Um vídeo divulgado pela Força Aérea do Paquistão nesta semana mostra pouco: um veículo lançador rodando por uma estrada qualquer, radar girando, sem disparo, sem confronto. Mas o gesto diz mais do que aparenta. Islamabad confirmou o que já vinha sendo especulado por observadores da indústria bélica, a adoção do sistema antiaéreo chinês HQ-17AE, tornando-se o terceiro país a operá-lo publicamente, depois de Sérvia e Tajiquistão, segundo reportagem do jornal estatal China Daily. O sistema, desenvolvido pela Segunda Academia da China Aerospace Science and Industry Corp (CASIC), é a versão de exportação de uma plataforma que a China exibiu pela primeira vez em 2019, no desfile dos 70 anos da fundação da República Popular.
Isoladamente, a notícia é um detalhe técnico do noticiário de defesa. Colocada ao lado de outro fato, bem mais desconfortável para Washington, ela ganha contorno de tendência.
O vazio que os Estados Unidos deixaram
Desde fevereiro de 2026, os Estados Unidos vêm travando uma guerra intermitente contra o Irã, e o custo em munição de defesa antiaérea tem sido alto. Análises do Center for Strategic and International Studies, citadas por veículos como a ABC News, estimam que os estoques de interceptores Patriot caíram cerca de dois terços, enquanto os do THAAD, sistema voltado a mísseis balísticos de maior alcance, teriam recuado pela metade. O Pentágono nega que a situação seja de colapso, mas não nega a redução, e analistas ouvidos pelo Atlantic Council e pelo Christian Science Monitor são unânimes em apontar que a reposição total desses arsenais deve levar anos, não meses.
O problema não é apenas americano. Os Estados Unidos são, historicamente, o principal fornecedor de interceptores pesados ao Ocidente. Quando o estoque doméstico aperta, a fila de espera de aliados também aperta. A Ucrânia já relatou receber, em 2026, cerca de um terço dos interceptores aéreos que recebeu no mesmo período do ano anterior. Países do Golfo que assinaram pacotes bilionários de mísseis Patriot neste ano dependem da mesma linha de produção sobrecarregada.
O ganho chinês, medido com cautela
A China não é, nem de longe, a maior exportadora de armamento do mundo. Segundo o mais recente levantamento do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), publicado em março de 2026, o país ocupa a quinta posição no ranking global de exportadores de grandes sistemas de armas para o período de 2021 a 2025, com uma fatia de 5,6% do total mundial, um crescimento modesto frente aos 5,5% do ciclo anterior. Os Estados Unidos seguem isolados na liderança. Mas o dado relevante não é o tamanho da fatia chinesa, e sim a direção do movimento: enquanto a Rússia perdeu mercado de forma acentuada e os fornecedores ocidentais tradicionais enfrentam gargalos de produção, a China consolidou uma base estável de compradores, sobretudo entre países que já operam outros sistemas chineses, como o próprio Paquistão, cliente antigo de plataformas como o LY-80, o HQ-9BE e o HQ-16FE.
É esse padrão que interessa observar. Não se trata de uma virada abrupta, mas de uma estratégia de longo prazo: oferecer sistemas mais baratos, com prazos de entrega mais curtos, para países que não têm acesso prioritário à fila americana ou que preferem não depender dela politicamente. Em um momento no qual o principal fornecedor ocidental está racionando o próprio estoque, essa proposta de valor fica mais atraente, não porque a tecnologia chinesa tenha ficado subitamente superior, mas porque a alternativa ficou mais escassa.
Seria um erro de leitura tratar esse episódio como sinal de que a indústria bélica chinesa está prestes a superar a ocidental. A fatia de mercado da China, 5,6% das exportações globais, é modesta perto dos quase 43% dos Estados Unidos no mesmo levantamento do SIPRI. Boa parte dos compradores do HQ-17AE, como Sérvia, Tajiquistão e o próprio Paquistão, já mantinha relações de defesa estreitas com Pequim antes desta venda, o que limita o alcance do sistema como prova de conquista de novos mercados. Há ainda uma lacuna de informação relevante: o desempenho operacional do HQ-17AE em combate real segue não testado publicamente, ao contrário de sistemas como o Patriot, que atuou intensamente durante a guerra contra o Irã. Analistas da Merics e do Center for Strategic and International Studies também apontam que fabricantes chineses ainda enfrentam resistência de países alinhados à OTAN, que preferem manter interoperabilidade com equipamentos ocidentais mesmo diante de atrasos de entrega.
