Política · Estados Unidos · Direitos Humanos
Durante quase noventa anos, os Estados Unidos mantiveram suas execuções atrás de muros. A pena de morte continuou existindo, com seus debates e suas falhas, mas o ato de matar deixou de ser público. Essa fronteira está prestes a cair. O Pentágono confirmou que o fuzilamento de Nidal Hasan, ex-major do Exército condenado pelo massacre de Fort Hood em 2009, será transmitido ao vivo. A data anunciada é 3 de dezembro.2
A decisão não reabre apenas a discussão sobre a pena capital. Ela devolve ao Estado uma função que o Ocidente levou dois séculos para abandonar: a de encenar a morte diante de uma plateia. Com uma diferença decisiva. A praça pública de antes tinha limites físicos. A de agora é a internet.
O que foi anunciado
Em entrevista a um canal conservador, o secretário de Defesa Pete Hegseth afirmou que a execução seria pública e justificou a escolha pela necessidade de mostrar que esse tipo de crime tem consequências graves. Logo depois, segundo a Associated Press, o Pentágono confirmou que haverá transmissão ao vivo. Hasan foi condenado por matar 13 pessoas e ferir 32 dentro da base militar, no Texas.2
O caso já seria histórico sem a câmera. Se for levada adiante, será a primeira execução militar americana desde 1961 e o primeiro fuzilamento militar desde 1945, conforme a Fox News.3 O presidente Donald Trump aprovou o uso do pelotão de fuzilamento por recomendação de Hegseth. Segundo o Axios, o Departamento de Defesa ainda não informou em qual plataforma a transmissão será hospedada; o órgão costuma publicar vídeos no X e no YouTube.4
A praça pública que o Ocidente desmontou
A execução como espetáculo foi regra durante séculos. Na Europa, cadafalsos eram montados em praças centrais, e a multidão fazia parte do ritual. O filósofo Michel Foucault abre Vigiar e Punir (1975) com a descrição do suplício de Robert-François Damiens em Paris, em 1757, justamente para mostrar como a punição moderna nasceu do recolhimento do corpo do condenado para longe dos olhos do público. A lógica era clara: o espetáculo, em vez de educar, excitava, dividia e às vezes despertava simpatia pelo condenado.
O Brasil conhece bem essa história. Em 21 de abril de 1792, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi enforcado no Rio de Janeiro, e partes de seu corpo foram expostas em caminhos de Minas Gerais. A Coroa portuguesa queria que todos vissem. O efeito, a longo prazo, foi o oposto do pretendido: o condenado virou mártir e, depois, herói nacional.
Nos Estados Unidos, o último capítulo dessa tradição foi escrito em Owensboro, Kentucky. Em 14 de agosto de 1936, Rainey Bethea, um jovem negro de 22 anos, foi enforcado diante de uma multidão que a Mother Jones estima entre 15 mil e 20 mil pessoas.5 A repercussão nacional foi tão negativa que, em 1938, o legislativo estadual mudou a lei. A partir dali, a morte decretada pelo Estado passou a acontecer longe da vista do público em todo o país.
Do cadafalso à tela: o que muda com a escala
A comparação com a praça pública é inevitável, mas incompleta. Em 1936, a plateia de Owensboro era grande, porém finita: quem estava lá viu, quem não estava leu nos jornais. Uma transmissão digital elimina esses três limites. Não há teto de audiência, não há fronteira geográfica e não há fim, porque o vídeo pode ser gravado, recortado, legendado e redistribuído indefinidamente por perfis que o Estado não controla.
Em 1936, a plateia cabia numa praça de Kentucky. Em 2026, ela não tem bordas, nem data de validade.
Há ainda uma questão de público. A multidão de antigamente escolhia comparecer. Na lógica das plataformas, conteúdo de alto impacto emocional tende a circular por recomendação e compartilhamento, alcançando pessoas que não procuraram por ele, inclusive adolescentes. O Estado americano, que regula o que pode ser exibido na televisão aberta, estaria produzindo diretamente um dos conteúdos mais extremos possíveis.
Austin Sarat, especialista em pena de morte do Amherst College, resumiu a objeção em entrevista citada pela The Week: a transmissão não vai educar, vai aterrorizar.6 A mesma publicação lembra que regulamentos federais proíbem gravar execuções sem ordem judicial específica, o que coloca a iniciativa em terreno jurídico incerto.
A contradição com o discurso sobre o Irã
O anúncio expõe uma incoerência difícil de contornar. A AP registra que Trump já havia criticado execuções públicas no Irã e chegou a usar a ameaça de enforcamento de manifestantes iranianos como justificativa para ação militar.2 O argumento perde força quando Washington passa a adotar, com tecnologia mais potente, a mesma lógica de exibição punitiva.
