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No dia 6 de setembro de 2026, quase 1,7 milhão de eleitores da Saxônia-Anhalt, um dos estados mais pobres do leste alemão, foram às urnas e entregaram à Alternativa para a Alemanha (AfD) o melhor resultado já obtido pelo partido em uma eleição regional de peso.2 A legenda, classificada oficialmente pelo serviço de inteligência doméstico alemão como organização de extrema direita comprovada, mais que dobrou sua votação em relação a 2021 e ficou a poucos assentos da maioria absoluta no parlamento estadual.3 A União Democrata Cristã (CDU), que governava a região havia 24 anos, viu seu apoio praticamente desmoronar.

O resultado reacendeu, em Berlim e nas capitais europeias, uma pergunta que a Alemanha vem adiando desde que a AfD entrou no Bundestag em 2017: como uma democracia liberal deve reagir quando um partido que rejeita seus fundamentos cresce dentro das próprias regras do jogo eleitoral?

Três caminhos, um só dilema

O historiador britânico Timothy Garton Ash, em artigo de opinião publicado no jornal espanhol El País, argumenta que a resposta não está em nenhum dos dois extremos do debate público alemão.1 De um lado, setores da esquerda e parte da própria CDU defendem pedir ao Tribunal Constitucional Federal a proibição do partido, com base no artigo da Lei Fundamental que veda legendas hostis aos princípios da democracia liberal. De outro, correntes mais pragmáticas da democracia cristã propõem abandonar o chamado cordão sanitário e tratar a AfD como parte normal do jogo político, apostando que a exposição ao poder desgastaria sua retórica, como teria ocorrido com a premiê italiana Giorgia Meloni.

Para Garton Ash, ambas as saídas são arriscadas. Proibir um partido que hoje lidera pesquisas nacionais em vários levantamentos seria, segundo ele, um golpe contra a própria legitimidade democrática que se pretende defender. Já normalizar a AfD ignoraria o que estudos de ciência política vêm mostrando: incluir partidos antissistema no jogo político tende a lhes dar mais força de barganha, não menos.

Nem proibição, nem acomodação: a defesa mais eficaz combina limites constitucionais rigorosos com uma disputa política que ofereça, na prática, algo além do medo e da indignação.

De onde vieram os votos

Levantamentos do instituto de pesquisa eleitoral dimap indicam que boa parte do crescimento da AfD veio de eleitores que simplesmente não votavam antes: mais da metade dos quase 280 mil novos eleitores do partido em 2026 eram abstencionistas em 2021.2 A CDU, no entanto, também perdeu diretamente dezenas de milhares de votos para a legenda de ultradireita, um sinal de que parte do eleitorado conservador tradicional migrou para um discurso mais radical.

Votação da AfD na Saxônia-Anhalt, 2021 versus 2026 2021 20,8% 2026 43,8%

Fonte: resultado provisório da eleição estadual, dados citados por veículos europeus com base no Bundeszentrale für politische Bildung.

O paradoxo de votar contra os próprios interesses

Um estudo do instituto de pesquisa econômica DIW Berlin, assinado pelo economista Marcel Fratzscher, batizou de "paradoxo da AfD" o fato de que as regiões que mais votam na legenda seriam justamente as mais prejudicadas por sua plataforma: saída do euro e da União Europeia, corte de investimentos públicos e fim da imigração que hoje sustenta parte da força de trabalho em áreas com população envelhecida.4 A Saxônia-Anhalt, aponta o estudo, é o caso mais extremo desse descompasso entre voto e interesse econômico.

Contraponto

Nem todos os analistas europeus concordam que evitar a proibição seja a escolha mais segura. Parte da literatura sobre "democracia militante", conceito cunhado ainda nos anos 1930 para descrever regimes que se blindam contra forças antidemocráticas, sustenta que esperar demais para agir juridicamente contra um partido classificado por órgãos de inteligência como extremista pode repetir o erro histórico da República de Weimar: o de tratar como debate político normal aquilo que já ameaça as próprias regras do jogo. Para essa corrente, o custo de agir tarde tende a ser maior do que o risco de parecer antidemocrático ao tentar conter um partido pela via legal.

