Caderno Educação · Mundo · Gênero

Por Ewerton Lopes — Curador Editorial · 21 de outubro de 2026

Este texto parte da reportagem “Las mujeres chinas buscan abrirse paso más allá de los roles tradicionales”, de Inma Bonet, publicada pelo El País em 21 de outubro de 2026. Trechos e relatos atribuídos à reportagem são creditados ao jornal espanhol. A análise, os dados complementares e o recorte brasileiro são de responsabilidade de O Tecido.

Em resumo

  • Mulheres já são mais da metade dos estudantes do ensino superior na China, mas o país ocupa a 103ª posição entre 148 economias no índice de igualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial.
  • Com o ativismo feminista independente cada vez mais restrito e a internet sob campanhas periódicas de censura, livrarias, bares e oficinas de escrita viraram espaços informais de formação crítica.
  • O governo chinês, diante da menor natalidade desde 1949, reforça o papel da mulher na família e no aumento dos nascimentos.
  • O Brasil vive versão própria do mesmo paradoxo: mulheres estudam mais que os homens, mas recebem cerca de 79% do rendimento deles.

Na porta de uma casa de shows em um dos becos históricos de Pequim, duas jovens de pouco menos de 30 anos descrevem para a reportagem do El País o dilema da sua geração. Têm diploma universitário e independência financeira que suas avós nunca tiveram. Ainda assim, dizem ser tratadas como meninas no escritório e cobradas, pelo Estado, como futuras mães.1 O relato abre um retrato publicado nesta quarta-feira (21) pela correspondente Inma Bonet sobre como livrarias, coquetelarias e oficinas de escrita em Pequim e Xangai passaram a funcionar como salas de aula paralelas, onde mulheres discutem desigualdade muitas vezes sem pronunciar a palavra feminismo.

Para quem acompanha educação, a reportagem levanta uma pergunta incômoda. O que acontece com uma geração que conquistou paridade no acesso ao ensino superior, mas não encontra na universidade espaço para pensar criticamente a própria condição? Uma das entrevistadas resume a lacuna: a faculdade não ensinou pensamento crítico nem tratou de feminismo, e por isso elas precisam se educar por conta própria.1

Paridade no diploma, distância no poder

Os números oficiais chineses mostram um avanço educacional inegável. Segundo livro branco divulgado pelo Conselho de Estado em setembro de 2025, as mulheres representavam 50,76% dos estudantes do ensino superior em 2024, mais de 14 pontos percentuais acima do registrado em 1995, e já eram metade dos alunos de pós-graduação.7 Em 1978, no início da abertura econômica, elas eram pouco menos de um quarto dos universitários.

O avanço na sala de aula, porém, não se converteu em igualdade fora dela. No Global Gender Gap Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, a China aparece na 103ª posição entre 148 economias.8 A organização Network of Chinese Human Rights Defenders lembra que o país estava em 63º lugar quando o índice foi criado, em 2006.13 No quesito participação política, o desempenho é ainda mais baixo: a análise do projeto ChinaPower, do CSIS, aponta a China em 111º lugar. Os sete integrantes do Comitê Permanente do Politburo, a cúpula do Partido Comunista, são homens.

Presença feminina no ensino superior chinês (% do total de estudantes)

1978 · 24,2%
1995 · 36,6%
2021 · 50,2%
2024 · 50,76%

Fontes: Escritório Nacional de Estatísticas da China; livro branco do Conselho de Estado (2025). O valor de 1995 foi calculado a partir da variação informada no documento oficial.

Do filho único ao incentivo ao terceiro filho

A geração retratada pelo El País nasceu sob a política do filho único, criada no fim dos anos 1970, substituída em 2016 pela permissão de dois filhos e, desde 2021, pelo estímulo a três. Durante três décadas e meia de restrições, abortos, esterilizações forçadas e abandonos, somados à preferência cultural por meninos, aprofundaram o desequilíbrio entre os sexos.1 Uma das entrevistadas conta que o pai deixou claro, durante toda a infância, que preferia ter tido um menino.

Hoje a preocupação de Pequim é a oposta. Dados do Escritório Nacional de Estatísticas divulgados em janeiro mostram que a China teve 7,92 milhões de nascimentos em 2025, o menor número desde o início da série, em 1949, e uma queda de 17% em relação ao ano anterior. A população encolheu 3,39 milhões de pessoas, no quarto recuo anual consecutivo.2 Em 2025, o governo instituiu um subsídio nacional de 3.600 yuans por ano para cada criança com menos de três anos.

