Política Por Ewerton Lopes — Curador Editorial 11 de outubro de 2026 Leitura: 9 min

A eleição geral brasileira em que um deputado federal ultrapassaria pela primeira vez a marca de 3 milhões de votos terminou com dois. Nikolas Ferreira (PL-MG), de 30 anos, recebeu 3.119.318 votos em Minas Gerais, o equivalente a 24,7% dos eleitores que compareceram às urnas no estado. Lucas Pavanato (PL-SP), de 28, somou 3.038.438 em São Paulo.3 Nenhum dos dois construiu essa base em sindicatos, igrejas de bairro ou décadas de mandato. Ela foi erguida em vídeos curtos, transmissões ao vivo e confrontos desenhados para circular.

Reportagem de Naiara Galarraga Gortázar no El País, publicada neste domingo (11), descreve o fenômeno como um salto quase direto do Instagram e do TikTok para a Câmara, protagonizado por candidatos jovens, com milhões de seguidores e pouca bagagem partidária.1 O diagnóstico é útil, mas pede ajustes quando confrontado com os números do Tribunal Superior Eleitoral e com a história recente do Congresso. A personalização do voto pela internet não começou em 2026, não é exclusiva da direita e não opera sozinha. O que mudou foi a escala, e a escala agora pesa sobre a disputa presidencial.

Os números de um recorde

Nikolas já havia sido o deputado mais votado do país em 2022, com 1.492.047 votos. Quatro anos depois, mais do que dobrou a marca.3 A trajetória de Pavanato é ainda mais ilustrativa da velocidade do processo: em 2022 ficou na suplência da Assembleia Legislativa de São Paulo com cerca de 36 mil votos; em 2024 foi eleito vereador da capital paulista com 161 mil; em 2026 multiplicou essa votação por quase 19. Durante a campanha, os dois gravaram peças em conjunto, com o deputado mineiro pedindo votos ao aliado junto ao eleitorado paulista, segundo levantamento do Correio.4

No outro campo, Erika Hilton (PSOL-SP) foi reeleita com 1.596.472 votos e tornou-se a mulher mais votada da história da Câmara, de acordo com dados do TSE compilados pelo O Povo.5 O recorde feminino anterior pertencia a Joice Hasselmann, que somou 1.078.666 votos em 2018.6 Em 2022, Hilton havia recebido 256.903 votos; a nova votação é mais de seis vezes maior. Já a mineira Ana Elisa (PT-MG), estudante de Direito de 21 anos, obteve 524.219 votos em sua primeira disputa e ficou em sétimo lugar no ranking nacional.4

Direita e centro-direitaEsquerda e centro-esquerda
Os dez deputados federais mais votados do Brasil em 2026 Gráfico de barras horizontais com a votação, em milhares de votos, dos dez candidatos à Câmara mais votados em 2026. Nikolas Ferreira (PL-MG)3.119 Lucas Pavanato (PL-SP)3.038 Erika Hilton (PSOL-SP)1.596 André Fernandes (PL-CE)684 Sâmia Bomfim (PSOL-SP)583 Julia Zanatta (PL-SC)560 Ana Elisa (PT-MG)524 Kim Kataguiri (Missão-SP)520 Tabata Amaral (PSB-SP)476 Jeffrey Chiquini (Novo-PR)425
Votos em milhares. Os dez primeiros somaram cerca de 11,5 milhões de votos, dos quais aproximadamente 72% foram para candidatos de direita e centro-direita. Fonte: TSE, via Correio e Agência Brasil (5/10/2026). Classificação ideológica: O Tecido.

