Esta reportagem foi desenvolvida a partir de entrevista exclusiva publicada pelo jornal chinês China Daily, com declarações de Ganesh Ramani (Mars Pet Nutrition China) e Xu Juan (Royal Canin China). O conteúdo original, assinado por He Qi, pode ser consultado na íntegra em: China Daily, "China's pet industry evolving at unprecedented rate". O texto abaixo é produção original de O Tecido, com apuração e contextualização brasileira independentes.
No pavilhão do Shanghai New International Expo Center, mais de 2.600 expositores dividiram espaço na 28ª edição da Pet Fair Asia, entre 19 e 23 de agosto. O tamanho do evento é apenas um sintoma de um fenômeno maior: segundo executivos da Mars Pet Nutrition e da Royal Canin, o mercado pet chinês está passando por transformações que, em países de tradição mais consolidada no setor, levariam de cinco a sete anos, mas na China acontecem em um a dois anos.
Em entrevista concedida ao China Daily, Ganesh Ramani, gerente geral da Mars Pet Nutrition China, atribuiu esse ritmo a uma combinação de cadeia produtiva integrada, varejo altamente digitalizado e forte influência das redes sociais. Some se a isso um fator demográfico: a maioria das novas famílias chinesas com pets não tem tradição multigeracional de criar animais, o que as torna mais dependentes de pesquisa online e mais receptivas a novidades. Esse comportamento ajudou a multiplicar mais de 3 mil marcas de alimentos para pets em constante disputa por inovação, segundo o executivo.
Da quantidade à qualidade, e agora à longevidade
Xu Juan, gerente geral da Royal Canin China, descreveu ao China Daily uma trajetória de três décadas no mercado chinês: da guarda funcional das casas à alimentação básica, depois à alimentação premium e, na fase atual, à busca por saúde e longevidade. A China já é o segundo maior mercado do mundo em população de pets, atrás apenas dos Estados Unidos.
Esse amadurecimento trouxe consigo um desafio que passou despercebido por boa parte do público chinês: o envelhecimento da população de animais de companhia. Segundo dados citados por Xu ao jornal chinês, cerca de 20 milhões de pets no país já atingiram a idade sênior, considerada a partir dos 7 anos para a maioria dos cães e dos 5 anos para raças grandes. A projeção é que metade dos pets chineses seja sênior até 2040, mas a consciência pública sobre esse processo ainda está atrasada em relação ao crescimento da população idosa animal.
É diante desse cenário que a Mars Pet Nutrition tem reformulado sua marca Nutro com foco em nutrição preventiva, partindo da lógica de que a saúde intestinal funciona como primeira linha de defesa imunológica ao longo da vida do animal. A empresa, presente na China desde 1989 e com fabricação local a partir de 1995, hoje produz no país 90% de tudo o que vende ali, com mais de 40 produtos localizados lançados desde 2025. Já a Royal Canin consolidou uma estrutura de duas fábricas, em Tianjin e Xangai, com linhas de alimento seco e úmido, incluindo formulações específicas como a lata individual de 88 gramas e uma fórmula voltada à raça Corgi.
O espelho brasileiro: um mercado que também cresce rápido
O caso chinês interessa ao Brasil por mais de um motivo. Segundo levantamento da Abempet (Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação, resultado da fusão entre Abinpet e Instituto Pet Brasil), o país reúne hoje cerca de 160,9 milhões de pets, o que o mantém como o terceiro maior mercado do mundo em população animal, atrás de Estados Unidos e China. A média é de 1,6 a 1,8 animal por residência, e o setor projetou faturamento em torno de R$ 77,3 bilhões para 2025, após um salto de aproximadamente 12% entre 2023 e 2024.
Assim como relatado pelos executivos chineses, o mercado brasileiro também vive uma transição de comportamento: o pet deixou de ser guarda de quintal para se tornar, na expressão usada pelo setor, "membro da família". Essa humanização tem elevado a demanda por alimentação funcional, checkups regulares e serviços de bem-estar, num movimento paralelo ao que a Royal Canin descreve na China como passagem da quantidade para a qualidade.
O envelhecimento que ainda não tem o devido cuidado
O dado talvez mais relevante para o caderno Longevidade não é o tamanho do mercado, mas a mudança na expectativa de vida dos animais. Levantamentos acadêmicos recentes apontam que cães de pequeno porte, que viviam em média 9 anos há poucas décadas, hoje podem alcançar 18 anos, enquanto gatos passaram a viver até 20 anos em contextos de boa assistência veterinária. Em alguns países, o aumento da expectativa de vida de cães e gatos chegou a 230%, segundo dados do setor farmacêutico veterinário reunidos pelo Sindan (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal).
