Caderno Educação · Análise
Durante décadas, o esforço foi tratado pela escola como uma virtude silenciosa: esperava-se que o aluno o tivesse, mas ninguém se ocupava de medi-lo. O PISA 2025, divulgado pela OCDE em 8 de setembro, tornou essa virtude um número. Além de testar ciências, leitura e matemática, a avaliação perguntou a mais de 760 mil adolescentes de 15 anos, em 91 países e economias, se eles curtem aprender coisas novas, se fazem esforço extra diante de tarefas difíceis e se desistem com facilidade.2 Na média dos países ricos, a resposta piorou.
É esse dado que sustenta a coluna de Sarah O'Connor no Financial Times. A pergunta que dá título ao texto, se estaríamos desenvolvendo aversão ao esforço, parte da constatação de que cresce, nos países da OCDE, a parcela de estudantes que declaram abandonar tarefas com facilidade.1 A imagem que abre a coluna traz, na legenda, o outro termo da equação: educadores vêm insistindo para que os alunos usem a IA generativa como tutor particular, e não como uma máquina de respostas que os dispensa do trabalho difícil.1
A questão merece ser levada a sério e, ao mesmo tempo, lida com cuidado. O que os dados da OCDE mostram, o que não conseguem mostrar e onde o Brasil se encaixa nesse quadro são perguntas diferentes, e misturá-las é o erro mais comum desse debate.
O que a OCDE mediu, afinal
No volume I do relatório, a OCDE trata curiosidade e perseverança como os dois indicadores de motivação para aprender, e define estabelecimento de metas e busca de ajuda como indicadores de agência do estudante.2 O capítulo sobre atitudes pede atenção especial a dois movimentos: o declínio da perseverança autodeclarada e o aumento da parcela de estudantes que dizem desistir dos trabalhos escolares. A razão apontada pelo próprio relatório é prática: esses padrões determinam se o engajamento sobrevive ao primeiro encontro com a dificuldade.2
O achado mais relevante, porém, não é isolado. A OCDE observa que os sistemas educacionais em que a curiosidade piorou entre 2022 e 2025 tendem a ser os mesmos em que a perseverança também piorou, no mesmo intervalo. A leitura da organização é que várias dimensões do engajamento podem estar enfraquecendo em paralelo.2 Em outras palavras, o problema não parece ser apenas “falta de garra”, mas um recuo mais amplo da disposição de aprender.
O pano de fundo é o desempenho. O PISA 2025 registrou as menores médias da OCDE já observadas em ciências, leitura e matemática. A leitura sofreu a maior queda, de 28 pontos nos países-membros entre 2015 e 2025.2 E o recuo se concentrou nas habilidades mais valiosas em um ambiente saturado de IA: avaliar informações, relacionar fontes diferentes e ler criticamente. No mesmo período, a parcela de “leitores apressados”, estudantes que atravessam os textos às pressas e respondem rápido e errado, quase dobrou entre 2018 e 2025.2
O leitor apressado é, talvez, a expressão comportamental mais concreta do fenômeno que a coluna do FT descreve. Não se trata de alguém que se recusa a fazer a tarefa, e sim de alguém que a encerra antes que ela comece a exigir alguma coisa.