Onde entra o Brasil
Para o leitor brasileiro, o episódio paquistanês tem uma utilidade indireta, mas real: ele ilustra por que a disputa entre fornecedores importa até para países que não compram de nenhum dos dois lados dessa rivalidade. O Brasil vinha discutindo havia anos a compra de um primeiro sistema de defesa antiaérea de média altura, capacidade que o país nunca teve. Em dezembro de 2025, o Exército formalizou a diretriz de obtenção do sistema EMADS, da europeia MBDA, por acordo governo a governo com a Itália, com investimento estimado em até R$ 3,4 bilhões. A escolha evitou tanto os fornecedores americanos quanto os chineses, num movimento que reflete uma tendência mais ampla entre países de renda média: diversificar fornecedores para não ficar refém de nenhuma potência específica, seja pela escassez de estoque, seja pelas condições políticas atreladas à venda.
É um lembrete útil em meio ao ruído geopolítico. A disputa entre Washington e Pequim pelo mercado global de defesa não obriga terceiros a escolher lado, mas obriga todos a prestar atenção em quem tem capacidade de entrega e em que condições.
O que fica
O vídeo do lançador paquistanês rodando por uma estrada não muda o equilíbrio de poder militar do planeta. Mas serve como um retrato pequeno e preciso de um momento maior: o de um fornecedor tradicional temporariamente enfraquecido pelo próprio consumo, e de um concorrente paciente, disposto a preencher o espaço que sobra, um contrato de cada vez.
Perguntas frequentes
É a versão de exportação do HQ-17A, um sistema chinês de defesa antiaérea de curto alcance desenvolvido pela Segunda Academia da CASIC. Ele combina um veículo lançador com oito tubos de mísseis e radar de array em fase sólido, sendo projetado para interceptar caças, helicópteros, drones de combate e mísseis de cruzeiro.
Até setembro de 2026, três países confirmaram o uso do sistema: Sérvia, Tajiquistão e, mais recentemente, o Paquistão, que divulgou um vídeo oficial do equipamento em operação.
A guerra intermitente dos Estados Unidos contra o Irã, iniciada em fevereiro de 2026, consumiu uma parcela expressiva dos interceptores Patriot e THAAD do país. Estimativas de analistas apontam redução de até dois terços nos estoques de Patriot, com reposição projetada para levar anos.
Não. Segundo o SIPRI, a China detinha 5,6% do mercado global de exportação de grandes sistemas de armas no período de 2021 a 2025, quinta posição no ranking, muito atrás dos Estados Unidos. O que se observa é um ganho de espaço pontual, não uma inversão da liderança.
No caso mais recente de defesa antiaérea de média altura, não. O Exército Brasileiro optou pelo sistema EMADS, da europeia MBDA, por acordo governo a governo com a Itália, com investimento estimado em até R$ 3,4 bilhões, evitando fornecedores americanos e chineses.
Referências
- ZHAO, Lei. Pakistani air force deploys China-made air-defense system. China Daily, 8 de setembro de 2026. Disponível em: https://www.chinadaily.com.cn/a/202609/08/WS6a9fbec0e4b06d4aa055cf0e.html
- Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). Fact Sheet: Trends in International Arms Transfers, 2025 (publicado em março de 2026).
- Atlantic Council. What shrinking US missile stocks means for allies and adversaries around the world (agosto de 2026).
- ABC News. Crucial US missile stockpiles 'extremely low,' official says (agosto de 2026).
- The Christian Science Monitor. Restocking US missile interceptors will take years. China and Russia are watching (agosto de 2026).
- Merics. China's arms industry is increasingly global, but don't expect it to supplant NATO's counterparts any time soon.
- CNN Brasil / Forte.jor.br / FIESC. Reportagens sobre a aquisição do sistema EMADS pelo Exército Brasileiro (dezembro de 2025 a fevereiro de 2026).
— Ewerton Lopes, Curador Editorial