Uma infraestrutura que a direita montou primeiro

A leitura de que basta ter seguidores para ganhar uma cadeira é tentadora e insuficiente. Ouvida pelo El País, a cientista política Carol Althaller, do Instituto Update, sustenta que a presença digital, isoladamente, não decide eleição: ela funciona quando se combina com trajetória, organização partidária, dinheiro e vínculo territorial. Segundo a pesquisadora, a extrema direita brasileira trabalhou de forma sistemática para montar essa engrenagem.1

Os resultados do PL reforçam o argumento. Projeções divulgadas na noite da apuração indicavam que o partido sairia das urnas com ao menos 120 deputados, contra os 98 que tem hoje, o que o tornaria a maior bancada da Casa.14 Num sistema proporcional de lista aberta, um candidato com 3 milhões de votos não elege apenas a si mesmo. Sua votação entra no cálculo do quociente partidário e arrasta para a Câmara colegas de legenda com votações modestas. O influenciador vira, na prática, o principal ativo eleitoral do partido.

O caso da paulista Eduarda Campopiano (PL) mostra a velocidade dessa conversão. Eleita vereadora em Praia Grande, no litoral paulista, com 3.583 votos, ela cultivou um nicho nas redes e, dois anos depois, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa com votação próxima de 2 milhões, a maior entre as mulheres eleitas para a Alesp.113 O repertório é conhecido: pautas morais, provocação, alta carga emocional e formatos que o algoritmo recompensa. Segundo o El País, um vídeo publicado por ela com outro candidato quatro dias antes do pleito acumulou centenas de milhares de interações.1

Há também uma dimensão sociológica. Citada pelo jornal espanhol, a socióloga Rosana Pinheiro-Machado observou à Folha de S.Paulo que o Brasil está entre os países com maior número de pessoas que se declaram influenciadoras, e que esses candidatos ocupam o topo de uma pirâmide de aspiração sobre como as pessoas querem se ver representadas.1 Althaller acrescenta um alerta de método: entender o voto de trabalhadores autônomos, pequenos empreendedores e trabalhadores de plataforma exige não reduzir esse eleitor a vítima de desinformação, nem presumir que ele concorda com tudo o que diz o candidato escolhido.1

O algoritmo não substitui o partido. Mas passou a decidir quem o partido coloca na vitrine.Análise O Tecido

A esquerda corre atrás: Ana Elisa e as selfies de Lula

Do lado governista, o primeiro turno produziu uma autocrítica rara pela rapidez. Ana Elisa, filiada ao PT apenas em março de 2026 depois de passagem pelo PV, gravou logo após a apuração um apelo para que a esquerda revisse a forma como usa as redes, como registrou o Congresso em Foco.7 Dois dias depois, estava em Brasília com o presidente.

O encontro de quarta-feira (7) redesenhou a comunicação da campanha. Segundo o SBT News, Lula passou a gravar vídeos em formato de selfie, com linguagem direta e pouca produção; jovens parlamentares eleitos criaram um grupo de mensagens para definir uma pauta principal por dia; e a orientação foi trocar a comparação entre governos passados por propostas voltadas ao futuro.8 No mesmo encontro, Lula teria dito ao presidente do PT, Edinho Silva, que esta foi a campanha menos organizada de que participou desde 1989, conforme relato do Agora RN.9

A mudança tem um componente pessoal. O El País informa que Lula não usa celular próprio e que, quando precisa telefonar, recorre ao aparelho de alguém de seu círculo próximo; o jornal relata ainda disputas internas, envolvendo a primeira-dama Janja e colaboradores, pelo controle dos perfis oficiais.1 Na sexta-feira (9), em ato em Ceilândia, no Distrito Federal, o presidente brincou que estaria virando o "rei da selfie".10 A reação adversária foi imediata: Nikolas ironizou os cortes de edição de um dos vídeos, sugerindo que o presidente não conseguiria gravar mais que três frases seguidas.15 O episódio resume a assimetria. Um lado aprende o formato; o outro domina o formato e o usa para atacar o aprendizado.

A campanha petista combina a ofensiva digital com instrumentos de governo. Segundo o El País, Lula eliminou por decreto tributos sobre combustíveis nesta reta final.1 O presidente, que não compareceu a debates no primeiro turno, também confirmou presença nos confrontos televisivos do segundo, incluindo o da TV Globo, previsto para 23 de outubro.10

Minas Gerais como termômetro

Nikolas e Ana Elisa vêm do mesmo estado, e isso não é detalhe. Como lembra o El País, Minas Gerais costuma acompanhar o vencedor nacional da eleição presidencial, e no último domingo Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula tanto em Minas quanto no país.1 O estado concentra, portanto, os dois nomes mais associados ao fenômeno digital em cada campo e o eleitorado historicamente mais preditivo do resultado.

