Numa casa colonial do centro de Bucaramanga, capital do departamento colombiano de Santander, funciona a sede de um projeto que leva a sério uma das imagens mais célebres da literatura latino-americana: a biblioteca que contém todos os livros. El Libro Total, plataforma digital gratuita mantida por uma fundação sem fins lucrativos, reúne hoje cerca de 50 mil livros cujos direitos autorais já expiraram, conectados entre si e a músicas, obras de arte, vídeos e dicionários. A história foi contada neste domingo (27) pelo escritor cubano Leonardo Padura, em coluna publicada no jornal espanhol El País1, escrita na volta da Feira do Livro de Bucaramanga.
O caso interessa ao leitor brasileiro por dois motivos. O primeiro é literário: o projeto é uma tentativa concreta de materializar a biblioteca imaginada por Jorge Luis Borges. O segundo é de política cultural: chega num momento em que o Brasil acaba de lançar sua própria biblioteca digital pública e convive, pela primeira vez, com uma maioria de não leitores.
Um sonho de sábado em Santander
Segundo o relato de Padura1, tudo começou nas conversas semanais de dois irmãos, Álvaro e Gonzalo Navas, sobre os livros que liam e a biblioteca que gostariam de ter. Gonzalo, o mais velho, ficou conhecido como Pablus Gallinazo, poeta e cantor ligado ao nadaísmo e uma das vozes da canção de protesto colombiana. Sua música mais conhecida, "Una flor para mascar", venceu o Festival Internacional da Canção de Bogotá em 19712.
Álvaro seguiu outro caminho. Fundou em Bucaramanga a Sistemas y Computadores (SIC), empresa de tecnologia que, entre outros serviços, passou a operar a cobrança de impostos. No início deste século, pediu aos engenheiros da empresa que desenvolvessem as ferramentas de uma biblioteca interativa, e a fundação foi constituída em 2005, de acordo com Padura1. Reportagem da Radio Nacional de Colombia situa a criação do projeto em 2006 e atribui sua gestão atual aos irmãos Daniel e Alejandro Navas, filhos do fundador3.
O que é, afinal, El Libro Total
Os números citados na coluna do El País dão a medida do acervo: 50 mil livros em domínio público, mais de um milhão de páginas distribuídas em 200 mil conteúdos, audiolivros e cerca de 7 milhões de downloads acumulados1. O portal oficial de turismo da Colômbia fala em mais de 60 mil títulos, somando literatura, imagens e música4. A diferença parece vir do critério de contagem, e não de uma divergência sobre o tamanho do projeto.
O que distingue a plataforma de um repositório de PDFs é a camada de contexto. Cada obra se abre para traduções, ilustrações, peças musicais e verbetes de dicionário relacionados a ela. A Radio Nacional descreve uma equipe dedicada a pesquisar o que já se escreveu sobre os clássicos e a buscar obras para tradução ao espanhol, que é a língua principal do acervo3. A fundação mantém ainda centros culturais físicos em Bucaramanga, San Gil e Barrancabermeja, onde recitais, exposições e conversas alimentam o próprio conteúdo digital.
O livro estendido e a herança de Borges
Padura inscreve o projeto numa linhagem ilustre: a Biblioteca de Babel de Borges, o Livro com que Stéphane Mallarmé pretendia conter o universo e o livro interminável imaginado por Italo Calvino1. A comparação com Borges é a mais reveladora, e também a mais ambígua. Publicado em 1941, o conto descreve uma biblioteca que contém todos os livros possíveis. O resultado, porém, não é a sabedoria. É o desespero de bibliotecários que vagam por galerias sem conseguir distinguir o livro verdadeiro dos incontáveis livros inúteis.
Essa leitura muda o foco da conversa. Uma biblioteca total só é útil quando alguém organiza o caminho. O mérito do El Libro Total não está no volume de páginas, que qualquer repositório automatizado poderia superar, mas nas ligações escolhidas por pessoas entre um romance, a música que o inspirou e o dicionário que ajuda a entendê-lo. Numa época em que a abundância de texto deixou de ser escassa, a curadoria passa a ser o ativo mais valioso de uma biblioteca.
Uma biblioteca total só é útil quando alguém organiza o caminho. O acervo impressiona pelo tamanho; o valor está nas ligações.Curadoria O Tecido
Filantropia com lastro empresarial
O modelo de financiamento é outro ponto que merece atenção. A fundação não depende de editais nem de orçamento público. É sustentada por uma empresa que, segundo Padura, emprega mais de mil pessoas e segue em crescimento1. O escritor contrapõe essa escolha a um cenário de cortes orçamentários na cultura em vários países.