O espelho brasileiro

O dilema alemão não é exclusivamente europeu. O Relatório da Democracia 2026 do instituto sueco V-Dem, ligado à Universidade de Gotemburgo, colocou o Brasil, pela primeira vez em mais de meio século de comparações internacionais, à frente dos Estados Unidos no ranking global de qualidade democrática: 28ª posição contra a 51ª posição americana, num levantamento de 179 países.5 Segundo pesquisadores do instituto, o país conseguiu reverter um processo de erosão institucional iniciado após 2016 antes que ele chegasse a uma ruptura completa, algo que ocorreu em poucos casos ao redor do mundo nos últimos 125 anos.

A pesquisadora Marina Nord, uma das responsáveis pelo estudo, atribuiu o resultado brasileiro a um conjunto de salvaguardas que funcionaram de forma combinada: atuação do Judiciário, pressão da sociedade civil organizada e integridade do processo eleitoral.6 É uma combinação que ecoa, ainda que em contexto distinto, o que Garton Ash propõe para a Alemanha: instituições que resistem, associadas a uma disputa política que não terceiriza para tribunais toda a tarefa de convencer o eleitorado.

A diferença central está no ponto de partida. Enquanto o Brasil respondeu a uma tentativa de ruptura institucional já consumada, com processos judiciais em curso contra os responsáveis pelos atos de 8 de janeiro de 2023, a Alemanha discute como agir de forma preventiva, antes que um partido classificado como extremista chegue a controlar o aparato de um estado federado. São fases diferentes do mesmo problema: o de saber até onde uma democracia pode ir para se proteger sem deixar de ser, ela mesma, democrática.

A disputa que também é emocional

Garton Ash chama atenção para um fator que costuma escapar às análises puramente institucionais: a AfD, assim como o movimento de Donald Trump nos Estados Unidos e o Reform UK de Nigel Farage no Reino Unido, tem se destacado pela capacidade de comunicação emocional direta com o eleitorado, algo que partidos tradicionais europeus normalmente evitam.1 Isso sugere que limites legais e reformas de política econômica, por mais necessários que sejam, dificilmente bastam sozinhos. Defender a democracia liberal contemporânea parece exigir também presença constante nas redes e no território, e disposição para competir no terreno simbólico onde os discursos populistas costumam vencer com folga.

Nota de atribuição

Este artigo tem como referência analítica principal o texto de opinião de Timothy Garton Ash, professor de Estudos Europeus na Universidade de Oxford, publicado no jornal El País em 21 de setembro de 2026, sob o título "¿Qué debe hacer Alemania para salvar su democracia?". O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido integralmente; os argumentos do autor foram sintetizados e contextualizados com dados adicionais de fontes independentes listadas nas referências. Leia o artigo original: El País, 21 de setembro de 2026.

Perguntas frequentes

O que é a AfD e por que sua vitória na Saxônia-Anhalt é relevante?

A Alternativa para a Alemanha (AfD) é um partido de extrema direita fundado em 2013, classificado desde 2025 pelo serviço de inteligência doméstico alemão como organização comprovadamente extremista. Sua vitória na eleição regional da Saxônia-Anhalt, em setembro de 2026, foi o melhor resultado do partido em um pleito estadual de peso desde sua fundação.

O que significa "democracia militante" ou wehrhafte Demokratie?

É o conceito, criado ainda na década de 1930 e incorporado ao sistema constitucional alemão do pós-guerra, segundo o qual uma democracia liberal precisa ter mecanismos legais próprios para se defender de forças que tentem usar as regras democráticas para destruir a própria democracia.

Por que a Alemanha não simplesmente proíbe a AfD?

Juridicamente seria possível pedir ao Tribunal Constitucional Federal a proibição do partido, mas analistas como Timothy Garton Ash argumentam que fazer isso agora, com a AfD liderando pesquisas nacionais em vários levantamentos, seria interpretado por parte do eleitorado como um ataque à própria democracia, em vez de sua defesa.

Como o caso alemão se compara à experiência brasileira?

O Brasil enfrentou, em janeiro de 2023, uma tentativa de ruptura institucional já consumada, respondida por meio de processos judiciais e atuação coordenada entre Judiciário e sociedade civil. A Alemanha discute como agir de forma preventiva, antes que um partido classificado como extremista chegue ao controle de um governo estadual. O Relatório da Democracia 2026 do V-Dem citou o caso brasileiro como um dos poucos exemplos de reversão de um processo de erosão democrática antes do colapso do regime.