Enquanto a Organização Mundial da Saúde tenta convencer governos a investir em educação física e urbanismo ativo, uma classe de medicamentos aprendeu a fazer, em poucos anos, algo que décadas de campanhas de saúde pública não conseguiram: reduzir a curva do peso corporal em escala populacional. O debate ganhou força recente na coluna do jornalista canadense Yves Boisvert, do jornal La Presse, que questiona se ainda faz sentido insistir na promoção do exercício físico quando injeções semanais de agonistas de GLP-1 parecem resolver o problema do sobrepeso sem esforço.1 Os dados disponíveis sugerem uma resposta mais desconfortável do que um simples sim ou não.

O que os números globais mostram

Um estudo publicado na Lancet Global Health em 2024, com dados de 507 pesquisas em 163 países e mais de 5,7 milhões de participantes, mostrou que a prevalência mundial de inatividade física adulta subiu de 23,4% em 2000 para 31,3% em 2022.2 Caso a tendência não mude, a Organização Mundial da Saúde projeta que o índice chegue a 35% até 2030, o dobro do recuo de 15% que os próprios países-membros haviam se comprometido a alcançar.3

O problema não é uniforme. Mulheres apresentam níveis de inatividade cerca de cinco pontos percentuais maiores do que homens, adultos acima de 60 anos são mais sedentários que os mais jovens, e os países de renda média-baixa registraram o crescimento mais acentuado no período.3 Ainda assim, 22 países conseguiram reverter a curva em uma geração, incluindo Suécia, Eslovênia e França, o que indica que o fenômeno não é inevitável quando existe uma estratégia nacional coordenada entre escolas, prefeituras e clubes esportivos.1

O Brasil entre o consultório e a farmácia

No Brasil, os dados do Vigitel, levantamento anual do Ministério da Saúde nas capitais e no Distrito Federal, mostram uma trajetória que parece contradizer a intuição mais óbvia. O excesso de peso entre adultos subiu de 42,6% em 2006 para 62,6% em 2024, e a obesidade praticamente dobrou no mesmo período, de 11,8% para 25,7%.4 Ao mesmo tempo, porém, a prática de pelo menos 150 minutos semanais de atividade física no tempo livre também cresceu, de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024.4

A coexistência dessas duas curvas ascendentes é o dado mais incômodo do levantamento. Ela sugere que o ambiente alimentar, marcado pelo consumo crescente de ultraprocessados, pode estar pesando mais do que o sedentarismo isolado no avanço da obesidade brasileira, sem que isso torne a inatividade física menos relevante para os desfechos de saúde de longo prazo, como hipertensão e diabetes, que também avançaram no período.4

O mercado brasileiro de medicamentos GLP-1 deve avançar de cerca de R$ 11 bilhões em 2025 para perto de R$ 20 bilhões em 2026, mas hoje é usado por apenas 2,5% dos adultos obesos do país.

É nesse cenário que o mercado de canetas emagrecedoras cresce rapidamente. Levantamentos do setor farmacêutico mostram que Ozempic, Wegovy e Mounjaro movimentaram juntos R$ 13,3 bilhões entre maio de 2025 e maio de 2026 no país, e projeções do mercado financeiro apontam para quase R$ 20 bilhões em 2026, impulsionados pela chegada de versões nacionais e pela expiração da patente da semaglutida em março deste ano, o que deve abrir espaço para genéricos mais baratos.7

A penetração, contudo, ainda é baixa: estimativas recentes indicam que apenas 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos adultos obesos no Brasil usam esses medicamentos, contra cerca de 4,4% entre pessoas com diabetes e sobrepeso nos Estados Unidos.7 O preço, entre R$ 900 e R$ 3.000 por caixa, e a ausência de cobertura pelo SUS (a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias rejeitou a incorporação da semaglutida em 2025, citando impacto orçamentário de R$ 7 bilhões em cinco anos) mantêm o acesso concentrado em quem pode pagar do próprio bolso.7

Estados Unidos: o primeiro recuo em uma década

Do outro lado do continente, os efeitos já aparecem nas estatísticas nacionais. Um estudo da Harvard Medical School, com dados de quase 17 milhões de adultos entre 2013 e 2023, identificou o primeiro recuo do índice de massa corporal médio da população americana em uma década, coincidindo com o crescimento no uso de medicamentos GLP-1.5 Levantamentos mais recentes do instituto Gallup confirmam a continuidade da queda, de um pico de 39,9% de obesidade em 2022 para cerca de 37% em 2025, o equivalente a 7,6 milhões de adultos a menos com obesidade em três anos.6

Os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: correlação não é o mesmo que causalidade, e fatores como a normalização pós-pandemia também podem ter contribuído para o recuo em algumas regiões.5 Além disso, a obesidade infantil segue em trajetória oposta, atingindo o recorde de 21,1% entre crianças e adolescentes americanos, justamente a faixa etária em que o acesso aos medicamentos GLP-1 é mais restrito e onde os hábitos alimentares e o tempo de tela têm maior peso.6

É nesse contexto que o secretário de Saúde americano, Robert F. Kennedy Jr., conhecido por posições antivacina contestadas pela comunidade científica, conduz o programa Make America Healthy Again, voltado ao combate de alimentos ultraprocessados nas escolas. A iniciativa enfrenta resistência estrutural: mudar a alimentação de um país inteiro esbarra em uma indústria consolidada e em uma cultura do sedentarismo digital que nenhuma injeção resolve por conta própria.

Contraponto: e se a molécula for mais eficiente que a política pública?

