Política · Democracia · Oriente Médio
Entre 29 de setembro e 1º de outubro, Atenas recebeu a 14ª edição do Athens Democracy Forum, encontro organizado pela Democracy & Culture Foundation em associação com o New York Times, que neste ano partiu de uma pergunta incômoda: por que democracia, e como ela precisa mudar para continuar funcionando no século 21[2]. O próprio texto de apresentação do fórum registra que os Estados Unidos, por décadas tratados como referência do modelo, passaram a rejeitar parte de seus princípios centrais e abandonaram o compromisso histórico de promover a democracia fora de suas fronteiras[2].
Foi desse cenário que saiu a coluna de Thomas L. Friedman publicada em 6 de outubro pelo New York Times[1]. O colunista recorre a duas figuras do Oriente Médio, a iemenita Tawakkol Karman e o palestino Samer Sinijlawi, para fazer um argumento dirigido aos próprios americanos: quem arriscou a liberdade pelo direito de votar em países sem tradição democrática estranha a passividade de quem tem esse direito garantido e assiste à sua erosão. O texto também funciona como chamado ao voto nas eleições legislativas de meio de mandato dos EUA, marcadas para 3 de novembro.
A leitura do O Tecido é que a coluna vale menos pelo apelo eleitoral, previsível em um colunista que se posiciona abertamente contra o presidente Donald Trump, e mais pelo que revela sobre um calendário raro. Em menos de dois meses, Brasil, Israel, Estados Unidos e territórios palestinos vão às urnas, cada um com um tipo diferente de risco democrático em jogo.
O diagnóstico de Karman: o medo como ferramenta de governo
Tawakkol Karman recebeu o Nobel da Paz em 2011, a primeira mulher árabe e a primeira pessoa do Iêmen a conquistar o prêmio, pela liderança não violenta nos protestos da Primavera Árabe que levaram à saída de Ali Abdullah Saleh, no poder desde 1978. Segundo o relato de Friedman, ela se disse surpresa com a facilidade com que escritórios de advocacia, universidades e empresas de mídia americanos cederam a exigências políticas da Casa Branca sem resistência[1].
O raciocínio de Karman, conforme reproduzido pelo colunista, segue uma sequência que ela diz conhecer de dentro: primeiro o chefe de Estado desacredita a imprensa, depois deixa de respeitar as regras do Estado de direito, e por fim as instituições passam a servir a ele e à sua família. No Iêmen, o gatilho da revolta foi a ocupação de cargos estratégicos por parentes de Saleh, o esvaziamento do Judiciário e a interferência no Parlamento. Para ela, o ponto mais perigoso não é a repressão aberta, mas o momento em que jornalistas, professores e estudantes começam a se perguntar o que o líder fará com eles antes de agir ou falar[1].
"Tudo começa quando o chefe de Estado controla a mídia."
Tawakkol Karman, Nobel da Paz 2011, ao New York TimesÉ uma descrição que dialoga diretamente com a literatura acadêmica sobre erosão democrática. O relatório 2026 do Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, classificou os Estados Unidos entre os dez novos países em processo de autocratização e afirmou que a democracia americana se deteriora em velocidade sem paralelo entre democracias modernas[3]. O mesmo relatório apontou as eleições legislativas americanas deste ano como teste decisivo para a qualidade do processo eleitoral no país[3].
O caso dos escritórios de advocacia
O exemplo das bancas de advocacia, citado por Friedman e por Karman, tem um desfecho que a coluna não detalha e que importa para o leitor brasileiro. Em 2025, a Casa Branca editou ordens executivas contra grandes escritórios ligados a adversários políticos do presidente, cassando credenciais de segurança de advogados e ameaçando contratos governamentais de seus clientes. Nove escritórios preferiram negociar e se comprometeram, somados, com cerca de US$ 940 milhões em serviços jurídicos gratuitos para evitar sanções. Outros quatro (Perkins Coie, WilmerHale, Jenner & Block e Susman Godfrey) foram à Justiça, venceram em quatro decisões federais que consideraram as ordens inconstitucionais e, em março de 2026, viram o Departamento de Justiça desistir dos recursos[4].
O episódio sustenta as duas metades do argumento. De um lado, a capitulação preventiva de parte do setor confirma o mecanismo descrito por Karman: o custo do medo é pago antes mesmo de qualquer punição. De outro, o resultado dos litígios mostra que, quando acionado, o Judiciário americano funcionou.