Tutor ou atalho: onde entra a inteligência artificial
A novidade desta edição é a primeira medição em larga escala do uso de chatbots na vida escolar. Em 2025, ferramentas como o ChatGPT já eram usadas para tarefas escolares pela maioria dos estudantes na maior parte dos países participantes.7 Na média da OCDE, 46% disseram usar chatbots ao menos uma vez por semana,6 e apenas 14% afirmaram nunca ou quase nunca recorrer à IA para as finalidades escolares investigadas.7 A finalidade mais citada foi “me ajudar a aprender”, seguida de pesquisa preliminar, rascunho de textos e resumo de leituras obrigatórias.2
O dado que mais repercutiu diz respeito ao desempenho. Estudantes que usam IA para tarefas específicas, como resumir textos, redigir ou pesquisar, tiram notas menores em ciências do que os que não usam. A diferença média é de cerca de 20 pontos, o equivalente a aproximadamente um ano de escolaridade. Já quem usa IA semanalmente para fins gerais de estudo tem desempenho semelhante ao de quem não usa.2 Entre os usuários, os de frequência moderada, de uma vez por mês a duas vezes por semana, saem-se melhor do que os que usam quase todo dia.8
A OCDE é explícita ao afirmar que essas relações não provam que a IA reduz o desempenho: elas podem refletir uma combinação complexa entre quem adota a ferramenta e como a usa.7 É plausível que estudantes em dificuldade recorram primeiro ao chatbot, e não o contrário. Mas o relatório traz um alerta que não depende de causalidade: os estudantes têm desempenho um pouco melhor quando o uso frequente de IA vem acompanhado de oportunidades para desenvolver letramento em IA, e essas oportunidades são mais comuns entre alunos de famílias favorecidas. A organização fala no risco de uma crescente divisão da IA.2
O que a ciência cognitiva já sabia
A preocupação com o esforço não nasceu com os chatbots. O psicólogo Robert Bjork, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, cunhou nos anos 1990 a expressão “dificuldades desejáveis” para descrever condições de estudo que tornam a aprendizagem mais lenta e desconfortável no curto prazo, mas produzem retenção mais duradoura, como recuperar informação da memória em vez de reler, ou espaçar as sessões de estudo.10 O ponto central é contraintuitivo: a sensação de fluidez costuma ser um mau indicador de aprendizagem.
Em 2018, os pesquisadores Michael Inzlicht, Amitai Shenhav e Christopher Olivola descreveram o que chamaram de “paradoxo do esforço”: o esforço é percebido como custo e evitado sempre que possível, mas também é fonte de valor, porque as pessoas tendem a valorizar mais aquilo que lhes exigiu trabalho.11 Lido à luz desse paradoxo, o risco da IA na escola não é só o aluno aprender menos. É também a experiência de aprender perder parte do sentido que a tornava recompensadora, o que ajudaria a explicar por que curiosidade e perseverança parecem recuar juntas.
O Brasil no espelho
No Brasil, 30.140 estudantes de 1.053 escolas fizeram a prova, representando cerca de 2,19 milhões de jovens de 15 anos, aproximadamente 76% da população nessa idade.3 O país obteve 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, contra 379, 410 e 403 em 2022, variações que a OCDE considera estatisticamente não significativas.5 O MEC destacou que o Brasil está entre os países que mais avançaram nas três áreas desde 2006.4 Uma leitura mais cautelosa dos números oficiais, feita pelo grupo Prosa Nova, pondera que a maior parte da aproximação com a média da OCDE em matemática veio da queda dos países ricos, e não de avanço brasileiro.9
No terreno das atitudes, o retrato brasileiro destoa da narrativa de colapso. Entre 2022 e 2025, a proporção de estudantes que relatam curiosidade por muitos assuntos permaneceu estável, assim como a dos que dizem aplicar esforço adicional quando a tarefa fica difícil. Ao mesmo tempo, caiu 6,9 pontos percentuais a parcela dos que consideram a escola uma perda de tempo.3 Os brasileiros relatam curiosidade (72%) e esforço adicional (59%) em níveis muito próximos da média da OCDE, que é de 73% e 60%, respectivamente.12
Dois outros números ajudam a entender o contexto nacional. Em 2025, 81% dos estudantes brasileiros disseram frequentar escolas com restrição ao uso de celular, contra 49% na média da OCDE,13 reflexo da Lei nº 15.100, de janeiro de 2025, que limitou o uso de aparelhos na educação básica. E o peso da origem social segue maior aqui: o status socioeconômico explicou 16% da variação no desempenho em ciências no Brasil, acima dos 12% da média da OCDE, e a distância entre alunos favorecidos e desfavorecidos cresceu entre 2015 e 2025.3
A combinação é reveladora. O problema brasileiro não parece ser uma perda súbita de disposição, e sim a dificuldade histórica de converter uma disposição razoavelmente comparável à dos países ricos em aprendizagem efetiva. Esforço declarado semelhante ao da OCDE convive com proficiência muito inferior, o que desloca a pergunta do aluno para o sistema: quanto do esforço dos estudantes brasileiros encontra, do outro lado, tarefas, professores e condições capazes de transformá-lo em conhecimento?
Os limites de uma pergunta de questionário
Há boas razões para não transformar o dado em veredito sobre uma geração. A primeira é de método: “desisto facilmente” é uma frase de autorrelato, e respostas desse tipo variam conforme normas culturais, expectativas escolares e até o humor coletivo do momento da aplicação. Um aumento na concordância pode indicar mais desistência real, mas também mais disposição para admitir dificuldade.
