Economia · Turismo rural · Trabalho

Nota de atribuição: esta análise parte da reportagem de Nacho Meneses publicada pelo El País em 9 de outubro de 2026 sobre agricultores, artesãs e pequenos negócios rurais dos Bálcãs. As informações atribuídas ao jornal espanhol estão creditadas ao longo do texto, e o material foi ampliado com dados de fontes independentes e com o contexto brasileiro.

Na margem macedônia do lago Prespa, uma família que produz maçãs, cerejas e ameixas desde os anos 1960 percebeu que a fruta, sozinha, já não fechava a conta. O clima mudou, os preços também, e em 2018 a saída foi abrir a propriedade a visitantes: colheita no pé, refeições, eventos para empresas, demonstrações do trabalho no campo. A trajetória de Ana Labor e da fazenda Spirit of Prespa, relatada pelo El País, abre uma reportagem sobre gente que chega ao turismo sem formação em hotelaria, carregando apenas o que já sabe fazer1.

O movimento não é exclusivo dos Bálcãs. Ele se repete na Toscana, no interior da França e nas encostas da Serra Geral catarinense. A pergunta relevante para a economia não é se o turismo pode complementar a renda rural. É quanto complementa, para quem, e sob quais condições essa renda se sustenta depois que o visitante vai embora.

Quando a lavoura deixa de fechar a conta

A Albânia ilustra o problema com clareza. Segundo a OCDE, a agricultura respondia por 18,4% do PIB e 34,6% do emprego total do país em 2022, as maiores proporções dos Bálcãs Ocidentais5. O Banco Mundial, em avaliação noticiada pela Gazeta Tema, resume o descompasso: cerca de um em cada três albaneses trabalha no campo, mas a contribuição do setor à economia fica muito abaixo disso, reflexo de informalidade estrutural e baixa produtividade6. Muita gente ocupada, pouco valor por trabalhador.

Do outro lado da balança está um turismo em expansão acelerada. O país recebeu 10,1 milhões de visitantes estrangeiros em 2023 e 11,7 milhões em 2024, segundo dados do Ministério do Turismo citados pela A2 News3. Em 2025, o recorde chegou a 12,4 milhões, com receita de 4,4 bilhões de euros apenas nos nove primeiros meses do ano, alta anual de 14,5%, conforme a Gazeta Tema2. Um estudo da consultoria Altax aponta que os pernoites de não residentes cresceram 37,9% em 2025, mas que a sazonalidade ainda concentra entre 75% e 80% da demanda nos meses de pico4.

10,1 mi 11,7 mi 12,4 mi 2023 2024 2025
Visitantes estrangeiros na Albânia (milhões). Fontes: Ministério do Turismo da Albânia, via A2 News (2023 e 2024) e Gazeta Tema (2025). Elaboração: O Tecido.

Parte desse fluxo já sobe para as montanhas. O vale de Theth, nos Alpes albaneses, atrai cada vez mais caminhantes, mas a reportagem do El País descreve uma infraestrutura que corre atrás da demanda, com geradores a diesel quebrando o silêncio da paisagem e pouco espaço para estacionar1. A demanda chega antes da estrutura, e quem mora ali precisa se adaptar no meio do caminho.

Profissionalizar sem perder a casa

É em Theth que aparece o caso mais revelador da reportagem. Aida Gjeçaj administra há cerca de duas décadas uma casa de hóspedes familiar que, segundo o El País, passou de 10 ou 15 pessoas servidas por noite para algo em torno de 701. A mudança de escala obrigou a família a ampliar cozinha e equipe e a reorganizar compras, estoque e preparo. Mais importante: forçou a separação entre o orçamento da casa e o caixa do negócio. Ela relata ao jornal que antes comprava, produzia e vendia sem saber ao certo quanto sobrava, e que agora precisa controlar custos e conhecer o lucro real.

