Caderno Educação
Por Ewerton Lopes — Curador Editorial São Paulo Leitura: 8 min

Um diploma universitário deixou de ser garantia de que quem o carrega sabe interpretar um texto médio ou resolver uma conta simples de porcentagem. É essa constatação, incômoda para qualquer sociedade que aposta na educação superior como motor de mobilidade, que atravessa a entrevista do economista e escritor espanhol Santiago Ávila ao jornal El País, publicada em 13 de agosto de 2026. Autor do ensaio Tontocracia. En busca de la sensatez perdida, Ávila argumenta que o mundo contemporâneo passou a premiar a aparência de competência mais do que a competência em si — e que essa inversão de valores começa a corroer justamente as instituições que deveriam formar cidadãos com critério: a escola e a universidade.

A afirmação central do autor, feita ao jornalista Nacho Meneses, é direta: nunca se viu tantos portadores de diploma de ensino superior classificados como analfabetos funcionais. No Brasil, os números disponíveis dão sustentação empírica a esse alerta, ainda que o cenário nacional tenha contornos próprios. Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2024, divulgado pela ONG Ação Educativa em parceria com a Fundação Itaú, Fundação Roberto Marinho, Instituto Unibanco, Unesco e Unicef, 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais — patamar idêntico ao registrado em 2018, o que indica seis anos sem avanço no domínio prático da leitura, da escrita e da matemática do dia a dia.

O dado mais relevante para o argumento de Ávila, porém, está no recorte por escolaridade. O próprio Inaf mostra que, entre as pessoas classificadas no nível mais alto da escala — o alfabetismo "proficiente" —, mais da metade cursou ou está cursando o ensino superior, o que por si só evidenciaria a força da universidade como formadora de competências. O problema é o inverso: uma fatia relevante de quem passa pela graduação não chega a esse patamar, permanecendo em níveis elementares de compreensão de texto e de cálculo, mesmo depois de anos de formação acadêmica.

"A sociedade decide quais comportamentos premia e quais tolera." Santiago Ávila, em entrevista ao El País

O que dizem as avaliações internacionais sobre o Brasil

Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), aplicado pela OCDE a jovens de 15 anos, ajudam a explicar por que o problema aparece já antes da universidade. Na edição de 2022, a mais recente com resultados publicados — a aplicação de 2025 teve os testes recolhidos em abril e maio daquele ano, com divulgação prevista pela OCDE apenas para setembro de 2026 —, o Brasil obteve 379 pontos em matemática, 410 em leitura e 403 em ciências, patamares estatisticamente estáveis em relação a 2018. Metade dos estudantes brasileiros ficou abaixo do nível mínimo de proficiência em matemática e ciências, e apenas 2% atingiram os níveis mais altos de leitura, contra 7% na média dos países da OCDE. Quem chega à universidade com essas lacunas raramente as resolve sozinho ao longo da graduação, e o diploma acaba certificando um percurso, não necessariamente o domínio de competências básicas de leitura e raciocínio.

Ávila situa esse fenômeno dentro de um diagnóstico mais amplo, batizado por ele de "tontocracia": uma lógica social, segundo o autor, em que a aparência de competência rende mais reconhecimento do que a competência real, tanto na política quanto nas empresas e nas salas de aula. Ele relata, na entrevista ao El País, dificuldades crescentes em manter a autoridade pedagógica diante de famílias que rejeitam qualquer reprovação e de alunos pouco habituados a lidar com frustração acadêmica — um retrato que, ainda que descreva o contexto espanhol, encontra ecos em debates brasileiros sobre evasão, retenção e flexibilização de critérios avaliativos no ensino superior.

A inteligência artificial como atalho — e como risco

Um dos pontos mais discutidos por Ávila é a relação entre inteligência artificial e conhecimento. Para ele, a IA generativa funciona bem como ferramenta operacional, mas não substitui a base de conhecimento prévio necessária para avaliar se uma resposta gerada por máquina está correta. Sem essa base, argumenta, o usuário simplesmente não tem como discernir.

O comportamento dos estudantes brasileiros confirma a urgência dessa discussão. Uma pesquisa da Opera, divulgada em agosto de 2026 com mais de 2.400 estudantes brasileiros a partir de 14 anos, encontrou que 78% já usam inteligência artificial no processo de aprendizagem, e 34% iniciam pesquisas escolares diretamente por chatbots, antes mesmo de recorrer a mecanismos de busca tradicionais. Apenas 20% dos entrevistados estudam em instituições com regras estabelecidas para o uso dessas ferramentas — um vácuo regulatório que amplia o risco apontado por Ávila: se o aluno não tem repertório prévio para checar o que a IA produz, a tecnologia deixa de ampliar conhecimento e passa a substituí-lo.

No Brasil, esse debate se cruza com a tramitação do PL 2338/2023, o Marco Legal da IA, ainda em análise na Câmara dos Deputados, que discute, entre outros pontos, diretrizes de uso responsável de sistemas de inteligência artificial em contextos educacionais e de proteção a públicos vulneráveis — tema que deve ganhar peso à medida que a adoção de IA nas escolas se consolida.

Contraponto: nem toda leitura da IA na sala de aula é alarmista

Parte da comunidade acadêmica brasileira resiste à leitura mais pessimista sobre inteligência artificial e aprendizagem. Estudos publicados em periódicos de educação em 2026 defendem que a IA, usada com mediação pedagógica adequada, pode ampliar o acesso à informação e personalizar o ensino, desde que professores atuem como curadores do processo — e não como espectadores dele. Nessa leitura, o problema não estaria na ferramenta, mas na ausência de formação docente e de políticas escolares claras para seu uso, o que reforça a tese de que a solução passa por investimento em formação de professores, não por rejeição da tecnologia.

