Na mesma semana em que um pesquisador deixou a Anthropic alegando que colegas de dentro das grandes empresas de inteligência artificial acreditam, em sigilo, que a tecnologia pode causar a extinção humana até o fim da década, o presidente dos Estados Unidos escolheu o caminho oposto: chamou qualquer pedido de regulação de "conspiração doentia". No meio dessas duas posições, quase nada é dito sobre o que realmente está em jogo quando um governo decide, por convicção ou por conveniência, que a inteligência artificial não precisa de controle algum.
A renúncia que expôs um desconforto interno
Jacob Coxon, pesquisador britânico de 27 anos que passou três anos trabalhando em modelos de pré-treinamento na OpenAI e depois na Anthropic, anunciou sua saída publicamente em uma sequência de publicações na rede X1. Ele afirmou que as duas empresas correm de forma irresponsável rumo a sistemas capazes de se autoaperfeiçoar, e que essa corrida coloca vidas em risco sem que exista, hoje, um plano sólido de contenção2.
O que tornou o episódio incomum não foi a denúncia em si, mas a resposta interna. Evan Hubinger, líder de ciência de alinhamento na própria Anthropic, confirmou publicamente que a preocupação é genuína dentro da empresa e declarou considerar superior a 10% a probabilidade de que a inteligência artificial cause a extinção da humanidade na próxima década, admitindo ainda que a companhia não tem, até o momento, um plano definido para resolver o problema do alinhamento em sistemas de superinteligência3. Outro pesquisador da empresa, Samuel Marks, também confirmou que o tema circula com frequência entre os times técnicos4.
A colunista Rima Elkouri, do jornal canadense La Presse, resumiu bem o desconforto de ler declarações desse tipo vindas de dentro das próprias empresas que fabricam a tecnologia: não se trata de uma previsão qualquer, mas de um risco de extinção anunciado sem que o percentual citado venha acompanhado de dados que o sustentem5. Ela também lembra, citando a cartunista Elise Gravel, que o risco futuro de uma IA descontrolada não deveria eclipsar um fato mais imediato: já existem pessoas, de carne e osso, causando dano real através do controle e da exploração dessas mesmas ferramentas5.
Contraponto
Nem todos os especialistas consideram o risco existencial a prioridade correta do debate. Críticos ouvidos por veículos como a Scientific American argumentam que projeções de extinção são especulativas e desviam a atenção de danos já mensuráveis: substituição de postos de trabalho, discriminação algorítmica, fraude e vigilância em massa6. Segundo dados citados nessa cobertura, o emprego em nível de entrada já caiu perto de 20% nos setores dos Estados Unidos mais expostos à automação por IA7, um efeito concreto que dispensa qualquer estimativa de longo prazo para preocupar.
Trump e a rejeição a qualquer freio
A resposta da Casa Branca ao alerta veio na segunda-feira seguinte. Diante de pedidos por maior supervisão vindos de nomes como Dario Amodei (CEO da Anthropic), Sam Altman (OpenAI) e Elon Musk, Donald Trump publicou em sua rede Truth Social que existe uma "conspiração doentia" contra a inteligência artificial e os centros de dados, e que a única interessada nesse suposto sabotagem seria a China8. Ele reafirmou que o único controle necessário para a IA é a presença de "um presidente forte e inteligente" à frente do país8, retomando um raciocínio que já vinha sustentando desde a revogação da ordem executiva sobre supervisão de IA herdada do governo anterior9.
Chama atenção o contraste: dias antes, Amodei havia publicado um ensaio pedindo desaceleração no desenvolvimento de IA, citando o risco de que enxames de agentes autônomos pudessem, em seis a doze meses, ganhar capacidade de comprometer partes relevantes da infraestrutura da internet, com prejuízos potenciais na casa das centenas de bilhões de dólares9. Trump não respondeu ao conteúdo técnico do alerta. Respondeu à ideia de regulação em si, tratando-a como ameaça à competitividade americana frente à China10.
O "fascismo de fim de mundo" como chave de leitura
É nesse cenário que chega ao mercado, também nesta terça-feira, o novo livro de Naomi Klein e Astra Taylor, "End Times Fascism and the Fight for the Living World" (link de afiliado). As autoras descrevem o que chamam de fascismo de fim de mundo: uma aliança pouco coordenada, mas funcionalmente unida, entre evangélicos que aguardam eventos de caráter apocalíptico, oligarcas de tecnologia e nacionalistas que tratam a imigração como ameaça existencial11. O que os aproxima, segundo Klein e Taylor, não é uma ideologia comum, mas a aceitação de que o colapso é inevitável e a disputa passa a ser sobre quem sobrevive a ele12.
