Tecnologia · Computação Quântica

Um levantamento recente mostra que, pela primeira vez, empresas privadas gastaram mais em computação quântica do que governos e universidades juntos. O movimento já tem reflexo direto no Brasil, entre bancos, reguladores e editais públicos de fomento.

Por décadas, a computação quântica viveu quase exclusivamente dentro de laboratórios de física e programas estatais de pesquisa. Esse cenário mudou de forma perceptível em 2025. Segundo relatório da consultoria Boston Consulting Group (BCG), empresas privadas investiram coletivamente 300 milhões de dólares em quantum no último ano, superando pela primeira vez a soma dos gastos de laboratórios de pesquisa e governos. O dado, obtido a partir de uma amostra de 275 companhias entre as 25 maiores por valor de mercado em 11 setores, indica que 62% delas já mantêm programa dedicado ao tema, com investimento anual de ao menos 1 milhão de dólares.

A reportagem original, publicada pelo The Wall Street Journal, relata que companhias como Allstate, HSBC e EY tratam o momento atual como uma corrida por vantagem competitiva e, em paralelo, como uma medida defensiva diante do chamado "Q-Day", o dia hipotético em que um computador quântico suficientemente potente seria capaz de quebrar os padrões de criptografia usados hoje por bancos, governos e empresas de tecnologia.

A corrida global e o peso do atraso em IA

Um fator chama atenção nas motivações apontadas pelas empresas: o receio de repetir o erro cometido com a inteligência artificial generativa, quando muitas companhias foram pegas de surpresa pela velocidade de adoção do ChatGPT e de outros modelos a partir de 2022 e demoraram para se organizar. Segundo Matt Langione, diretor administrativo e sócio da BCG e líder global de tecnologias quânticas na consultoria, essa "ressaca" da falta de preparo para a IA está entre os fatores que aceleram os investimentos antecipados em quantum agora.

"Se a tecnologia vai estar disponível, eu preciso começar a pensar nela antes mesmo de saber exatamente quando ela vai chegar." Tom Wilson, presidente e CEO da Allstate, em entrevista ao WSJ

Casos citados pela reportagem ilustram a diversidade de apostas. A seguradora Allstate mantém uma equipe de dez pesquisadores dedicados a explorar como algoritmos quânticos poderiam ajudar a precificar apólices com mais precisão, avaliando variáveis complexas de risco. O banco HSBC, com equipe espalhada entre Londres, Cingapura e Índia, testou com computadores quânticos da IBM um caso de otimização de operações com títulos, e hoje concentra parte do esforço em proteger seus sistemas contra a ameaça criptográfica futura. Já a EY comprou seu próprio computador quântico, hoje instalado em Toronto, dentro de um compromisso de 3 bilhões de dólares da empresa com inteligência artificial e tecnologias de fronteira.

O que o Brasil está fazendo

Embora o epicentro do investimento privado esteja concentrado em grandes economias, o tema também avança no país, puxado por um tripé formado por fomento público, setor financeiro e regulação.

No campo do fomento, a Finep, empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), mantém aberta até 30 de setembro de 2026 a segunda edição do edital Mais Inovação Brasil, que destina 300 milhões de reais em subvenção a seis linhas de pesquisa, uma delas voltada especificamente a tecnologias quânticas de computação, comunicação e sensoriamento. O objetivo declarado é reduzir a dependência externa do país nessas tecnologias e inserir empresas brasileiras em cadeias globais de alto valor agregado. Em paralelo, o MCTI sinalizou um plano de investimento mais amplo, que pode somar até 5 bilhões de reais até 2034, voltado também a conter a fuga de pesquisadores da área para o exterior.

Parte dessa infraestrutura já existe. O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, abriga o QuantumTec, laboratório voltado à construção de chips quânticos que recebeu 23 milhões de reais em investimento da Finep e atua nas três frentes da área: computação, comunicação e sensoriamento quântico.

