O Ministério da Cultura e do Turismo da China divulgou nesta semana o 15º Plano Quinquenal (2026-2030) para o desenvolvimento cultural e turístico do país, com uma meta que resume bem a ambição do documento: 8,3 bilhões de viagens domésticas por ano até 2030, quase 2 bilhões a mais do que em 2025.1 O número impressiona até para os padrões chineses, mas o que merece atenção não é apenas a escala. É a lógica por trás dela: transformar cultura e turismo em pilares reconhecidos do PIB, com metas de gasto, de fluxo internacional e de infraestrutura amarradas a um plano de Estado.
O contraste com o Brasil é didático. O mesmo período de cinco anos começa aqui sem um documento equivalente e com sinais que apontam na direção oposta: brasileiros gastando cada vez mais em viagens para fora do país, cidades do interior perdendo voos regulares e uma indústria do turismo que, apesar de recordes pontuais, ainda opera muito abaixo do que a geografia nacional permitiria.
Uma política de Estado para o turismo, com números que amarram o plano
O plano chinês estabelece que o gasto em viagens domésticas, que somou 6,3 trilhões de yuans (cerca de US$ 933 bilhões) em 2025, deve chegar a 7,7 trilhões de yuans em 2030.1 Ao mesmo tempo, o país fixou a meta de receber 190 milhões de visitas internacionais por ano até o fim da década, apoiada em isenção de visto, facilidade de pagamento, devolução de impostos e ampliação da rede de transporte para turistas estrangeiros.1
O resultado dessa política de longo prazo já aparece em rankings internacionais. O World Tourism Cities Federation colocou Pequim, Xangai, Hong Kong, Hangzhou e Chengdu entre as 20 principais cidades turísticas do mundo, o que faz da China o país com mais cidades na lista.1 Não é acaso: é o efeito acumulado de tratar turismo como infraestrutura econômica, e não como setor de sobremesa no orçamento público.
Cultura e turismo deixam de ser setores de sobremesa na política econômica quando um país decide medir, ano a ano, quanto eles devem valer no PIB.
O paradoxo brasileiro: dinheiro que sai, turismo que não entra
Enquanto a China organiza metas plurianuais para reter e ampliar o gasto turístico dentro de suas fronteiras, o Brasil segue exportando dólares em viagens ao exterior. Só entre janeiro e agosto de 2025, brasileiros gastaram US$ 14,2 bilhões viajando para fora do país, um avanço de 11,8% em relação ao mesmo período de 2024.2 A conta de viagens do Banco Central acumulou déficit de US$ 10,14 bilhões entre janeiro e setembro de 2025, resultado da diferença entre o que brasileiros gastam fora e o que estrangeiros deixam aqui.3
O curioso é que o turismo doméstico brasileiro não é fraco. Um estudo da IAAPA mostrou que 94% do fluxo turístico do país em 2024 foi composto por viagens dentro do próprio território, uma das taxas mais altas da América Latina.5 O problema não é a falta de brasileiro viajando pelo Brasil. É o tamanho do gasto que continua indo para fora, e a distância entre o potencial turístico nacional (praia, floresta, patrimônio histórico, gastronomia regional, ecoturismo) e a fatia que isso efetivamente representa na economia, ainda distante da posição que o país poderia ocupar entre as maiores economias turísticas do mundo.8
A malha aérea que encolhe justamente onde mais faria diferença
Parte da resposta está no céu, ou melhor, na ausência dele. O Brasil tem mais de 500 aeroportos públicos, mas apenas 137 registraram voos comerciais em julho de 2025, contra 155 em 2024 e 162 em 2023: uma queda superior a 15% em dois anos, mesmo com recorde de passageiros transportados no período.6 A Azul, isoladamente, encerrou operações em 14 cidades ao longo de 2025, abandonando mais de 50 rotas, a maioria em municípios do interior onde a companhia era a única operadora.6
A aviação comercial responde por 0,91% do PIB brasileiro e 1,08% dos empregos gerados no país, segundo dados do Ministério do Turismo e da ABEAR.7 Cada rota fechada em uma cidade média não afeta apenas o deslocamento de passageiros: reduz o alcance do turismo doméstico exatamente nas regiões que mais precisariam dele para diversificar a economia local, algo que o plano chinês trata como prioridade explícita ao vincular conectividade aérea a metas de interiorização do turismo.
Contraponto
É preciso reconhecer o que funciona. O turismo doméstico bateu recorde em 2025, movimentando R$ 18,6 bilhões só entre as operadoras filiadas à Braztoa, com o Nordeste concentrando 40% desse faturamento.4 A malha aérea regional também cresce em polos específicos: os dez principais aeroportos do Nordeste romperam a marca de 12 milhões de passageiros em 2025, e novas rotas internacionais têm ampliado a conectividade de cidades como Maceió e São Luís.9 O quadro brasileiro não é de estagnação. É de crescimento desigual, concentrado em alguns polos, sem o mesmo horizonte de planejamento de longo prazo que orienta o caso chinês.
O que está em jogo além do turismo
A comparação não sugere copiar o modelo chinês, que combina escala populacional, controle estatal sobre infraestrutura e um sistema de planejamento quinquenal sem equivalente direto na economia brasileira. Mas o contraste é útil para nomear um problema concreto: parte relevante do que os brasileiros gastam em turismo, hoje, financia hotéis, companhias aéreas e comércio fora do país, enquanto cidades médias brasileiras perdem conectividade aérea por não serem rentáveis o suficiente para operadoras pressionadas por custos em dólar.
Reverter esse quadro não depende só de campanha publicitária. Envolve política tarifária para aviação regional, previsibilidade cambial para o setor e um plano de promoção do turismo interno que trate destinos fora do eixo Rio-São Paulo-Nordeste litorâneo como prioridade, e não como consequência natural do crescimento. Enquanto isso não acontece de forma coordenada, o Brasil segue com dois movimentos simultâneos e difíceis de conciliar: recordes de turistas estrangeiros entrando pelo aeroporto, e bilhões de dólares de brasileiros saindo por ele.
Perguntas frequentes
Quanto os brasileiros gastam viajando para fora do país?
Segundo o Banco Central, brasileiros gastaram US$ 14,2 bilhões em viagens internacionais entre janeiro e agosto de 2025, alta de 11,8% sobre o mesmo período de 2024. A conta de viagens acumulou déficit de US$ 10,14 bilhões entre janeiro e setembro de 2025.
Qual é a meta de turismo doméstico da China até 2030?
O 15º Plano Quinquenal chinês (2026-2030) estabelece a meta de 8,3 bilhões de viagens domésticas por ano até 2030 e um gasto interno de 7,7 trilhões de yuans, além de 190 milhões de visitas internacionais anuais.
Por que cidades do interior brasileiro perderam voos?
O número de aeroportos brasileiros com voos comerciais caiu de 162 em 2023 para 137 em 2025. Companhias como a Azul encerraram operações em cidades do interior onde eram a única operadora, citando custos em dólar e rotas pouco rentáveis.
O turismo doméstico já é relevante para a economia brasileira?
Sim. Cerca de 94% do fluxo turístico brasileiro em 2024 foi doméstico, e o setor movimentou R$ 18,6 bilhões via operadoras associadas à Braztoa em 2025. Ainda assim, o Brasil ocupa apenas a 12ª posição entre as maiores economias turísticas do mundo.