Filosofia · Tecnologia e Sociedade
Há quinze anos, chamavam Elon Musk de Iron Man: o gênio bilionário que usaria sua fortuna e sua engenhosidade para salvar a humanidade. Hoje, segundo a filósofa espanhola Eurídice Cabañes, o bilionário sul-africano se aproxima de outro arquétipo, bem menos lisonjeiro. Em entrevista recente ao jornal El País, a autora do ensaio Sembrar futuros resumiu a transformação numa frase que circulou rapidamente entre leitores de filosofia da tecnologia: Musk virou Batman[1], um homem rico, traumatizado, obcecado pela ideia de salvar o mundo à sua própria maneira, sem consultar ninguém.
A comparação não é apenas uma provocação espirituosa. Ela sintetiza um argumento mais amplo que a pensadora desenvolve há anos, tanto na pesquisa acadêmica quanto na militância cultural: a de que a tecnologia contemporânea nasce cada vez mais desconectada das comunidades que deveria servir, movida por vontades individuais de poder disfarçadas de missão civilizatória.
Do super-herói ao vigilante particular
Segundo Cabañes, o problema não está em ter recursos, mas em como eles são aplicados. Um homem com fortuna suficiente para resolver crises de saúde pública ou educação escolhe, em vez disso, projetos como colonizar Marte, algo que a filósofa trata com ironia: por que não cuidar primeiro do planeta que já habitamos, antes de sonhar com outro. A crítica ecoa um debate recorrente entre pesquisadores de ética tecnológica sobre o chamado "filantrocapitalismo", em que projetos grandiosos e visualmente espetaculares substituem investimentos estruturais e coletivos.
Essa lógica de salvação individual, segundo a autora, tem uma raiz mais profunda: a concentração de poder tecnológico em poucas mãos e poucos territórios. As tecnologias digitais atuais nascem majoritariamente em um punhado de polos (vale do Silício, alguns centros chineses, alguns europeus) mas circulam pelo planeta inteiro, homogeneizando hábitos de pensamento e consumo em contextos culturais radicalmente distintos.
Tecnologias situadas: pensar a partir do território
Inspirada na noção de "conhecimento situado" da filósofa norte-americana Donna Haraway, Cabañes defende o conceito de tecnologias situadas: soluções desenhadas a partir dos materiais, das necessidades e da cultura de cada lugar, em vez de produtos padronizados vendidos globalmente. Como exemplo concreto, ela cita experimentos recentes de computação com micélio de cogumelos, uma alternativa que dispensaria parte da cadeia de mineração de terras raras que hoje sustenta a indústria eletrônica.
O tema conecta diretamente com uma discussão que ganhou força também no Brasil em 2026. Levantamentos independentes mostram que a corrida por data centers de inteligência artificial tem avançado sobre territórios ricos em minerais críticos como cobre, estanho, nichel e tântalo, sobretudo no Pará, em Mato Grosso e em Rondônia, com pouca discussão pública sobre os custos ambientais envolvidos[2]. Relatórios recentes de organismos ligados à ONU também apontam que treinar modelos avançados de IA consome volumes expressivos de água e energia, um custo ambiental normalmente invisível para quem apenas usa o aplicativo no celular[3].
Contraponto: nem toda concentração é vilania
É preciso ponderar o argumento. Defensores de projetos como os de Musk costumam apontar que grandes investimentos privados aceleraram avanços reais, da popularização dos veículos elétricos aos lançamentos comerciais de satélites que hoje sustentam parte da conectividade global, inclusive em regiões remotas do Brasil. Para essa visão, criticar a concentração de capital tecnológico não deveria significar desconsiderar ganhos concretos de eficiência e inovação que dificilmente surgiriam apenas do setor público. O debate legítimo, portanto, talvez não seja "mercado versus Estado", mas sob quais regras de transparência, governança e distribuição de benefícios esse poder tecnológico deveria operar.
