Caderno Livros · Leitura e comportamento

O Tecido · 1º de outubro de 2026 · Leitura de 9 minutos

Este artigo parte da reportagem de Marita Alonso publicada pela revista ICON, do jornal El País, em 1º de outubro de 2026. O texto a seguir não é tradução: traz apuração complementar, dados brasileiros e análise independente de O Tecido.

Quando o ator Callum Turner e a cantora Dua Lipa contaram como se aproximaram, a explicação não passou por amigos em comum nem pela fama de ambos. Os dois estavam no mesmo capítulo do mesmo romance, Trust, de Hernan Diaz, vencedor do Pulitzer de ficção em 2023. A anedota, recuperada pela reportagem do El País1, serve de porta de entrada para uma pergunta que um novo aplicativo transformou em modelo de negócio: aquilo que alguém lê diz o suficiente sobre essa pessoa para virar critério de escolha amorosa?

O aplicativo se chama Readme. O nome brinca com o arquivo de instruções que acompanha programas de computador e com o pedido literal, "leia-me". A aposta é que o gosto literário funcione como um filtro de compatibilidade mais honesto do que a foto bem iluminada, a altura declarada ou a frase de efeito ensaiada no perfil.

O que é o Readme e quem está por trás dele

O Readme foi criado por Banu Guler, fundadora e CEO do Co-Star, o aplicativo de astrologia lançado em 2017, em parceria com a estrategista de marca e diretora criativa Emily Segal. Segal integrou o coletivo de análise de tendências K-HOLE, conhecido por ter cunhado o termo normcore. Os detalhes foram relatados pela The Paris Review, que cobriu a festa de lançamento do aplicativo em Nova York, em setembro de 20262. Na mesma conversa, Guler afirmou que o produto está concentrado no gosto literário, e não na astrologia, apesar da origem da equipe.

A entrada no aplicativo passa por um questionário que enquadra cada usuário em um de 12 arquétipos de leitor. Segundo as criadoras, ouvidas pelo El País, esses perfis foram construídos a partir de estudos de literatura, análise de linguagem e psicolinguística1. O público declarado são pessoas que se expressam afetivamente pela linguagem: leitores, escritores, gente que gosta de conversar e quem se sente atraído por esse perfil. A revista Grazia resumiu a premissa nos termos de Segal: a lista de leituras de alguém revelaria mais sobre sua natureza do que a biografia média de um aplicativo de namoro3.

Há um detalhe de desenho que diferencia o Readme de tentativas anteriores. Como observou uma colunista do jornal italiano Domani, não basta declarar um amor genérico pela leitura: as combinações dependem de gostos específicos4. É a diferença entre dizer "gosto de livros" e dizer quais livros, de quais autores, lidos de que maneira.

Por que agora: o cansaço de deslizar a tela

O Readme chega a um mercado marcado pela exaustão do usuário. Uma pesquisa encomendada pela Forbes Health ao instituto OnePoll, com mil usuários de aplicativos de namoro nos Estados Unidos, encontrou 78% de entrevistados que relatam algum grau de esgotamento com essas plataformas, índice que chega a 80% entre as mulheres e 74% entre os homens, conforme noticiou o Global Dating Insights5. O mesmo levantamento estimou em 51 minutos diários o tempo médio gasto procurando parceiros.

O número exige cautela. Como lembrou uma análise publicada no ScienceBlog, trata-se de uma única pesquisa comercial, que soma quem se cansa ocasionalmente a quem se sente exausto toda vez que abre o aplicativo6. A literatura acadêmica, porém, aponta na mesma direção. Um estudo de Liesel Sharabi, da Universidade Estadual do Arizona, publicado na revista New Media & Society, tratou o esgotamento como a soma de três experiências: exaustão emocional, sensação de ineficácia e distanciamento crescente em relação aos outros usuários.

Os sinais também aparecem nos balanços. A empresa de inteligência de mercado Appfigures estimou que a receita bruta do Bumble nas lojas de aplicativos caiu cerca de 20% depois do pico de maio de 20257, e a empresa anunciou em junho daquele ano o corte de 30% de sua força de trabalho, como registrou o Daily Emerald9. É nesse vácuo que se multiplicam os aplicativos de nicho, cada um com a promessa de que, desta vez, a escolha não dependerá apenas da aparência.

O livro como sinal: o que a estante diz e o que ela encena

A defesa mais forte do Readme está numa distinção simples. Cor dos olhos e altura não se escolhem, mas leituras sim. Filtrar alguém pelo que essa pessoa decidiu ler parece, à primeira vista, mais justo do que filtrar pelo corpo. A modelo e mediadora de clube de leitura Alba Luna, ouvida pelo El País, sustenta exatamente esse argumento1.

