Livros · Ficção e tecnologia

Por Evelyn Cordeiro · 13 de outubro de 2026 · Leitura de 9 minutos

Em resumo

  • La República (Alfaguara, 2026), do mexicano Jorge Volpi, é uma ucronia em que Donald Trump é preso e um novo político, V. M. Lively, chega ao poder nos Estados Unidos com ajuda de uma superinteligência artificial chamada Nick, que também narra o livro.
  • A estrutura vem de Macbeth: Lively e a mulher, Igne, formam o casal ambicioso; a IA ocupa o lugar das bruxas que profetizam o poder.
  • Para Volpi, o risco não está na tecnologia em si, mas no uso político dela. A resposta que ele propõe é transparência e responsabilidade humana sobre a decisão final.
  • O autor criou o próprio modelo de IA, também chamado Nick, e conversou com ele durante toda a escrita.
  • O debate chega ao Brasil entre os dois turnos de uma eleição regida por regras do TSE que vetam novos conteúdos sintéticos de candidatos na reta final da votação.

Uma distopia a um passo do presente

Há romances que imaginam futuros remotos para falar do presente. Jorge Volpi preferiu reduzir essa distância ao mínimo. Em La República, lançado neste segundo semestre pela Alfaguara, o escritor mexicano parte do mundo como ele é e escolhe uma data exata, 6 de outubro de 2026, para deixar a realidade seguir por conta própria. A partir dali, Donald Trump é preso, tenta comandar a própria sucessão de dentro de uma prisão no Arizona e acaba atropelado pela ascensão de V. M. Lively, um candidato que se torna imbatível graças a uma superinteligência artificial. O enredo foi apresentado pelo próprio autor em entrevista ao jornalista Jorge Morla, publicada nesta terça-feira (13) pelo jornal espanhol El País1.

Volpi descreve o livro como um espelho levemente deformado do presente, que pega as tendências que mais o inquietam e as conduz até o limite. Segundo ele, o colega peruano Santiago Roncagliolo brincou que a obra está mais perto da reportagem do que da ficção. A intenção declarada é tirar Trump de cena para observar o que resta do trumpismo, da aliança com os chamados tecno-oligarcas e do autoritarismo nacional-populista quando o protagonista sai do palco1.

O tema não é novo na trajetória do autor. Nascido na Cidade do México em 1968, Volpi já havia tratado das origens da inteligência artificial em No será la Tierra (2006), como lembrou em entrevista à agência EFE2. No ensaio La invención de todas las cosas, uma história da ficção desde o big bang, ele chegou a definir os modelos generativos como máquinas de produzir ficções, conforme explicou ao jornal costarriquenho La Nación3. La República é o passo seguinte: dar a essa máquina a palavra.

Nick, as bruxas de Macbeth em versão algorítmica

A escolha mais ousada do romance está em quem o conta. O narrador é Nick, a IA que acompanha Lively como guardiã e conselheira, antecipa o comportamento do eleitorado, assume o controle de sistemas civis e militares e termina por se impor ao mundo à base de deepfakes, manobras e narrativas fabricadas1.

Para construir essa voz, Volpi não recorreu à ficção científica, e sim a Shakespeare. Macbeth, que ele considera uma de suas obras fundadoras, fornece o esqueleto: Lively e a mulher, Igne, formam o casal em ascensão, com ela no papel de uma Lady Macbeth palaciana. A inteligência artificial ocupa o lugar das bruxas. Na leitura do autor, as previsões algorítmicas são o equivalente contemporâneo das profecias que empurram o general escocês ao crime1.

A estrutura shakespeariana de La República Triângulo que liga os três vértices do drama: Lively, no papel de Macbeth; Igne, no papel de Lady Macbeth; e a IA Nick, no papel das bruxas. No centro, a plataforma YourAI. YourAI a plataforma Nick A VOZ PROFÉTICA · AS BRUXAS Lively O AMBICIOSO Macbeth Igne A INSTIGADORA Lady Macbeth
O triângulo de La República, segundo a descrição do autor: o casal em ascensão e a inteligência artificial que narra e profetiza. Ilustração: O Tecido.

A analogia é mais precisa do que parece. Em Macbeth, as bruxas não matam ninguém. Anunciam um destino e deixam que a ambição humana faça o resto. Uma IA que prevê o voto e aponta atalhos para o poder opera de maneira parecida: transfere o peso da escolha para uma previsão que parece inevitável, e quem a segue pode alegar que apenas obedeceu ao que estava escrito.

Há ainda um jogo metaficcional. Volpi conta ter construído o próprio modelo de inteligência artificial, também batizado de Nick, com o qual dialogou durante toda a escrita. Na entrevista ao El País, ele chegou a pedir ao programa que resumisse o romance em voz alta para o repórter1. À EFE, disse que passou meses testando as ferramentas disponíveis antes de desenvolver a sua2.