Do Gamergate à politização da juventude
Antes de se tornar crítica das big techs, Cabañes pesquisou por anos a cultura dos videogames, estudando como esses ambientes permitiam experimentar identidade e corporeidade de formas inéditas. Ela relembra, no entanto, como o episódio conhecido como Gamergate, em 2014, mudou essa trajetória: campanhas coordenadas de assédio contra desenvolvedoras e críticas de jogos abriram caminho para a organização de grupos misóginos que, segundo ela, depois se articularam com pautas políticas mais amplas.
Pesquisas acadêmicas brasileiras recentes sustentam essa leitura. Estudos sobre cultura gamer identificam que ambientes de jogo online, por proporcionarem vínculos afetivos intensos entre jogadores, funcionam como espaços propícios à radicalização, sobretudo entre homens jovens, brancos e de classe média, favorecendo a disseminação de discursos de extrema direita sob a retórica de que esses espaços seriam "apolíticos" ou avessos ao "politicamente correto"[4]. Para Cabañes, esse fenômeno ajuda a explicar por que discursos praticamente idênticos aparecem hoje na boca de adolescentes em países muito diferentes, do México à Europa.
O tempo como território em disputa
Outro eixo central da entrevista é a colonização do tempo livre pelas plataformas digitais. Cabañes lembra a célebre declaração de executivos do setor de streaming de que a concorrência real não são outras plataformas, mas as horas de sono dos usuários. Para ela, essa disputa não é trivial: sem tempo livre não há espaço para tédio, e sem tédio não nascem ideias nem desejo de ação política.
O tamanho dessa disputa fica mais claro quando se observam os números de conectividade no Brasil. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, divulgada no fim de 2025, cerca de 163 milhões de brasileiros já acessam a internet, o equivalente a 88% da população, e o uso exclusivo pelo celular já chega a 65% dos usuários. Um contingente cada vez maior de pessoas carrega, portanto, o mesmo "espião de bolso" que a filósofa relutou em aceitar até ser obrigada por exigências bancárias.
Recuperar o óbvio
Na parte final da entrevista, Cabañes propõe uma reflexão sobre linguagem: expressões como "é complicado" costumam mascarar decisões políticas incômodas, servindo para desqualificar quem defende posições simples e evidentes, como o direito à privacidade ou à recusa da violência. Para a filósofa, recuperar a capacidade de nomear o óbvio, sem se deixar intimidar pela suposta sofisticação do argumento contrário, é também uma forma de resistência.
O convite final não é o abandono da tecnologia, mas a reapropriação de seu sentido: usar ferramentas digitais como meio, e não como fim, deixando espaço para caminhar sem mapa, conversar num banco de praça ou simplesmente se entediar. Para uma sociedade que discute constantemente os limites entre inovação e dependência, a provocação de transformar Musk em Batman funciona como um lembrete incômodo: grandes poderes tecnológicos, por mais espetaculares que pareçam, não substituem decisões coletivas sobre o tipo de futuro que se quer construir.
Perguntas frequentes
Por que Eurídice Cabañes compara Elon Musk a Batman?
Porque ela vê no bilionário um padrão de personalidade megalomaníaca: alguém com muito dinheiro e traumas pessoais que decide "salvar o mundo" à sua maneira, sem diálogo com instituições coletivas, priorizando projetos grandiosos como a colonização de Marte em vez de investimentos em saúde ou educação pública.
O que são "tecnologias situadas"?
É um conceito que defende o desenvolvimento de tecnologias adaptadas ao contexto material e cultural de cada território, em vez de soluções padronizadas exportadas globalmente por poucas empresas concentradas em poucos países.
Qual a relação entre o Gamergate e a extrema direita, segundo pesquisadores?
Estudos acadêmicos apontam que ambientes de jogos online, por gerarem laços afetivos intensos entre jogadores, favoreceram a organização de grupos misóginos a partir de 2014, que posteriormente se articularam com discursos políticos de extrema direita voltados sobretudo a jovens homens.
Qual o livro de Eurídice Cabañes citado na entrevista?
Sembrar futuros: una guía de resistencia para la era del algoritmo, publicado pela editora Ariel, no qual a autora analisa o capitalismo digital e propõe alternativas para recuperar tempo, memória e privacidade.