Economia · Energia · Investimento Estrangeiro
Nos últimos dez anos, o Brasil se tornou um dos principais laboratórios da estratégia chinesa de exportação de tecnologia elétrica. Duas obras simbolizam esse movimento: a linha de transmissão que liga a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, aos centros de consumo do Sudeste, e a modernização das usinas de Jupiá e Ilha Solteira, no rio Paraná. Ambas nasceram de decisões de política industrial chinesa tomadas ainda na década anterior, mas ganharam nova relevância em 2026, à medida que Pequim aprofunda parcerias energéticas em toda a América Latina, incluindo o projeto solar de Cauchari, na Argentina, considerado o maior parque fotovoltaico da região e o de maior altitude do mundo, segundo reportagem do China Daily.
O pano de fundo é conhecido pelos economistas do setor elétrico: o Brasil concentra seu maior potencial hidrelétrico na Amazônia, distante milhares de quilômetros dos polos industriais e residenciais do Sudeste. Resolver esse descompasso geográfico exige linhas de transmissão de altíssima capacidade, um nicho de engenharia em que empresas estatais chinesas acumularam experiência técnica e escala de produção sem paralelo global nas últimas duas décadas.
A ponte elétrica entre a Amazônia e o Sudeste
A State Grid Corporation of China, por meio de sua subsidiária brasileira State Grid Brazil Holding (SGBH), opera hoje mais de 16 mil quilômetros de linhas de transmissão no país, incluindo o trecho que liga Belo Monte a Paracambi, no Rio de Janeiro, considerado o maior corredor de transmissão da América Latina, com mais de três mil quilômetros de extensão sob concessão de 30 anos[1]. A companhia se tornou, segundo dados da própria SGBH, a segunda maior transmissora do setor elétrico brasileiro, respondendo por cerca de 10% de toda a malha nacional[1].
O apetite não parou por aí. Em 2026, a State Grid deu início às obras de um novo empreendimento recorde, que ligará regiões produtoras de energia renovável do Nordeste a centros consumidores do Centro-Oeste, com previsão de entrada em operação até 2029. É classificado pela própria companhia como o maior projeto de concessão de transmissão já realizado no Brasil em volume de investimento, utilizando novamente a tecnologia de corrente contínua em ultra-alta tensão (UHV), que reduz perdas na condução de energia por longas distâncias[2].
"Isso impulsionou o desenvolvimento das indústrias locais de energia, equipamentos elétricos e matérias-primas do Brasil, alcançando benefícios mútuos e cooperação ganha-ganha entre a China e o Brasil."
Sun Tao, presidente da State Grid Brazil Holding, em declaração à imprensa sobre os projetos de Belo Monte[1].
O "transplante de coração" em Jupiá e Ilha Solteira
Enquanto a State Grid domina o transporte de energia, a China Three Gorges Corporation (CTG), responsável pela maior hidrelétrica do mundo em território chinês, assumiu no Brasil a operação de duas usinas com mais de meio século de existência. Desde 2016, a CTG Brasil opera as hidrelétricas de Jupiá e Ilha Solteira, no rio Paraná, com capacidade instalada conjunta de quase 5 mil megawatts, o suficiente para atender milhões de consumidores[3].
O que chama atenção não é apenas a operação, mas o programa de modernização em curso. Até 2039, a companhia planeja atualizar 34 unidades geradoras nas duas usinas, com investimento superior a R$ 3 bilhões, dos quais R$ 1,5 bilhão já foram aplicados e 12 unidades já entregues até meados de 2026[3]. O projeto mobiliza mais de 150 profissionais da CTG Brasil, cerca de 300 terceirizados e uma cadeia de mais de 100 fornecedores, além de reunir aproximadamente 400 especialistas brasileiros e chineses em intercâmbio técnico, segundo balanço divulgado pela empresa ao completar dez anos de concessão[3].