Iêmen, Houthis e o estreito de Bab al-Mandab
Karman e Friedman se conheceram em Sanaa, em 2013, durante o diálogo nacional que reunia partidos, jovens, mulheres, grupos islâmicos, tribos e representantes do norte e do sul para redigir uma nova Constituição. O processo ruiu em setembro de 2014, quando o movimento Houthi, apoiado pelo Irã e aliado a forças leais a Saleh, tomou a capital e empurrou o país para uma guerra civil que dura até hoje[1].
Na conversa em Atenas, a Nobel deslocou o foco para a geopolítica. Segundo a coluna, ela sustenta que um controle iraniano sobre Bab al-Mandab, o estreito na entrada do Mar Vermelho, por meio dos Houthis, somado à influência de Teerã sobre o Estreito de Ormuz, representaria risco à segurança global ainda maior do que uma bomba nuclear iraniana[1]. A afirmação é deliberadamente forte e deve ser lida como posição de uma ativista engajada no conflito, não como consenso entre analistas de segurança. Mas a lógica é clara: dois dos principais gargalos do comércio marítimo mundial sob influência de um mesmo ator.
Palestina: a primeira eleição legislativa em duas décadas
O segundo personagem é Samer Sinijlawi, palestino de Jerusalém Oriental que lidera o partido Masar Jadid (Novo Caminho). Fluente em árabe e hebraico, idioma que aprendeu durante cinco anos preso em Israel após ser detido na adolescência, durante a Primeira Intifada, ele defende um Estado palestino desmilitarizado, integração econômica regional e uma solução negociada de dois Estados. Na avaliação que fez ao colunista, de 70% a 80% dos israelenses aceitariam um Israel menor, judeu e democrático, desde que convencidos de que viveriam em segurança ao lado de um Estado palestino[1]. Trata-se de estimativa pessoal, não de dado de pesquisa.
O pedido de Sinijlawi a Friedman foi direto: não deixar que as eleições palestinas sejam adiadas mais uma vez. O pleito para o Conselho Legislativo Palestino foi convocado por decreto do presidente Mahmoud Abbas em 9 de julho e marcado para 28 de novembro, abrangendo Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental. Seria a primeira eleição legislativa desde 2006, quando o Hamas derrotou o Fatah. O conselho não se reúne desde 2007[5].
As regras mudaram. Em junho, um decreto-lei ampliou o número de cadeiras de 132 para 200, reduziu a idade mínima dos candidatos de 28 para 23 anos, baixou a cláusula de barreira de 2% para 1% e passou a exigir ao menos uma mulher a cada três nomes nas listas, segundo a agência Anadolu[6]. Até 28 de setembro, sete listas haviam pedido registro, e o prazo de inscrição foi estendido até 13 de outubro, com a data da votação mantida, de acordo com o Jerusalem Post[7].
O temor de Sinijlawi tem base. Em 2021, Abbas convocou eleições e depois as cancelou. Na semana passada, o portal The New Arab relatou articulações entre facções palestinas, com mediação egípcia, em torno de um consenso para adiar o pleito e fixar nova data; fontes próximas ao Hamas negaram ter pedido o adiamento[8]. Em ensaio citado na coluna, Sinijlawi argumenta que cada adiamento reforçou a tese do Hamas de que mudanças não chegam por meios pacíficos[1].
Israel vai às urnas em 27 de outubro
Friedman encaixa a eleição israelense, marcada para 27 de outubro, no mesmo arco e faz uma acusação dura ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu: a de ter fortalecido o Hamas em Gaza durante boa parte de seus mandatos para manter os palestinos divididos e evitar um interlocutor legítimo para negociar dois Estados[1]. É uma tese recorrente na imprensa israelense crítica ao governo, e é igualmente contestada pelos aliados de Netanyahu.
Há um dado que a coluna não menciona e que complica o retrato. A Comissão Central Eleitoral de Israel votou pela exclusão das duas principais listas árabes e de dois candidatos do pleito, e em 1º de outubro a Suprema Corte israelense começou a julgar os recursos, chegando a aconselhar o líder do partido Balad, Sami Abu Shehadeh, a retirar a candidatura sob risco de desqualificação, segundo a Al Jazeera[10]. Se confirmado, o veto deixaria os cidadãos palestinos de Israel sem opções relevantes de representação no Knesset. O argumento de Sinijlawi, de que a única via é persuadir os israelenses, depende justamente de um espaço político em que essa persuasão seja possível dentro das instituições.