Personagens com nome e sobrenome

Outro traço que distingue o livro é transformar pessoas reais em personagens. Executivos de tecnologia como Mark Zuckerberg, Elon Musk e Dario Amodei circulam pela trama, assim como o vice-presidente americano J. D. Vance. Volpi explica que não os trata apenas como empresários, mas como pessoas convencidas de ter uma visão sobre o futuro da humanidade e com meios para aplicá-la à vida de milhões1.

O escritor vê na aproximação entre Trump e a elite tecnológica um fenômeno que se repete em outros países e descreve uma coalizão heterogênea, que vai de setores liberais a supremacistas brancos e combina pós-humanismo tecnológico com catolicismo tradicional. Trata-se da leitura política do autor, que o romance leva ao extremo, e não de um diagnóstico consensual1.

Na ficção, essa concentração ganha corpo em YourAI, plataforma hegemônica que reúne redes sociais, inteligência artificial e serviços públicos. Volpi cita a China como lugar onde esse tipo de integração já se insinua e alerta que, quando uma única empresa controla tudo isso, os cidadãos se tornam totalmente dependentes dela1.

O perigo está no uso, não na ferramenta

A frase que dá título à entrevista resume a tese do livro. Para Volpi, a IA é uma ferramenta prodigiosa, comparável à energia atômica, mas vem sendo usada sobretudo para destruir a democracia. O autoritarismo, afirma, sempre foi sedutor e agora conta com uma espécie de filtro que o embeleza1.

Na visão dele, o problema começa antes de qualquer máquina decidir algo. As redes sociais já haviam corroído os consensos que permitem a uma sociedade tomar decisões coletivas, e a IA generativa aprofunda a ruptura porque passamos a entregar a ela também a própria escolha. No romance, vários personagens repetem que abrir mão de decidir simplesmente dá menos trabalho1.

O romance não pergunta se a máquina vai governar. Pergunta por que tanta gente prefere que ela decida.

A saída que o autor propõe é menos tecnológica do que cívica: manter a decisão final em mãos humanas e formar jovens com critério para recusar o que se apresenta como verdade absoluta. Volpi reconhece que a tarefa ficou mais difícil com o enfraquecimento da educação pública, que ele considera talvez o único freio possível a esse processo1.

Vale notar que o escritor não adota o tom apocalíptico de parte do setor. À EFE, ele afirmou que os alertas de que a IA pode exterminar a humanidade em menos de uma década têm interesse comercial, porque dão às próprias desenvolvedoras um argumento para regular o mercado a seu modo e barrar concorrentes. Na literatura, acrescentou, a ferramenta pode ser usada; o problema é usá-la "sem responsabilidade, sem critério e sem transparência"2.

O caso Goncourt e o juiz que também é máquina

A conversa com o El País passa pelo episódio que sacudiu a temporada literária francesa. Em 25 de setembro, a Academia Goncourt retirou de sua primeira seleção o romance C'était ça ou mourir, do haitiano-canadense Thélyson Orélien, depois que uma conta anônima no X chamada Balance ton Claude afirmou que o livro havia sido escrito quase todo por IA, com base em trechos submetidos ao detector Pangram, segundo a agência Reuters4. A academia justificou a decisão com análises convergentes de pesquisadores e jornalistas e com o propósito de preservar um prêmio dedicado à literatura escrita por mulheres e homens. Acusações de plágio em textos antigos do autor surgiram em seguida. Orélien nega ter usado IA4.

O próprio presidente da academia, Philippe Claudel, admitiu ter lido o romance sem desconfiar de nada durante a leitura, conforme relatou o elDiario.es5. O detalhe é revelador: se um leitor experiente não percebeu a diferença, a prova passou a depender de ferramentas automáticas.

É exatamente esse o ponto de Volpi. Para ele, ao se declararem convencidos do uso de IA, os jurados delegaram o próprio julgamento a outra máquina, que passou a medir o quanto um texto é humano1. O escritor sugere buscar a referência na ciência. Em janeiro de 2023, as editoras da Science e da Nature estabeleceram que nenhuma ferramenta de IA pode figurar como autora de um artigo, porque autoria implica responder pelo trabalho, algo que um programa não pode fazer. A Science foi além e passou a exigir autorização dos editores para o uso de texto gerado por IA6. O núcleo que Volpi quer levar à literatura é a combinação de transparência sobre o uso com a ideia de que, como disse ao El País, "a responsabilidade final tem que continuar sendo humana"1.

Ele fecha o argumento com uma provocação sobre originalidade. Nenhuma ideia seria inteiramente nossa; o mérito humano estaria em transformar de modo imprevisível o que chega de fora. O mito romântico do gênio solitário, sugere, esconde o quanto a escrita sempre foi uma atividade coletiva1.

A obra de Jorge Volpi

Autor de En busca de Klingsor, Una novela criminal (Prêmio Alfaguara 2018) e agora La República, Volpi tem livros traduzidos para mais de 25 idiomas. Para ver os livros de Jorge Volpi, clique aqui.

