Mortalidade 2024 (expectativa de vida). agenciadenoticias.ibge.gov.br
  3. Projeto Colabora — "O envelhecimento populacional do Brasil". projetocolabora.com.br
  4. Câmara dos Deputados — Projeto de Lei 3512/23 e dados sobre ILPIs no Brasil. camara.leg.br
  5. Fiocruz — "Cuidadoras familiares de pessoas idosas sofreram mais durante a pandemia de covid-19". fiocruz.br
  6. CDD — Crônicos do Dia a Dia, com dados do IBGE/PNAD Contínua sobre cuidadores informais. cdd.org.br
  7. IEPREV — Regras do BPC/LOAS em 2026. ieprev.com.br
  8. Sousa Advogados — Valor e número de beneficiários do BPC Idoso em 2026 (dados MDS/SAGICAD). filipebrandao.adv.br
Este texto foi inspirado na reportagem "Poor Countries Are Aging Fast but Can't Keep Up With the Cost", de Gabriele Steinhauser, publicada pelo Wall Street Journal em 25 de julho de 2026, que documenta o envelhecimento acelerado da Tailândia e de outras economias emergentes. Disponível em: wsj.com/world/poor-countries-are-aging-fast-but-cant-keep-up-with-the-cost-fd83b1cd. A apuração e os dados sobre o Brasil são originais, com base nas fontes listadas acima.