Caderno Sustentabilidade · Finanças & Clima
Leitura de 8 min · Atualizado em 16 de setembro de 2026

Nos relatórios anuais de grandes gestoras e empresas, algo mudou nos últimos anos sem que ninguém tenha anunciado publicamente. As páginas inteiras dedicadas a compromissos climáticos, antes recorrentes, foram silenciosamente retiradas de sites corporativos. Fundos batizados com a sigla ESG deixaram de ser lançados, e alguns já em operação simplesmente abandonaram o rótulo. Nos Estados Unidos, o tema virou terreno minado depois que a sigla foi capturada pelo debate político, e o mercado reagiu: fundos sustentáveis americanos encadearam catorze trimestres seguidos de saídas líquidas antes de qualquer sinal de reversão.1

É esse fenômeno, batizado de écomutisme (algo como "ecomutismo") pelo colunista Sébastien St-Hilaire no jornal canadense Le Devoir, que serve de ponto de partida para este texto. Gestor de portfólio na Valeurs mobilières Desjardins, St-Hilaire descreve um círculo vicioso: o conselheiro financeiro não fala sobre investimento responsável porque o cliente não pergunta, e o cliente não pergunta porque ninguém nunca lhe apresentou o tema. O autor recorre a uma metáfora publicitária canadense, a "saucisse Hygrade", cujo bordão dizia que "quanto mais se fala de salsicha Hygrade, mais salsicha Hygrade se vende". Invertida, a lógica explica por que um assunto que interessa a boa parte dos investidores simplesmente não é discutido nas mesas de atendimento.1

Os números por trás do silêncio

A pesquisa bienal da Association pour l'investissement responsable, citada por St-Hilaire, mostra a taxa de adoção de práticas ESG entre conselheiros canadenses recuando de 73% em 2023 para 64% em 2025. Do lado dos investidores, porém, a demanda não se moveu: dois terços dos canadenses seguem se dizendo interessados no tema, e 76% gostariam que seus conselheiros fossem obrigados a perguntar sobre suas preferências.1 O padrão de assimetria entre oferta e demanda de conversa não é exclusivo do Canadá. No Brasil, um levantamento da Anbima já apontava, em 2022, que apenas 4% das instituições incorporavam critérios ESG na gestão por pressão direta dos clientes, um indício de que a iniciativa de trazer o tema à mesa raramente parte de quem investe.2

"O conselheiro não aborda o assunto porque o cliente não pergunta, e o cliente não pergunta porque nunca lhe falaram sobre isso." Sébastien St-Hilaire, em coluna no jornal Le Devoir1

O Brasil regulou o banco, não a conversa

A comparação entre jurisdições ajuda a entender onde está o vazio brasileiro. Desde 2021, o Conselho Monetário Nacional obriga bancos e instituições financeiras a manter uma Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática (PRSAC), com governança formal, comitê dedicado e relatório anual de riscos e oportunidades nessas três dimensões.3 É uma exigência robusta, mas ela olha para dentro da instituição: como o banco gerencia seu próprio risco socioambiental. Ela nada diz sobre o que acontece na sala onde o assessor de investimentos senta com o cliente.

Nesse ponto, a regulação brasileira ainda está incompleta. A Resolução CVM 30/2021 define três eixos obrigatórios para o processo de suitability, o questionário que classifica o perfil do investidor: objetivos de investimento, situação financeira e conhecimento ou experiência com produtos financeiros.4 Preferências de sustentabilidade não fazem parte dessa lista. Na União Europeia, o caminho foi diferente: desde agosto de 2022, a diretiva MiFID II passou a exigir que assessores perguntem explicitamente sobre preferências de sustentabilidade dentro da própria avaliação de adequação, tornando a pergunta parte do fluxo padrão de atendimento, e não uma iniciativa opcional do profissional.5 A Anbima, por sua vez, criou desde janeiro de 2022 um sistema de autorregulação que identifica fundos com o sufixo IS (Investimento Sustentável) quando a sustentabilidade é o próprio mandato do produto, distinguindo-os dos que apenas integram critérios ESG à gestão sem fazer disso seu objetivo central.2 É um avanço relevante do lado da prateleira de produtos, mas que ainda não se traduz em uma pergunta obrigatória no balcão.