A lista de competências que Gjeçaj diz ter adquirido no programa TUI Futureshapers Albania é instrutiva justamente por ser prosaica: sistemas de pagamento e reservas, sincronização de disponibilidade entre plataformas, gestão de redes sociais1. Nada disso é técnica agrícola nem herança cultural. É administração de pequena empresa. A transição de economia doméstica para firma é o ponto em que muitos empreendimentos rurais travam, e nenhuma paisagem compensa uma conta que não fecha.

O que a anfitriã afirma preservar é o modo de receber: levar o hóspede ao posto de saúde se ele adoecer, lavar roupa, providenciar transporte. É esse traço que diferencia a hospedagem familiar de um hotel padronizado. O dilema econômico está em escalar sem diluir aquilo que o visitante veio buscar.

Visitante na porta não é cliente no caixa

Se a casa de hóspedes de Theth mostra os ganhos da profissionalização, o artesanato de Dubrovnik mostra seus limites. Jela Kusić borda no estilo tradicional de Konavle há décadas e vende a turistas há cerca de dez anos. Ao El País, ela observa que circula muita gente, mas pouca gente compra, e que sua renda ainda está abaixo do período pré-pandemia. No verão, trabalha nos restaurantes da família; no inverno, borda as peças que tentará vender na temporada seguinte1.

O problema é de preço por hora. Segundo a reportagem, um marcador de página leva cerca de duas horas para ficar pronto, e uma toalha grande pode levar anos1. O turista típico paga pelo souvenir, não pelo tempo incorporado nele. Por isso as oficinas, que vendem a experiência de aprender o ponto, tendem a remunerar melhor a mesma habilidade do que o objeto acabado. A conversão de ofício em experiência, defendida pelos programas de apoio, é antes de tudo uma tentativa de corrigir essa distorção de preço.

Visitante na porta não é o mesmo que cliente no caixa. Entre um e outro há preço, canal e tempo de trabalho que o turista não vê.

Kusić integra a rede de artesãs atendida pela organização social DEŠA, parceira do programa TUI Colourful Cultures. A primeira fase em Dubrovnik durou de novembro de 2023 a outubro de 2025, com orçamento total de pouco mais de 106 mil euros, segundo apresentação da própria DEŠA publicada pela Comissão Europeia8. O El País registra mais de 200 oficinas e mais de mil participantes nessa etapa1. A segunda fase, conforme o grupo TUI, prevê apoiar 215 artesãs e artistas ao longo de três anos, com formação em bordado, tecelagem, pintura, saboaria e modelagem em argila7.

Na mesma rede está Fátima Cimić, que, segundo o jornal espanhol, ajudou a recuperar a criação de bichos-da-seda na região depois que a guerra dos anos 1990 interrompeu a atividade, trazendo larvas da França1. Um desenho dela inspirado no bordado de Konavle foi escolhido para os kits de bordo da companhia aérea do grupo TUI7. É o tipo de visibilidade que agrega prestígio, mas que não equivale, por si, a renda recorrente.

Quem financia a ponte

Quase todos os casos da reportagem passam pela TUI Care Foundation, fundação criada pelo grupo TUI, um dos maiores operadores turísticos do mundo. Além do Colourful Cultures, a fundação mantém com a agência alemã de cooperação GIZ o programa TUI Field to Fork Western Balkans, que vai de janeiro de 2026 a março de 2028 e tem como objetivo ampliar emprego e renda em áreas rurais da Albânia, da Macedônia do Norte e de Montenegro integrando agricultura e turismo, conforme chamada pública da GIZ9.

Os perfis descritos pelo El País mostram graus diferentes de maturidade1. Orce Stojanoski deixou 17 anos de carreira no jornal Nova Makedonija para assumir o Chateau Orman, negócio familiar de agricultura, destilados e agroturismo, e começou pela formação em agricultura regenerativa antes de desenhar experiências turísticas. Em Montenegro, a família Bataković trocou a criação de animais por plantas medicinais durante a pandemia e agora testa eventos e hospedagem por aplicativo para descobrir quais segmentos rendem. Em Pogradec, na Albânia, os irmãos Cenkollari levam a produção de 20 hectares direto à mesa do próprio restaurante e, com apoio técnico, reduziram a acidez e aumentaram o volume do queijo que fabricam.