No setor financeiro, o movimento mais visível vem do Itaú Unibanco, que se tornou o primeiro banco da América Latina a integrar a IBM Quantum Network, rede global que reúne mais de 500 empresas, universidades e instituições dedicadas a explorar aplicações da tecnologia. O banco já testou o uso de computação quântica para precificação de derivativos e recomendação de carteiras de investimento, e criou em 2025 o Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTi), com pesquisas em andamento também na área. O Bradesco integra a mesma rede da IBM.

Contraponto

Nem todos veem urgência no ritmo atual de investimento. Executivos da própria IBM no Brasil reconhecem que a principal barreira ainda é de hardware, já que a indústria não rompeu a marca de mil qubits de capacidade estável em máquinas comerciais. Críticos da tecnologia argumentam que a viabilidade comercial ampla segue distante e que parte do entusiasmo atual pode configurar um ciclo especulativo similar ao vivido por outras tecnologias emergentes, no qual o retorno financeiro demora a aparecer diante do capital investido.

Para empresas de menor porte, o custo de entrada, que envolve tanto acesso a hardware quanto formação de equipes especializadas, ainda é visto como proibitivo, o que concentra o movimento em grandes bancos, seguradoras e consultorias globais.

A urgência silenciosa: criptografia pós-quântica

Se a aplicação comercial da computação quântica ainda é incerta, o risco criptográfico já entrou na pauta regulatória brasileira. Em março de 2026, um representante do Banco Central confirmou publicamente que a autarquia estuda a regulação do tema, com foco em segurança, embora reconheça que "ainda não tem uma visão total das consequências" da transição para um mundo pós-quântico. O Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI) já publicou, por meio da Instrução Normativa nº 35/2026, diretrizes para que o padrão de assinaturas digitais da ICP-Brasil evolua para algoritmos de criptografia pós-quântica (PQC), incluindo os padrões ML-DSA e ML-KEM validados pelo NIST norte-americano.

Relatório da empresa de custódia digital Taurus, divulgado em julho de 2026, aponta que a chegada dos primeiros computadores quânticos operacionais construídos no país, com capacidade projetada de até 100 qubits, transforma uma ameaça até então distante para criptomoedas e ativos digitais em uma questão concreta de arquitetura para bancos e exchanges. Segundo o levantamento, a escolha tecnológica feita hoje na custódia de chaves privadas pode determinar a velocidade de uma futura migração para padrões de segurança resistentes a ataques quânticos.

O que observar daqui para frente

Para o mercado corporativo brasileiro, três frentes tendem a concentrar a atenção nos próximos meses: o resultado do edital da Finep, que se encerra em setembro; a definição da regulação do Banco Central sobre segurança pós-quântica no sistema financeiro; e o ritmo de expansão de iniciativas como o ICTi do Itaú, que podem servir de modelo para outras instituições. Nenhuma dessas frentes promete resolver de imediato a questão central levantada pela reportagem do WSJ, que é: ninguém sabe exatamente quando a computação quântica vai deixar de ser promessa e passar a gerar retorno financeiro direto. Mas o custo de chegar atrasado, como lembram os próprios executivos entrevistados, parece pesar mais do que o custo de investir cedo.

Perguntas frequentes

Por que empresas privadas estão investindo mais em quantum do que governos?

Segundo a BCG, o gasto privado em computação quântica somou 300 milhões de dólares em 2025, superando pela primeira vez o investimento combinado de laboratórios de pesquisa e governos, movido tanto pela busca de vantagem competitiva quanto pela necessidade de se preparar contra riscos futuros à criptografia.

O que é o "Q-Day"?

É o nome dado ao momento hipotético em que um computador quântico se tornaria capaz de quebrar os algoritmos de criptografia usados hoje para proteger dados bancários, governamentais e de infraestrutura crítica, o que motiva a corrida por migração para criptografia pós-quântica.

Quais bancos brasileiros já investem em computação quântica?

Itaú Unibanco e Bradesco integram a IBM Quantum Network. O Itaú também criou o Instituto de Ciência e Tecnologia Itaú (ICTi), com pesquisas ativas em computação quântica aplicadas a precificação de derivativos e recomendação de investimentos.

O Brasil tem algum programa público de fomento à computação quântica?

