Esta reportagem foi produzida com base em reportagem original do The Washington Post, complementada por apuração independente d'O Tecido junto a fontes de mercado brasileiras e internacionais. Não é tradução nem reprodução do texto original, disponível em: washingtonpost.com.

Durante quase quatro anos, o mercado financeiro tratou a inteligência artificial como uma equação de uma variável só: quanto mais rápido as empresas de IA lançassem modelos mais capazes, maior seria o retorno para quem apostou nelas. Essa conta mudou de sinal na última semana. Um pedido de desaceleração feito pelo próprio topo da indústria, liderado pelo CEO da Anthropic, Dario Amodei, derrubou ações de tecnologia nos Estados Unidos e na Ásia e obrigou investidores a responder a uma pergunta que, até então, parecia retórica: o que acontece com a economia se a corrida da IA perder ritmo de propósito1?

Um alerta que nasceu dentro da própria indústria

O estopim foi um ensaio de cerca de 3.800 palavras publicado por Amodei no sábado (12), intitulado "We Must Pace the Frontier" (algo como "Precisamos regular o ritmo da fronteira tecnológica"). Nele, o executivo argumenta que os laboratórios de IA, incluindo o seu próprio, precisam deliberadamente reduzir a velocidade com que aumentam a capacidade de seus modelos, citando riscos que vão de ataques cibernéticos automatizados a cenários de perda de controle sobre sistemas cada vez mais autônomos2.

O texto poderia ter ficado restrito ao debate técnico sobre segurança de IA. Não ficou. Em menos de 24 horas, o CEO da OpenAI, Sam Altman, e o dono da xAI, Elon Musk, declararam publicamente apoio ao chamado de Amodei, e a chefe de políticas públicas da Anthropic, Sarah Heck, pediu que governos criem leis específicas para testar modelos de fronteira antes do lançamento3. Foi o suficiente para transformar um debate de segurança em um evento de mercado.

O que os mercados fizeram com o alerta

Na segunda-feira (14), o Ibovespa fechou em queda de 0,91%, aos 185.500,88 pontos, em um pregão que chegou a recuar 1,81% durante o dia, com o temor sobre a desaceleração da IA somado à tensão política interna e à expectativa pela decisão do Copom sobre a Selic4. Nos Estados Unidos, o Nasdaq, termômetro do apetite por ações de tecnologia, também cedeu, com Nvidia e a SpaceX de Musk entre as quedas mais expressivas, segundo o Washington Post1. Na terça-feira (15), o movimento se espalhou pela Ásia: o Kospi, da Coreia do Sul, recuou perto de 1%, puxado por perdas em Samsung e SK Hynix, enquanto no Japão a fabricante de chips de memória Kioxia chegou a despencar 9,8% e a Tokyo Electron caiu 3,7%1,5.

O contexto macroeconômico amplificou o nervosismo. Nos Estados Unidos, o rendimento do título do Tesouro de 10 anos superou a marca de 5% pela primeira vez desde outubro de 2023, refletindo receios sobre inflação persistente e o déficit fiscal americano, o que tornou ainda mais caro sustentar avaliações de empresas de tecnologia baseadas em promessas de lucro futuro6. Analistas ouvidos pela CNBC descreveram o movimento nas ações como uma reação de curto prazo dos investidores tentando precificar um cenário que, até a semana passada, sequer estava no radar3.

"Parte desse processo vai levar os investidores a reavaliar o valor desses modelos de IA e dessas empresas." Ed Mills, analista de política em Washington da Raymond James, ao Washington Post

Duas empresas, um dilema: os IPOs de Anthropic e OpenAI

A pergunta mais concreta para o mercado é o que acontece com as ofertas públicas iniciais das duas maiores empresas de IA do mundo. Anthropic e OpenAI têm valor de mercado combinado avaliado em cerca de US$ 2 trilhões por investidores, e a listagem de ambas em bolsa era tratada como um dos eventos financeiros mais aguardados do ano1. Segundo reportagem da Reuters citada pelo Washington Post, o IPO da Anthropic poderia ocorrer já neste outono do hemisfério norte1. Já Altman afirmou, em entrevista à revista Fortune publicada no sábado, ter descartado a possibilidade de abrir o capital da OpenAI ainda em 20266, o que sugere que as duas companhias caminham em ritmos diferentes diante do mesmo debate que ajudaram a criar.

Nick Smith, analista sênior da Renaissance Capital, empresa de pesquisa especializada em IPOs, chamou de inédito o fato de uma companhia prestes a abrir capital sustentar publicamente uma narrativa dupla: de um lado, o discurso de que sua tecnologia pode gerar lucros extraordinários; de outro, o alerta do próprio CEO de que essa mesma tecnologia pode representar risco existencial1. Advogados que assessoram ofertas públicas já discutem, segundo o Washington Post, se e como esse risco entraria na seção de "fatores de risco" do prospecto de IPO da Anthropic, documento no qual empresas listam formalmente as ameaças ao próprio negócio1.