A lógica comum é verticalizar: em vez de vender a fruta ou o leite a preço de atacado, capturar a margem do licor, da geleia, da refeição e da estadia. É uma estratégia economicamente sólida quando há demanda estável. O próprio Bataković admite ao jornal que ainda está em fase de experimentação, e o restaurante dos Cenkollari tem a parte de visitação em obras1.

O limite da capacitação

A voz institucional da reportagem é Natalia Bayona, diretora executiva da ONU Turismo. Segundo o El País, ela defende que quem já vive da agricultura ou do artesanato não precisa de uma graduação de quatro ou cinco anos, e sim de competências específicas, como atendimento ao cliente e noções de contabilidade1. Bayona também argumenta que a educação turística deveria formar empreendedores, e não apenas bons empregados, e que a formação precisa ser planejada junto com os investimentos privados: se um hotel ou um grande evento é previsto com anos de antecedência, a qualificação de quem vai trabalhar ali também deveria ser.

O ponto mais forte do texto, porém, é a ressalva da própria Bayona. Microcertificações ajudam a comprovar habilidades pontuais, mas não substituem educação básica, e sem essa base dificilmente levam a empregos mais bem pagos1. Ela cita ainda destinos em que o custo da moradia obriga trabalhadores a dormir em embarcações ou a se deslocar de lancha até o emprego. A capacitação melhora a empregabilidade individual, mas não altera sazonalidade, nível salarial nem preço do aluguel. Essas variáveis dependem de política pública, de estrutura de mercado e de como o setor distribui o que arrecada.

Contraponto

Diversificar renda ou trocar uma dependência por outra?

Há boas razões para ceticismo. Programas financiados pela fundação de um operador turístico tendem a formar fornecedores de experiências para o próprio ecossistema desse operador. O alinhamento de interesses não invalida os resultados, mas recomenda medir impacto por renda líquida das famílias, e não por número de oficinas ou participantes. Além disso, trocar a dependência de preços agrícolas pela dependência de fluxos turísticos sazonais pode apenas mudar a fonte de volatilidade, como mostrou a pandemia, que derrubou a renda de artesãs como Kusić.

O argumento oposto também é consistente. Para propriedades pequenas, com terra fragmentada e baixa produtividade, a combinação de produção e visitação reduz o risco ao somar fontes de receita que não oscilam exatamente juntas. E o conhecimento adquirido em gestão, como no caso de Theth, serve ao negócio mesmo que o turismo desacelere. A evidência disponível não permite concluir qual efeito predomina, e por isso avaliações independentes de longo prazo seriam a contribuição mais útil desses programas.

O espelho brasileiro

O tema chega ao Brasil em momento oportuno. A Portaria MTur nº 25, de 3 de setembro de 2025, passou a permitir o cadastro de produtores rurais e agricultores familiares no Cadastur quando prestam serviços turísticos remunerados ligados à atividade principal, como a hospedagem rural, com o objetivo declarado de dar visibilidade a esse público e facilitar o acesso a políticas do Ministério do Turismo10. O Pronaf, por sua vez, já admite financiar atividades rurais não agropecuárias, incluindo turismo rural e artesanato, segundo explicação publicada pelo Land Portal11. A base potencial é grande: pelo Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, a agricultura familiar responde por cerca de 77% dos estabelecimentos rurais do país16.

Há também experiência acumulada. A Associação de Agroturismo Acolhida na Colônia nasceu em 1999 em Santa Rosa de Lima, município catarinense de pouco mais de 2 mil habitantes, inspirada na rede francesa Accueil Paysan, e hoje reúne cerca de 200 empreendimentos em Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro, segundo a NSC Total12. Um estudo publicado na revista Turismo em Análise, da USP, observou que a gestão nas propriedades da rede é familiar e pouco profissionalizada17. É exatamente a fronteira que Aida Gjeçaj atravessou em Theth.

