Enquanto tarifas de mais de 100% e disputas por tecnologia de ponta dominam a relação entre Pequim e Washington, um hospital centenário no centro da capital chinesa serviu, nesta quinta-feira, de palco para um gesto de sinal contrário. Autoridades e especialistas em saúde dos dois países defenderam publicamente o aprofundamento da cooperação médica bilateral, tratando a medicina como um terreno capaz de resistir à deterioração generalizada do diálogo diplomático[1].
O evento marcou os 105 anos do Peking Union Medical College Hospital (PUMCH), um dos hospitais mais prestigiados da China, fundado em 1921 pela Fundação Rockefeller por meio de sua divisão especializada, o China Medical Board (CMB)[1]. O vice-ministro das Relações Exteriores chinês, Ma Zhaoxu, lembrou que China e Estados Unidos mantêm mais de meio século de cooperação em temas como políticas de saúde, doenças infecciosas, prevenção de enfermidades crônicas e tecnologia clínica, citando o combate conjunto ao surto de Ebola como exemplo do que essa parceria já produziu[1].
Um legado que atravessou a nacionalização
A presidente do PUMCH, Zhang Shuyang, descreveu o desenvolvimento do hospital como indissociável do setor médico e científico americano. Ela citou o caso de Oswald Hope Robertson, cientista de origem britânica radicado nos Estados Unidos que criou o primeiro banco de sangue do mundo durante a Primeira Guerra Mundial e depois atuou como diretor de medicina interna do PUMCH, onde consolidou a pneumonia como linha de pesquisa antes de retornar à carreira acadêmica americana[1].
A instituição foi nacionalizada pelo governo chinês em 1951, mas manteve vínculos acadêmicos com universidades americanas mesmo durante os períodos mais tensos da Guerra Fria e da reaproximação diplomática[4]. Segundo Zhang, o hospital hoje sustenta comunicação regular com mais de vinte instituições e empresas líderes dos Estados Unidos, registrando acima de 300 visitas mútuas por ano[1]. Entre abril e maio deste ano, delegações do PUMCH e da Academia Chinesa de Ciências Médicas visitaram Johns Hopkins, a Academia Nacional de Medicina, Yale, Columbia, Stanford e o Buck Institute for Research on Aging, com foco em educação médica, doenças raras e envelhecimento saudável[3].
Na cerimônia, PUMCH e CMB assinaram o terceiro memorando de cooperação de cinco anos entre as duas instituições, sucessor do acordo original firmado em 2016[2]. O próprio CMB nasceu em 1914 como um braço da Fundação Rockefeller dedicado a criar e operar o Peking Union Medical College; hoje opera como fundação americana independente[2]. Para Glass, a parceria repousa sobre compromissos compartilhados de rigor científico, excelência profissional e investimento na formação de novas gerações de profissionais de saúde[1].
O embaixador americano na China, David Perdue, foi mais direto ao reconhecer que os dois países disputam espaço na inovação biológica e farmacêutica, área em que os Estados Unidos mantiveram por décadas posição dominante. Ainda assim, defendeu que competição e cooperação não são mutuamente excludentes, apontando o envelhecimento populacional e o avanço das doenças crônicas como desafios que exigem trabalho conjunto[1].
Contraponto
O tom conciliatório do evento contrasta com o cenário em que a diplomacia China-EUA opera desde 2025. A confirmação de Perdue como embaixador ocorreu em meio a uma guerra tarifária que chegou a alíquotas de 145% sobre produtos chineses e retaliação chinesa de 125% sobre bens americanos, além de tensões crescentes no Estreito de Taiwan, no Mar do Sul da China e na corrida por inteligência artificial e robótica[6]. A saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde, sob a administração Trump, também reduziu o peso americano na governança sanitária global, um vácuo que China e países do Sul Global, incluindo o Brasil, têm buscado ocupar por meio de cooperação Sul-Sul[8]. A convivência entre rivalidade estratégica e colaboração científica pontual não é, portanto, sinal de distensão geral, mas de compartimentalização deliberada da agenda bilateral.
O que isso significa para o Brasil
A tensão entre rivalidade geopolítica e cooperação técnica não é exclusividade da relação China-Estados Unidos. O Brasil vem construindo, nos últimos anos, uma trajetória paralela com Pequim na área da saúde, ainda que em escala distinta. Em 2023, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Centro de Excelência CAS-TWAS para Doenças Infecciosas Emergentes, da Academia Chinesa de Ciências, assinaram memorando para criar o Centro Sino-Brasileiro de Pesquisa e Prevenção de Doenças Infecciosas, com sedes físicas nos dois países e foco em covid-19, dengue, zika, chikungunya e outras arboviroses[9].
Em março deste ano, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, detalhou em visita à China parcerias voltadas à retomada da produção nacional de insulina e à construção de um hospital digital de referência em São Paulo, argumentando que a saída americana da OMS e os cortes em pesquisa de vacinas de RNA mensageiro tornaram as alianças com países do Brics ainda mais estratégicas para reduzir a dependência brasileira de cadeias de suprimento médico concentradas em poucas regiões[8]. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, com o comércio bilateral somando cifra próxima a US$ 188 bilhões em 2024, segundo dados da administração aduaneira chinesa, e os dois países designaram 2026 como o Ano Cultural China-Brasil[7].
O paralelo com o caso PUMCH-CMB é direto: assim como Pequim e Washington isolam a saúde das turbulências mais amplas de sua relação, Brasília tem tratado a cooperação sanitária com a China como um vetor relativamente protegido de oscilações políticas internas e externas, inclusive das tensões comerciais que volta e meia marcam a relação entre Brasília e Washington. Para especialistas em diplomacia da saúde, essa é precisamente a lógica do soft power sanitário: usar a cooperação médica como ponte capaz de sobreviver a ciclos de desconfiança em outras frentes[10].
Nota de atribuição: Este texto foi produzido com curadoria editorial humana a partir de reportagem original do jornal estatal chinês China Daily, publicada em 11 de setembro de 2026, complementada por apuração independente em fontes adicionais listadas nas referências.
O que foi acordado entre China e Estados Unidos no evento de Pequim?
Em 11 de setembro de 2026, o Peking Union Medical College Hospital (PUMCH) e o China Medical Board (CMB), fundação americana, assinaram o terceiro memorando de cooperação de cinco anos entre as duas instituições, durante evento que marcou os 105 anos do hospital chinês.
Por que o PUMCH tem ligação histórica com os Estados Unidos?
O hospital foi fundado em 1921 pela Fundação Rockefeller, por meio de sua divisão China Medical Board, e recebeu ao longo de décadas médicos e pesquisadores americanos, mesmo após sua nacionalização pelo governo chinês em 1951.
Como a cooperação em saúde resiste às tensões comerciais entre os dois países?
Autoridades dos dois países têm tratado a saúde como uma área relativamente isolada de disputas como tarifas e tecnologia, argumentando que desafios como envelhecimento populacional e doenças crônicas exigem cooperação independentemente da rivalidade estratégica mais ampla.
Qual é a relação do Brasil com essa dinâmica China-EUA na saúde?
O Brasil desenvolve cooperação sanitária própria com a China, incluindo um centro conjunto de pesquisa em doenças infecciosas com a Fiocruz e parcerias para produção de insulina e construção de um hospital digital, num movimento que segue lógica semelhante de proteger a saúde das oscilações da política comercial.
O que é o China Medical Board?
É uma fundação americana independente, criada em 1914 como braço da Rockefeller Foundation, originalmente responsável por fundar e operar o Peking Union Medical College e que hoje mantém parcerias acadêmicas com instituições chinesas de saúde.