A resposta política, no entanto, não se limita a incentivos financeiros. Em outubro de 2023, ao se reunir com a nova direção da Federação Nacional das Mulheres da China, o presidente Xi Jinping pediu que as mulheres fossem mobilizadas para promover as virtudes tradicionais e os valores familiares, e defendeu reforçar a orientação dos jovens sobre casamento, filhos e família.3 Para a entrevistada que diz não querer filhos, a leitura é direta: políticas voltadas às mulheres atendem ao interesse nacional, não ao delas.1

A censura como currículo oculto

Falar de feminismo não é formalmente proibido na China. O que se estreitou foi a margem para o ativismo independente. Em fevereiro de 2026, a Administração do Ciberespaço da China (CAC) lançou uma campanha de um mês durante o Ano-Novo Lunar que listava como conteúdo a ser removido publicações que incitassem “antagonismo de gênero” ou exagerassem o “medo do casamento” e a “ansiedade em relação ao parto”.4 Às vésperas do 8 de março, segundo levantamento do boletim Lingua Sinica, ao menos dez contas de WeChat dedicadas a feminismo e direitos de gênero foram derrubadas.5

O endurecimento tem histórico. Em 2015, cinco ativistas que planejavam distribuir adesivos contra o assédio sexual no transporte público foram detidas e ficaram conhecidas como as “Cinco Feministas”. Em junho de 2024, a jornalista Sophia Huang Xueqin, que ajudou a deflagrar o #MeToo chinês ao divulgar denúncias de assédio em universidades, foi condenada a cinco anos de prisão por “incitar a subversão do poder do Estado”, segundo a Repórteres Sem Fronteiras.6

O caso mais recente atinge diretamente o ambiente universitário. Segundo o El País, o Instituto de Tecnologia de Pequim demitiu em setembro a professora de Direito Pei Yi por “graves infrações à ética profissional”, depois que ela foi acusada de promover um “feminismo radical” em uma disciplina sobre direitos das mulheres na era digital. Nas redes, circulou um trecho de aula em que ela questionava por que nenhum dos sete membros do Comitê Permanente do Politburo era mulher.1 Para quem estuda educação, o episódio mostra como os limites do debate em sala de aula também ensinam: definem quais perguntas podem ser feitas e quais ficam fora do programa.

Há uma contradição que analistas costumam apontar. Em outubro de 2025, Pequim sediou a Reunião Global de Líderes sobre Mulheres, em celebração aos 30 anos da conferência da ONU de 1995, e Xi prometeu apoio aos direitos femininos. Na mesma semana, conforme relatou o The New York Times, uma dirigente da Federação Nacional das Mulheres afirmou que quem empunha a bandeira do feminismo, sobretudo em sua versão extremada, tem como objetivo desestabilizar o país.9

Livrarias, bares e oficinas: a escola fora da escola

É nesse contexto que a reportagem do El País encontra os novos espaços de convivência. Em um bairro residencial do leste de Pequim, a livraria A Metade do Céu, especializada em temas femininos, recupera no nome o lema maoísta de que as mulheres sustentam metade do céu. A proprietária organiza clube de leitura, sessões de cinema e cursos exclusivos para mulheres, mas pede às frequentadoras que evitem assuntos políticos.1

Em Xangai, a Casa de Livros Xin Chao vende apenas obras escritas por mulheres e cartões em nüshu, sistema de escrita criado e usado exclusivamente por mulheres na China. A livraria mantém uma oficina para registrar experiências femininas que raramente ficam documentadas. Em Pequim, uma coquetelaria promove encontros semanais em que participantes conversam em duplas por três minutos e destacam qualidades uma da outra, adaptação do formato de encontros rápidos. Já o projeto Her Page reúne relatos autobiográficos em livros coletivos e organiza rodas de conversa sobre maternidade solo, relações infelizes e escolhas profissionais que contrariam os pais.1

“Na China, nós, mulheres, somos flores em um jardim onde não podemos florescer.”Entrevistada identificada como Shao, ao El País

Do ponto de vista pedagógico, essas iniciativas compartilham três práticas: leitura orientada, escrita autobiográfica e escuta coletiva. É uma combinação que remete aos círculos de cultura de Paulo Freire, nos quais a alfabetização partia da experiência concreta de quem aprendia. A diferença é que, na China, esses espaços operam sob autocontenção. Muitas organizadoras preferem expressões como “perspectiva de gênero”, caso da vice-diretora da Faculdade de Letras da Universidade Normal de Pequim, Zhang Li, que considera o termo feminismo associado ao confronto.1 A escolha de palavras funciona como estratégia de sobrevivência e, ao mesmo tempo, como lição sobre os limites do que pode ser dito.

