Opinião · Eleições 2026
No domingo, 4 de outubro, e na segunda-feira, 5, dois eleitorados foram às urnas em extremos opostos das Américas. No Brasil, a totalização parcial do Tribunal Superior Eleitoral colocou o senador Flávio Bolsonaro (PL) numericamente à frente no primeiro turno presidencial, com 44,85% dos votos válidos contra 44,7% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Os dois voltam a se enfrentar em 25 de outubro1. No Quebec, o Parti Québécois de Paul St-Pierre Plamondon venceu a eleição provincial com cerca de 28% dos votos e 59 cadeiras, cinco abaixo da maioria, e formará um governo minoritário2.
Não pretendo comparar ideologias, nem discutir o projeto de independência do Quebec ou o legado da família Bolsonaro. Quero comparar algo mais prosaico e, a meu ver, mais revelador: os documentos que cada um dos primeiros colocados apresentou ao eleitor para mostrar que sabe o que fará com o poder. É nesses documentos que dois países diferentes mostram o quanto se distanciaram.
O que o Parti Québécois colocou na mesa
Em outubro de 2024, dois anos antes da eleição, o PQ publicou Un Québec libre de ses choix: pour un modèle viable en immigration3. O documento segue a estrutura de um relatório executivo. Abre com um sumário, desenvolve o diagnóstico em capítulos e sustenta cada afirmação com séries históricas e gráficos de fonte declarada: Statistique Canada, Institut de la statistique du Québec, Eurostat, o censo americano. Traz mais de cem notas de rodapé. Discute abertamente trabalhos do economista Pierre Fortin, da UQAM, além de estudos do Banque Nationale, do Institut du Québec e do C.D. Howe Institute.
O mais importante, porém, está no fim: doze medidas numeradas, quase todas com um número, um ponto de partida e um prazo. Reduzir o contingente de imigrantes temporários de cerca de 588 mil, registrados em julho de 2024, para uma faixa de 250 mil a 300 mil ao fim de um mandato de quatro anos. Fixar a imigração permanente em torno de 35 mil pessoas por ano. Limitar os estudantes internacionais a cerca de 50 mil. Receber solicitantes de asilo na proporção do peso demográfico do Quebec no Canada, 22%.
Um ano antes, em outubro de 2023, o partido havia publicado um estudo de 84 páginas sobre as finanças de um Quebec independente4. O estudo estima 82,3 bilhões de dólares canadenses em receitas que hoje vão para Ottawa, 8,8 bilhões em economia com funções duplicadas e uma dívida bruta inicial próxima de 400 bilhões6. O partido declarou ter adotado integralmente o método de cálculo usado em 2005 por François Legault, então deputado do PQ7. Por ter declarado o método, deu aos adversários material para contestá-lo, e eles o contestaram, sobretudo quanto ao tratamento dos repasses federais de equalização.
Esse é o ponto. Um documento que pode ser refutado com dados é um documento que respeita o leitor.
Uma precisão se impõe, porque o rigor que cobramos dos outros vale para nós: os acadêmicos aparecem no texto do PQ como fontes citadas, e não como coautores. Quem assina e recebe os agradecimentos é a equipe do partido, identificada nome por nome. Ainda assim, o leitor sabe quem escreveu, em que dados se apoiou e com quem discordou.
O que o plano registrado no TSE entrega
Seria injusto dizer que a proposta registrada pela candidatura de Flávio Bolsonaro no TSE é vazia5. O texto se organiza em nove eixos com nomes de campanha, como "Brasil sem Medo", "Brasil por Elas" e "Brasil que Cresce", e traz até um índice temático. Também contém números: crescimento de 4% ao ano ao longo de uma década, R$ 900 bilhões em infraestrutura em quatro anos, 2,5 milhões de moradias, cinco presídios de segurança máxima, meio milhão de novas vagas no sistema prisional, mais de 1 milhão de câmeras de reconhecimento facial e o dobro do investimento federal em segurança pública.
