Caderno Educação — Financiamento Global

Enquanto orçamentos de defesa batem recordes mundo afora, a ajuda internacional destinada a escolas encolhe — e o Brasil, que também amplia seus próprios gastos militares, segue investindo em educação um terço do que gastam os países ricos por aluno.

Um relatório divulgado pela UNESCO em meados de julho trouxe uma comparação difícil de ignorar: em apenas 37 horas, o mundo gasta em armas o equivalente a tudo o que destina, em um ano inteiro, à ajuda internacional para a educação. A conta foi apresentada durante a Cúpula sobre a Transformação da Educação +4, realizada em Paris, e reflete um cenário no qual a arquitetura de financiamento escolar dos países mais pobres perde terreno para a corrida armamentista que ganhou força desde 2022.

De acordo com o Relatório de Monitoramento Global da Educação (GEM Report) da agência da ONU, a projeção de queda de 25% na ajuda internacional à educação até 2027 — calculada no ano passado — já foi revisada para cima: agora a estimativa é de um recuo de até 30%, em ritmo mais acelerado do que o previsto. Essa reportagem foi originalmente destacada pelo jornal canadense La Presse, que reuniu os dados do relatório da UNESCO e mapeou os cortes em países do G71 — um retrato que serve de ponto de partida para olhar também a posição do Brasil nessa equação.

A escalada militar tem endereço certo

O pano de fundo é conhecido. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), os gastos militares mundiais somaram US$ 2,887 trilhões em 2025 — alta real de 2,9% sobre o ano anterior e o maior valor já registrado, resultado de um crescimento de 41% na última década.2 Como proporção do PIB global, a carga militar chegou a 2,5%, o nível mais alto desde 2009. Os países europeus da OTAN elevaram seus orçamentos de defesa em 14% em um único ano, puxados por Alemanha e Polônia.2

É nesse contexto que o Reino Unido decidiu reduzir sua ajuda internacional de 0,5% para 0,3% do PIB, para financiar o aumento das despesas com defesa — decisão que levou à renúncia de uma ministra britânica. Os Estados Unidos, com o desmonte da USAID, cortaram 57% do orçamento de cooperação. Já governos como o do Canadá amputaram 38% da ajuda internacional no mesmo período em que ampliaram compras de equipamento militar, incluindo a contratação da construção de 12 submarinos de guerra.1

"Nos países de renda mais baixa, os pagamentos da dívida chegam a ser quase quatro vezes superiores ao investimento em educação — e em 18 países fortemente endividados, essa diferença ultrapassa um fator cinco." UNESCO, relatório de política sobre financiamento da educação, 2026

O impacto recai desproporcionalmente sobre países já fragilizados. A UNESCO calcula que 113 nações, onde vivem 6,1 bilhões de pessoas, gastam hoje mais para pagar juros e amortizações de dívida do que para manter seus sistemas escolares.3 Entre os mais afetados estão Afeganistão, Mali e Níger — países que, coincidentemente, também enfrentam as situações de segurança mais precárias do planeta, argumento que a própria UNESCO usa para defender a educação como investimento em estabilidade, e não apenas em bem-estar social.

O Brasil também investe mais em armas

O movimento não é exclusividade de potências do Hemisfério Norte. Segundo o SIPRI, o Brasil elevou seus gastos militares em 13% em 2025, alcançando US$ 23,9 bilhões (cerca de R$ 119,6 bilhões) — o maior orçamento de defesa da América do Sul, respondendo por 42,4% de todo o gasto militar da região, e a 21ª posição no ranking mundial.4 O aumento foi puxado principalmente pelo desenvolvimento tecnológico naval e por custos crescentes com pessoal militar.4

Levantamentos sobre a execução orçamentária do Ministério da Defesa mostram, porém, que boa parte desse crescimento não se converteu em capacidade operacional nova: dos R$ 118,66 bilhões efetivamente executados em 2025, R$ 103,43 bilhões (87% do total) foram para manutenção da máquina pública — sobretudo pessoal ativo, inativos e pensionistas, que sozinhos consumiram R$ 56,09 bilhões, quase metade do orçamento executado.5

Enquanto isso, o investimento público em educação no Brasil somou 4,9% do PIB em 2023, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica, divulgado pelo Todos Pela Educação — patamar praticamente estável desde 2018, depois de uma queda registrada entre 2019 e 2021.6 O gasto médio por aluno da educação básica no país é de aproximadamente US$ 3,7 mil ao ano, menos de um terço da média de US$ 11,9 mil da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).7

O novo Plano Nacional de Educação (2024–2034), aprovado pela Câmara dos Deputados, prevê elevar os investimentos públicos em educação para 7,5% do PIB em sete anos, com meta de chegar a 10% ao fim da década — bandeira histórica de movimentos estudantis e da Campanha Nacional pelo Direito à Educação desde 2011.8,9 A meta, porém, ainda depende de aprovação no Senado e de fontes de financiamento consolidadas, incluindo receitas do pré-sal.