O mercado volta a falar, mesmo calado

Enquanto o vocabulário se retraiu, o capital seguiu se movendo, só que em silêncio. Segundo a Morningstar, os fundos sustentáveis americanos registraram no segundo trimestre de 2026 as primeiras entradas líquidas desde o início de 2022, encerrando quatorze trimestres consecutivos de resgates. Os ativos sob gestão da categoria nos Estados Unidos atingiram um recorde de aproximadamente 398 bilhões de dólares, puxados por estratégias passivas ligadas à infraestrutura elétrica e à transição energética, dois temas que raramente aparecem rotulados como "ESG" nos materiais de venda.6 No mesmo período, os fundos sustentáveis globais, excluindo a China, somaram 3,7 bilhões de dólares em captação líquida, o segundo trimestre seguido de resultado positivo.6

A base analítica para esse retorno silencioso do capital não é nova. Em uma das metanálises mais citadas sobre o tema, o Center for Sustainable Business da Stern School of Business, da Universidade de Nova York, revisou mais de mil estudos publicados entre 2015 e 2020 e encontrou uma relação positiva entre ESG e desempenho financeiro em 58% dos estudos focados em indicadores corporativos, com apenas 8% mostrando relação negativa. Entre os estudos voltados a desempenho de investimento, 59% indicaram resultado igual ou superior ao de estratégias convencionais.7 A conclusão central não é que investir com critérios ESG garanta retorno superior, mas que a integração desses fatores funciona sobretudo como proteção em cenários de crise e em horizontes longos, o que reforça a leitura de que se trata de gestão de risco, não de militância.

⟂ Contraponto

Nem todo esse otimismo resiste a um exame mais rigoroso. Parte da recuperação recente dos fluxos globais é puxada por um número pequeno de fundos passivos ligados a temas de infraestrutura elétrica e centros de dados de inteligência artificial, enquanto fundos ativos com mandato sustentável seguiram perdendo recursos no mesmo período.6 Há também um risco de arbitragem regulatória: ao recuar do rótulo ESG sem alterar a carteira, gestoras podem estar apenas trocando a etiqueta para escapar do escrutínio político, sem necessariamente revisar critérios de risco. E o histórico brasileiro é modesto: fundos de ações classificados como ESG no país registraram saída líquida em 2023 equivalente a cerca de 30% de seus ativos sob gestão, um sinal de que a categoria ainda é pequena e sensível a ciclos de juros altos por aqui.8

A pergunta que falta

A saída proposta por St-Hilaire para o ecomutismo é deliberadamente modesta: não depende de nova lei nem de treinamento extenso, mas de uma única pergunta feita a cada cliente, antes mesmo que ele suspeite ter uma opinião formada sobre o assunto. Existem setores ou empresas que você jamais gostaria de ver em seu extrato, por qualquer motivo que seja? Sem citar produto, sem etiquetar nada, a pergunta reabre uma conversa que, no fundo, é apenas sobre conhecer melhor quem investe.1

Para o mercado brasileiro, que já exige das instituições financeiras uma política interna de risco socioambiental e climático mas ainda não exige do assessor essa pergunta ao cliente, o caminho parece ser semelhante ao europeu: incorporar a sustentabilidade como um quarto eixo do questionário de suitability, ao lado de objetivo, situação financeira e conhecimento. Até lá, o capital brasileiro que já demonstra apetite por transição energética, crédito de carbono e infraestrutura verde continuará se movendo, como no resto do mundo, sem que ninguém precise chamá-lo pelo nome.