Corresponsabilidade: da família à universidade

A tese central do livro de Ávila — de que a responsabilidade pela "tontocracia" não recai apenas sobre lideranças políticas e empresariais, mas sobre a sociedade que normaliza a mediocridade — dialoga com um debate brasileiro recorrente sobre o papel das famílias, das escolas e das próprias instituições de ensino superior na manutenção de padrões de exigência. Pesquisadores do Inaf já haviam identificado, antes mesmo da publicação do livro, que a escolaridade mais alta não garante, isoladamente, alfabetismo consolidado: entre pessoas com apenas os anos iniciais do ensino fundamental, oito em cada dez permanecem analfabetas funcionais, mas mesmo entre universitários persistem lacunas relevantes de compreensão leitora e numérica, segundo o próprio indicador.

Para o caderno Educação de O Tecido, o recorte mais relevante da entrevista não é o diagnóstico em si — amplamente documentado por décadas de pesquisa em educação —, mas a proposta de solução defendida por Ávila: formar cidadãos adultos, com critério próprio, capazes de tolerar o desconforto do erro e da correção. Trata-se de uma discussão que ultrapassa fronteiras nacionais e que, no caso brasileiro, encontra dados concretos para sustentá-la, da estagnação do Inaf à disseminação acelerada e pouco regulada da inteligência artificial nas salas de aula.

Esta reportagem foi inspirada na entrevista "Santiago Ávila, escritor: 'Es la primera vez que vemos a tantos titulados superiores que son analfabetos funcionales'", de Nacho Meneses, publicada pelo jornal El País em 13 de agosto de 2026. A apuração de dados brasileiros e a contextualização são de autoria própria de O Tecido.

Perguntas frequentes

O que é analfabetismo funcional?

É a condição de quem sabe ler e escrever formalmente, mas não consegue interpretar textos de complexidade média nem resolver problemas matemáticos simples do cotidiano, como calcular uma porcentagem ou seguir uma bula de remédio.

Quantos brasileiros são analfabetos funcionais, segundo o Inaf?

Segundo o Inaf 2024, 29% da população brasileira entre 15 e 64 anos está nessa condição, o mesmo patamar registrado em 2018.

Ter diploma universitário garante que a pessoa não seja analfabeta funcional?

Não necessariamente. Embora a maior parte dos indivíduos classificados no nível mais alto do Inaf tenha passado pelo ensino superior, também há graduados que permanecem em níveis elementares de leitura e matemática, o que sustenta o alerta feito por Santiago Ávila em sua entrevista ao El País.

O que é a "tontocracia" descrita por Santiago Ávila?

É o conceito, desenvolvido no livro Tontocracia. En busca de la sensatez perdida, que descreve uma lógica social em que a aparência de competência e a comodidade de respostas fáceis passam a ser mais valorizadas do que o conhecimento efetivo, tanto na política quanto na educação e nas empresas.

Quantos estudantes brasileiros já usam inteligência artificial para estudar?

Uma pesquisa da Opera divulgada em agosto de 2026 encontrou que 78% dos estudantes brasileiros já utilizam IA no processo de aprendizagem, e 34% iniciam pesquisas escolares diretamente por chatbots.

Em números

29% dos brasileiros de 15 a 64 anos são analfabetos funcionais (Inaf 2024)
54% dos brasileiros no nível "proficiente" de alfabetismo cursam ou cursaram o ensino superior (Inaf)
50% dos estudantes de 15 anos ficaram abaixo do nível mínimo em matemática no Pisa 2022
78% dos estudantes brasileiros já usam IA para estudar (Opera, 2026)

Linha do tempo

  • 2001Início da série histórica do Inaf, medindo alfabetismo funcional no Brasil.
  • 2018Analfabetismo funcional é medido em 29% da população de 15 a 64 anos; série é interrompida pela pandemia.
  • 2022Pisa registra queda global de desempenho, com Brasil estável, mas abaixo da média da OCDE.
  • Mai/2025Inaf retoma a série após seis anos e confirma estagnação em 29%.
  • Ago/2026Santiago Ávila publica "Tontocracia" e concede entrevista ao El País sobre analfabetismo funcional entre titulados.
  • Set/2026OCDE deve divulgar os resultados do Pisa 2025, aplicado no Brasil em 2025.

Glossário

Alfabetismo funcional
Capacidade de usar leitura, escrita e matemática em situações práticas do dia a dia, além do domínio técnico da alfabetização.
Inaf
Indicador de Alfabetismo Funcional, pesquisa brasileira aplicada desde 2001 pela Ação Educativa e pela Conhecimento Social.
Pisa
Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, teste trienal da OCDE aplicado a jovens de 15 anos em cerca de 80 países.
Tontocracia
Conceito cunhado por Santiago Ávila para descrever a valorização social da aparência de competência em detrimento do conhecimento real.

Referências

  1. Nacho Meneses. "Santiago Ávila, escritor: 'Es la primera vez que vemos a tantos titulados superiores que son analfabetos funcionales'". El País, 13/08/2026
  2. Santiago Ávila. Tontocracia. En busca de la sensatez perdida (Vergara, 2026)
  3. Ação Educativa / Fundação Itaú. Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) — edição 2024
  4. Fundação Itaú. Analfabetismo funcional atinge 29% dos brasileiros
  5. Inep/MEC. Resultados do Pisa 2022
  6. Inep. Pisa 2025 — aplicação e cronograma de divulgação
  7. Sindpd. IA já é usada por quase 80% dos estudantes brasileiros