Opinião
Este texto parte da reportagem "China eyes strong cultural, tourism industries by 2030", publicada pelo People's Daily (via Xinhua) em 20 de setembro de 2026, usada aqui como referência internacional e ponto de partida para uma leitura sobre o caso brasileiro. O conteúdo original não é reproduzido nem traduzido integralmente; a matéria completa está disponível no link da seção de referências.

O Ministério da Cultura e do Turismo da China divulgou nesta semana o 15º Plano Quinquenal (2026-2030) para o desenvolvimento cultural e turístico do país, com uma meta que resume bem a ambição do documento: 8,3 bilhões de viagens domésticas por ano até 2030, quase 2 bilhões a mais do que em 2025.1 O número impressiona até para os padrões chineses, mas o que merece atenção não é apenas a escala. É a lógica por trás dela: transformar cultura e turismo em pilares reconhecidos do PIB, com metas de gasto, de fluxo internacional e de infraestrutura amarradas a um plano de Estado.

O contraste com o Brasil é didático. O mesmo período de cinco anos começa aqui sem um documento equivalente e com sinais que apontam na direção oposta: brasileiros gastando cada vez mais em viagens para fora do país, cidades do interior perdendo voos regulares e uma indústria do turismo que, apesar de recordes pontuais, ainda opera muito abaixo do que a geografia nacional permitiria.

Uma política de Estado para o turismo, com números que amarram o plano

O plano chinês estabelece que o gasto em viagens domésticas, que somou 6,3 trilhões de yuans (cerca de US$ 933 bilhões) em 2025, deve chegar a 7,7 trilhões de yuans em 2030.1 Ao mesmo tempo, o país fixou a meta de receber 190 milhões de visitas internacionais por ano até o fim da década, apoiada em isenção de visto, facilidade de pagamento, devolução de impostos e ampliação da rede de transporte para turistas estrangeiros.1

O resultado dessa política de longo prazo já aparece em rankings internacionais. O World Tourism Cities Federation colocou Pequim, Xangai, Hong Kong, Hangzhou e Chengdu entre as 20 principais cidades turísticas do mundo, o que faz da China o país com mais cidades na lista.1 Não é acaso: é o efeito acumulado de tratar turismo como infraestrutura econômica, e não como setor de sobremesa no orçamento público.

Cultura e turismo deixam de ser setores de sobremesa na política econômica quando um país decide medir, ano a ano, quanto eles devem valer no PIB.

O paradoxo brasileiro: dinheiro que sai, turismo que não entra

Enquanto a China organiza metas plurianuais para reter e ampliar o gasto turístico dentro de suas fronteiras, o Brasil segue exportando dólares em viagens ao exterior. Só entre janeiro e agosto de 2025, brasileiros gastaram US$ 14,2 bilhões viajando para fora do país, um avanço de 11,8% em relação ao mesmo período de 2024.2 A conta de viagens do Banco Central acumulou déficit de US$ 10,14 bilhões entre janeiro e setembro de 2025, resultado da diferença entre o que brasileiros gastam fora e o que estrangeiros deixam aqui.3

O curioso é que o turismo doméstico brasileiro não é fraco. Um estudo da IAAPA mostrou que 94% do fluxo turístico do país em 2024 foi composto por viagens dentro do próprio território, uma das taxas mais altas da América Latina.5 O problema não é a falta de brasileiro viajando pelo Brasil. É o tamanho do gasto que continua indo para fora, e a distância entre o potencial turístico nacional (praia, floresta, patrimônio histórico, gastronomia regional, ecoturismo) e a fatia que isso efetivamente representa na economia, ainda distante da posição que o país poderia ocupar entre as maiores economias turísticas do mundo.8