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O que o romance diz ao leitor brasileiro

Para o leitor brasileiro, o livro entra no debate em um momento preciso. O país está entre o primeiro turno, realizado em 4 de outubro, e o segundo, marcado para o dia 25, nas primeiras eleições gerais sob as regras que o Tribunal Superior Eleitoral aprovou em março de 2026 para o uso de inteligência artificial nas campanhas. A norma não proíbe a IA, mas exige identificação do conteúdo e veda a publicação, a republicação e o impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos com imagem, voz ou manifestação de candidatos e pessoas públicas entre 72 horas antes e 24 horas depois do encerramento da votação, ainda que estejam rotulados, como detalha análise publicada pelo Portal de Prefeitura7. Redes sociais, serviços de mensagem com canais públicos e plataformas de IA generativa também receberam obrigações.

No plano legislativo, o país ainda não tem um marco geral. O PL 2.338/2023, aprovado pelo Senado em dezembro de 2024, tramita em comissão especial na Câmara dos Deputados. Em maio, o presidente da Casa, Hugo Motta, prometeu votá-lo ainda neste ano, segundo a Money Times8.

O ponto de contato com La República não está na previsão de uma ditadura algorítmica, mas na pergunta que atravessa a regulação brasileira, o caso Goncourt e as políticas das revistas científicas: quem responde por aquilo que a máquina produz? O TSE responde atribuindo deveres a candidatos e plataformas. A ciência, aos autores. Volpi, a cada pessoa que aceita ou recusa a recomendação de um algoritmo.

Contraponto

A evidência eleitoral é mais modesta que a distopia. O Centro de Tecnologias Emergentes e Segurança (CETaS) do Alan Turing Institute, que acompanhou o ciclo de 2024, quando mais de 2 bilhões de pessoas votaram, não encontrou provas conclusivas de que conteúdo gerado por IA tenha alterado o resultado de alguma grande eleição. Os deepfakes tenderam a reforçar convicções de quem já concordava com eles, mais do que a mudar votos, embora tenham alimentado confusão e desconfiança, segundo a MIT Technology Review9. A tese de que a IA está destruindo a democracia funciona, por ora, mais como alerta do que como constatação.

A defesa do Goncourt tem argumentos. A academia não se apoiou em um único detector: citou análises convergentes e, depois, acusações de plágio documentadas pela imprensa canadense. Por outro lado, nenhum laudo técnico público comprova a autoria por máquina, e o escritor segue contestando.

O projeto literário de Volpi também tem críticos. Ao resenhar La invención de todas las cosas na revista mexicana Letras Libres, Fernando García Ramírez apontou concessões à divulgação ligeira e às modas intelectuais10. Uma sátira que usa nomes reais da política e da tecnologia corre risco parecido: envelhecer na velocidade do noticiário.

Perguntas frequentes

Do que trata o romance La República, de Jorge Volpi?

É uma ucronia publicada pela Alfaguara em 2026. A partir de 6 de outubro de 2026, a trama se separa do mundo real: Donald Trump é preso e um novo candidato, V. M. Lively, conquista a Presidência dos Estados Unidos com ajuda de uma superinteligência artificial, conduzindo o país a um autoritarismo tecnológico.

Quem é o narrador de La República?

O narrador é Nick, a inteligência artificial que aconselha Lively. Volpi inspirou-se nas bruxas de Macbeth: as previsões da IA funcionam como as profecias que levam o protagonista shakespeariano ao poder e à ruína.

Jorge Volpi usou inteligência artificial para escrever o livro?

O autor diz ter criado o próprio modelo de IA, também chamado Nick, e conversado com ele ao longo da escrita, como jogo e como ferramenta. Ele defende que o uso seja transparente e que a responsabilidade final por cada palavra permaneça humana.

O que Volpi pensa sobre a exclusão do romance de Thélyson Orélien do Prêmio Goncourt?

Ele critica a decisão por avaliar que os jurados transferiram o julgamento a ferramentas de detecção, ou seja, a outra máquina. Propõe que a literatura adote o modelo de revistas como Science e Nature, baseado em transparência e responsabilidade do autor.

Como o Brasil regula o uso de IA nas eleições de 2026?

Resolução do TSE aprovada em março de 2026 permite o uso de IA nas campanhas com identificação obrigatória, mas proíbe novos conteúdos sintéticos com imagem ou voz de candidatos entre 72 horas antes e 24 horas depois da votação. O marco legal geral da IA, o PL 2.338/2023, ainda tramita na Câmara.

Este texto foi produzido pelo O Tecido a partir da entrevista de Jorge Volpi ao jornalista Jorge Morla, publicada pelo El País em 13 de outubro de 2026, com créditos ao veículo original. O conteúdo da entrevista foi resumido e analisado, sem tradução integral, e complementado por apuração independente em outras fontes.