A crítica, por isso, não veio só da oposição. O senador republicano Thom Tillis, que apoia a pena de morte para Hasan, classificou a transmissão como repugnante e associou execuções públicas a ditaduras como Irã e Afeganistão, segundo o The Hill.7 O democrata Chris Murphy chamou a execução pública de "medieval" e perguntou se o governo estaria imitando os vídeos do Estado Islâmico. Ex-condenados também se manifestaram: Damien Echols, que passou quase duas décadas no corredor da morte no Arkansas, pediu publicamente que as pessoas não assistam, relata a Newsweek.8
A leitura do Guardian
Em coluna publicada nesta sexta-feira, o jornalista Paul Daley, do The Guardian Australia, descreve o plano como uma espécie de "TV da execução" e sustenta que ele representa um novo ponto baixo moral para os Estados Unidos.1 O texto vai além da crítica ao governo Trump: cobra que líderes políticos australianos condenem a decisão sem ressalvas e questiona a dependência estratégica da Austrália em relação a Washington, inclusive no acordo Aukus de submarinos. A pergunta de fundo vale para qualquer aliado: até que ponto a proximidade com os Estados Unidos obriga ao silêncio diante de escolhas que contrariam os próprios valores?
Contraponto
Há argumentos a favor da transmissão que merecem ser considerados. Deborah Denno, professora de direito da Universidade Fordham e estudiosa da pena de morte, disse à AP que transmitir uma execução poderia torná-la muito mais transparente e mostrar ao público tudo o que a pena capital envolve, num momento em que execuções malsucedidas voltaram ao debate.6 Nessa linha, esconder a execução seria uma forma de tornar a pena de morte mais confortável para a sociedade que a autoriza.
O governo, por sua vez, sustenta o efeito dissuasório e o direito das vítimas de ver a sentença cumprida; sobreviventes do ataque já disseram que pretendem assistir.3 O problema é que a literatura sobre o efeito dissuasório da pena de morte é, no mínimo, inconclusiva, e transparência não exige transmissão aberta: a própria regra do Exército já prevê a presença de veículos de imprensa como testemunhas.7
O Brasil diante do espelho
No Brasil, a discussão parece distante do ponto de vista jurídico. A Constituição de 1988 proíbe a pena de morte no artigo 5º, inciso XLVII, com exceção do caso de guerra declarada, e essa garantia é considerada cláusula pétrea. Do ponto de vista social, porém, o tema está longe de resolvido. Pesquisa Datafolha realizada no fim de 2017 e divulgada em janeiro de 2018 mostrou 57% dos entrevistados favoráveis à pena capital, o maior índice da série iniciada em 1991.9
O sociólogo Claudio Beato, da UFMG, chamou a atenção anos antes para outro aspecto, em análise publicada pelo Conjur: parte da população percebe que já existe no país uma pena de morte informal, praticada fora da lei.10 Some-se a isso a circulação frequente, em redes sociais e grupos de mensagem, de vídeos de linchamentos e mortes violentas. O Brasil não precisa de um Estado que transmita execuções para conviver com a morte como conteúdo. É justamente por isso que o precedente americano preocupa: ele oferece legitimidade institucional a uma lógica que, aqui, já circula sem freio.
O que está em jogo
O crime de Hasan foi brutal, e a sentença foi confirmada após mais de uma década de recursos. Nada disso está em discussão neste texto. O que está em discussão é a forma. Quando o Estado decide não apenas punir, mas exibir a punição para milhões de pessoas, ele muda a natureza do ato: a justiça deixa de ser cumprida e passa a ser encenada. A modernidade penal se construiu sobre a ideia de que a sanção pertence ao direito, não ao espetáculo. A transmissão anunciada para 3 de dezembro aponta na direção oposta, e com um alcance que nenhum cadafalso jamais teve.
Perguntas frequentes
Quando será a execução de Nidal Hasan?
O Exército marcou o fuzilamento para 3 de dezembro de 2026, em Fort Hood, no Texas, com transmissão ao vivo confirmada pelo Pentágono. Especialistas em direito militar apontam que um pedido de habeas corpus na Justiça civil pode adiar a data.
Quando foi a última execução pública nos Estados Unidos?
Em 14 de agosto de 1936, quando Rainey Bethea foi enforcado em Owensboro, Kentucky, diante de milhares de pessoas. Em 1938, o estado levou as execuções para dentro dos presídios.
Por que a transmissão é controversa?
Porque transforma a punição em espetáculo, levanta questões sobre a dignidade do condenado e aproxima os EUA de práticas de regimes autoritários. A crítica vem inclusive de defensores da pena de morte.
É legal transmitir uma execução nos EUA?
O cenário é incerto. Regulamentos federais proíbem gravar execuções sem ordem judicial específica, e advogados consideram a medida sem precedente na era moderna, o que abre espaço para contestação.
O Brasil tem pena de morte?
Não. A Constituição de 1988 proíbe a pena de morte, salvo em caso de guerra declarada (art. 5º, XLVII). Mesmo assim, pesquisas de opinião indicam apoio majoritário à medida na população.
Nota de atribuição: este artigo foi elaborado a partir da coluna de Paul Daley publicada no The Guardian em 9 de outubro de 2026 (leia o original), complementada por apuração independente em agências e veículos internacionais e brasileiros. O texto não reproduz nem traduz o original; trechos citados são creditados ao longo da análise.
Ewerton Lopes — Curador Editorial