Caderno Sustentabilidade

O planeta entra na reta final de 2026 sob a influência de um El Niño que a Organização Meteorológica Mundial (OMM) já classifica como muito forte, com previsão de atingir o pico nos últimos meses do ano e permanecer ativo até pelo menos fevereiro de 2027. O boletim mais recente da agência ligada à ONU, divulgado em 3 de setembro, atribuiu ao cenário um grau de certeza inédito: quase 100% de probabilidade de o fenômeno se manter até o início do próximo ano, o nível de confiança mais alto já registrado para uma atualização do tipo.

O que mostra o novo boletim da OMM

O fenômeno é monitorado de perto porque, diferentemente do aquecimento global de origem humana, o El Niño é um padrão natural e cíclico, ligado ao aumento da temperatura da superfície do oceano Pacífico tropical, que se soma ao aquecimento de fundo já provocado pela queima de combustíveis fósseis. Segundo o jornal espanhol El País, que acompanhou a divulgação do boletim, a OMM prevê que o episódio alcance intensidade muito forte antes do apogeu, esperado para o fim do ano.

As temperaturas da superfície do mar naquela região-chave do Pacífico vêm subindo semana a semana desde junho. Segundo a Associated Press citada pela CBS News, a anomalia térmica na área de monitoramento passou de cerca de 1,5°C para até 2,6°C acima da média histórica ao longo do inverno do Hemisfério Norte, um salto expressivo em poucos meses.

"O fenômeno de El Niño está adquiriendo enormes proporciones ante nuestros ojos. La ciencia no deja lugar a dudas: el planeta se adentra en aguas desconocidas" — António Guterres, secretário-geral da ONU

A secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, foi na mesma direção em entrevista coletiva em Genebra: se a trajetória atual se mantiver, o evento pode superar em intensidade tudo o que já foi registrado nas quatro décadas de monitoramento por satélite. A leitura é compartilhada pela Al Jazeera e pela rede norte-americana Weather Channel, que classificaram o episódio como um El Niño "supersizado".

Por que a intensidade não garante o mesmo estrago

A própria OMM faz uma ressalva importante, reproduzida pelo El País: um episódio de intensidade muito forte eleva a probabilidade de mudanças relevantes nos padrões de temperatura e chuva em diversas regiões, mas a força do fenômeno não tem correspondência direta com a magnitude dos efeitos em cada território específico. Cada El Niño segue uma configuração própria de correntes, ventos e temperatura oceânica, o que torna os impactos regionais parcialmente imprevisíveis mesmo quando a tendência global é clara.

O padrão típico, no entanto, é conhecido: o El Niño costuma se formar entre março e junho, atingir o apogeu entre novembro e fevereiro e durar de nove a doze meses, com recorrência de dois a sete anos entre um episódio e outro. O mais recente evento forte anterior, entre 2023 e 2024, coincidiu com recordes de temperatura média global.

O que esperar no Brasil

No território brasileiro, o quadro se divide por região, segundo boletins conjuntos do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden). No Sul, sobretudo Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a expectativa é de chuvas acima da média já na primavera e no verão, com maior risco de temporais, enchentes e deslizamentos. Já no Norte e no Nordeste, o padrão histórico aponta para redução de chuvas e temperaturas mais altas, com risco elevado de estiagem prolongada, queda no nível dos rios e aumento de queimadas na Amazônia, efeitos que, segundo pesquisadores do INPE, tendem a se intensificar no primeiro semestre de 2027 caso o fenômeno persista.

O Sudeste e o Centro-Oeste devem conviver com ondas de calor mais frequentes, geralmente associadas a baixa umidade relativa do ar. A Greenpeace Brasil chama atenção também para o efeito sobre a geração hidrelétrica nas bacias do Xingu, do Madeira e do Tocantins-Araguaia, onde menos água nos rios pode significar menos energia disponível e maior pressão sobre os preços, além de riscos para a qualidade da água e para os ecossistemas locais.

Contraponto: incerteza não é motivo para inação

Nem todos os cientistas climáticos concordam sobre o quanto o aquecimento global está de fato tornando os episódios de El Niño mais frequentes ou mais intensos, e a própria OMM reconhece que a variabilidade natural do fenômeno ainda deixa margem para surpresas regionais. Ainda assim, pesquisadores ouvidos por veículos internacionais argumentam que essa incerteza científica não deveria adiar medidas de preparação: sistemas de alerta antecipado, estoques de água e planos de contingência agrícola tendem a reduzir danos independentemente de o pico observado bater ou não recordes históricos.