A vantagem é a continuidade: duas décadas de trabalho sem interrupções decorrentes de mudanças de governo. A fragilidade é simétrica. O projeto depende da saúde financeira de uma única companhia e da disposição de uma família em mantê-lo. Durante a pandemia, por exemplo, a Casa del Libro Total suspendeu as atividades presenciais e concentrou esforços na difusão digital; na época, a direção relatava cerca de 1,4 milhão de páginas lidas por dia em 140 países5.
E o Brasil? O acervo existe, os leitores rareiam
O paralelo brasileiro é inevitável. O país mantém desde novembro de 2004 o Portal Domínio Público, do Ministério da Educação, que disponibiliza obras literárias, artísticas e científicas sem custo6. Em abril de 2026, o governo federal lançou o MEC Livros, que combina obras em domínio público com títulos contemporâneos licenciados, oferecidos por empréstimo digital. Segundo a Agência Gov, a plataforma soma mais de 25 mil títulos e cerca de 1,2 milhão de usuários cadastrados, dos quais 531.856 já fizeram ao menos um empréstimo7.
O contexto em que esses acervos operam, porém, é desfavorável. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que 53% dos brasileiros não leram nem parte de um livro nos três meses anteriores à entrevista. Foi a primeira vez na série histórica que os não leitores superaram os leitores, com uma perda estimada de 6,7 milhões de leitores em quatro anos8. Considerados apenas os livros lidos por inteiro, a proporção de leitores cai para 27%.
| Critério | El Libro Total (Colômbia) | MEC Livros (Brasil) |
|---|---|---|
| Natureza | Fundação privada sem fins lucrativos | Plataforma pública federal |
| Início | 2005 ou 2006, conforme a fonte | Abril de 2026 |
| Acervo | Cerca de 50 mil livros em domínio público | Mais de 25 mil títulos |
| Tipo de obra | Domínio público, com conteúdos associados | Domínio público e títulos licenciados |
| Modelo de acesso | Leitura livre | Empréstimo digital com conta Gov.br |
| Diferencial | Camada de contexto (música, arte, dicionários) | Literatura contemporânea brasileira |
Os dois modelos se complementam mais do que competem. O colombiano oferece o que os repositórios públicos brasileiros raramente têm: contexto em torno do texto. O brasileiro oferece o que nenhuma biblioteca de domínio público pode ter: autores vivos. Não por acaso, o título mais lido do MEC Livros é A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, um romance contemporâneo9.
O limite do domínio público
Toda biblioteca gratuita esbarra na mesma fronteira legal. Na Colômbia, a proteção autoral dura, como regra, 80 anos após a morte do autor10. No Brasil, a Lei 9.610/1998 fixa o prazo em 70 anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano seguinte ao da morte11.
Há uma ironia nisso. Borges morreu em 1986. Pelas regras brasileiras, sua obra só entra em domínio público em 2057; pelas colombianas, em 2067. O conto que inspira a ideia de biblioteca total, portanto, não pode integrar livremente um acervo de domínio público pelas próximas décadas. O efeito é mais amplo: catálogos desse tipo tendem a privilegiar autores mortos antes de meados do século 20, o que restringe a diversidade de vozes disponíveis e reforça um cânone mais antigo e mais europeu.
Padura encerra sua coluna lembrando Flaubert, que sonhou escrever um livro sobre o nada e acabou escrevendo Madame Bovary, obra, aliás, disponível na plataforma1. A lição que El Libro Total oferece ao Brasil é mais modesta e mais prática do que a utopia borgiana: o acervo gratuito já existe; o que falta é transformar acesso em hábito, e isso depende menos de servidores do que de escolas, mediadores e curadoria.
Perguntas frequentes
O que é El Libro Total?
É uma biblioteca digital gratuita mantida pela Fundación El Libro Total, entidade sem fins lucrativos sediada em Bucaramanga, na Colômbia. Reúne cerca de 50 mil livros em domínio público, conectados a músicas, imagens, vídeos e dicionários, no formato que a fundação chama de livro estendido.
El Libro Total é gratuito?
Sim. O acesso é gratuito pela web e por aplicativo. Há uma conta, também gratuita e opcional, que permite salvar leituras e montar uma biblioteca pessoal.
El Libro Total tem livros em português?
A língua principal da plataforma é o espanhol. Parte das obras traz ligações com versões no idioma original e em outras línguas, mas o acervo não é pensado para o leitor lusófono.
Qual a diferença entre El Libro Total e o MEC Livros?
El Libro Total é uma iniciativa privada e filantrópica que trabalha com obras em domínio público enriquecidas por conteúdos associados. O MEC Livros, lançado pelo governo federal em abril de 2026, combina domínio público com títulos contemporâneos licenciados, oferecidos por empréstimo digital.
Por que bibliotecas digitais gratuitas oferecem sobretudo obras antigas?
Porque só obras em domínio público podem ser reproduzidas livremente. Na Colômbia, a proteção dura 80 anos após a morte do autor; no Brasil, 70 anos. Obras mais recentes dependem de licenciamento com os detentores dos direitos.