Caderno Educação · Financiamento & Política Educacional

Um relatório divulgado nesta semana pela organização Entreculturas recupera uma ideia antiga para explicar um problema atual. A chamada trapaça de Tucídides, formulada a partir do historiador que narrou a guerra entre Atenas e Esparta, descreve o que acontece quando uma potência em ascensão desafia outra em declínio: o conflito tende a se tornar quase inevitável. Hoje o par citado costuma ser Estados Unidos e China, mas o documento chama atenção para um efeito colateral pouco discutido dessa lógica de rivalidade permanente, o esvaziamento dos orçamentos públicos de educação em favor do rearmamento1.

Os números sustentam o argumento. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI), o gasto militar mundial atingiu US$ 2,887 trilhões em 2025, o maior valor já registrado pela instituição e o décimo primeiro ano consecutivo de alta. O aumento foi puxado sobretudo pela Europa, que elevou seus desembolsos em 14%, para US$ 864 bilhões, em meio à guerra na Ucrânia e à reorganização das alianças de defesa do continente2. Nos países da Otan e da União Europeia, aponta o levantamento de Entreculturas, o investimento em armamento cresce onze vezes mais rápido que o investimento em educação, enquanto o percentual médio do PIB mundial destinado a garantir o direito à educação permanece estagnado em 4,2%1.

A retração da cooperação internacional

O relatório projeta que a Ajuda Oficial destinada à educação deve cair 24% em 2026. Parte dessa queda tem origem no desmonte da USAID pelos Estados Unidos, iniciado em 2025 e seguido por cortes semelhantes em agências europeias, um movimento que atingiu inclusive programas de cooperação descentralizada em regiões da Espanha1. O Relatório de Monitoramento Global da Educação (GEM Report), publicado pela Unesco em março, confirma a tendência de fundo: apenas 22% dos países cumpriam em 2023 pelo menos um dos dois parâmetros internacionais de financiamento, destinar 4% do PIB ou 15% do gasto público total à educação, e a lacuna anual de financiamento nos 79 países de renda baixa e médio-baixa é estimada em cerca de US$ 97 bilhões, quase um quinto do custo total necessário para cumprir as metas educacionais até 20306.

“O dinheiro que se investe em tanques, armas e soldados deveria ser gasto em livros, lápis, escolas e professores.” Malala Yousafzai, Prêmio Nobel da Paz, citada no relatório de Entreculturas

O documento também associa esse cenário à dificuldade dos países mais pobres em arrecadar e reter recursos. A elisão fiscal de grandes corporações e fortunas superaria em duas vezes o montante necessário para universalizar o direito à educação no mundo, e mais de 75% dos países de renda baixa e médio-baixa gastam hoje mais com o serviço da dívida externa do que com educação e saúde somadas1. Não por acaso, a Assembleia Geral da ONU aprovou em novembro de 2024 o mandato para redigir uma Convenção-Quadro sobre Cooperação Fiscal Internacional, ainda em negociação.

O que os números dizem sobre o Brasil

O caso brasileiro não se encaixa perfeitamente na trama descrita pelo relatório espanhol, e essa diferença merece registro. Pelo relatório Cofog do Tesouro Nacional, o gasto do governo geral brasileiro com educação (soma de União, estados e municípios) subiu de 4,93% para 5,10% do PIB entre 2023 e 2024, um dos poucos indicadores em alta naquele ano, junto de saúde e habitação5. No mesmo período, o SIPRI registrou uma expansão do orçamento militar brasileiro: os gastos com defesa cresceram 13% em 2025, chegando a US$ 23,9 bilhões, o maior valor da América do Sul, impulsionado principalmente por investimentos em tecnologia naval e pela folha de pessoal militar3.