Em números

US$ 398 biativos em fundos sustentáveis nos EUA, recorde no 2º tri de 2026
14 trimestresde saídas líquidas seguidas nos EUA, encerrados em 2026
58%dos estudos corporativos ligam ESG a melhor desempenho financeiro (metanálise NYU Stern)
64%dos conselheiros canadenses ainda adotam práticas ESG, ante 73% em 2023

Linha do tempo

  • 2021CMN edita a Resolução 4.945, criando a PRSAC para instituições financeiras no Brasil.
  • jan. 2022Anbima passa a identificar fundos com o sufixo IS de Investimento Sustentável.
  • ago. 2022MiFID II passa a exigir pergunta sobre preferências de sustentabilidade na União Europeia.
  • 2022-2025Fundos ESG dos EUA encadeiam 14 trimestres de saídas líquidas.
  • 2º tri 2026Fluxos globais e americanos voltam ao positivo, puxados por energia e infraestrutura.

Glossário

ESG
Critérios ambientais, sociais e de governança usados na análise de risco de empresas e fundos.
Fundo IS
Classificação da Anbima para fundos que têm a sustentabilidade como propósito central, não apenas como critério de análise.
PRSAC
Política de Responsabilidade Social, Ambiental e Climática, exigida pelo Banco Central das instituições financeiras desde 2021.
Suitability
Processo que classifica o perfil de risco do investidor antes de recomendar produtos financeiros.

Referências

  1. Sébastien St-Hilaire. "Écomutisme, ou le principe de la saucisse Hygrade". Le Devoir. ledevoir.com
  2. Anbima. Comunicados sobre fundos ESG e regras de classificação com sufixo IS.
  3. Banco Central do Brasil / Conselho Monetário Nacional. Resolução CMN nº 4.945/2021.
  4. Comissão de Valores Mobiliários. Resolução CVM nº 30/2021, processo de suitability.
  5. Schroders / ESMA. Guias sobre preferências de sustentabilidade na diretiva MiFID II.
  6. Morningstar. Relatório trimestral de fluxos globais de fundos sustentáveis, 2º trimestre de 2026.
  7. NYU Stern Center for Sustainable Business e Rockefeller Asset Management. Metanálise sobre ESG e desempenho financeiro.
  8. Mais Retorno, com dados do Bank of America. Reportagem sobre saída de fundos de ações ESG no Brasil.

Nota de atribuição: este texto foi inspirado na coluna "Écomutisme, ou le principe de la saucisse Hygrade", de Sébastien St-Hilaire, publicada no jornal canadense Le Devoir. O conceito de ecomutismo e os dados sobre o mercado canadense citados aqui são de autoria do colunista e da publicação original, disponível em ledevoir.com.

Os demais dados e o recorte para o mercado brasileiro foram apurados de forma independente pela equipe de O Tecido junto a fontes regulatórias e de mercado listadas nas referências.

Perguntas frequentes

O que é "ecomutismo" no mercado financeiro?

É o silêncio mútuo entre conselheiros financeiros e clientes sobre investimento responsável: o assessor não aborda o tema porque o cliente não pergunta, e o cliente não pergunta porque nunca foi apresentado ao assunto, mesmo quando ambos os lados demonstram interesse quando questionados separadamente.

O Brasil obriga assessores a perguntar sobre preferências ESG?

Não. A Resolução CVM 30/2021 exige que o processo de suitability avalie objetivos de investimento, situação financeira e conhecimento do investidor, mas não inclui preferências de sustentabilidade entre os eixos obrigatórios, diferentemente da União Europeia, onde a MiFID II exige essa pergunta desde agosto de 2022.

Os fundos ESG estão perdendo relevância?

Os números mais recentes indicam o contrário. Depois de catorze trimestres seguidos de saídas, os fundos sustentáveis americanos voltaram a registrar captação líquida positiva no segundo trimestre de 2026, com ativos batendo recorde de cerca de 398 bilhões de dólares, embora a demanda esteja concentrada em poucas estratégias passivas.

Investir com critérios ESG compromete o retorno financeiro?

A evidência acadêmica mais robusta, reunida em metanálise da NYU Stern com mais de mil estudos, aponta o oposto: a integração de critérios ESG tende a igualar ou superar estratégias convencionais, com o principal benefício concentrado em proteção contra perdas em cenários de crise, e não em ganho de retorno no curto prazo.