O problema está no registro em que o texto foi escrito. Os títulos de seção funcionam como manchetes: "Terrorista vai ser tratado como terrorista", "Luz, câmara, prisão", "Menos verbo mais verba". O corpo do texto avisa que o traficante que resistir "vai ser preso ou vai virar pó", que condenados vão "mofar na prisão" e que "quem não entrar na linha vai ser desligado da sociedade". O adversário aparece "passando pano para bandido". São frases desenhadas para circular recortadas em redes sociais, não para orientar uma política pública. Um plano de governo que trata parte da população como descartável e o adversário como cúmplice do crime informa menos sobre o que será feito do que sobre o clima que se pretende criar.
Há ainda o que falta. O sumário não prevê bibliografia. Os dados citados, como a participação de 0,4% da segurança no gasto federal, a posição no PISA e projeções do Boletim Focus, aparecem de passagem, sem nota que permita ao leitor conferir a fonte. Na versão analisada, não identifiquei gráficos nem crédito a quem elaborou o documento.
Um plano de governo só é um compromisso com o eleitor quando permite que o eleitor confira, quatro anos depois, se ele foi cumprido.
Número não é meta
A distinção que separa os dois documentos é técnica e conhecida de qualquer pessoa que já tenha montado um planejamento estratégico. Uma meta mensurável exige quatro elementos: o ponto de partida, o ponto de chegada, o prazo e a forma de medir. Quando falta o primeiro, a promessa não pode ser cobrada. Quando falta o custo, ela não pode ser avaliada.
A meta do PQ para a imigração temporária reúne os quatro: parte de 588 mil pessoas, chega a 250 mil ou 300 mil, tem prazo de quatro anos e usa o indicador trimestral da Statistique Canada. Em 2030, qualquer cidadão do Quebec poderá verificar o resultado em uma tarde.
A meta de 4% de crescimento anual do plano do PL não traz modelo nem decomposição: não diz quanto viria de investimento, quanto de produtividade, quanto de expansão da força de trabalho. Os R$ 900 bilhões em infraestrutura mencionam concessões, BNDES e um fundo lastreado em ativos da União, mas não informam quanto viria de cada fonte. O texto promete, ao mesmo tempo, dobrar o investimento em segurança, abrir 500 mil vagas prisionais, reduzir impostos sobre consumo e energia e equilibrar as contas públicas, sem apresentar um quadro de fontes e usos que mostre como tudo isso cabe no mesmo orçamento.
Em qualquer empresa de médio porte, um diretor que levasse ao conselho um plano de investimento dessa magnitude sem esse quadro não sairia da sala com o orçamento aprovado. O documento do PQ se parece com o trabalho de um comitê de planejamento; o do PL, com uma apresentação comercial.
| Critério | Parti Québécois | Proposta do PL no TSE |
|---|---|---|
| Antecedência | 2 a 3 anos antes da eleição (2023 e 2024) | Registrada com a candidatura, em 2026 |
| Diagnóstico com séries históricas | Sim, por capítulo | Pontual, em frases isoladas |
| Gráficos com fonte declarada | Sim | Não identificados na versão analisada |
| Notas e bibliografia | Mais de cem notas e bibliografia | Sem bibliografia no sumário |
| Metas numéricas | Sim | Sim, em parte |
| Ponto de partida e prazo | Na maioria das metas | Raramente |
| Custo e fonte de recursos | Parcial (estudo fiscal separado) | Ausente nas principais metas |
| Autoria | Equipe identificada nominalmente | Não identificada |
Fonte: leitura de O Tecido dos documentos citados nas referências 3, 4 e 5.
O problema é de sistema, não só de candidato
Seria confortável encerrar o argumento no PL, mas isso seria desonesto. A Lei das Eleições exige do candidato a presidente apenas que entregue, no registro, as "propostas defendidas" por ele8. Não exige formato, metas, estimativa de custos nem fontes. O calendário também conspira: as convenções acontecem entre julho e agosto, e o registro se encerra em meados de agosto. Um partido que só define seu candidato semanas antes do prazo não produz um diagnóstico de cem páginas, e ninguém o cobra por isso.
