Desde que assumiu a presidência do Federal Reserve, em maio, Kevin Warsh tem recebido ligações frequentes do presidente Donald Trump. É o que revela reportagem do Wall Street Journal publicada nesta quarta-feira (5), assinada por Brian Schwartz, Philip Wegmann e Nick Timiraos. Segundo o jornal, os telefonemas ocorrem em rajadas, várias vezes em poucos dias, seguidas de períodos de silêncio, e tratam de temas como os efeitos econômicos da guerra no Irã e o avanço acelerado da inteligência artificial. Fontes ouvidas pelo WSJ afirmam que Trump não teria abordado diretamente a trajetória dos juros americanos desde que Warsh foi confirmado pelo Senado.
O relato chama atenção porque rompe com um padrão que vinha se consolidando havia décadas. Presidentes americanos indicam o chefe do Fed, mas a autoridade monetária decide os juros de forma independente, separação pensada justamente para blindar decisões que afetam o custo do crédito de toda a economia contra cálculos eleitorais. Contatos entre a Casa Branca e o Fed sempre existiram, mas nas últimas décadas costumavam ser formais, agendados com antecedência e coreografados para evitar a percepção de que o presidente influencia as decisões de juros.
Um padrão que remonta a Nixon
A relação próxima entre presidente e banco central não é inédita nos Estados Unidos. Nos anos 1960, os contatos entre a Casa Branca e o Fed eram rotineiros. O episódio que mudou essa lógica foi a pressão do presidente Richard Nixon sobre o então presidente do Fed, Arthur Burns, no início dos anos 1970. Gravações do Salão Oval mostram Burns se gabando, em dezembro de 1971, de estar pressionando colegas a cortar juros na semana seguinte, ao que Nixon respondeu pedindo que ele fosse mais duro com o comitê. Nixon foi reeleito em uma vitória esmagadora no ano seguinte, mas a inflação disparou depois, e o episódio se tornou o exemplo clássico do risco de subordinar política monetária a calendário eleitoral. Desde então, presidentes como Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama evitaram pressionar publicamente o Fed, e a comunicação com o banco central passou a ser feita, em boa parte, pelo secretário do Tesouro.
No primeiro mandato de Trump, o tom mudou. Ele chamou Jerome Powell, seu próprio indicado, de "atrasado" por não cortar juros na velocidade que desejava, chegou a comparar as conversas com o então presidente do Fed a "falar com uma parede" e ameaçou demiti-lo repetidamente. Warsh, até aqui, tem recebido tratamento oposto: Trump o descreve a aliados como um conselheiro econômico valioso e, segundo o WSJ, costuma elogiar sua aparência depois de vê-lo na televisão.
A frase contrasta com uma entrevista do próprio Trump ao WSJ em dezembro do ano passado, quando disse esperar que o presidente do Fed o consultasse sobre onde fixar os juros. A ambiguidade entre o discurso público de respeito à autonomia e a proximidade privada é, para analistas ouvidos pelo jornal americano, o verdadeiro ponto de atenção. Na semana passada, antes de o Fed decidir manter os juros estáveis, Trump elogiou Warsh e disse acreditar que ele quer "fazer a coisa certa", mas completou que "ele tem um conselho, e os membros do conselho são muito políticos". Powell, o antecessor de Warsh, continua no colegiado como diretor.
O teste ainda não veio
Em depoimento ao Senado, em abril, Warsh afirmou que a independência do Fed "depende do próprio Fed" e que não é ameaçada pelo simples fato de autoridades eleitas declararem opiniões sobre juros. Questionado pelo senador Chris Van Hollen sobre se manteria a prática de Powell de divulgar publicamente seus contatos com a Casa Branca, Warsh disse que cumpriria a lei, mas não confirmou se já havia falado com Trump. Powell, por sua vez, lidava com a pressão de Trump mantendo distância pública: os encontros eram avisados com comunicado imediato, e as ligações apareciam em agendas mensais divulgadas com um mês de defasagem.