No Brasil, veterinários consultados por diferentes veículos especializados descrevem um cenário já familiar às clínicas: cães de grande porte entram na fase sênior a partir dos 5 anos e vivem em média de 10 a 13 anos; os de pequeno porte tornam se idosos aos 7 anos e podem viver de 12 a 15 anos; gatos são considerados sêniores a partir dos 7 anos e podem ultrapassar os 15 ou até 20 anos de idade. Hospitais veterinários já relatam mudança no perfil de atendimento, com aumento de casos crônicos renais, cardíacos, endócrinos e articulares, o que exige acompanhamento contínuo em vez de intervenções pontuais.
Prevenção como eixo comum entre os dois mercados
Tanto na China quanto no Brasil, o discurso do setor converge para o mesmo ponto: prevenção. Ramani descreveu ao China Daily um consumidor chinês extremamente exigente, que pesquisa ingredientes, fórmulas e processos de produção antes de comprar, pressionando marcas a elevar padrões e afastar concorrentes especulativos. No Brasil, veterinários apontam que protocolos de vacinação, controle parasitário, exames periódicos e nutrição específica por fase de vida são hoje considerados o pilar central para um envelhecimento saudável, e não apenas mais longo.
A fisioterapia veterinária, a hidroterapia e o controle multimodal da dor também ganham espaço nas clínicas brasileiras, em linha com o que especialistas chamam de "envelhecer sem sofrer". A diferença em relação à China está menos na tecnologia disponível e mais na velocidade de adoção: enquanto o mercado chinês cresce e se sofistica em ciclos de um a dois anos, o brasileiro segue uma curva mais gradual, ainda que estruturalmente semelhante.
Contraponto: crescimento acelerado tem custo?
Nem todos os especialistas do setor veem a aceleração do mercado pet como um benefício automático para o bem-estar animal. Parte da literatura sobre humanização de pets alerta que o boom de produtos premium e a pressão por diagnósticos e tratamentos cada vez mais sofisticados podem gerar dois efeitos colaterais: encarecimento do cuidado, que restringe o acesso de famílias de menor renda a exames e tratamentos preventivos, e sobremedicalização, quando intervenções são oferecidas por apelo comercial e não por necessidade clínica comprovada. No caso chinês, a proliferação de mais de 3 mil marcas de alimentos em disputa acelerada também levanta a pergunta sobre a capacidade regulatória de acompanhar, em tempo real, a validação científica de todas essas promessas.
O que isso significa para quem cuida de um pet no Brasil
Para tutores brasileiros, a lição prática que emerge tanto da experiência chinesa quanto dos dados nacionais é a mesma: a fase sênior tende a ser a mais longa da vida de um cão ou gato, não uma etapa curta e final. Isso muda o planejamento de cuidados, do orçamento familiar destinado ao pet até a frequência de visitas ao veterinário, que especialistas recomendam elevar para checkups semestrais a partir do início da idade madura do animal.
O crescimento do setor pet brasileiro, sustentado por dados da Abempet e reforçado pelo comportamento observado em outros mercados grandes como China e Estados Unidos, sugere que o país seguirá na direção de mais produtos e serviços voltados à longevidade animal. A pergunta que fica, e que o próprio setor chinês começa a discutir, é se a velocidade desse crescimento virá acompanhada de educação suficiente para que os tutores saibam reconhecer sinais de envelhecimento e agir de forma preventiva, e não apenas reativa.
Perguntas frequentes
A partir de que idade um cão ou gato é considerado sênior?
Em geral, cães de pequeno porte entram na fase sênior por volta dos 7 anos, enquanto cães de raças grandes já são considerados idosos a partir dos 5 anos, devido ao metabolismo mais acelerado. Gatos costumam ser classificados como sêniores a partir dos 7 anos.
Por que o mercado pet da China cresce mais rápido que o de outros países?
Segundo executivos da Mars Pet Nutrition e da Royal Canin, a combinação de cadeia de suprimentos integrada, varejo digital avançado, forte influência das redes sociais e um grande número de tutores de primeira viagem compensa transformações que, em mercados maduros, levariam de cinco a sete anos, comprimindo-as em um a dois anos.
Qual a posição do Brasil no mercado global de pets?
De acordo com a Abempet (associação que reúne a antiga Abinpet e o Instituto Pet Brasil), o Brasil é o terceiro maior mercado pet do mundo em população de animais, com cerca de 160,9 milhões de pets, atrás apenas de Estados Unidos e China.
Quais sinais indicam que um pet está envelhecendo e precisa de mais cuidado?
Veterinários apontam pele mais fina e ressecada, aumento do tempo de sono, redução da atividade física, perda de audição, visão e olfato, além de rigidez ao se levantar ou relutância em subir escadas, sinais que podem indicar artrite ou outras doenças articulares comuns em animais idosos.
A expectativa de vida de cães e gatos realmente aumentou nas últimas décadas?
Sim. Estudos acadêmicos recentes indicam que cães de pequeno porte, que viviam em média 9 anos, hoje podem chegar a 18 anos em contextos de boa assistência veterinária, enquanto gatos podem viver até 20 anos, um avanço atribuído à medicina preventiva, à vacinação regular e à nutrição específica por fase de vida.