Sim. A Finep mantém aberto até setembro de 2026 o edital Mais Inovação Brasil, com 300 milhões de reais em subvenção, incluindo uma linha dedicada a tecnologias quânticas, além de um plano do MCTI que prevê até 5 bilhões de reais em investimentos no setor até 2034.

O Banco Central já regula segurança pós-quântica no sistema financeiro?

A regulação ainda está em estudo. O Banco Central confirmou publicamente, em 2026, que analisa o tema com foco em segurança cibernética, enquanto o ITI já publicou diretrizes para a migração de assinaturas digitais da ICP-Brasil para padrões pós-quânticos.

Nota de verificação editorial: valores de investimento privado global (BCG/WSJ), volume do plano do MCTI até 2034 e capacidade projetada de qubits em máquinas nacionais devem ser reconfirmados junto às fontes primárias antes da publicação, por se tratarem de projeções e declarações sujeitas a atualização. Reportagem original: Isabelle Bousquette, "Businesses Are Spending Big on Quantum", The Wall Street Journal, 14 de agosto de 2026, disponível em wsj.com. Usada como inspiração e fonte de citação, não reproduzida ou traduzida integralmente.

Ewerton Lopes — Curador Editorial

Números-chave

  • Gasto privado global em quantum (2025)US$ 300 mi
  • Empresas com programa dedicado (amostra BCG)62%
  • Edital Finep Mais Inovação BrasilR$ 300 mi
  • Plano MCTI para quantum até 2034R$ 5 bi
  • Investimento Finep no QuantumTec/CBPFR$ 23 mi
  • Compromisso EY com IA e tecnologias de fronteiraUS$ 3 bi

Linha do tempo

  • 2019Itaú Unibanco começa a investir em computação quântica.
  • 2023Itaú entra na IBM Quantum Network, primeiro banco da América Latina na rede.
  • Mar/2026Banco Central confirma estudo sobre regulação de segurança pós-quântica.
  • Abr/2026Finep abre edital com linha dedicada a tecnologias quânticas.
  • Jul/2026Relatório da Taurus alerta sobre risco à custódia de ativos digitais no Brasil.
  • Ago/2026BCG registra gasto privado global superando governos e academia pela 1ª vez.

Glossário

Qubit
Unidade básica de informação em um computador quântico, capaz de representar múltiplos estados simultaneamente.
Criptografia pós-quântica (PQC)
Conjunto de algoritmos criptográficos projetados para resistir a ataques feitos por computadores quânticos.
Q-Day
Nome informal dado ao momento futuro em que um computador quântico seria capaz de quebrar a criptografia usada hoje.
Agilidade criptográfica
Capacidade de um sistema atualizar seus algoritmos de segurança sem interromper operações críticas.

Referências

  1. Bousquette, I. "Businesses Are Spending Big on Quantum". The Wall Street Journal, 14 ago. 2026. wsj.com
  2. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). "Tecnologias quânticas podem revolucionar computação, criptografia e sensores". gov.br/mcti
  3. ConvergenciaDigital. "Finep vai dedicar parte dos R$ 300 milhões do edital Mais Inovação Brasil para Computação Quântica". convergenciadigital.com.br
  4. Instituto Búzios. "Brasil vai investir R$ 5 bilhões em computação quântica até 2034". institutobuzios.org.br
  5. Finsiders Brasil. "BC estuda regulação para IA e criptografia quântica". finsidersbrasil.com.br
  6. TecnFinanças. "O Brasil e a Criptografia Pós-Quântica: Uma Questão de Soberania". tecnfinancas.com.br
  7. Cointelegraph Brasil. "Relatório aponta que computadores quânticos do Brasil colocam a custódia de ativos virtuais em risco". cointelegraph.com.br
  8. ConvergenciaDigital. "Itaú Unibanco lança instituto e já tem 50 pesquisas em andamento em IA e computação quântica". convergenciadigital.com.br
  9. Associação Comercial e Industrial de Araçatuba. "Bradesco e Itaú integram rede de computação quântica da IBM". aciara.com.br