O que diz a evidência econômica

A literatura acadêmica sobre o tema tende a corroborar o argumento da UNESCO de que educação é o investimento de maior retorno de longo prazo. Estudos internacionais indicam que, em média, cada ano adicional de escolaridade está associado a um acréscimo de renda individual entre 7,5% e 10% ao ano — e que os retornos sociais, difundidos pela produtividade agregada e pela inovação, tendem a superar os retornos individuais.10 Uma estimativa do Banco Mundial, citada por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas, calcula que o PIB per capita brasileiro poderia ser até 66% maior caso o país oferecesse educação e saúde de qualidade equivalente à de nações desenvolvidas para toda a população.11

Pesquisas também sugerem que o retorno de investir em educação é proporcionalmente maior em países de renda média-baixa — categoria que inclui boa parte das nações mais afetadas pelos cortes de ajuda internacional descritos pela UNESCO — porque o ganho marginal de elevar habilidades básicas é mais alto onde a base de capital humano ainda é pequena.12

A cooperação brasileira em xeque

O Brasil não é apenas espectador do recuo global de recursos para educação: também é, historicamente, um provedor modesto de cooperação técnica na área, sobretudo com os cinco Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) — Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe —, que já concentraram até 74% dos recursos brasileiros destinados a projetos técnicos no continente africano.13 Iniciativas coordenadas pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC) incluem formação de professores e intercâmbios universitários com Moçambique, no âmbito da chamada cooperação Sul-Sul.14 Esse tipo de parceria horizontal — menor em escala, mas menos sujeita às oscilações orçamentárias dos grandes doadores do G7 — é apontado por pesquisadores como um contraponto possível à dependência de fluxos de ajuda concentrados em poucos países ricos.

Contraponto: o argumento da segurança

Defensores do aumento dos orçamentos de defesa argumentam que a educação depende, em última instância, de um ambiente seguro e estável para funcionar — e que países em guerra ou sob ameaça direta não conseguem sustentar sistemas escolares, independentemente do volume de ajuda recebida. Nessa leitura, o investimento militar não compete com a educação, mas cria as condições de segurança nacional e territorial que permitem que ela exista.

Também se argumenta que parte do gasto em defesa gera efeitos indiretos (spillovers) sobre a economia civil, com tecnologias navais, de sensoriamento e cibersegurança desenvolvidas para fins militares posteriormente aproveitadas por outros setores — um efeito citado por analistas para justificar o aumento do investimento tecnológico das Forças Armadas brasileiras em 2025.5 Críticos dessa leitura, por sua vez, apontam que, no caso brasileiro, quase 90% do orçamento de defesa executado em 2025 foi consumido por folha de pessoal e pensões — parcela que não gera nem capacidade militar nova nem esse efeito de transbordamento tecnológico.5

Uma escolha orçamentária, não uma fatalidade

A UNESCO tem defendido mecanismos alternativos para tentar romper o ciclo entre dívida pesada e escolas subfinanciadas, como os chamados canjes de dívida — trocas em que parte do serviço da dívida externa de um país é perdoada em troca de investimento doméstico garantido em educação. O modelo já foi aplicado por França e Costa do Marfim em 2023 e deve ser um dos temas centrais das discussões futuras da agência.15

Para pesquisadoras como Yuki Murakami, da equipe do GEM Report, a mudança de prioridades orçamentárias observada em diversos países — inclusive naqueles que ainda figuram entre os maiores doadores de ajuda à educação — configura um risco cumulativo: quando um punhado de nações responsável por 80% a 90% da ajuda total retira parte de seus recursos, o efeito sobre países pobres, instáveis ou em conflito é descrito por ela como "catastrófico".1 A questão que o debate orçamentário brasileiro — e o de tantos outros países — parece não ter resolvido ainda é: o que se está, de fato, comprando quando se escolhe armamento em vez de sala de aula?