Três objeções ao argumento da coluna
As instituições americanas resistiram. O mesmo caso usado como prova de capitulação também mostra tribunais federais derrubando, por unanimidade, ordens presidenciais e o governo recuando nos recursos[4]. Comparar os Estados Unidos ao Iêmen de Saleh, como faz Karman, desconsidera diferenças de escala entre um sistema federativo com Judiciário independente e uma autocracia consolidada. Defensores da Casa Branca sustentam ainda que as ordens contra os escritórios eram resposta ao que chamam de uso político do sistema de Justiça.
Eleição palestina não é sinônimo de pluralismo. A nova lei eleitoral obriga cada candidato a reconhecer a OLP como única representante legítima do povo palestino e a aderir ao seu programa político, segundo análise do Doha Institute[9]. A cláusula pode filtrar forças relevantes e transformar o pleito em renovação de legitimidade da Autoridade Palestina, mais do que em disputa aberta.
O peso do apelo moral. A coluna trata adesão a instituições como critério único de voto, o que é coerente com a linha editorial do autor, mas simplifica a decisão do eleitor americano, que também vota por economia, imigração e segurança.
O que isso diz ao Brasil
O alerta de Friedman sobre ficar de braços cruzados chega ao Brasil três dias depois de um primeiro turno com um dado que merece atenção. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 21,08% dos eleitores aptos não compareceram às urnas em 4 de outubro, cerca de 33,4 milhões de pessoas, a maior abstenção em uma eleição geral desde 1998. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou que o patamar não é o ideal e que a corte vai trabalhar para reduzi-lo no segundo turno, marcado para 25 de outubro[11].
Parte desse número é estrutural. O próprio TSE observou que a abstenção é alta entre quem não é obrigado a votar, como idosos acima de 70 anos e jovens de 16 e 17 anos. Ainda assim, em um país de voto obrigatório, a ausência de um em cada cinco eleitores é sinal de distanciamento que nenhum dos lados da disputa deveria tratar como irrelevante.
O contraste com o diagnóstico internacional é instrutivo. O mesmo relatório do V-Dem que rebaixou os Estados Unidos colocou o Brasil entre os 18 países em processo de democratização[3], classificando o caso brasileiro como uma reversão, um país que interrompeu um ciclo recente de autocratização e retomou a trajetória anterior[12]. A lição que Karman tira do Iêmen vale também para quem está do lado da recuperação: o retrocesso raramente começa com um golpe, e sim com instituições e cidadãos que passam a calcular o custo de agir. Uma recuperação democrática só se sustenta enquanto o eleitor continua achando que vale a pena comparecer.
Perguntas frequentes
Quem é Tawakkol Karman?
Jornalista e ativista iemenita, recebeu o Nobel da Paz em 2011 pela liderança não violenta nos protestos da Primavera Árabe no Iêmen. Foi a primeira mulher árabe a receber o prêmio e hoje atua por meio de uma fundação que promove a democracia.
Quem é Samer Sinijlawi?
Ativista palestino de Jerusalém Oriental, lidera o partido Masar Jadid (Novo Caminho), que disputa as eleições legislativas palestinas de 28 de novembro de 2026 defendendo um Estado palestino desmilitarizado e a solução de dois Estados.
Quando são as eleições palestinas de 2026?
A eleição para o Conselho Legislativo Palestino está marcada para 28 de novembro de 2026, em Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental. É a primeira desde 2006. A eleição presidencial está prevista para o primeiro trimestre de 2027.
O que é o Athens Democracy Forum?
Encontro anual organizado pela Democracy & Culture Foundation em associação com o New York Times. A edição de 2026, a 14ª, ocorreu em Atenas entre 29 de setembro e 1º de outubro.
Qual foi a abstenção no primeiro turno das eleições brasileiras de 2026?
Segundo o TSE, 21,08% do eleitorado apto, cerca de 33,4 milhões de pessoas, a maior taxa em eleição geral desde 1998.
Por que o estreito de Bab al-Mandab importa?
Ele liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e é passagem obrigatória entre a Ásia e a Europa pelo Canal de Suez. Ataques dos Houthis, grupo iemenita apoiado pelo Irã, a navios na região afetaram rotas comerciais globais nos últimos anos.