O problema é que aquilo que se escolhe também se encena. Um livro exibido em um perfil funciona como sinal social, e todo sinal pode ser calibrado para causar boa impressão. A colunista do Domani ironizou essa armadilha ao associar, em tom de piada, certos livros favoritos a estereótipos bem reconhecíveis de leitores4. A graça da observação está na suspeita de fundo: a estante declarada pode dizer menos sobre quem lê e mais sobre quem a pessoa gostaria de parecer.

A sociologia descreveu esse mecanismo há quase meio século. Em A distinção, de 1979, Pierre Bourdieu mostrou que o gosto cultural não é apenas preferência individual: ele classifica, e classifica também quem classifica16. Um algoritmo que organiza pares por afinidade literária opera, em escala, a mesma lógica que os demógrafos chamam de homogamia, a tendência de formar casais entre pessoas socialmente parecidas.

Quando o gosto vira filtro, a conversa deixa de começar na diferença e passa a começar na confirmação.

É por isso que nem todos os profissionais do livro ouvidos pelo El País se entusiasmaram. A artista e livreira Clara Moreno, que planeja um encontro rápido para solteiros em sua livraria, gosta da ideia de conversar sobre livros, mas rejeita o filtro: para ela, "a domesticação do gosto é uma assassina do desejo"1. Andrea Tommasini, assessor de imprensa da Penguin Random House, foi na mesma linha ao contar que o marido gosta de ficção científica e ele não, sem que isso represente qualquer problema para o casal.

O cemitério dos aplicativos de nicho

A ideia de unir leitores pelo celular não é nova, e o histórico é pouco animador. O El País lembra o caso do Kierb, apresentado como o "Tinder dos ratos de biblioteca", que deixou de existir quatro anos após o lançamento, e cita o Bookmark como outra tentativa do gênero1. A reportagem atribui à Appfigures a estimativa de que cerca de 75% dos aplicativos de namoro de nicho lançados nos últimos anos não passam de 10 mil dólares de receita nos seis primeiros meses.

A explicação é mais estrutural do que literária. Aplicativos de relacionamento dependem de densidade: quanto mais pessoas próximas e ativas, maior a chance de uma combinação virar encontro. Todo nicho, por definição, encolhe esse universo. A Appfigures já havia mostrado o dilema em outro segmento, ao analisar o The League, voltado a profissionais de alta renda, que faturou 1,4 milhão de dólares líquidos em julho de 2024 com apenas cerca de 3,6 mil membros, segundo a análise da empresa8. Nicho pode ser rentável e ainda assim pequeno demais para mudar o mercado.

O Readme tem uma vantagem que seus antecessores não tinham: nasce de uma marca com base de usuários já formada e com experiência em transformar compatibilidade em produto. Se isso basta para vencer o problema de escala, só os próximos meses dirão.

E no Brasil? A leitura como marcador social

Transposta para o contexto brasileiro, a proposta do Readme ganha um peso que a reportagem espanhola não precisava enfrentar. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, registrou em 2024 que os não leitores passaram a ser maioria pela primeira vez: 53% contra 47% de leitores, com base em 5.504 entrevistas em 208 municípios, como resumiu o blog da Companhia das Letras10. Em artigo no Jornal do Brasil, o vice-presidente da União Brasileira de Escritores, Ricardo A. Fernandes, calculou que o país perdeu mais de 11 milhões de leitores em nove anos11.

Proporção de leitores no Brasil, 2007 a 2024 Gráfico de barras com a porcentagem de leitores segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil: 55% em 2007, 50% em 2011, 56% em 2015, 52% em 2019 e 47% em 2024. linha de 50% 55%50%56%52%47% 20072011201520192024 % da população considerada leitora (leu ao menos parte de um livro nos últimos 3 meses)
Fonte: Instituto Pró-Livro, Retratos da Leitura no Brasil (edições de 2007 a 2024). Elaboração: O Tecido.

O dado decisivo, porém, não é o tamanho da população leitora, e sim sua distribuição. O hábito acompanha renda e escolaridade: quanto mais alta a renda, maior a proporção de leitores10. As diferenças regionais também são grandes. O Rio Grande do Norte, por exemplo, registrou apenas 33% de leitores, segundo o portal Agora RN12.

Num país assim, um filtro literário dificilmente seleciona apenas sensibilidade. Ele tende a separar, por tabela, classe social, acesso à educação e território. Aquilo que em Nova York aparece como escolha estética pode funcionar no Brasil como uma barreira de entrada mais sofisticada, mas não menos excludente do que exigir altura ou salário. O próprio poder público reconhece o tamanho do desafio: o plano nacional de leitura elaborado pelo MEC e pelo Ministério da Cultura fixa como meta elevar de 47% para 55% a proporção de brasileiros com hábito de leitura12.