No agregado, o turismo brasileiro vive números recordes. O ministro do Turismo, Gustavo Feliciano, afirmou que o setor reúne 2,44 milhões de trabalhadores formais, cerca de 5% da força de trabalho, e que o Fungetur viabilizou aproximadamente 6,5 mil contratos que somam R$ 2,94 bilhões, segundo a Agência Brasil 6113. O país recebeu mais de 9,2 milhões de turistas internacionais em 2025, recorde da série, conforme o Correio da Manhã14.

Esses dados, porém, captam sobretudo o emprego com carteira assinada. A série de estudos do Ipea sobre ocupação nas atividades características do turismo mostra há anos o peso da informalidade no setor15, e o turismo rural de base familiar opera em grande parte fora dessas estatísticas. O cadastro no Cadastur é um passo de formalização, não uma garantia de demanda. A lição dos Bálcãs é que registro, crédito e curso só se convertem em renda quando existe roteiro organizado, logística de acesso, meio de pagamento e um preço que remunere o tempo de trabalho. Sem isso, o agricultor brasileiro corre o risco de repetir a frase da bordadeira de Dubrovnik: muita visita, pouca venda.

Entre aprender e viver disso

A reportagem do El País termina com uma constatação que vale como síntese: a distância entre aprender algo novo e conseguir viver disso não depende apenas do trabalhador1. Depende de quais empregos o setor cria, de quanto paga e de que continuidade oferece. Os casos dos Bálcãs mostram que capacitação em gestão produz ganhos reais quando há demanda consolidada, como em Theth, e resultados frágeis quando o produto é intensivo em horas e o comprador é de passagem, como em Dubrovnik.

Para o Brasil, que acaba de abrir a porta institucional ao agricultor familiar no turismo, a pergunta útil não é quantos produtores vão se cadastrar. É quantos, daqui a três anos, terão renda líquida maior do que tinham só com a lavoura, e o que diferenciou esses dos demais. Medir isso desde já seria a melhor forma de não confundir movimento com resultado.

Perguntas frequentes

O que é agroturismo?

É a modalidade de turismo rural em que a propriedade agrícola continua produzindo e recebe visitantes para hospedagem, refeições, colheita, oficinas ou venda direta. A renda turística complementa a agrícola em vez de substituí-la.

Por que agricultores dos Bálcãs estão recorrendo ao turismo?

Mudanças climáticas, preços baixos, produtividade reduzida e dificuldade de acesso a mercados comprimem a renda agrícola. Ao mesmo tempo, países como a Albânia registram recordes de visitantes, com 12,4 milhões de estrangeiros em 2025.

Capacitação garante renda no turismo rural?

Não. Formação em gestão, atendimento e marketing digital melhora a operação, mas a renda depende de demanda estável, preço que remunere o tempo de trabalho, infraestrutura e condições como sazonalidade e custo de moradia. A diretora executiva da ONU Turismo, Natalia Bayona, ressalta que microcertificações não substituem a educação básica.

Agricultor familiar pode se cadastrar no Cadastur?

Sim. A Portaria MTur nº 25, de 3 de setembro de 2025, permite o cadastro de produtores rurais e agricultores familiares que prestam serviços turísticos remunerados ligados à atividade rural, como hospedagem. O cadastro é feito no site do Cadastur.

Existe crédito público para turismo rural no Brasil?

O Pronaf admite financiar atividades rurais não agropecuárias, como turismo rural e artesanato, para agricultores enquadrados no programa. Empresas do setor turístico também contam com o Fungetur, fundo federal de financiamento.

Há exemplos brasileiros consolidados de agroturismo familiar?

A Associação Acolhida na Colônia, criada em 1999 em Santa Rosa de Lima (SC) e inspirada na rede francesa Accueil Paysan, é o caso mais citado. A rede reúne cerca de 200 empreendimentos em Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro.