Economia · Energia · Investimento Estrangeiro

Este artigo foi motivado por reportagem publicada pelo China Daily em 13 de agosto de 2026, que descreve o avanço de projetos de energia limpa de empresas chinesas na América Latina. O texto original, em inglês, pode ser lido em: China Daily – "China's cooperation powers green future in Global South". A reportagem abaixo é produção original de O Tecido, com apuração e fontes próprias sobre o recorte brasileiro do tema.

Nos últimos dez anos, o Brasil se tornou um dos principais laboratórios da estratégia chinesa de exportação de tecnologia elétrica. Duas obras simbolizam esse movimento: a linha de transmissão que liga a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, aos centros de consumo do Sudeste, e a modernização das usinas de Jupiá e Ilha Solteira, no rio Paraná. Ambas nasceram de decisões de política industrial chinesa tomadas ainda na década anterior, mas ganharam nova relevância em 2026, à medida que Pequim aprofunda parcerias energéticas em toda a América Latina, incluindo o projeto solar de Cauchari, na Argentina, considerado o maior parque fotovoltaico da região e o de maior altitude do mundo, segundo reportagem do China Daily.

O pano de fundo é conhecido pelos economistas do setor elétrico: o Brasil concentra seu maior potencial hidrelétrico na Amazônia, distante milhares de quilômetros dos polos industriais e residenciais do Sudeste. Resolver esse descompasso geográfico exige linhas de transmissão de altíssima capacidade, um nicho de engenharia em que empresas estatais chinesas acumularam experiência técnica e escala de produção sem paralelo global nas últimas duas décadas.

A ponte elétrica entre a Amazônia e o Sudeste

A State Grid Corporation of China, por meio de sua subsidiária brasileira State Grid Brazil Holding (SGBH), opera hoje mais de 16 mil quilômetros de linhas de transmissão no país, incluindo o trecho que liga Belo Monte a Paracambi, no Rio de Janeiro, considerado o maior corredor de transmissão da América Latina, com mais de três mil quilômetros de extensão sob concessão de 30 anos[1]. A companhia se tornou, segundo dados da própria SGBH, a segunda maior transmissora do setor elétrico brasileiro, respondendo por cerca de 10% de toda a malha nacional[1].

O apetite não parou por aí. Em 2026, a State Grid deu início às obras de um novo empreendimento recorde, que ligará regiões produtoras de energia renovável do Nordeste a centros consumidores do Centro-Oeste, com previsão de entrada em operação até 2029. É classificado pela própria companhia como o maior projeto de concessão de transmissão já realizado no Brasil em volume de investimento, utilizando novamente a tecnologia de corrente contínua em ultra-alta tensão (UHV), que reduz perdas na condução de energia por longas distâncias[2].

"Isso impulsionou o desenvolvimento das indústrias locais de energia, equipamentos elétricos e matérias-primas do Brasil, alcançando benefícios mútuos e cooperação ganha-ganha entre a China e o Brasil."

Sun Tao, presidente da State Grid Brazil Holding, em declaração à imprensa sobre os projetos de Belo Monte[1].

O "transplante de coração" em Jupiá e Ilha Solteira

Enquanto a State Grid domina o transporte de energia, a China Three Gorges Corporation (CTG), responsável pela maior hidrelétrica do mundo em território chinês, assumiu no Brasil a operação de duas usinas com mais de meio século de existência. Desde 2016, a CTG Brasil opera as hidrelétricas de Jupiá e Ilha Solteira, no rio Paraná, com capacidade instalada conjunta de quase 5 mil megawatts, o suficiente para atender milhões de consumidores[3].

O que chama atenção não é apenas a operação, mas o programa de modernização em curso. Até 2039, a companhia planeja atualizar 34 unidades geradoras nas duas usinas, com investimento superior a R$ 3 bilhões, dos quais R$ 1,5 bilhão já foram aplicados e 12 unidades já entregues até meados de 2026[3]. O projeto mobiliza mais de 150 profissionais da CTG Brasil, cerca de 300 terceirizados e uma cadeia de mais de 100 fornecedores, além de reunir aproximadamente 400 especialistas brasileiros e chineses em intercâmbio técnico, segundo balanço divulgado pela empresa ao completar dez anos de concessão[3].

O que os números da CEBC mostram sobre o apetite chinês

O caso de Belo Monte e de Jupiá não é isolado. Levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), divulgado em maio de 2026, mostra que o Brasil voltou a ser o principal destino global dos investimentos chineses em 2025, recebendo US$ 6,1 bilhões, alta de 45% em relação a 2024 e o maior volume em sete anos[4]. O setor elétrico foi o campeão de captação, com US$ 1,79 bilhão, equivalente a 29,5% de todo o capital chinês que entrou no país no período, distribuídos entre usinas solares, parques eólicos, hidrelétricas e expansão de linhas de transmissão[5].

Entre 2007 e 2025, os investimentos chineses acumulados no Brasil somam US$ 85,5 bilhões em 355 projetos, segundo o mesmo estudo, apresentado pelo diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC, Tulio Cariello[6]. Além da eletricidade, mineração de minerais críticos e mobilidade elétrica também registraram forte avanço, com fabricantes como BYD e GWM iniciando produção local de veículos[6].