Nota editorial e de atribuição: Esta reportagem foi inspirada pelo artigo "L'aide internationale à l'éducation réduite dans l'ombre des dépenses militaires", de Mélanie Marquis, publicado pelo jornal canadense La Presse em 25 de julho de 2026. O texto original, que trata majoritariamente do contexto de países do G7, pode ser lido na íntegra em: lapresse.ca — "L'aide internationale à l'éducation réduite dans l'ombre des dépenses militaires". Todos os dados, análises e ângulos brasileiros apresentados aqui resultam de apuração e fontes independentes, listadas na seção de referências.

Nesta reportagem

  1. A escalada militar tem endereço certo
  2. O Brasil também investe mais em armas
  3. O que diz a evidência econômica
  4. A cooperação brasileira em xeque
  5. Contraponto: o argumento da segurança
  6. Uma escolha orçamentária, não uma fatalidade

Em números

37h
tempo em que o gasto militar mundial iguala toda a ajuda internacional anual à educação (2025)
−30%
possível queda na ajuda internacional à educação entre 2023 e 2027, segundo revisão da UNESCO
US$ 2,887 tri
gasto militar mundial em 2025 — recorde histórico (SIPRI)
+13%
aumento do gasto militar brasileiro em 2025, para US$ 23,9 bi
113 países
gastam mais com dívida do que com educação, afetando 6,1 bi de pessoas
4,9% do PIB
investimento público em educação no Brasil (2023); meta do novo PNE é 10%

Linha do tempo

  • 2024Ajuda internacional à educação cai 8% em relação ao ano anterior, segundo o GEM Report.
  • Abr. 2025SIPRI registra gasto militar mundial recorde de US$ 2,887 tri; Brasil eleva orçamento de defesa em 13%.
  • 2025Reino Unido reduz ajuda internacional de 0,5% para 0,3% do PIB para custear gastos com defesa.
  • 10 jul. 2026Cúpula sobre a Transformação da Educação +4 debate financiamento educacional em Paris.
  • Jul. 2026UNESCO revisa projeção: corte na ajuda à educação pode chegar a 30% até 2027.

Glossário

GEM Report
Relatório de Monitoramento Global da Educação, publicação anual e editorialmente independente hospedada pela UNESCO.
SIPRI
Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, referência global em dados de gastos militares.
PNE
Plano Nacional de Educação, lei que fixa metas de investimento e qualidade para o sistema educacional brasileiro.
Canje de dívida
Mecanismo em que parte do serviço da dívida externa de um país é convertida em investimento doméstico garantido, por exemplo em educação.
Cooperação Sul-Sul
Modelo de cooperação técnica entre países em desenvolvimento, como a praticada pelo Brasil com os PALOP.

Referências

  1. Marquis, M. "L'aide internationale à l'éducation réduite dans l'ombre des dépenses militaires". La Presse, 25 jul. 2026. lapresse.ca
  2. InfoMoney. "Gasto militar global atingiu US$ 2,9 tri em 2025 e expectativa é de alta em 2026", com dados do SIPRI. infomoney.com.br
  3. UNESCO GEM Report. "Aid to education". unesco.org/gem-report
  4. ICL Notícias. "Mundo tem gasto militar recorde; alta no Brasil foi de 13%". iclnoticias.com.br
  5. ICL Notícias. "Brasil amplia gasto militar, mas metade vai para salários". iclnoticias.com.br
  6. Todos Pela Educação. "Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025", capítulo Financiamento. anuario.todospelaeducacao.org.br
  7. Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE). "Mito derrubado: o Brasil já investe o suficiente em educação?". campanha.org.br
  8. Câmara dos Deputados. "Câmara aprova Plano Nacional de Educação e amplia investimentos para 10% do PIB". camara.leg.br
  9. União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). "Sou secunda e defendo os 10% do PIB pra educação". ubes.org.br
  10. Iniciativa Educação. "A educação de uma pessoa é um investimento para todas". iniciativaeducacao.org
  11. FGV. "Retrospectiva 2023: qualidade da educação está ligada a maiores taxas de crescimento". portal.fgv.br
  12. iFood Institucional / estudo Banco Mundial citado. "Estudo mostra que educação de qualidade faz PIB crescer". institucional.ifood.com.br
  13. CINDES. "Cooperação Brasil-África para o desenvolvimento: caracterização". cindesbrasil.org
  14. Agência Brasileira de Cooperação (ABC). "Cooperação Sul-Sul — PALOP". abc.gov.br
  15. Infobae. "La ayuda internacional a la educación podría caer un 30% de 2023 a 2027, alerta la Unesco". infobae.com