Desastres não são naturais:
são políticos
Enquanto a Venezuela chora seus mortos sob escombros e o Japão atravessa um sismo de magnitude 6,9 sem nenhuma vítima fatal, o Chile oferece um terceiro caminho — o da construção institucional paciente. A diferença entre catástrofe e inconveniência é sempre uma escolha de governo.
Na tarde de 24 de junho de 2026, dois sismos quase simultâneos — de magnitudes 7,2 e 7,5 — atingiram o norte da Venezuela com intervalo de apenas 39 segundos. O segundo, conforme o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), foi o mais intenso registrado no país desde 1900. O resultado: ao menos 164 mortos confirmados e cerca de mil feridos, dezenas de edifícios colapsados em Caracas e no estado de La Guaira, aeroporto internacional fechado e estado de emergência em território nacional. O USGS chegou a estimar, em seus modelos preliminares, que o total de vítimas fatais poderia ultrapassar dez mil.
Na manhã seguinte, às 7h30 do horário local de Tóquio, o Japão registrava um sismo de magnitude 6,9 ao largo da costa de Iwate. Os edifícios altos da capital balançaram por alguns minutos. Houve interrupções no transporte ferroviário. Quatro pessoas ficaram feridas. Nenhuma morreu.
A assimetria não é geológica — é política. E o Chile, outro país da cintura de fogo do Pacífico que convive com terremotos desde sua fundação, completa o triângulo da comparação: uma nação que ainda não resolveu sua cultura de prevenção, mas que investiu décadas em engenharia e normas de construção capazes de dobrar o joelho diante de um sismo de magnitude 8,8, como o de 2010, com menos de 800 mortos.
"Acho importante reconhecer que desastres naturais não existem. O que se tem é um risco natural que se intersecta com um sistema vulnerável."— Wendy Bohon, geóloga do consórcio universitário de sismologia IRIS
O que o Japão construiu durante décadas
O Japão assenta sobre a convergência de quatro placas tectônicas e registra cerca de 10% de todos os terremotos do planeta. A convivência forçada com esse risco gerou uma arquitetura institucional sem paralelo: a Agência Meteorológica do Japão (JMA) opera uma rede de mais de 4.200 sensores sísmicos em todo o território e emite alertas de terremoto em menos de um minuto após a detecção dos primeiros tremores, via televisão, rádio e mensagem de celular — antes que as ondas S, as mais destruidoras, cheguem à superfície.
O sistema de alerta precoce japonês, o Earthquake Early Warning (EEW), tornou-se público em outubro de 2007 e está hoje entre os mais sofisticados do mundo. Após o Grande Terremoto do Leste do Japão em 2011, o sistema foi considerado eficaz mesmo diante de uma catástrofe de magnitude 9,0: embora mais de 20 mil pessoas tenham morrido em consequência do tsunami posterior, estima-se que as vítimas seriam substancialmente maiores sem os alertas. Em 2022, o sistema ganhou uma nova camada — a capacidade de emitir avisos de "megaterremoto iminente" quando um sismo de magnitude 7 ou superior ocorre em zonas de subducção críticas. O alerta foi acionado pela primeira vez em dezembro de 2025 e novamente em abril de 2026.
But tecnologia isolada não salva vidas. O que o Japão construiu é uma cultura. Nas escolas, simulacros de evacuação ocorrem todo 1º de setembro — aniversário do Grande Terremoto de Kanto de 1923, que destruiu Tóquio e deixou mais de 100 mil mortos. Museus permanentes treinam cidadãos sobre o que fazer nas primeiras 72 horas após um abalo. A psicologia japonesa desenvolveu o que o filósofo Tetsuro Watsuji chamou de "resignação ativa" — não a passividade diante do risco, mas a internalização de protocolos de resposta como hábito cotidiano.
Infraestrutura de alerta sísmico — comparativo
O Chile: engenharia sem cultura, mas com normas
O Chile ostenta o maior terremoto já registrado pela ciência: o sismo de Valdivia, de 9,5 de magnitude, ocorrido em 22 de maio de 1960. Aquela tragédia — que deixou mais de 5.700 mortos e abriu caminho para uma erupção vulcânica 33 horas depois — funcionou como divisor de águas na política pública chilena de construção. A partir dos anos 1960, o país passou a exigir normas antissísmicas progressivamente mais rígidas para todos os tipos de edificação, incorporando isoladores sísmicos, estruturas flexíveis e amortecedores. Segundo o diretor do Centro Sismológico Nacional do Chile, Sergio Barrientos, "cada um dos terremotos representou um marco, mas o dos anos 60 foi o maior em relação à modernização das normas sísmicas de construção."