A tese ajuda a explicar por que a IA entrou nesse enredo. Quando o risco existencial é tratado como dado e não como hipótese a mitigar, a resposta política deixa de ser prevenção e vira gestão de vantagem competitiva, exatamente o argumento que Trump usa ao opor regulação a soberania tecnológica frente à China. As autoras também documentam, segundo reportagem que acompanhou o lançamento, como parte dessa aproximação entre a Casa Branca e o setor de tecnologia se consolidou em encontros com lideranças do setor, nos quais o então candidato prometeu flexibilizar regras sobre IA e criptomoedas em troca de apoio político13.
O Brasil escolheu outro caminho, ainda que mais devagar
Enquanto Washington debate se deve existir regulação alguma, o Brasil segue, com atraso mas sem essa disputa de princípio, na construção do próprio marco legal. O Projeto de Lei 2338/2023, aprovado em texto-base pelo Senado Federal por votação simbólica em dezembro de 2024, tramita desde então na Câmara dos Deputados14. O modelo brasileiro segue a lógica europeia de classificação de sistemas por nível de risco, mas dedica capítulo próprio aos direitos das pessoas afetadas por decisões automatizadas, incluindo direito à explicação, à revisão humana e à contestação de resultados discriminatórios15.
A votação final, esperada para o início de 2026, foi adiada em meio a um entrave técnico: parte do texto aprovado no Senado atribuía competências normativas à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) em matéria que seria de iniciativa privativa do Poder Executivo, o que abriria espaço para questionamento de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal16. Para resolver o impasse, o Executivo enviou em dezembro de 2025 um projeto complementar que cria o Sistema Nacional de Regulação e Governança de IA (SIA) e formaliza a ANPD como sua coordenadora16. Enquanto isso, a própria ANPD já incluiu IA e tecnologias emergentes entre os quatro eixos prioritários de fiscalização para o biênio 2026-202717.
O que isso muda na prática
Quando aprovado, o marco brasileiro classifica sistemas de IA por grau de risco, com sanções que podem chegar a R$ 50 milhões por infração para os enquadrados como alto risco, e cria obrigações de avaliação de impacto, transparência e governança para empresas que utilizam essas ferramentas em decisões sobre pessoas, como contratação, crédito e atendimento18.
A diferença entre os dois países não está apenas na velocidade. Está na natureza da disputa. Nos Estados Unidos, o debate público girou em torno de se a IA representa risco algum que justifique controle. No Brasil, a discussão parte do pressuposto de que existem riscos a mitigar e se concentra em como distribuir responsabilidade entre desenvolvedores, fornecedores e quem usa a tecnologia, além de resolver entraves constitucionais sobre quem tem competência para fiscalizar15. São dois modelos de Estado em relação à tecnologia, e o resultado de cada um tende a moldar de forma bem diferente quem arca com o custo quando algo dá errado.
Sobre esta reportagem
Este texto foi produzido a partir da coluna de Rima Elkouri, "L'IA, Trump et la fin du monde", publicada pelo jornal canadense La Presse em 15 de setembro de 2026, usada aqui como ponto de partida e inspiração editorial, sem tradução ou reprodução integral. Leia a coluna original: La Presse, 15 de setembro de 2026.
Perguntas frequentes
O que disse o pesquisador que deixou a Anthropic?
Jacob Coxon afirmou que profissionais de dentro das principais empresas de IA acreditam, em particular, que a tecnologia pode causar a extinção humana até o fim da década, e acusou OpenAI e Anthropic de correrem rumo a sistemas de autoaperfeiçoamento sem plano de contenção adequado.
A própria Anthropic confirmou essa preocupação?
Sim. O líder de ciência de alinhamento da empresa, Evan Hubinger, declarou publicamente concordar com Coxon e estimou em mais de 10% a chance de a IA causar extinção humana na próxima década, reconhecendo que a companhia ainda não tem um plano definido para o problema.
Qual é a posição de Donald Trump sobre regulação de IA?
Trump rejeitou publicamente qualquer necessidade de regulação adicional, classificando os pedidos de supervisão feitos por executivos de tecnologia como uma "conspiração doentia" e defendendo que o único controle necessário é a presença de um presidente americano forte.
O que propõe o livro de Naomi Klein e Astra Taylor?
As autoras descrevem o conceito de fascismo de fim de mundo: uma aliança entre setores religiosos apocalípticos, oligarcas de tecnologia e nacionalistas que aceitam o colapso planetário como dado e disputam entre si quem sobreviverá a ele.
Em que estágio está a regulação de IA no Brasil?
O PL 2338/2023 foi aprovado em texto-base pelo Senado em dezembro de 2024 e aguarda votação final na Câmara dos Deputados, após entraves constitucionais sobre a competência normativa da ANPD, que já incluiu IA entre suas prioridades de fiscalização para 2026-2027.