2 de setembro de 2026
Filosofia

Duas Escritas, Uma Ética Só

ewerton
29 de julho de 2026
Caderno Filosofia O Tecido · Ensaio
Ilustração: a aura de Walter Benjamin (esquerda) e a grade de pixels da reprodução técnica (direita), separadas por uma linha tracejada. Arte original de O Tecido.

Duas coisas muito diferentes acontecem quando alguém diz que "escreveu com IA". A primeira é informar: reunir fatos, checá-los, organizá-los, evitar que uma crença pessoal se disfarce de dado. A segunda é criar: transformar uma experiência única em linguagem que só aquela pessoa poderia ter escrito daquele jeito. São ofícios diferentes, com éticas diferentes, e boa parte da ansiedade recente em torno da inteligência artificial na escrita vem justamente de tratar os dois como se fossem a mesma coisa.

Na escrita informacional, o valor não está no floreio da frase, está na curadoria. Está em trazer o texto evitando crenças, ancorando cada afirmação em fatos verificáveis, revisando e checando informações antes de publicar. Usar IA nesse processo não é atalho fácil: dá trabalho, exige revisão extensiva, exige que alguém assuma a responsabilidade final pelo que está escrito. Mas abre um caminho importante para quem lê muito, estuda, tem conhecimento real para compartilhar e faz boa curadoria, mas não consegue transmitir isso com clareza na prosa. É esse o modelo que adotamos aqui no Caderno Filosofia e em todo O Tecido: incentivamos pessoas comuns com algo inteligente a dizer a escrever para nós, e se precisarem de apoio de IA para organizar o pensamento, tudo bem. O que não abrimos mão, em nenhuma hipótese, é do conteúdo. Todo artigo, interno ou externo, passa por revisão extensiva e checagem de dados antes de ir ao ar.

Já na escrita literária, a lógica se inverte. Um livro, mesmo um livro técnico de matemática ou de história, carrega algo que não se reduz à informação que transmite: carrega a forma de pensar de quem escreveu. É nisso que continuo sem abrir mão de ler livros feitos por pessoas. A arte está na escrita em si, no gesto de transformar um pensamento que só existiu dentro de uma cabeça específica em frases que só aquela cabeça poderia ter produzido daquele jeito.

A aura que a reprodução técnica não alcança

Há quase um século, o filósofo alemão Walter Benjamin descreveu algo parecido a propósito da fotografia e do cinema. Em "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica", Benjamin chamou de aura aquilo que uma obra perde quando pode ser infinitamente copiada: sua existência única, seu aqui e agora irrepetível, o testemunho histórico que só o original carrega1. Segundo ele, a técnica de reprodução substitui a existência única da obra por uma existência serial, e o que definha nesse processo é justamente essa aura1.

Benjamin não via isso como tragédia pura. Para ele, a dissolução da aura também democratizava a arte, tirava-a do domínio ritual e da elitização, colocava-a ao alcance de muito mais gente1. É quase exatamente o argumento que defendo para a escrita informacional: o que se perde em singularidade se ganha em acesso, e isso é bom. O problema aparece quando se tenta aplicar a mesma lógica à escrita que deveria ser irrepetível por definição, aquela em que o valor está exatamente na existência única de uma voz.

A aura que Benjamin via ameaçada pela câmera fotográfica é a mesma que hoje se sente ameaçada pelo modelo de linguagem: a marca do aqui e agora de quem escreveu.

O contragolpe estilístico

Essa intuição, a de que existe algo na escrita literária que precisa continuar sendo irrepetivelmente humano, parece estar se espalhando entre escritores em várias línguas. Uma reportagem recente da revista americana Wired descreve um movimento que vem tomando forma entre romancistas, críticos e colunistas: uma espécie de contracultura anti-IA, construída por negação dos tiques mais óbvios da prosa gerada por máquina, como listas de três, voz passiva, construções do tipo "não é x, é y" e o uso excessivo de travessões2. Segundo a reportagem, escritores como a romancista Laura Brooke Robson passaram a evitar deliberadamente metáforas genéricas e caminhos óbvios de frase, cultivando pequenas imperfeições como sinal de que existe, de fato, uma pessoa por trás do texto2.

A reportagem também documenta o lado mais desconfortável dessa história: editoras que retiraram livros de catálogo após suspeita de uso extensivo de IA, um autor que admitiu ter inventado citações com apoio de IA em um livro sobre a própria IA, e editores de publicações como a Aeon e a Pitchfork pedindo explicitamente aos colaboradores que escrevam de forma mais pessoal, mais conversada, mais arriscada esteticamente2. O fenômeno tem uma versão brasileira, ainda que menos ruidosa. Um episódio recente envolveu duas autoras americanas de romance best-seller, K.C. Crowne e Lena McDonald, flagradas por leitores após anotações típicas de um chatbot aparecerem no meio do texto publicado; uma delas se defendeu dizendo que usou IA para revisar partes do livro por não ter como pagar um editor profissional3. No Brasil, uma pesquisa acadêmica apresentada no Intercom em 2025 documentou o caso da editora Novo Século, criticada por ilustrar uma edição de Alice no País das Maravilhas com imagens geradas por IA sem aviso ao leitor5. Em ambos os casos, o problema levantado por leitores não foi exatamente o uso da ferramenta, foi a ausência de transparência sobre esse uso.