Preparação já em curso

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal cobrou do governo federal e dos estados da Amazônia Legal um plano de contingência contra incêndios florestais diante do risco associado ao fenômeno. Em resposta, o Executivo federal destinou recursos adicionais ao Ibama e ao ICMBio para reforçar ações de prevenção. Já a OMM, em nível global, tem promovido reuniões de coordenação com agências humanitárias da ONU voltadas a setores sensíveis ao clima, como agricultura, saúde e gestão de recursos hídricos.

Para o cidadão comum, especialistas em adaptação climática recomendam medidas simples e de baixo custo: reforçar a impermeabilização e a drenagem residencial em áreas sujeitas a temporais, investir em climatização eficiente e ventilação para lidar com ondas de calor, e adotar soluções de economia e armazenamento de água em regiões mais propensas à estiagem.

Este artigo foi inspirado na reportagem "El Niño alcanzará su apogeo a finales de año y se extenderá al menos hasta febrero", publicada pelo jornal espanhol El País em 3 de setembro de 2026, assinada por Manuel Planelles. Leia a reportagem original: elpais.com.

Perguntas frequentes

O que é o El Niño?

É um padrão climático natural e cíclico, caracterizado pelo aquecimento anormal da superfície do oceano Pacífico tropical, que altera a circulação atmosférica e modifica padrões de chuva e temperatura em praticamente todo o planeta.

Quando o El Niño de 2026 deve atingir o pico?

Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o apogeu é esperado para o final de 2026, com o fenômeno permanecendo ativo, com quase 100% de probabilidade, até pelo menos fevereiro de 2027.

Quais regiões do Brasil serão mais afetadas?

O Sul, especialmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina, tende a registrar chuvas acima da média e maior risco de enchentes. Norte e Nordeste tendem a enfrentar seca e temperaturas mais altas, enquanto Sudeste e Centro-Oeste devem ter mais ondas de calor.

Este El Niño pode ser o mais forte já registrado?

É possível, mas ainda não é certo. A OMM afirma que a trajetória atual pode superar recordes de monitoramento por satélite, mas ressalta que a intensidade de um episódio não determina automaticamente a magnitude de seus efeitos regionais.

Números-chave

Probabilidade de El Niño até fev/2027~100%
Anomalia da superfície do mar1,5°C a 2,6°C
Pico esperadoFim de 2026
Duração típica do fenômeno9 a 12 meses
Recorrência histórica2 a 7 anos

Linha do tempo

  • JUN 2026El Niño se estabelece oficialmente no Pacífico tropical.
  • JUN–AGO 2026Boletins do INMET e INPE apontam chuvas acima da média no Sul e abaixo da média no centro-norte do país.
  • 3 SET 2026OMM eleva grau de confiança para quase 100% de persistência até fevereiro de 2027.
  • SET–NOV 2026Previsão de temperaturas acima da média em quase toda a superfície terrestre.
  • FIM DE 2026Apogeu esperado do fenômeno, classificado como muito forte.
  • ATÉ FEV 2027Janela de persistência prevista pela OMM.

Glossário

El Niño-Oscilação Sul (ENOS)
Ciclo climático natural com duas fases opostas, El Niño (aquecimento) e La Niña (resfriamento), no Pacífico tropical.
Célula de Walker
Padrão de circulação atmosférica no Pacífico que se altera durante o El Niño, mudando a distribuição global de chuvas.
Amazônia Legal
Área administrativa que engloba os nove estados brasileiros da Bacia Amazônica, usada como referência em políticas ambientais.

Referências

  1. Manuel Planelles, "El Niño alcanzará su apogeo a finales de año y se extenderá al menos hasta febrero", El País, 3 de setembro de 2026. Acesso ao artigo original.
  2. Organização Meteorológica Mundial (OMM), El Niño/La Niña Update, 3 de setembro de 2026.
  3. UN News, "El Niño is surging. Months of extreme heat could follow", 3 de setembro de 2026.
  4. Al Jazeera, "UN warns El Nino could be 'off the charts', strongest in decades", 3 de setembro de 2026.
  5. CBS News, "'Supersized' El Niño's harshest weather still ahead", 3 de setembro de 2026.
  6. INMET/INPE/ANA/Cemaden, Boletim conjunto sobre El Niño no Brasil, 29 de junho de 2026.
  7. INPE, "O que precisamos saber sobre o El Niño e seus impactos para o Brasil?", junho de 2026.
  8. Greenpeace Brasil, "Super El Niño 2026: o que esperar e como o Brasil precisa se preparar".