O resultado é um país que, em fevereiro de 2010, enfrentou um terremoto de magnitude 8,8 — mais de dez vezes mais energético do que os sismos que devastaram a Venezuela em junho de 2026 — e registrou menos de 800 mortos. A empresa de avaliação de riscos americana EQECAT concluiu que as normas chilenas de construção "minimizaram o potencial de destruição" do evento. Em termos comparativos, o terremoto haitiano de janeiro de 2010, de magnitude 7,0 — inferior ao chileno —, matou entre 46 mil e 300 mil pessoas, dependendo da fonte, numa nação sem qualquer código antissísmico efetivo. A diferença entre os dois países, naquele mesmo ano, foi inteiramente atribuída à qualidade das instituições, não à geologia.
No entanto, pesquisadores como Magdalena Radrigán, especialista em política e gestão de desastres, apontam que o Chile ainda carece do que o Japão construiu em profundidade: uma cultura de prevenção enraizada. "Depois de 1960, começaram a se preocupar em construir melhor e isso foi alcançado, mas as tarefas pendentes são habitar áreas seguras e a cultura antissísmica", afirma Radrigán. Cidades como Puerto Saavedra continuam crescendo sobre a orla costeira, mesmo após terem visto tsunamis varrendo o litoral. A engenharia protege o que está construído; a política urbana decide onde se constrói.
Ainda assim, o Chile deu em maio de 2026 um passo significativo: colocou em operação o SASPe, o primeiro sistema nacional de alerta sísmico da América do Sul, desenvolvido pelo Instituto Geofísico do Peru em colaboração com o Chile e ativado publicamente após um simulacro nacional em 29 de maio de 2026. O sistema ainda depende apenas de sirenes públicas, mas representa uma virada na região.
"Se um prédio cai durante um terremoto, é porque foi fortemente sacudido ou porque foi mal construído."— Roger Bilham, professor de geofísica, após comparar os terremotos do Chile e do Haiti em 2010
Venezuela: a tragédia do abandono institucional
A Venezuela está situada sobre uma das zonas sísmicas mais ativas da América do Sul. O norte do país, onde ficam Caracas e o estado de La Guaira, é atravessado por um sistema complexo de falhas geológicas — o mesmo que já havia destruído Caracas em 1967, num terremoto de magnitude 6,3. A memória desse evento estava viva entre os mais velhos: uma aposentada de 80 anos disse à Reuters que o sismo de junho de 2026 "foi horrível, ainda pior do que o de 1967."
O que a Venezuela não tinha em junho de 2026 era proporcional ao que o Japão acumulou em seis décadas. Não havia sistema de alerta precoce. Não havia normas de construção efetivamente aplicadas: um edifício de 22 andares colapsou completamente no bairro de Chacao, em Caracas, área descrita pelas próprias autoridades locais como "particularmente suscetível a terremotos." Outro prédio, de 12 andares, desabou em La Guaira. Uma moradora gritava nas ruas: "Tem gente viva ali e ninguém vem salvar." O principal aeroporto do país, em Maiquetía, fechou com danos estruturais graves. Hospitais improvisaram atendimento em praças públicas.
A Fundação Venezuelana de Investigações Sismológicas (Funvisis) existe e monitora a atividade sísmica do país. Em setembro de 2025, o governo chegou a realizar um simulacro nacional de desastres — ao qual o ministro Diosdado Cabello declarou que "a prevenção é a primeira tarefa." Mas simulacros sem obras, sem normas aplicadas e sem infraestrutura de alerta são teatro institucional. O vocabulário da prevenção existia; a política pública, não.
Parte da explicação é econômica — o colapso do Estado venezuelano nas últimas duas décadas retirou capacidade de investimento de qualquer área que não fosse de sobrevivência imediata do regime. Mas outra parte é uma questão de escolhas: governos em crise podem priorizar ou desprioritizar a gestão de risco. A Funvisis nunca recebeu os recursos para transformar conhecimento sismológico em infraestrutura de alerta. A fiscalização de normas construtivas erodiu junto com as demais instituições regulatórias. O risco era conhecido; a decisão de não enfrentá-lo foi política.