À primeira vista, os dois orçamentos subiram juntos, o que já distingue o Brasil da tendência de substituição direta descrita para a Europa. Mas a proporção continua pequena para padrões internacionais: mesmo depois do aumento, o esforço militar brasileiro equivale a 1,1% do PIB, menos da metade da média mundial de 2,5%3. Do lado da educação, o problema não é apenas orçamentário, é também de eficiência histórica. O país gasta em média US$ 3.668 por aluno na educação básica, valor semelhante ao da Argentina, mas menos de um terço da média de US$ 11.914 registrada entre os países da OCDE4. A Campanha Nacional pelo Direito à Educação estima que seriam necessários mais R$ 61,3 bilhões, cerca de 0,52% do PIB, apenas para garantir condições mínimas de qualidade na educação básica hoje7.

Contraponto

Nem todo aumento do gasto em defesa implica corte na educação, como mostra o caso brasileiro em 2024 e 2025. É possível argumentar que, em economias que não vivem conflito armado direto, os dois orçamentos crescem por razões distintas (modernização tecnológica de um lado, vinculações constitucionais como o Fundeb de outro) e não competem necessariamente pelo mesmo espaço fiscal. O ponto central do relatório de Entreculturas, contudo, permanece válido em outra escala: o problema não é apenas a disputa direta entre as duas rubricas, mas o fato de que o patamar de investimento educacional segue insuficiente mesmo quando cresce, porque a base histórica de subfinanciamento é grande demais para ser corrigida por variações anuais de meio ponto percentual do PIB.

Os caminhos apontados pelo relatório

Entreculturas propõe três frentes de resposta: justiça fiscal, soberania orçamentária dos Estados endividados e retomada da cooperação internacional centrada em direitos. Nenhuma delas depende de um único país, o que talvez explique por que avançam tão lentamente. A negociação da Convenção-Quadro sobre Cooperação Fiscal na ONU segue em curso, sem prazo definido para conclusão, enquanto o GEM Report da Unesco insiste que a desigualdade no financiamento educacional é, antes de tudo, uma escolha política, não uma limitação técnica de recursos6.

Para o Brasil, o desafio prático aparece descrito no Plano Nacional de Educação em tramitação (PL 2.614/2024), que reafirma a meta histórica de alcançar 10% do PIB em investimento educacional até 2034, patamar defendido pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação desde 2011 e nunca cumprido7. O relatório espanhol termina evocando o mito de Antígona, e a tensão entre obedecer à força e defender aquilo que sustenta a vida em comum. É uma imagem literária, mas a pergunta que ela deixa é orçamentária e concreta: quanto um país está disposto a gastar hoje para não pagar amanhã o preço de não ter investido em quem ainda está aprendendo.

Este artigo foi motivado pela reportagem "La trampa de Tucídides y el derecho a la educación", publicada por Irene Ortega Guerrero no jornal espanhol El País (seção Planeta Futuro) em 9 de setembro de 2026. O texto original não é reproduzido nem traduzido integralmente; leia a reportagem completa em: elpais.com.

Perguntas frequentes

O que é a "trapaça de Tucídides"?

É uma teoria de relações internacionais segundo a qual, quando uma potência emergente desafia uma potência dominante em declínio, a guerra se torna a resposta histórica mais provável. O termo vem do historiador ateniense Tucídides, que analisou o conflito entre Atenas e Esparta na Antiguidade.

Por que o gasto militar afeta o orçamento da educação?

Porque os dois disputam espaço no mesmo orçamento público. Quando um país amplia rapidamente seus gastos em defesa, sem aumentar a arrecadação na mesma proporção, a pressão fiscal tende a recair sobre áreas sociais como educação, especialmente em países que já têm dívida externa elevada.

O Brasil está reduzindo o investimento em educação para gastar mais em defesa?

Os dados oficiais mais recentes (Cofog, Tesouro Nacional) mostram o contrário para o período 2023 a 2024: o investimento educacional em proporção do PIB subiu, assim como o gasto militar. O problema brasileiro está menos na disputa direta entre as duas áreas e mais no patamar histórico de subfinanciamento da educação, ainda distante da média da OCDE por aluno.

Quanto o mundo gastaria para fechar a lacuna de financiamento educacional?

A Unesco estima uma lacuna anual média de cerca de US$ 97 bilhões entre 2023 e 2030, apenas nos 79 países de renda baixa e médio-baixa, para que consigam cumprir suas próprias metas nacionais de educação vinculadas ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4.