⚖ Contraponto

Nem todos os analistas leem esse avanço apenas como benefício mútuo. Setores da academia e de institutos de estudos estratégicos alertam que a concentração de ativos de infraestrutura crítica, como transmissão e geração de energia, sob controle de empresas estatais de um único país pode reduzir a margem de autonomia decisória do Estado brasileiro ao longo do tempo, especialmente em um contexto de disputa geopolítica mais ampla entre China e Estados Unidos[7]. Levantamento da imprensa especializada aponta que, entre 2007 e 2024, o setor elétrico absorveu cerca de 45% de todo o capital chinês investido no país, e que o número de novos empreendimentos no setor voltou a crescer com força em 2025, o que, para esses críticos, aprofunda uma dependência já consolidada e torna mais custosa qualquer eventual reversão futura[8]. Defensores da cooperação, por outro lado, argumentam que o Brasil mantém a titularidade regulatória do setor elétrico por meio da Aneel e que as concessões têm prazo definido, ficando sujeitas a regras de licitação, fiscalização e reversão de ativos ao poder concedente ao final do contrato.

O papel do Brasil na estratégia chinesa para a América Latina

A movimentação brasileira se encaixa em um roteiro mais amplo. O governo chinês tem reforçado, em fóruns multilaterais como o Fórum China-CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), o discurso de aprofundamento da cooperação energética com a região, com foco declarado em energias renováveis e infraestrutura de transmissão, dentro do guarda-chuva da Iniciativa do Cinturão e Rota. Na Argentina, o parque solar de Cauchari, construído a mais de 4 mil metros de altitude na Cordilheira dos Andes por empresas chinesas, é apresentado por Pequim como exemplo desse modelo, ao ter encerrado a dependência da província de Jujuy em relação à energia transmitida de outras regiões do país.

Para o Brasil, a equação até aqui tem sido favorável em termos de capital e tecnologia: o país recebe investimento direto, know-how em ultra-alta tensão e modernização de ativos que, de outra forma, exigiriam recursos públicos ou financiamento mais caro. O desafio para os próximos anos, apontado tanto por defensores quanto por críticos da cooperação, é garantir que esse fluxo de capital continue acompanhado de transferência real de tecnologia, geração de empregos qualificados e mecanismos regulatórios robustos que preservem a capacidade do Estado brasileiro de planejar sua própria matriz energética.

Perguntas frequentes

Quem opera a linha de transmissão de Belo Monte?

A State Grid Brazil Holding, subsidiária da estatal chinesa State Grid Corporation of China, opera o trecho de mais de três mil quilômetros entre Belo Monte (PA) e Paracambi (RJ) sob concessão de 30 anos, além de outras linhas no país[1].

Qual empresa chinesa administra as usinas de Jupiá e Ilha Solteira?

A China Three Gorges Brasil (CTG Brasil), subsidiária da China Three Gorges Corporation, detém a concessão das duas hidrelétricas desde 2016 e conduz um programa de modernização com investimento superior a R$ 3 bilhões até 2039[3].

Quanto a China investiu no setor elétrico brasileiro em 2025?

Segundo o CEBC, os aportes chineses no setor elétrico somaram US$ 1,79 bilhão em 2025, o maior volume desde 2020, dentro de um total de US$ 6,1 bilhões investidos pela China no Brasil naquele ano[5].

Existe risco de dependência energética do Brasil em relação à China?

É um ponto de debate. Analistas de defesa e soberania apontam risco de concentração de ativos estratégicos sob controle de um único parceiro, enquanto o setor elétrico argumenta que a regulação da Aneel e os prazos de concessão preservam o controle público sobre a infraestrutura[7][8].

Em números

Investimento chinês no Brasil (2025)US$ 6,1 bi
Fatia do setor elétrico29,5%
Acumulado China–Brasil (2007–2025)US$ 85,5 bi
Linha Belo Monte–Paracambi+3.000 km
Capacidade Jupiá + Ilha Solteira~5.000 MW
Modernização CTG até 2039R$ 3 bi

Linha do tempo

  • 2016CTG Brasil assume a concessão de Jupiá e Ilha Solteira.
  • 2017State Grid conclui a Fase II da UHV de Belo Monte.
  • 2025Brasil lidera o ranking global de investimentos chineses, com US$ 6,1 bi.
  • 2026State Grid inicia novo megaprojeto de transmissão Nordeste–Centro-Oeste; CTG completa 10 anos em Jupiá.
  • 2029Prazo previsto para entrada em operação da nova linha UHV.

Glossário

UHV (Ultra-High Voltage)
Tecnologia de transmissão em corrente contínua acima de 800 kV, usada para transportar grandes volumes de energia por longas distâncias com menor perda.
Concessão de transmissão
Contrato público, geralmente de 30 anos, que autoriza uma empresa a construir e operar uma linha de energia mediante regras da Aneel.
CEBC
Conselho Empresarial Brasil-China, entidade que monitora e publica dados sobre o fluxo de investimentos chineses no Brasil.

Referências

  1. Zheng Xin. "China's cooperation powers green future in Global South". China Daily, 13 ago. 2026. Acessar.
  2. "State Grid ampliará linhas de transmissão no Brasil com aporte de R$ 18 bi até 2030". State Grid Brazil Holding. Acessar.
  3. "State Grid inicia megaprojeto de transmissão de energia no Brasil". China.org.br. Acessar.
  4. "CTG Brasil celebra 10 anos de concessão da UHE Jupiá". Rádio Caçula / Perfil News, jul. 2026. Acessar.
  5. "Investimento chinês no Brasil soma US$ 6,1 bi em 2025, maior valor em sete anos". Terra, maio 2026. Acessar.
  6. "Brasil lidera atração de investimentos chineses no mundo em 2025, aponta estudo do CEBC". Exame, maio 2026. Acessar.
  7. "A Disputa Silenciosa pelo Nordeste Brasileiro: Geoeconomia Chinesa, Soberania Nacional...". O Poder. Acessar.
  8. "Sem política clara, Brasil cede controle de negócios estratégicos à China". Gazeta do Povo, out. 2025. Acessar.