Uma parte dos economistas da saúde argumenta que insistir apenas em mudança de comportamento é ignorar décadas de evidência de que campanhas educativas têm efeito limitado em escala populacional. Para essa leitura, ampliar o acesso aos medicamentos GLP-1, inclusive por meio de genéricos mais baratos, pode reduzir mais rapidamente os custos assistenciais ligados a diabetes e hipertensão do que reformas curriculares cujo retorno só aparece em uma geração.

O argumento tem limite. Mesmo em um cenário hipotético de obesidade zero, uma população sedentária continuaria exposta a maior morbidade, ou seja, mais anos vividos com doença crônica antes da morte, um efeito que a literatura de atividade física identifica como relativamente independente do índice de massa corporal.2 A caneta emagrece; ela não necessariamente movimenta.

A tentativa brasileira de mexer no currículo

Enquanto o debate farmacológico avança, o Congresso brasileiro discute, em ritmo mais lento, uma resposta pelo lado da política pública. Em janeiro de 2026, uma comissão da Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que estabelece carga horária mínima de três horas semanais de educação física no ensino fundamental e médio da rede pública, ainda sujeito a novas etapas de tramitação nas comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça.8 Uma tentativa anterior, de 2012, propunha apenas duas horas semanais e não avançou.8

O movimento não é linear. Em Estados como a Bahia, reformas recentes do ensino médio reduziram a educação física a apenas uma hora semanal nos dois primeiros anos e a eliminaram do terceiro ano, um retrocesso que especialistas em educação física escolar associam ao enfraquecimento do direito ao movimento justamente na faixa etária em que o sedentarismo digital mais se consolida.

O contraste entre o crescimento acelerado do mercado de medicamentos e o avanço lento da política curricular resume o dilema descrito por Boisvert em sua coluna: é mais fácil prescrever uma injeção do que reorganizar o currículo escolar, a mobilidade urbana e a cultura corporativa em torno do exercício físico.1 Os países que reverteram a curva de inatividade não o fizeram com uma única política, mas com um conjunto de intervenções sustentadas por mais de uma década, o que sugere que o resultado brasileiro, nas próximas duas décadas, dependerá menos da geladeira farmacêutica e mais da disposição de sustentar políticas de longo prazo mesmo quando os efeitos não são imediatos.

Este texto foi inspirado na coluna "Entre les Olympiques et Ozempic", de Yves Boisvert, publicada no jornal canadense La Presse1. O conteúdo original não foi traduzido nem reproduzido integralmente; os dados e argumentos foram verificados e ampliados com fontes independentes listadas nas referências abaixo.

Perguntas frequentes

Os medicamentos GLP-1 substituem a necessidade de atividade física?

Não, segundo os dados disponíveis. Eles reduzem peso corporal e melhoram marcadores metabólicos, mas a inatividade física está associada a maior morbidade ao longo da vida de forma relativamente independente do índice de massa corporal, o que significa que uma população mais magra e ainda sedentária continua exposta a riscos de saúde de longo prazo.

Por que o Brasil registra aumento simultâneo de atividade física e de obesidade?

Dados do Vigitel mostram que a prática de exercício físico de lazer cresceu de 30,3% em 2009 para 42,3% em 2024, ao mesmo tempo em que a obesidade também subiu, de 11,8% para 25,7% no mesmo período. Isso sugere que o padrão alimentar, marcado pelo consumo de ultraprocessados, tem peso relevante no avanço da obesidade, independentemente da evolução da atividade física.

Quantos brasileiros usam medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro?

Estimativas do mercado financeiro indicam que apenas cerca de 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos adultos obesos no Brasil usam medicamentos GLP-1 atualmente, uma penetração ainda baixa se comparada aos Estados Unidos, onde o uso chega a 4,4% entre pessoas com diabetes e sobrepeso.

O que o estudo publicado na Lancet descobriu sobre a inatividade física mundial?

A pesquisa, com dados de 163 países, identificou que a inatividade física adulta global subiu de 23,4% em 2000 para 31,3% em 2022, e projetou que o índice pode chegar a 35% até 2030 caso a tendência atual não seja revertida.

Algum país conseguiu reverter a tendência de sedentarismo?

Sim. Ao menos 22 países registraram melhora nos níveis de atividade física entre 2000 e 2022, incluindo Suécia, Eslovênia e França, geralmente por meio de estratégias nacionais coordenadas que envolveram escolas, cidades e clubes esportivos ao longo de mais de uma década.

Referências

  1. Yves Boisvert. "Entre les Olympiques et Ozempic". La Presse. Acessar coluna original
  2. Strain, T. et al. "National, regional, and global trends in insufficient physical activity among adults from 2000 to 2022: a pooled analysis of 507 population-based surveys with 5,7 million participants". The Lancet Global Health, 2024.
  3. Organização Mundial da Saúde. "Global levels of physical inactivity in adults: off track for 2030", 2024.
  4. Ministério da Saúde do Brasil / Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Vigitel Brasil, edições 2024 e 2025.
  5. Rader, B. et al. Harvard Medical School. Estudo sobre evolução do índice de massa corporal e obesidade nos Estados Unidos (2013 a 2023), publicado em dezembro de 2024.
  6. Gallup. "Obesity Rate Declining in U.S.", pesquisas de bem-estar, 2025 e 2026.
  7. UBS BB Corretora; Close-Up International Brasil. Relatórios sobre o mercado brasileiro de medicamentos agonistas de GLP-1, 2025 e 2026.
  8. Câmara dos Deputados. Tramitação de projeto de lei sobre carga horária mínima de educação física nas escolas públicas, 2026.