O paradoxo visto do Brasil

O descompasso entre escolaridade e poder não é exclusividade chinesa. No Brasil, a terceira edição das Estatísticas de Gênero do IBGE, divulgada em 2024, mostra que 21,3% das mulheres com 25 anos ou mais tinham ensino superior completo, contra 16,8% dos homens. Ainda assim, o rendimento delas equivalia a 78,9% do deles, e apenas 39,3% dos cargos gerenciais eram ocupados por mulheres.10 Segundo o mesmo levantamento, elas dedicavam 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados, quase o dobro das 11,7 horas dos homens.

O índice do Fórum Econômico Mundial confirma o padrão. Em 2025, o Brasil ficou em 72º lugar no ranking geral e atingiu paridade total no pilar de educação, mas caiu para a 96ª posição em participação econômica.8 Ou seja: tanto no Brasil quanto na China, o sistema educacional cumpriu a tarefa de abrir as portas, e o mercado de trabalho e a política não acompanharam.

O debate demográfico também começa a aparecer por aqui. As projeções do IBGE divulgadas em agosto de 2024 indicam que a taxa de fecundidade caiu para 1,57 filho por mulher em 2023, abaixo do nível de reposição, e que a população deve começar a diminuir em 2042. A gerente de Estudos Demográficos do instituto, Izabel Marri, atribuiu a queda à urbanização, à entrada das mulheres no mercado de trabalho, ao aumento da escolaridade feminina e à difusão da pílula, conforme reportou a Reuters.11 A experiência chinesa sugere que a forma como governos respondem a essa tendência importa: políticas que tratam a mulher como variável demográfica tendem a gerar resistência na geração mais escolarizada.

Os espaços informais de aprendizagem também têm equivalentes brasileiros. O clube Leia Mulheres, criado em 2015 em São Paulo por Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques e inspirado na campanha #readwomen2014 da escritora britânica Joanna Walsh, chegou a mais de 100 cidades, segundo pesquisa acadêmica sobre o projeto.12 A diferença essencial está na liberdade: no Brasil, esses grupos podem se declarar feministas, divulgar encontros e debater política abertamente. Na China, a mesma prática exige cautela permanente.

Perguntas frequentes

O feminismo é proibido na China?

Não formalmente. O tema pode ser discutido, mas o ativismo independente enfrenta restrições crescentes. A Administração do Ciberespaço realiza campanhas periódicas contra conteúdos considerados promotores de “antagonismo de gênero” ou de rejeição ao casamento e à maternidade, e ativistas como Sophia Huang Xueqin foram presas.

As mulheres chinesas estudam mais que os homens?

Em 2024, segundo dados oficiais, elas eram 50,76% dos estudantes do ensino superior e cerca de metade dos pós-graduandos. Mesmo assim, a China está em 103º lugar no Global Gender Gap Report 2025, por causa das desigualdades econômicas e políticas.

Por que o governo chinês quer aumentar a natalidade?

A China registrou 7,92 milhões de nascimentos em 2025, o menor número desde 1949, e sua população encolhe há quatro anos seguidos. O envelhecimento ameaça o crescimento econômico, e o governo passou a oferecer subsídios e a reforçar o discurso de valorização da família.

O que é nüshu?

É um sistema de escrita desenvolvido e usado exclusivamente por mulheres na China, historicamente associado à província de Hunan. Hoje aparece em livrarias e projetos culturais como símbolo da expressão feminina.

O Brasil vive situação parecida?

Em parte. As brasileiras também têm mais diplomas de nível superior que os homens (21,3% contra 16,8%, segundo o IBGE), mas recebem em média 78,9% do rendimento deles. A diferença é que no Brasil os movimentos de mulheres atuam com liberdade de organização e expressão.