O que dizem as regras do TSE na era da IA

A transformação das redes em principal arena eleitoral tem contrapartida regulatória. A Resolução TSE nº 23.755, de 2 de março de 2026, alterou o artigo 9º-B da Resolução nº 23.610/2019 e consolidou as regras sobre inteligência artificial na propaganda. Segundo o próprio tribunal, o responsável pela propaganda deve informar quando usa conteúdo sintético, e os provedores têm obrigações para conter a circulação de deepfakes.11

Dois pontos têm efeito direto na reta final. A norma veda a publicação e o impulsionamento de novos conteúdos produzidos ou alterados por IA no intervalo entre 72 horas antes e 24 horas depois do encerramento da votação, mesmo que estejam identificados. E, conforme análise publicada pelo Correio Braziliense, proíbe que sistemas de inteligência artificial recomendem candidaturas, ainda que o usuário peça.12 Para candidatos cujo principal ativo é a produção contínua de conteúdo, essas janelas importam.

O que observar até 25 de outubro

  • A conversão da força parlamentar em voto presidencial. Os 3 milhões de votos de Nikolas e Pavanato não se transferem automaticamente para Flávio, mas indicam a capacidade de mobilização da rede bolsonarista nos dois maiores colégios eleitorais.
  • O efeito real das selfies de Lula. A mudança de formato é recente; o teste é se ela alcança eleitores fora da base já convertida, sobretudo jovens e trabalhadores de plataforma.
  • As pesquisas. Ao longo de 2026, os principais institutos apontavam Lula à frente no primeiro turno, e as urnas inverteram a ordem, conforme registrou o Movimento Econômico.16 A calibragem dos levantamentos de segundo turno será observada com mais cautela.
  • A janela final da propaganda. A vedação a novos conteúdos de IA nas 72 horas anteriores ao fim da votação coincide com o debate da TV Globo, marcado para 23 de outubro.

Perguntas frequentes

Quem foi o deputado federal mais votado do Brasil em 2026?

Nikolas Ferreira (PL-MG), reeleito com 3.119.318 votos, a maior votação da história para a Câmara. Lucas Pavanato (PL-SP) ficou em segundo, com 3.038.438.

Qual foi o resultado do primeiro turno presidencial de 2026?

Com 100% das seções totalizadas, Flávio Bolsonaro (PL) obteve 56.104.503 votos (47,03% dos válidos) e Lula (PT), 53.879.538 (45,16%). A diferença foi de 2.224.965 votos. O segundo turno ocorre em 25 de outubro.

Quem é a mulher mais votada da história da Câmara dos Deputados?

Erika Hilton (PSOL-SP), com 1.596.472 votos em 2026. O recorde anterior era de Joice Hasselmann, com 1.078.666 votos em 2018.

O que as regras do TSE dizem sobre IA na campanha de 2026?

A Resolução nº 23.755/2026 exige a identificação de conteúdo sintético, proíbe deepfakes e veda novos conteúdos produzidos ou alterados por IA entre 72 horas antes e 24 horas depois do encerramento da votação.

Por que Minas Gerais é observada de perto?

O estado costuma acompanhar o vencedor nacional da eleição presidencial. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou à frente em Minas, que também elegeu Nikolas Ferreira e Ana Elisa, expoentes digitais de cada campo.

Nota de atribuição. Este artigo parte da reportagem "Directos desde TikTok o Instagram a un escaño en Brasil", de Naiara Galarraga Gortázar, publicada pelo El País em 11 de outubro de 2026. O texto não é tradução nem reprodução do original: os dados foram verificados e complementados com informações do Tribunal Superior Eleitoral e da imprensa brasileira, e a análise é de responsabilidade do O Tecido.