A malha aérea que encolhe justamente onde mais faria diferença

Parte da resposta está no céu, ou melhor, na ausência dele. O Brasil tem mais de 500 aeroportos públicos, mas apenas 137 registraram voos comerciais em julho de 2025, contra 155 em 2024 e 162 em 2023: uma queda superior a 15% em dois anos, mesmo com recorde de passageiros transportados no período.6 A Azul, isoladamente, encerrou operações em 14 cidades ao longo de 2025, abandonando mais de 50 rotas, a maioria em municípios do interior onde a companhia era a única operadora.6

A aviação comercial responde por 0,91% do PIB brasileiro e 1,08% dos empregos gerados no país, segundo dados do Ministério do Turismo e da ABEAR.7 Cada rota fechada em uma cidade média não afeta apenas o deslocamento de passageiros: reduz o alcance do turismo doméstico exatamente nas regiões que mais precisariam dele para diversificar a economia local, algo que o plano chinês trata como prioridade explícita ao vincular conectividade aérea a metas de interiorização do turismo.

Contraponto

É preciso reconhecer o que funciona. O turismo doméstico bateu recorde em 2025, movimentando R$ 18,6 bilhões só entre as operadoras filiadas à Braztoa, com o Nordeste concentrando 40% desse faturamento.4 A malha aérea regional também cresce em polos específicos: os dez principais aeroportos do Nordeste romperam a marca de 12 milhões de passageiros em 2025, e novas rotas internacionais têm ampliado a conectividade de cidades como Maceió e São Luís.9 O quadro brasileiro não é de estagnação. É de crescimento desigual, concentrado em alguns polos, sem o mesmo horizonte de planejamento de longo prazo que orienta o caso chinês.

O que está em jogo além do turismo

A comparação não sugere copiar o modelo chinês, que combina escala populacional, controle estatal sobre infraestrutura e um sistema de planejamento quinquenal sem equivalente direto na economia brasileira. Mas o contraste é útil para nomear um problema concreto: parte relevante do que os brasileiros gastam em turismo, hoje, financia hotéis, companhias aéreas e comércio fora do país, enquanto cidades médias brasileiras perdem conectividade aérea por não serem rentáveis o suficiente para operadoras pressionadas por custos em dólar.

Reverter esse quadro não depende só de campanha publicitária. Envolve política tarifária para aviação regional, previsibilidade cambial para o setor e um plano de promoção do turismo interno que trate destinos fora do eixo Rio-São Paulo-Nordeste litorâneo como prioridade, e não como consequência natural do crescimento. Enquanto isso não acontece de forma coordenada, o Brasil segue com dois movimentos simultâneos e difíceis de conciliar: recordes de turistas estrangeiros entrando pelo aeroporto, e bilhões de dólares de brasileiros saindo por ele.

Perguntas frequentes

Quanto os brasileiros gastam viajando para fora do país?

Segundo o Banco Central, brasileiros gastaram US$ 14,2 bilhões em viagens internacionais entre janeiro e agosto de 2025, alta de 11,8% sobre o mesmo período de 2024. A conta de viagens acumulou déficit de US$ 10,14 bilhões entre janeiro e setembro de 2025.

Qual é a meta de turismo doméstico da China até 2030?

O 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030) estabelece a meta de 8,3 bilhões de viagens domésticas por ano até 2030 e um gasto interno de 7,7 trilhões de yuans, além de 190 milhões de visitas internacionais anuais.

Por que cidades do interior brasileiro perderam voos?

O número de aeroportos brasileiros com voos comerciais caiu de 162 em 2023 para 137 em 2025. Companhias como a Azul encerraram operações em cidades do interior onde eram a única operadora, citando custos em dólar e rotas pouco rentáveis.

O turismo doméstico já é relevante para a economia brasileira?

Sim. Cerca de 94% do fluxo turístico brasileiro em 2024 foi doméstico, e o setor movimentou R$ 18,6 bilhões via operadoras associadas à Braztoa em 2025. Ainda assim, o Brasil ocupa apenas a 12ª posição entre as maiores economias turísticas do mundo.