O mesmo teste se aplica ao plano registrado por Lula, que também está no site do TSE e merece o mesmo escrutínio. O padrão brasileiro tolera documentos de campanha que se parecem com peças publicitárias porque o eleitor, a imprensa e o próprio sistema eleitoral nunca exigiram outra coisa. O Quebec não é uma sociedade mais virtuosa. Lá, porém, um partido de oposição com três deputados entendeu que a única forma de ser levado a sério era publicar dados que pudessem ser contestados.
O que o eleitor deveria exigir
O Brasil não tem falta de dados. O IBGE, o Ipea, o Tesouro Nacional, o Banco Central e as universidades produzem séries históricas de qualidade internacional sobre quase todos os temas de um plano de governo. O que falta é a exigência de usá-los. Enquanto o documento que o candidato entrega à Justiça Eleitoral puder ser uma coletânea de frases de efeito, o debate continuará sendo travado em recortes, e o eleitor continuará votando sem saber o que está contratando.
Há uma expressão antiga que diz que o Brasil é o país do futuro. Um país que não exige de seus candidatos nem sequer um ponto de partida verificável não tem como saber se esse futuro chegou. Nas duas semanas que separam o primeiro do segundo turno, a pergunta mais útil a fazer aos dois finalistas é simples: de onde vocês partem, aonde pretendem chegar, quanto isso custa e como saberemos se deu certo.
Perguntas frequentes
O que a lei brasileira exige de um plano de governo?
A Lei nº 9.504/1997, no artigo 11, exige que o candidato a cargo do Executivo apresente as propostas que defende no momento do registro da candidatura. A lei não define formato, nem exige metas, estimativas de custo ou fontes de dados.
Quem venceu a eleição no Quebec em 5 de outubro de 2026?
O Parti Québécois, liderado por Paul St-Pierre Plamondon, com cerca de 28% dos votos e 59 cadeiras, segundo resultados preliminares. O partido ficou cinco cadeiras abaixo da maioria e formará um governo minoritário.
Qual a diferença entre ter números e ter metas mensuráveis?
Um número isolado indica uma intenção. Uma meta mensurável informa o ponto de partida, o ponto de chegada, o prazo e o indicador que será usado para verificar o resultado. Sem esses elementos, a promessa não pode ser cobrada.
O plano de Flávio Bolsonaro tem metas?
Tem metas numéricas, como crescimento de 4% ao ano, R$ 900 bilhões em infraestrutura e 2,5 milhões de moradias. Na maioria dos casos, porém, faltam ponto de partida, custo e fonte de financiamento, o que impede a verificação.
Referências
- Agência Brasil. "Lula e Flávio vão disputar 2º turno para presidente da República", 4 out. 2026 (totalização parcial, 98,2% das urnas).
- Radio-Canada. "Le Parti québécois de PSPP remporte les élections", 6 out. 2026; EnBeauce.com. "Paul St-Pierre Plamondon devient premier ministre du Québec", 5 out. 2026.
- Parti Québécois. Un Québec libre de ses choix: pour un modèle viable en immigration, out. 2024.
- Parti Québécois. Un Québec libre de ses choix: finances d'un Québec indépendant, out. 2023.
- Tribunal Superior Eleitoral. Proposta de plano de governo registrada pela candidatura do PL, 2026.
- The Canadian Press / CTV News Montreal. "Parti Quebecois unveils Year One budget for independent Quebec", 23 out. 2023.
- CTV News Montreal. "PQ uses archival footage of Legault to sell sovereignty", out. 2023; Noovo Info. "Voici combien le Québec économiserait en tant que pays selon le PQ", out. 2023.
- Brasil. Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997 (Lei das Eleições), art. 11, § 1º, inciso IX.
Nota editorial: este é um artigo de opinião e expressa a visão de seu autor. A análise se baseia na leitura direta dos documentos públicos listados nas referências 3 e 5 e na cobertura de imprensa sobre o documento da referência 4. Resultados eleitorais preliminares estão sujeitos à totalização oficial.