Na entrevista coletiva da semana passada, Warsh afirmou que uma alta de juros "poderia bem fazer parte" da resposta caso a inflação continue elevada, mas apostou mais na comunicação para convencer o mercado de que o Fed é sério em relação à meta de 2%. Para Ellen Meade, ex-economista do Fed hoje na Universidade Duke, a fala reduziu a confiança de que a proximidade com Trump daria a Warsh espaço político para subir juros caso o cenário exigisse, algo que ela esperava antes da coletiva.
Contraponto
A Casa Branca nega qualquer tentativa de interferir na política monetária. Em nota ao WSJ, o porta-voz Kush Desai afirmou que Trump "tem reiteradamente reafirmado a independência de Warsh e do Fed", ainda que reserve o direito de opinar publicamente sobre juros como cidadão americano. O próprio Warsh, no mesmo depoimento ao Senado, disse que, até assumir o cargo, Trump não havia tentado influenciar a condução da política monetária, e que, se tentasse, ele "manteria a cabeça baixa e faria o trabalho".
Economistas de mercado também dividem opiniões sobre o peso real dos telefonemas. Para alguns, contato frequente não equivale a interferência e pode até reduzir o atrito público que marcou a relação entre Trump e Powell. Para outros, como a ex-secretária do Tesouro Janet Yellen, a tentativa de aproximação já é, em si, parte de um esforço mais amplo para corroer a autonomia da instituição, com risco de o mercado passar a exigir prêmios maiores para financiar a dívida americana caso a política monetária seja percebida como subordinada à política fiscal.
O que isso significa para o Brasil
A independência do Fed não é um debate apenas americano. Ela funciona como um dos pilares da arquitetura financeira global, porque as decisões do banco central americano influenciam o custo do crédito, o comportamento do dólar e o apetite dos investidores por ativos de mercados emergentes, entre eles os brasileiros. Se o mercado passar a duvidar da capacidade do Fed de agir apenas por critérios técnicos, o efeito mais imediato tende a ser um dólar mais volátil e possivelmente mais forte, o que pressiona o real, encarece importações e reduz o espaço de manobra do Banco Central brasileiro.
O caminho inverso também é possível: cortes de juros nos Estados Unidos, mesmo que motivados por pressão política, costumam melhorar a liquidez global e favorecer moedas e ativos de países emergentes no curto prazo. É por isso que analistas descrevem o efeito da proximidade entre Trump e Warsh sobre o Brasil como um resultado em aberto, que depende menos da existência dos telefonemas e mais do que Warsh decide fazer quando o julgamento técnico do Fed divergir do que a Casa Branca deseja.
O momento é particularmente sensível porque o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central cortou a Selic nesta quarta-feira, mesmo dia da publicação da reportagem do WSJ, para 14,00% ao ano, o quarto corte consecutivo. A manutenção dos juros pelo Fed na semana anterior deu ao Copom um ambiente externo mais confortável para seguir cortando, mas o comitê brasileiro segue cauteloso: a inflação projetada para 2026 ainda está acima do teto da meta, e o cenário fiscal doméstico continua sendo tratado como o principal risco interno. Uma eventual perda de credibilidade do Fed tende a se somar a essas incertezas domésticas, não a substituí-las.
O Brasil tem, desde 2021, um desenho institucional pensado justamente para reduzir esse tipo de risco em casa: a Lei Complementar 179 deu autonomia formal ao Banco Central, com mandatos fixos e não coincidentes com o calendário eleitoral para o presidente e os diretores da instituição, e a definição de que a estabilidade de preços é seu objetivo fundamental. O episódio americano funciona, para economistas locais, como lembrete de que essa blindagem institucional não é permanente nem automática em nenhum país, inclusive nos Estados Unidos, onde a separação entre presidente e banco central nunca foi de fato garantida por lei, mas por convenção.
Nota editorial: esta reportagem se baseia, em parte, em informações apuradas pelo Wall Street Journal em "Trump Has Called Warsh Repeatedly Since He Became Fed Chair", de Brian Schwartz, Philip Wegmann e Nick Timiraos, publicada em 5 de agosto de 2026. O conteúdo original não foi reproduzido ou traduzido integralmente; os fatos foram apurados, contextualizados e complementados com fontes brasileiras e internacionais adicionais, listadas nas referências ao lado. Leia a reportagem original (conteúdo sujeito a assinatura): wsj.com.