Os clubes de leitura chegaram antes

Se o Readme leva a leitura para o algoritmo, o movimento inverso já acontece fora da tela. A reportagem do El País registra que clubes de leitura funcionam há anos como espaços de flerte e amizade, e Alba Luna relata ter testemunhado muitas aproximações no grupo que conduz, um ambiente em que o álcool e a festa não ocupam o centro1.

No Brasil, o fenômeno tem dimensão própria. A Prefeitura de Curitiba mantém três clubes gratuitos em bibliotecas municipais e descreve um momento de expansão desses grupos na cidade13. No Recife, o Diario de Pernambuco mostrou em julho de 2026 como clubes independentes passaram a ocupar cafés, praças e livrarias14. A Fast Company Brasil associou a onda à busca da geração Z por convivência presencial, impulsionada paradoxalmente pelo BookTok15.

A diferença entre o clube e o aplicativo é sutil e importante. O clube oferece um objeto comum e um tempo compartilhado: todos leram o mesmo livro e discordam sobre ele diante uns dos outros. O aplicativo oferece uma classificação prévia, que decide quem merece conhecer quem antes de qualquer discordância acontecer. No primeiro caso, o livro é ponto de partida. No segundo, corre o risco de virar critério de exclusão.

Contraponto

O argumento a favor do filtro literário

Há boas razões para levar o Readme a sério. A editora Paloma Abad, da Penguin Random House, inverteu a pergunta no El País: faria mais sentido basear a escolha no peso, na cor do cabelo ou na altura? Para ela, a faísca pode até nascer de uma coincidência de leituras, embora precise de outros combustíveis para durar1.

A escritora Chloé Caldwell, também citada pela reportagem, relata que colocar o próprio livro no perfil a livrou das conversas protocolares típicas desses aplicativos e abriu espaço para algo mais específico desde a primeira mensagem. Visto assim, o livro não funciona como filtro de pureza, mas como abertura de conversa melhor do que perguntar qual é o bar favorito.

Há ainda um argumento de coerência. Se aplicativos convencionais já permitem filtrar por altura e escolaridade, um filtro baseado em algo que a pessoa escolheu e cultivou não parece menos legítimo. A questão, nesse caso, deixa de ser se o critério é elitista e passa a ser se ele é mais revelador do que os disponíveis hoje.

O que está em jogo

O Readme parte de uma intuição verdadeira: a forma como alguém lê e fala sobre o que leu revela atenção, curiosidade e repertório, qualidades que uma foto não mostra. A fragilidade está na passagem da intuição ao filtro. Afinidade literária é um bom começo de conversa e um preditor incerto de convivência, e um sistema que otimiza semelhança tende a reduzir justamente o atrito que torna uma conversa interessante.

No Brasil, a discussão tem um desdobramento que vai além do mercado de namoro. Num país em que ler ainda é marca de privilégio, a pergunta mais urgente não é como encontrar o par ideal entre os leitores, mas como ampliar o número de pessoas que chegam a ser leitoras. Enquanto isso não acontece, qualquer algoritmo que use a estante como critério estará organizando afetos dentro de uma fração cada vez menor da população.

Perguntas frequentes

O que é o Readme?

O Readme é um aplicativo de namoro lançado em setembro de 2026 em Nova York que usa o gosto literário como principal critério de compatibilidade. Os usuários respondem a um questionário e são enquadrados em um de 12 arquétipos de leitor.

Quem criou o Readme?

O aplicativo foi criado por Banu Guler, fundadora e CEO do aplicativo de astrologia Co-Star, em parceria com a estrategista de marca Emily Segal, ex-integrante do coletivo de tendências K-HOLE.

Como o Readme define a compatibilidade entre usuários?

Segundo as criadoras, os 12 arquétipos de leitor foram desenvolvidos a partir de estudos de literatura, análise de linguagem e psicolinguística. As combinações levam em conta gostos específicos, e não apenas uma declaração genérica de interesse por leitura.

Aplicativos de namoro para leitores costumam dar certo?

O histórico é desfavorável. O Kierb, conhecido como "Tinder dos ratos de biblioteca", encerrou as atividades quatro anos após o lançamento. Segundo estimativa da Appfigures citada pelo El País, cerca de 75% dos aplicativos de namoro de nicho não passam de 10 mil dólares de receita nos seis primeiros meses. O principal obstáculo é a falta de escala.

Quantos brasileiros leem livros?

Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, 47% dos brasileiros eram leitores em 2024, contra 53% de não leitores. Foi a primeira vez desde o início da série, em 2007, que os não leitores se tornaram maioria. O hábito de leitura cresce com a renda e a escolaridade.

Clubes de leitura funcionam como espaço de encontro amoroso?

Frequentemente, sim. Mediadores e livreiros relatam que clubes de leitura favorecem amizades e romances por oferecerem um tema comum e um ambiente tranquilo. No Brasil, esses clubes crescem em cidades como Curitiba e Recife, muitas vezes com apoio de bibliotecas públicas e livrarias.