Política · Economia Global

Um comitê de especialistas presidido pelo economista Joseph Stiglitz propõe a criação de um painel internacional permanente para monitorar a desigualdade, nos mesmos moldes do painel científico da ONU sobre o clima. A ideia chega em um momento em que dados do IBGE mostram o Brasil reduzindo sua desigualdade interna, mesmo com a concentração de renda no topo praticamente intacta.

Criança joga futebol em área urbana de baixa renda

Zonas de alta densidade populacional e baixa renda como esta ilustram o contraste global de riqueza discutido no relatório do G20. Foto ilustrativa.

Por muito tempo, a desigualdade extrema foi tratada como um efeito colateral inevitável do crescimento econômico, quase uma lei da natureza do capitalismo moderno. Um relatório apresentado neste ano ao G20 contesta essa ideia de frente. Elaborado por um comitê de especialistas independentes presidido pelo economista e Prêmio Nobel Joseph Stiglitz, o documento argumenta que a concentração de riqueza observada hoje no mundo resulta de decisões políticas específicas, sobre tributação, mercado de trabalho e investimento público, e que, por isso mesmo, pode ser revertida por outras decisões políticas.

O relatório completo foi publicado originalmente com detalhes e análise assinada pelo próprio Stiglitz no jornal canadense La Presse, que descreveu a proposta central do comitê: a criação de um Painel Internacional sobre Desigualdades (PII), inspirado no Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU. A ideia é que esse novo organismo produza avaliações científicas periódicas sobre a evolução da desigualdade, suas causas e o efeito real das políticas adotadas para combatê-la, algo que hoje, segundo o texto, simplesmente não existe de forma consolidada e comparável entre países[1].

Um retrato global desigual

Os números levantados pelo comitê ajudam a explicar a urgência do apelo. Desde o ano 2000, quase metade de toda a riqueza nova criada no mundo foi capturada pelo 1% mais rico da população, enquanto a metade mais pobre da humanidade ficou com uma fração mínima desse total[1]. O comitê também chama atenção para uma dimensão menos discutida da desigualdade: o controle sobre os canais de informação. Um pequeno grupo de bilionários concentra hoje boa parte das maiores redes sociais do planeta, além de fatias relevantes da mídia tradicional, o que altera diretamente a forma como opiniões públicas se formam e como debates políticos são conduzidos[1].

41%da riqueza global criada desde 2000 ficou com o 1% mais rico
1 em 4pessoas no mundo pulam refeições regularmente
7xmais risco de declínio democrático em países muito desiguais
0,506Índice de Gini do Brasil em 2024, menor da série histórica
"A desigualdade não é uma fatalidade econômica. É o resultado de escolhas de política pública, e escolhas de política pública podem ser refeitas." Síntese do argumento central do relatório do comitê liderado por Joseph Stiglitz

O que isso significa para o Brasil

O debate internacional chega ao Brasil em um momento paradoxal. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, divulgados pelo IBGE, mostram que o Índice de Gini do país caiu para 0,506 em 2024, o menor valor de toda a série histórica iniciada em 2012[2]. A renda média da metade mais pobre da população também bateu recorde, puxada pelo mercado de trabalho aquecido e pela manutenção de programas sociais como o Bolsa Família[2].

Ainda assim, o topo da pirâmide segue distante do restante da população. Em 2024, o 1% mais rico dos brasileiros teve renda média mensal 36,2 vezes maior que a dos 40% mais pobres, e os 10% mais ricos ganharam 13,4 vezes mais que essa mesma fatia[3]. Na prática, cerca de 108,5 milhões de pessoas sobreviveram, em 2024, com pouco mais de R$ 23 por dia[3]. É uma melhora real frente a anos anteriores, mas está longe de configurar convergência.

Parte da resposta institucional brasileira ao problema está em curso no Congresso e já sancionada em lei. A partir de janeiro de 2026, contribuintes com renda anual acima de R$ 600 mil passam a estar sujeitos a uma tributação mínima efetiva, enquanto a faixa de isenção do Imposto de Renda sobe para R$ 5 mil mensais, medida que o próprio texto da reforma descreve como forma de tornar a cobrança mais progressiva[4]. É, em escala nacional, o tipo de política tributária que o comitê do G20 cita como instrumento capaz de alterar a trajetória da desigualdade, ainda que o relatório internacional foque sobretudo em reformas na arquitetura tributária entre países.

Contraponto: nem todo economista concorda com o diagnóstico

Parte da literatura econômica mais ortodoxa questiona a ênfase do relatório na redistribuição via política tributária, argumentando que a alta concentração de riqueza também reflete inovação, produtividade diferenciada e acumulação de capital ao longo de décadas, fatores que reformas fiscais isoladas dificilmente revertem sem custos para investimento e crescimento.