A lição que é sempre adiada
A comparação entre esses três países revela um padrão que a literatura de gestão de desastres já documentou exaustivamente: vulnerabilidade não é uma condition geológica, é uma condição social e institucional. O Japão gasta bilhões em prevenção porque decidiu, depois do terremoto de Kanto em 1923 e novamente após o de 2011, que o custo de não se preparar é politicamente inaceitável. O Chile levou décadas para traduzir essa lógica em normas de construção exigíveis, e ainda está aprendendo a ir além da engenharia. A Venezuela enfrentou o terremoto com os dois ausentes.
Para a América Latina como região, o evento de junho de 2026 é um lembrete amargo de que a janela para construir resiliência existe — mas se fecha quando a política pública se deteriora. O Brasil, que sofreu tremores sentidos no Amazonas, no Pará, em Roraima e no Amapá no mesmo dia, não possui zonas sísmicas de mesma magnitude, mas convive com um espectro diferente de desastres — enchentes, deslizamentos, secas extremas — que exigem a mesma lógica: prevenção custosa antes, ou destruição muito mais cara depois. A escolha é sempre de governo.
Três países, três políticas, três resultados
| País | Normas de construção | Sistema de alerta | Cultura de prevenção | Resultado recente |
|---|---|---|---|---|
| 🇯🇵 Japão | Entre as mais rígidas do mundo; isoladores sísmicos obrigatórios em grandes edificações | EEW nacional desde 2007; 4.200+ sensores; alerta em até 10 seg. | Simulacros obrigatórios, museus de prevenção, kits domiciliares recomendados | Sismo M 6,9 (jun. 2026): 0 mortos |
| 🇨🇱 Chile | Rígidas desde os anos 1970; reforçadas após 2010; 90% das construções resistiram ao sismo 8,8 | SASPe nacional em implantação; ativo desde mai. 2026 | Parcial — normas construtivas avançadas, mas habitação em zonas de risco persiste | Sismo M 8,8 (2010): ~800 mortos |
| 🇻🇪 Venezuela | Existente no papel; fiscalização erodida pela crise institucional | Ausente para o público em geral | Simulacro realizado em set. 2025; sem infraestrutura correspondente | Sismo M 7,5 (jun. 2026): ≥ 164 mortos |
Referências e leituras sugeridas
- Agência Brasil — "Terremotos na Venezuela deixam ao menos 164 mortos" (jun. 2026). agenciabrasil.ebc.com.br
- CNN Brasil — "O que se sabe sobre o maior terremoto a atingir a Venezuela em 100 anos" (jun. 2026). cnnbrasil.com.br
- O Tempo — "O que se sabe sobre o terremoto na Venezuela que deixou mais de 160 mortos" (jun. 2026). otempo.com.br
- Wikipedia — "Sismos na Venezuela de 2026". pt.wikipedia.org
- El País — "Japón tiembla sin víctimas mientras Venezuela colapsa: la diferencia es la prevención y el dinero" (jun. 2026). elpais.com
- Wikipedia — "Earthquake Early Warning (Japan)". en.wikipedia.org
- Wikipedia — "Earthquake early warning system" — seção América do Sul (SASPe). en.wikipedia.org
- IEEE Spectrum — "In Japan Earthquake, Early Warnings Helped". spectrum.ieee.org
- ISTO É Dinheiro / AFP — "Sessenta anos depois, Chile espera novo terremoto de grande magnitude" (2020). istoedinheiro.com.br
- Terra / Correio Braziliense — "Chile e Haiti enfrentaram condições diferentes em terremotos" (2010). correiobraziliense.com.br
- Wikipedia — "Sismo do Chile de 2010". pt.wikipedia.org
- Brasil de Fato — "Venezuela realiza exercício simulado para desastres naturais" (set. 2025). brasildefato.com.br
- MAPFRE Global Risks — "Terremotos: a construção antissísmica na América Latina" (2023). mapfreglobalrisks.com
- National Geographic Brasil — "Dez anos após ser devastado por terremoto, Haiti ainda vive em cenário desolador" (2020). nationalgeographicbrasil.com
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