O que os números da CEBC mostram sobre o apetite chinês
O caso de Belo Monte e de Jupiá não é isolado. Levantamento do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), divulgado em maio de 2026, mostra que o Brasil voltou a ser o principal destino global dos investimentos chineses em 2025, recebendo US$ 6,1 bilhões, alta de 45% em relação a 2024 e o maior volume em sete anos[4]. O setor elétrico foi o campeão de captação, com US$ 1,79 bilhão, equivalente a 29,5% de todo o capital chinês que entrou no país no período, distribuídos entre usinas solares, parques eólicos, hidrelétricas e expansão de linhas de transmissão[5].
Entre 2007 e 2025, os investimentos chineses acumulados no Brasil somam US$ 85,5 bilhões em 355 projetos, segundo o mesmo estudo, apresentado pelo diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC, Tulio Cariello[6]. Além da eletricidade, mineração de minerais críticos e mobilidade elétrica também registraram forte avanço, com fabricantes como BYD e GWM iniciando produção local de veículos[6].
⚖ Contraponto
Nem todos os analistas leem esse avanço apenas como benefício mútuo. Setores da academia e de institutos de estudos estratégicos alertam que a concentração de ativos de infraestrutura crítica, como transmissão e geração de energia, sob controle de empresas estatais de um único país pode reduzir a margem de autonomia decisória do Estado brasileiro ao longo do tempo, especialmente em um contexto de disputa geopolítica mais ampla entre China e Estados Unidos[7]. Levantamento da imprensa especializada aponta que, entre 2007 e 2024, o setor elétrico absorveu cerca de 45% de todo o capital chinês investido no país, e que o número de novos empreendimentos no setor voltou a crescer com força em 2025, o que, para esses críticos, aprofunda uma dependência já consolidada e torna mais custosa qualquer eventual reversão futura[8]. Defensores da cooperação, por outro lado, argumentam que o Brasil mantém a titularidade regulatória do setor elétrico por meio da Aneel e que as concessões têm prazo definido, ficando sujeitas a regras de licitação, fiscalização e reversão de ativos ao poder concedente ao final do contrato.
O papel do Brasil na estratégia chinesa para a América Latina
A movimentação brasileira se encaixa em um roteiro mais amplo. O governo chinês tem reforçado, em fóruns multilaterais como o Fórum China-CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), o discurso de aprofundamento da cooperação energética com a região, com foco declarado em energias renováveis e infraestrutura de transmissão, dentro do guarda-chuva da Iniciativa do Cinturão e Rota. Na Argentina, o parque solar de Cauchari, construído a mais de 4 mil metros de altitude na Cordilheira dos Andes por empresas chinesas, é apresentado por Pequim como exemplo desse modelo, ao ter encerrado a dependência da província de Jujuy em relação à energia transmitida de outras regiões do país.
Para o Brasil, a equação até aqui tem sido favorável em termos de capital e tecnologia: o país recebe investimento direto, know-how em ultra-alta tensão e modernização de ativos que, de outra forma, exigiriam recursos públicos ou financiamento mais caro. O desafio para os próximos anos, apontado tanto por defensores quanto por críticos da cooperação, é garantir que esse fluxo de capital continue acompanhado de transferência real de tecnologia, geração de empregos qualificados e mecanismos regulatórios robustos que preservem a capacidade do Estado brasileiro de planejar sua própria matriz energética.
Perguntas frequentes
A State Grid Brazil Holding, subsidiária da estatal chinesa State Grid Corporation of China, opera o trecho de mais de três mil quilômetros entre Belo Monte (PA) e Paracambi (RJ) sob concessão de 30 anos, além de outras linhas no país[1].
A China Three Gorges Brasil (CTG Brasil), subsidiária da China Three Gorges Corporation, detém a concessão das duas hidrelétricas desde 2016 e conduz um programa de modernização com investimento superior a R$ 3 bilhões até 2039[3].
Segundo o CEBC, os aportes chineses no setor elétrico somaram US$ 1,79 bilhão em 2025, o maior volume desde 2020, dentro de um total de US$ 6,1 bilhões investidos pela China no Brasil naquele ano[5].
É um ponto de debate. Analistas de defesa e soberania apontam risco de concentração de ativos estratégicos sob controle de um único parceiro, enquanto o setor elétrico argumenta que a regulação da Aneel e os prazos de concessão preservam o controle público sobre a infraestrutura[7][8].