Há também quem veja com ceticismo a comparação direta com o IPCC. Enquanto o consenso científico sobre o aquecimento global é amplamente compartilhado entre climatologistas, a mensuração da desigualdade e, principalmente, as políticas recomendadas para reduzi-la, permanecem mais disputadas entre economistas de diferentes correntes, o que pode tornar a busca por um "consenso" sobre desigualdade mais difícil de alcançar na prática do que no clima.

Próximos passos

A proposta de criação do painel já recebeu adesão formal dos governos de África do Sul, Brasil, Espanha e Noruega, além de apoio do secretário-geral da ONU. Uma carta assinada por centenas de economistas de mais de 70 países, entre eles o próprio Thomas Piketty, reforçou o pedido aos líderes mundiais para que a proposta avance[5]. O tema deve ser levado à Assembleia Geral da ONU, com expectativa de que mais países, incluindo o Canadá, se somem à iniciativa nos próximos meses.

Para o Brasil, que já ocupou a presidência do G20 em 2024 e mantém a desigualdade como tema recorrente na agenda diplomática, aderir formalmente ao painel proposto por Stiglitz seria, sobretudo, um gesto de coerência com um discurso que o país já sustenta em fóruns internacionais. A pergunta que fica é se a adesão política se traduzirá em dados comparáveis e em políticas domésticas efetivamente capazes de reduzir a distância entre o topo e a base da renda nacional.

Nesta reportagem

Linha do tempo

2000-2024
1% mais rico do mundo captura 41% de toda a riqueza nova criada no período.
2025
Comitê presidido por Stiglitz, a pedido da presidência sul-africana do G20, conclui relatório sobre desigualdade global.
Mai/2025
IBGE divulga Gini de 0,506 para 2024, menor da série histórica da PNAD Contínua.
Nov/2025
Senado aprova reforma do IRPF com tributação mínima para rendas acima de R$ 600 mil/ano.
Set/2026
Governos fundadores levam proposta do Painel Internacional sobre Desigualdades à Assembleia Geral da ONU.

Perguntas frequentes

O que é o Painel Internacional sobre Desigualdades (PII)?

É uma proposta de organismo internacional permanente para produzir avaliações científicas periódicas sobre desigualdade de renda e riqueza no mundo, inspirado no modelo do IPCC, o painel científico da ONU sobre mudanças climáticas.

Quem lidera a proposta do painel sobre desigualdade?

O economista Joseph E. Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, preside o Comitê Extraordinário de Especialistas Independentes sobre Desigualdade, criado a pedido da presidência sul-africana do G20.

Como está a desigualdade de renda no Brasil atualmente?

Segundo o IBGE, o Índice de Gini brasileiro caiu para 0,506 em 2024, o menor valor da série histórica iniciada em 2012, mas o 1% mais rico ainda tem renda média 36,2 vezes maior que a dos 40% mais pobres.

Quais países já apoiam a criação do painel?

África do Sul, Brasil, Espanha e Noruega atuam como governos fundadores da iniciativa, que também conta com apoio declarado do secretário-geral da ONU e de centenas de economistas de mais de 70 países.

O Brasil tem alguma medida recente de combate à desigualdade tributária?

Sim. A partir de janeiro de 2026, passa a valer no país uma tributação mínima efetiva para rendas anuais acima de R$ 600 mil, além da ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês.

Glossário

Índice de Gini
Indicador que mede a concentração de renda em uma escala de 0 (igualdade total) a 1 (desigualdade máxima).
IPCC
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, órgão científico da ONU que serve de modelo institucional para a proposta do painel sobre desigualdade.
PNAD Contínua
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, principal levantamento do IBGE sobre renda, trabalho e condições de vida no Brasil.
IRPFM
Imposto de Renda de Pessoa Física Mínimo, novo mecanismo brasileiro que garante uma alíquota efetiva mínima para contribuintes de altíssima renda a partir de 2026.

Referências

  1. Stiglitz, Joseph E. "L'inégalité extrême n'est pas une fatalité." La Presse. Disponível em: plus.lapresse.ca
  2. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), Rendimento de todas as fontes, 2025 (dados de 2024).
  3. Reportagens baseadas em dados do IBGE: Metrópoles, CNN Brasil e Brasil de Fato, maio de 2025.
  4. Lei nº 15.270/2025 (conversão do Projeto de Lei nº 1.087/2025), reforma do Imposto de Renda da Pessoa Física.
  5. Carta aberta de economistas ao G20 pela criação do Painel Internacional sobre Desigualdades, novembro de 2025.