Contraponto: nem todo mundo lê o mesmo alerta como risco de curto prazo

Parte do mercado avalia que o recuo das ações reflete mais um ajuste pontual de expectativas do que uma virada estrutural. Analistas apontam que a queda contida das bolsas na semana sugere que os investidores não esperam, de fato, uma desaceleração real na capacidade entregue pelos modelos de IA no curto prazo, e que eventuais conversas de coordenação de segurança entre laboratórios tendem a começar restritas a dois ou três participantes, sem envolver de imediato concorrentes como xAI e Meta. Advogados especializados em IPO também avaliam pouco provável que um cenário de risco existencial apareça de forma explícita nos documentos de oferta pública da Anthropic, já que o setor de tecnologia historicamente trata riscos regulatórios e éticos em linguagem mais genérica, como já fazem Google e Microsoft em seus relatórios anuais.

O que isso significa para o Brasil

Enquanto o debate corre em Washington e Wall Street, o Brasil vive seu próprio momento de aposta pesada na infraestrutura de IA. Segundo a Brasscom, entidade que representa o setor de tecnologia da informação, o país deve investir até R$ 2 trilhões em tecnologia entre 2026 e 2029, com a inteligência artificial concentrando R$ 736,6 bilhões desse total e a computação em nuvem outros R$ 765,6 bilhões. Só o setor de data centers deve receber cerca de US$ 11,4 bilhões até o fim de 2026, com potencial de atrair até US$ 33 bilhões em investimentos até 2030, consolidando o país como líder regional na América Latina.

Essa aposta já enfrenta obstáculos domésticos que antecedem o debate sobre segurança de IA. O programa de crédito Redata, criado para financiar data centers no país, está paralisado, e a carga tributária de ICMS sobre equipamentos de tecnologia da informação, hoje responsável por cerca de 64% do custo tributário desses projetos, torna a implantação de um data center no Brasil aproximadamente 34% mais cara do que nos Estados Unidos. Estados como São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará e Minas Gerais discutem no Confaz uma redução de até 90% do imposto para tentar reverter esse quadro. Um sinal internacional de desaceleração na corrida por capacidade de IA, ainda que voluntário e concentrado nos laboratórios de fronteira, tende a reacender a pergunta sobre se o ritmo de expansão de data centers no Brasil está alinhado com a demanda real que sustentará esses investimentos no médio prazo.

Do lado macroeconômico, o momento também é sensível. O Boletim Focus do Banco Central revisou para baixo, na mesma segunda-feira, as projeções de crescimento do PIB brasileiro para 2026, de 1,93% para 1,89%, e o mercado aguardava para a quarta-feira (16) a decisão do Copom sobre a Selic, com expectativa de corte de 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano. Estrategistas do JPMorgan citados pela imprensa brasileira apontam a eleição presidencial de outubro, e não a IA, como o principal fator de volatilidade doméstica neste momento, o que ajuda a explicar por que o Ibovespa reagiu de forma mais contida do que os índices de tecnologia americanos e asiáticos.

Perguntas frequentes

Por que um pedido de desaceleração da IA derrubou ações na bolsa?

Porque grande parte do valor de mercado atribuído a empresas de IA e a companhias que dependem da cadeia de data centers e chips foi construída sobre a expectativa de crescimento acelerado e contínuo da capacidade dos modelos. Um sinal de que essa velocidade pode diminuir, mesmo que voluntariamente, leva investidores a reprecificar o retorno esperado desses negócios.

O IPO da Anthropic está ameaçado pela desaceleração pedida por seu próprio CEO?

Advogados especializados em ofertas públicas ouvidos pelo Washington Post afirmam que é improvável que o alerta cancele ou adie de forma decisiva o IPO da Anthropic, esperado para o outono do hemisfério norte segundo a Reuters, mas reconhecem que a situação é inédita: uma empresa prestes a abrir capital enquanto seu CEO alerta publicamente sobre os riscos do próprio produto.

O Brasil pode perder investimentos em data centers por causa desse debate?

Não há evidência, até o momento, de que o pedido de desaceleração dos laboratórios de fronteira afete diretamente os planos de investimento em data centers no Brasil, que respondem a uma lógica própria de energia limpa e custo, mapeada pela Brasscom. O episódio, no entanto, reforça a pergunta sobre o ritmo de expansão dessa infraestrutura frente à demanda real de processamento de IA no médio prazo.

O que é o conceito de "pacing" (ritmo) defendido por Dario Amodei?

É a proposta de que empresas de IA reduzam deliberadamente a velocidade com que aumentam a capacidade de seus modelos mais avançados, sem interromper o desenvolvimento por completo. A ideia central é dar tempo para que mecanismos de segurança e avaliação externa acompanhem o avanço da tecnologia.