Contraponto

Nem todo mundo concorda que essa distinção entre escrita humana e escrita assistida por IA seja sustentável a longo prazo, ou mesmo desejável como critério de valor. A própria reportagem da Wired registra a objeção mais afiada, vinda da redatora Jessye McGarry, autora de um texto satírico cheio de erros de digitação propositais para provar autoria humana: qualquer contracultura cosmética criada em reação à IA pode, cedo ou tarde, ser imitada pela própria IA, porque um modelo de linguagem também aprende a inserir imperfeições calculadas quando isso passa a ser o padrão desejado2. Nessa visão, "a única contracultura verdadeira é a boa escrita"2, não um conjunto de tiques estilísticos que sinalizam humanidade hoje e serão reproduzidos amanhã. Há também quem argumente, a partir de uma leitura mais radical de Roland Barthes sobre a morte do autor, que a obsessão contemporânea com provar a origem humana de um texto é ela mesma um sintoma de insegurança cultural, e que o valor de uma obra deveria ser julgado pelo que ela realiza no leitor, não pela biografia de quem a produziu. Por essa lógica, distinguir "escrita informacional" de "escrita literária" seria uma forma conveniente de justificar o uso da IA onde interessa sem abrir mão do prestígio de recusá-la onde não interessa.

O que os números brasileiros já mostram

Enquanto o debate filosófico segue em aberto, o comportamento do público brasileiro já foi na frente e, de certa forma, confirma a divisão prática entre os dois tipos de escrita. O uso de chatbots de IA para se informar cresceu entre os brasileiros, de 7% para 10% dos entrevistados em um ano, segundo o Digital News Report 2026 do Reuters Institute, muito concentrado em gente jovem em busca de resumos e de diferentes perspectivas sobre um mesmo assunto6. Ainda assim, a confiança nas respostas desses chatbots é a mais baixa entre todas as fontes de informação medidas pela pesquisa: apenas 20% dos entrevistados confiam no que a IA responde7. No ambiente de trabalho, a adoção é ainda mais rápida: 71% dos profissionais brasileiros já usam IA no trabalho, acima da média global9, e o percentual de quem usa ferramentas como ChatGPT, Gemini ou Copilot no dia a dia profissional passou de 17% para 35% em apenas um ano8.

O mercado editorial brasileiro está tentando, ao seu próprio ritmo, formalizar essa fronteira. Em março de 2026, o CNPq instituiu uma portaria exigindo que qualquer uso de IA generativa em pesquisas financiadas pelo órgão seja declarado explicitamente na metodologia, deixando claro que a ferramenta pode auxiliar a escrita, mas nunca figurar como autora, e que eventuais erros ou invenções da IA são de responsabilidade integral de quem assina o trabalho4. Uma coluna recente na PublishNews resume bem o momento do mercado de livros: depois de um ano de exposição de casos e menos ilusões, a pergunta deixou de ser "a IA vai substituir quem escreve" e passou a ser "o leitor quer saber como esse livro foi feito"10.

Duas escritas, uma ética só

É por isso que a distinção entre informar e criar não é uma saída conveniente para usar IA sem culpa: é o critério que sustenta a responsabilidade em ambos os casos. Na escrita informacional, a ética está em declarar o processo, checar cada fato, revisar com rigor e nunca deixar que a IA vire fonte de autoridade em vez de instrumento de organização. Na escrita literária, a ética está em preservar aquilo que só existe porque uma pessoa específica, com uma história específica, decidiu escrever daquele jeito. Não é uma questão de qual das duas é mais nobre. É uma questão de não confundir os critérios de uma com os critérios da outra, e de não deixar que a comodidade de uma sirva de desculpa para abrir mão do que faz a outra valer a pena.

Talvez a contracultura anti-IA descrita pela Wired desapareça em poucos anos, assim como McGarry sugere, engolida pela própria IA que aprenderá a imitar até as imperfeições. Mas o impulso por trás dela, o de proteger um espaço onde a voz humana continua sendo irrepetível, é o mesmo impulso que sustenta qualquer publicação, digital ou impressa, que ainda acredite que ler um livro é diferente de consultar uma base de dados bem organizada. As duas coisas têm valor. Só não são a mesma coisa.

Este ensaio foi motivado pela reportagem "More Typos, Fewer Em Dashes: Writers Are Creating an Anti-AI Literary Counterculture", publicada pela revista Wired em 2026 (https://www.wired.com/story/more-typos-fewer-em-dashes-writers-are-creating-an-anti-ai-literary-counterculture/). O texto original não foi traduzido nem reproduzido; este é um ensaio autoral do Caderno Filosofia de O Tecido, construído a partir de fontes brasileiras e internacionais independentes listadas nas referências acima. Ewerton Lopes — Curador Editorial

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