El Niño recorde à vista: o que a história — e o Brasil — têm a dizer
As projeções climáticas para 2026 apontam para um dos El Niños mais intensos já registrados. Para o Brasil, o fenômeno não é novidade — mas a combinação com um mundo já estressado pode tornar este episódio diferente dos anteriores.
No Nordeste do Brasil, a memória das secas é longa. Gerações de sertanejos aprenderam a ler o céu, a guardar água e a desconfiar dos anos em que o inverno chega fraco. Parte desse conhecimento acumulado tem uma explicação científica precisa: o El Niño, o aquecimento cíclico das águas do Oceano Pacífico central e leste, que redistribui chuvas e secas pelo planeta de maneira previsível — e, nos anos mais intensos, devastadora.
Segundo reportagem publicada pelo The New York Times em maio de 2026, pesquisadores alertam que o mundo pode estar entrando em um dos episódios mais severos já documentados. Os modelos climáticos mais recentes apontam para um aquecimento de até 3°C acima da média histórica no Pacífico central — um patamar sem precedente nos registros modernos. A partir dessas informações, analisamos o que esse cenário significa especificamente para o Brasil e para um mundo que enfrenta o fenômeno com novas fragilidades.
Para o território brasileiro, El Niños intensos produzem efeitos opostos conforme a região. No Nordeste, o fenômeno tende a enfraquecer as chuvas da estação chuvosa, aumentando o risco de seca no Semiárido — exatamente o padrão que devastou a região no El Niño de 1877, descrito pelos pesquisadores como um dos mais mortais da era moderna. No Sul e Sudeste, o sinal se inverte: chuvas acima da média, risco de enchentes e deslizamentos, como os que afetaram o Rio Grande do Sul em 2024.
Esse contraste dentro de um mesmo país ilustra a complexidade do fenômeno. Não se trata de uma catástrofe uniforme, mas de uma redistribuição brutal de recursos hídricos — onde já chove muito, passa a chover ainda mais; onde a chuva já é escassa, ela se torna ainda mais rara.
El Niños intensos não criam as vulnerabilidades — eles as revelam. O Nordeste seco de 1877 não era apenas clima: era pobreza, isolamento e falta de infraestrutura hídrica.
— Análise Caderno Ciência, O TecidoO El Niño de 1877 e 1878 é frequentemente citado como referência de magnitude e consequência humana. Segundo o NYT, pesquisadores estimam que dezenas de milhões de pessoas morreram em decorrência das secas que atingiram simultaneamente o Brasil, a Índia, a China e o sul da África. Na Índia, sob domínio colonial britânico, a situação foi agravada pela manutenção das exportações de grãos mesmo durante a fome — uma decisão política que transformou uma crise climática em catástrofe humana.
A lição central desse episódio não é sobre o poder da natureza, mas sobre o poder das escolhas políticas diante dela. O clima extremo amplifica o que já existe: onde há sistemas de proteção social robustos, os danos são contidos; onde há fragilidade institucional, o colapso se alastra.
O Brasil de 2026 é estruturalmente diferente do de 1877. O Sistema de Previsão do Nordeste (Funceme), a rede de açudes e cisternas do Semiárido, os programas de transferência de renda e os sistemas de alerta precoce formam uma malha de proteção que simplesmente não existia há 150 anos. Ainda assim, especialistas em segurança climática alertam que essa rede pode ser testada de maneira inédita se o El Niño se confirmar na magnitude projetada.
O que torna este possível El Niño record particularmente preocupante não é apenas sua intensidade prevista, mas o contexto em que ele chegaria. Segundo o NYT, a combinação de escassez de fertilizantes, altos preços de energia e cortes em programas internacionais de ajuda humanitária já pressionava sistemas alimentares globais antes mesmo do fenômeno se consolidar.
Para o Brasil, isso se traduz em riscos concretos nas cadeias de exportação de alimentos — o país é um dos maiores fornecedores globais de soja, milho, carne e açúcar, todos sensíveis a variações climáticas regionais. Um Nordeste mais seco e um Sul mais encharcado afetam logística, produtividade e preços no mercado interno.
El Niños intensos tendem a atingir seu pico no fim do ano calendário e a elevar temperaturas globais nos meses seguintes. Cientistas climáticos ouvidos pelo NYT preveem que 2027 poderá ser o ano mais quente já registrado — o que colocaria mais pressão sobre sistemas de saúde, energia elétrica e abastecimento de água em todo o país.
A boa notícia é que a ciência do El Niño avançou enormemente desde os anos 1960, quando o meteorologista Jacob Bjerknes estabeleceu pela primeira vez a conexão entre o aquecimento do Pacífico e as anomalias climáticas globais. Hoje, uma rede de boias oceânicas, satélites e modelos computacionais permite projeções com meses de antecedência — tempo suficiente para que governos, agricultores e gestores de recursos hídricos se preparem.
No Brasil, a Agência Nacional de Águas (ANA) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) já monitoram os indicadores oceânicos que antecipam o fenômeno. O desafio é transformar essa informação em ação — especialmente nas regiões mais vulneráveis, onde a memória das secas anteriores coexiste com a infraestrutura ainda incompleta.
O El Niño não escolhe seus alvos. Mas as sociedades escolhem o quanto estão preparadas para recebê-lo.