A segunda é de desenho: o PISA é um retrato transversal, que não acompanha os mesmos alunos ao longo do tempo. Ele mostra associações, não causas, ressalva que a própria OCDE repete tanto sobre perseverança quanto sobre o uso de IA.2
A terceira é de enquadramento. Enquanto a coluna do FT formula a questão em termos de uma possível aversão cultural ao esforço, o relatório da OCDE trata motivação, agência e estratégias de aprendizagem como capacidades que os sistemas educacionais podem desenvolver e que se reforçam mutuamente. O mesmo levantamento registra, por exemplo, que os estudantes relataram menos apoio familiar do que em 2022 em quase todos os países, sobretudo meninos e alunos desfavorecidos.2 Culpar o temperamento de uma geração é mais simples do que examinar o ambiente em que ela aprende, mas não necessariamente mais correto.
O que está em jogo para a escola brasileira
Se a hipótese do atrito estiver certa, a resposta não passa por proibir a IA, algo que o próprio relatório não recomenda, mas por redesenhar o trabalho escolar para que o esforço relevante não possa ser terceirizado. Isso inclui avaliações que valorizem o processo, como rascunhos comentados, defesas orais e resolução de problemas em sala; práticas de recuperação ativa no lugar da releitura; e a leitura de textos longos como exercício deliberado de resistência ao modo apressado.
O dado sobre letramento em IA pesa especialmente no Brasil. Se as oportunidades de aprender a usar e a questionar essas ferramentas ficarem restritas às escolas de alunos favorecidos, a IA pode ampliar uma desigualdade que o PISA já mostra crescente. Nesse sentido, a política de restrição ao celular resolve apenas metade do problema: afasta a distração, mas não ensina o uso produtivo.
Há ainda um sinal encorajador nos próprios dados da OCDE. Estudantes que dedicam mais tempo às tarefas de casa relatam mais curiosidade, perseverança e estabelecimento de metas em quase todos os países, mesmo depois de controlada a origem socioeconômica.2 E, no Brasil, 81% dos alunos dizem pedir ajuda aos professores quando precisam.3 O vínculo com quem ensina segue sendo a principal infraestrutura do esforço.
Os próximos dados virão devagar. As análises do PISA sobre aprendizagem autorregulada em ambientes digitais só serão publicadas em 2027,5 e, com a mudança para ciclos de quatro anos, a próxima edição completa será aplicada em 2029.14 Até lá, a pergunta de Sarah O'Connor permanece aberta. A resposta dependerá menos do que os adolescentes pensam sobre o esforço e mais do que as escolas decidirem fazer com o atrito que a tecnologia está removendo.
Perguntas frequentes
Os estudantes estão desistindo mais facilmente, segundo o PISA 2025?
Na média dos países da OCDE, sim. O relatório registra queda da perseverança autodeclarada e aumento da parcela de estudantes que dizem desistir dos trabalhos escolares entre 2022 e 2025, em paralelo à queda da curiosidade. Trata-se de autorrelato, o que exige cautela na interpretação.
Qual é a situação do Brasil em perseverança no PISA 2025?
No Brasil, a proporção de estudantes que dizem aplicar esforço adicional diante de tarefas difíceis ficou estável entre 2022 e 2025, em 59%, próxima da média da OCDE (60%). A curiosidade também ficou estável, em 72%.
Usar IA piora o desempenho dos estudantes?
O PISA 2025 mostra que alunos que usam IA para tarefas específicas, como resumir ou redigir, tiram cerca de 20 pontos a menos em ciências do que os que não usam, mas a OCDE ressalta que isso é associação, não causa. O uso moderado e para apoiar a aprendizagem aparece associado a desempenho semelhante ao de não usuários.
Qual foi o desempenho do Brasil no PISA 2025?
O Brasil obteve 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, resultados estatisticamente estáveis em relação a 2022 e ainda abaixo da média da OCDE.
O que são dificuldades desejáveis?
É um conceito do psicólogo Robert Bjork para condições de estudo que tornam a aprendizagem mais trabalhosa no curto prazo, como testar a própria memória ou espaçar o estudo, mas geram retenção mais duradoura.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Educação